Homem mau:
- «Boa noite, daqui fala um homem mau e estou-lhe a ligar só para o informar de que acabei de matar a sua esposa.»
Do outro lado:
- «O quê, como disse?!...Quem fala?»
Homem mau:
- «Parece-me que fui bem claro! Sou um homem mau e assassinei a sua mulher há minutos!»
Do outro lado:
- «E foi onde?»
Homem mau:
- «Foi em sua casa.»
Do outro lado:
«E como foi?»
Homem mau:
- «Matei-a com uma dúzia de facadas.»
Do outro lado:
- «Sangrou muito?»
Homem mau:
- «Um bocadinho, fiquei todo salpicado!»
Do outro lado:
- «E a alcatifa?»
Homem mau:
- «Ficou toda ensanguentada, o que é que esperava?!»
Do outro lado:
- «Você faz ideia de quanto me custou a merda da alcatifa?»
Homem mau:
- «Lá por isso eu pago-lhe a limpeza da alcatifa; não é preciso ficar para aí todo abespinhado, homem!»
Do outro lado:
- «Sempre ajuda! Se pensa que tenho para aqui uma árvore das patacas, desengane-se!»
Segue-se um curto momento de pausa no diálogo, talvez um ou dois minutos, se tanto, e o homem mau prossegue:
- «Pensando melhor: não acha que é falta de coerência ser eu a pagar, depois de lhe ter comunicado o homicídio da sua esposa?»
Do outro lado:
- «E você ainda acredita na racionalidade das coisas? Não repara no que se passa à sua volta, mais a mais, confessando ser um homem mau? Fico com a clara impressão de que não passa de um amador!»
Homem mau:
- «Visto desse ângulo... e quanto ao amadorismo, deixe-me dizer-lhe que tenho boas referências e – claro – estou credenciado para o efeito!»
Do outro lado:
- «Com tão excelentes alusões, ao menos podia ter usado uma pistola com silenciador. Teria sido uma morte mais limpa e rápida e escusava de acordar a vizinhança; ela deve ter gritado bastante, coitadinha! Não sou especialista, mas presumo que bastava apontar-lhe directamente ao coração e teria evitado a porcaria e, quiçá, o sofrimento que causou!»
Homem mau:
- «De facto, desta vez, não me esmerei. No entanto, deixe que lhe diga que, habitualmente, não uso armas de fogo; e não dramatizemos tanto esta estória porque a sua consorte, afinal, só gritou um bocadinho, não foi nada de especial, fique sossegado.
No entanto, queira aceitar, desde já, as minhas mais sinceras desculpas e aproveito o ensejo para lhe manifestar o meu mais profundo pesar e solidariedade perante tão trágica ocorrência.
Ah, e como quer que lhe pague a limpeza da alcatifa? Aceita transferência bancária ou pago-lhe em numerário?»