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Como hoje se celebra uma efeméride muito importante para a nossa História Pátria – se você não sabe, tinha obrigação de saber – não quero deixar de me associar ao evento, com o meu modesto contributo, pedindo, desde já, desculpa ao Professor José Mattoso, pelos eventuais anacronismos ou imprecisões históricas, habituais.
Depois deste pequeno preâmbulo, prossigamos a narrativa:
A sua origem (a da frase "vai chatear o Camões" e não a do vulgarismo, pois, este último perde-se na poeira do tempo) remonta ao século XVI, pouco antes da morte de Luís Vaz de Camões que, como se sabe, morreu nas masmorras do Castelo de São Jorge. É verdade; também me custou a acreditar!
O ano da morte do poeta é incerto, dado que existem três versões contraditórias: uma assegura que foi em dez de Junho de 1579, a outra diz que foi em 11 de Julho de 1580 e ainda há uma última que jura a pés juntos que foi no ano da morte de Ricardo Reis. Gerou-se aqui um grande debate que se tem perpetuado ao longo do tempo e que, naturalmente, nos causa alguma perplexidade, sendo que o caso não é para menos, como é fácil de depreender.
Sabe-se, isso sim, que Camões expirou o último suspiro numa enxovia do castelo, doente, abandonado pelos amigos, desgostoso com o desaparecimento do Rei Dom Sebastião em Alcácer-Quibir e, sobretudo, com a traição da fidalguia à Pátria por não ter oferecido resistência à ocupação castelhana. Aliás, outra atitude não seria de esperar da fidalguia. Ainda hoje é uma acomodada e pensa que tem sangue azul, imagine-se! Mas isso dava outra estória e, desculpem lá, mas desta vez não posso divagar senão esqueço-me do que vem a seguir. Portanto, adiante:
Conta-se que os carcereiros achavam muita piada às declamações poéticas do nosso "Homero", nomeadamente à exaltação e veemência que imprimia às suas récitas.
Os patetas escarneciam daquele velho decrépito(*) e zarolho que ousara escrever um poema épico que ninguém entendia. Com efeito, a malta era muito atrasadinha; já nesses tempos, louvado seja Deus!
A profissão de carcereiro também não exigia esforço intelectual, é preciso dizê-lo. Contudo, era muito chata e nem todos tinham estômago para abraçar a carreira. Por conseguinte, só os tolos é que aceitavam aquele trabalho.
Luís Vaz era, à altura, o único residente nas masmorras do Castelo de São Jorge, situação muito estranha porque, com tanto bandido à solta, não se compreendia porque é que aquilo estava às moscas. Todavia, prometo explicar a razão de tal fenómeno lá mais para a frente se não me esquecer.
De facto, os guardas andavam às moscas, não sabendo como ocupar o tempo. Assim, antes que ficassem com a mosca, bebiam zurrapa; jogavam à lerpa; à vermelhinha; ao montinho; à bisca delambida; contavam anedotas do Cavaco; falavam de putas e pouco mais. Ser carcereiro era um grande enfado e, quando o aborrecimento se tornava insuportável e já torravam a paciência uns aos outros, havia sempre um parvo que dizia para outro: «Olha, vai chatear o Camões!»
Assim se entretinham, quando não havia mais nada para fazer ou conversar, maltratando o desgraçado das maneiras mais torpes, inclusive roubando-lhe a pala que usava sobre a cavidade ocular, onde outrora existia um olho.
A propósito da inexistência do olho, segundo testemunhas oculares (testemunhas com óculos), pouco credíveis, conta-se que o havia perdido num jogo de Poker, no Grand Lisboa Casino. Daí ainda ser usual, em Macau, dizer-se que "Camões perdeu o olho por dez patacas".
A título de curiosidade, as patacas eram moedas que cresciam numa árvore com o mesmo nome (só para quem não sabe).
Gozavam, também, com um colar de louros, já muito ressequido, que ainda conservava religiosamente, mercê de um doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Coimbra, fruto da sua dedicação fervorosa às praxes académicas e a outras notáveis participações.
Conta-se que o catre de Luís Vaz era um antro cheio de tudo quanto possamos imaginar, digno de um cenário lúgubre, repleto de imundície e putrescência.
Por muito inverosímil que se vos afigure tal ambiente, também não o deveis rejeitar totalmente porque algumas das coisas que aqui vos relato devem ter sido verdadeiras. No entanto, digo-o com alguma reserva. Mas, prosseguindo:
Fica-se sem saber, ao certo, se o nosso maior Poeta sofreu grandes tormentos com as vilezas dos insanos carcereiros; os indícios levam a crer que sim. O que se sabe, com exactidão, é que ele ficava pior que uma barata quando o obrigavam a dividir as orações do canto V dos Lusíadas. Esse, para ele, era, literalmente, o seu Oceanus Procellarum (segundo o tradutor do Google que eu, de latim, pesco zero)!
Para rematar isto com alguma concisão histórica e, por conseguinte, com alguma (não muita) seriedade, dizer que Camões se aguentou nas canetas até se ir abaixo delas, com Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) a instalar-se, de pedra e cal, no paço.
Mas, importante para a compreensão da alma e da obra do poeta e perpetuar a sua memória, é que foi devido à sua condição de prisioneiro que nasceu a tal frase que se tornou muito comum no quotidiano dos portugueses e, como o saber não ocupa lugar, aqui fica mais uma contribuição pessoal, sem fins lucrativos, para a divulgação da nossa história que anda tão desarraigada dos nossos conhecimentos.
(*) 56 anos era considerada uma idade muito avançada para a época.

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