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UM CONTO DO VIGÁRIO

por João Brito, em 03.10.21

um conto do vigário1.jpg

Enquanto o velho vigário passava pelas brasas, enfiado no confessionário, a boa (no sentido lato do termo) da Dorinda Prazeres insistia em pedir perdão pelos deboches, de segunda a domingo, aos quais se entregava com volúpia e grande prazer - passe a redundância - juntamente com o canastrão do sineiro; por sinal, parcialmente paraplégico nos membros inferiores, enfermidade que, a despeito do incómodo físico, não lhe refreara a lascívia.
Apesar da desgraça, obtida durante uma queda vertiginosa da torre da igreja, quiçá por algum movimento irreflectido, o homem continuava a ser uma "força da natureza", como costumavam cochichar, maliciosamente, os homens da terra, entre umas rodadas de "traçado", na exclusiva taberna da povoação.
Mas, prossigamos senão disperso-me:
Ecoaram vozes, provenientes da sacristia, bradando por ele e pensou, meio ensonado, "Será chuva?... Será gente? Chuva não é certamente, porque a chuva não brada assim!"
Passado pouco tempo o alarido subiu de tom e sobressaiu uma voz distinta - a voz estridente do sacristão: «É ele, eu vi-o, jaz ali caído!»
Como quem o viu não fez menção do pronome com letra maiúscula, o sacerdote deduziu imediatamente que não era Ele, graças a Deus.
Contudo, levantou-se, recompôs-se da modorra, pôs um ar de ferócia, avançou para a entrada da sacristia, de onde provinha o clamor geral, e percebeu imediatamente pelo cheiro a ovos podres (vulgo enxofre) que era o gajo.
«Deixem-me passar!» - ordenou peremptório, tentando disfarçar alguma apreensão, natural na circunstância, não obstante ser coisa recorrente.
Escancarou as portas da sacristia e enfrentou o mafarrico peludo que jazia no chão, cuspindo umas chispas insípidas de lume, sem poder com uma gata pelo rabo de cobra sagitada. O pobre diabo estava literalmente nas lonas.
«C'os diabos, quantas vezes é que tenho de te recomendar para não apareceres cá em cima durante as horas de expediente?... Olha bem para o buraco que fizeste, pá, pintaste para aqui o diabo! Tens mesmo o diabo no corpo!» - interpelou o padre.
«Queira vossa vigarice perdoar, mas o filho da puta do monta-cargas parou a meio do caminho e isto é uma emergência, pois faltou o caralho do gás!»
«Antes de mais, tento nessa língua viperina e bifurcada q'isto aqui é a casa do Senhor!»
«Agora diz-me, cá, o que se passa lá em baixo.» - inquiriu o vigário.
«O que se passa é que os pecadores puseram-se à fresca e, não tarda, vão pensar que estão a banhos na Praia do Paraíso!*» - justificou-se o rabudo, ofegante e a botar fumo pelas ventas.
«Já, agora, era o que mais faltava! Eu, cá em cima, a ameaçá-los com as chamas do inferno e tu lá em baixo a amimá-los com banhos santos; que diabo, isso nem parece teu!»
«Bom, levas agora duas botijas para desenrascar que, depois, mando-te mais pelo elevador. E não me faças mais buracos no chão; nunca mais aprendes a ter maneiras!»
Ajudou-o a carregá-las e, quando o maligno se preparava para desaparecer com elas pelo buraco adentro, ainda foi a tempo de lhe segurar os cornos e perguntar:
«E enxofre, ainda tens?»
«Já está abaixo da reserva, mas ainda dá para remediar, Vossa Vigarice!»
«Ó Diabo, valha-te Deus!» - murmurou, involuntariamente, enquanto abria uma gaveta à procura de um saquito de meio quilo do produto. "Isto, com tanto enxofrado que por aí anda, inflacionou bestialmente a matéria prima e tem de se distribuir o mal pelas aldeias, não vá o diabo tecê-las, diabrete como é!" - pensou.
O pobre diabo agradeceu empenhadamente e evaporou-se por ali abaixo.
O sacerdote tapou o buraco conforme pôde - a idade não perdoa - e aspergiu a sala com spray ambientador à base de óleos essenciais de incenso, previamente benzido e cem por cento ecológico. Depois saiu dali, fechou a porta a sete chaves e comunicou aos fiéis que, depois de negociações difíceis foi possível chegar a um consenso com o carocho a contento de ambas as partes.
Com o assunto encerrado, regressou à quietude do confessionário onde, entretanto, a boa da Dorinda Prazeres não se tinha apercebido do acontecimento e continuava a explicar, com muito arrependimento e devoção, as suas confrontações com o sineiro, em parte, da cintura para baixo.
O santo homem de Cristo foi sempre a favor do diálogo com o inimigo. Não era apologista da Sanção, só pelo prazer da Sanção. Até porque o Dalila jamais aprovaria atitude tão pouco cristã.

(*) - Para quem não sabe, esta praia fica na Costa da Caparica e não no Céu, como erradamente se poderá presumir neste diálogo. Aliás, um diálogo que esteve longe de ser um diálogo de surdos; convém referir em abono da verdade.
Esta é, com a maior das probabilidades, a enésima versão, estupidamente livre, da obra "O Conto do Vigário" de Fernando Pessoa, um adágio bem enraizado na cultura popular de expressão portuguesa. Qualquer semelhança com a coincidência é mera fantasia...

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