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TRECHO DE UMA HISTÓRIA INACABADA: ACTO FINAL

por João Brito, em 15.12.21

Recapitulando e resumindo: este é o epílogo da minha história. Afinal, o desenlace habitual de todas as histórias de vida: a morte.
O desfecho da minha, em alguns aspectos, não foi muito dissimilar de outros. Num ponto fundamental penso que, na generalidade, todos estamos de acordo: é sempre uma tragédia finar. Sobretudo para quem, há muito, tinha passado do prazo, como foi o meu caso.
No entanto, ainda não me sentia preparado para ir de abalada, pois, por muito que lamentasse que não passava de um empecilho e desabafasse que já cá não estava a fazer nada, era a última coisa que eu desejava.
Enfim, "só faz falta quem cá está", como disse alguém, não sei quem. Para os que sobrevivem, o tempo é bom conselheiro e, por conseguinte, daqui a meia dúzia de anos ninguém se lembrará de mim.
Bem, para ser honesto, não contribuí grande coisa para ser recordado mais tarde. Contudo, agora, é-me indiferente...
Ainda alentei alguma esperança numa prerrogativa divina. Sei lá, se calhar porque houve coisas que não tive tempo de fazer, apesar de ter sido mais do que suficiente, o tempo que tive para as realizar, por muito paradoxal que possa parecer. Porém, não era Deus, mas a morte, por destino ou acaso, a reclamar a minha sorte.
Provavelmente, teria muito para contar pelo meio, mas a idade e o consequente declínio, encarregaram-se de apagar quase tudo da memória. Além disso, não tinha jeito nem visão para registar acontecimentos no papel, não obstante andar sempre a dizer que a minha vida dava um romance. Tenho de convir que foi repleta de dificuldades e decepções causadas pelo goro de algumas expectativas. Não por promessas porque nunca ninguém me prometera fosse o que fosse, mas por probabilidades. A concretização de objectivos - ou o seu malogro - assenta nas escolhas e caminhos que fazemos e tomamos, mas também em possibilidades mais ou menos aleatórias. No meu caso, diminutas em êxitos.
Contudo, sem embargo dos meus lapsos de memória, inevitáveis neste derradeiro acto, lembro-me de dois, se assim os devo entender: um de quando, por mero acaso, reencontrei o meu pai perto da Rua das Pretas em Lisboa, ao fim de quatro anos de silêncio, nunca quebrado por ambos. O dele era justificável, não tendo como quebrá-lo, dado que desconhecia o meu paradeiro. Presumia, apenas, que eu estivesse na capital. Foi um acaso que caiu como sopa no mel, digamos assim, porque fazia, mais ou menos, um mês que eu acabara de regressar de uma estadia de um ano no Porto e estava à rasca, sem um tostão para as despesas essenciais (vulgo sobreviver). Inclusive, a dona da pensão onde tinha um quarto, só não me pôs na rua por uma questão de caridade...
Depois deste episódio, destituído de qualquer manifestação emocional, o senhor pareceu perdoar-me o ultraje de ter saído de casa "à francesa". De modo que selou o restabelecimento das relações com um aperto de mão e uma nota de cem escudos. Importância que me passaria a enviar religiosamente todos os meses, desde aquele momento. Pelo menos até que eu arranjasse "mulher para sustentar"...
O segundo êxito, julgo que foi o mais marcante, naturalmente. No mínimo, alterou radicalmente o meu modus vivendi: o de construir uma família. Todavia, mesmo esse, foi alicerçado com a ajuda inestimável da minha parceira da vida. Com efeito, tão essencial e tão indefinível que não a pude estimar ou não tive vontade de o fazer, guardando a definição de tamanha grandeza, egoisticamente, só para mim.
Digamos que nem tudo foram falhas na minha vida. Houve um ou outro resultado feliz, quase sempre, fruto de casualidades. Nunca fui grande lutador. Entenda-se, por definição pessoal: não, o lutar pela subsistência, algo que fui obrigado a fazer, instintivamente, quando fugi de casa, mas esforçar-me para ter uma vida mais folgada e com menos embaraços. Julgo que me faltou a ausência de rigor no cumprimento de regras, atributo dos espertalhões. Herdara de meu pai um forte sentido moral e pensava que, se saísse da linha, ia viver os meus dias com esse peso e a consequente inquietação. Porventura, à espera de um julgamento severo do progenitor cuja rigidez de princípios estava sempre presente na minha lembrança como uma cisma.
A acrescentar às minhas limitações de vária ordem, já na fase final, havia a falta de vontade para me debruçar sobre coisas do passado. Pretendia durar os últimos tempos da minha existência sem alterar substancialmente a rotina a que me tinha habituado desde sempre. Até, mesmo, no tempo em que a minha companheira era viva. Sem grandes sobressaltos, sem grandes incómodos e sem que me importunassem muito.
Utilizando, abusivamente, uma expressão, dita "Zen", que se pode adequar à minha idiossincrasia, eu resumiria a minha vida passada a isto: "Não andem atrás de mim porque posso desconhecer o caminho. Não andem à minha frente porque posso não querer seguir-vos. Não andem ao meu lado; deixem-me, apenas, andar sozinho." Foi assim que vivi e assim acabei...
Em conclusão: não lamentem a minha morte, assim como eu não lamento a vida que tive e os fragmentos de felicidade que desperdicei. Não tive culpa de ter vivido durante muito tempo e muito menos ter sabido aproveitá-lo conforme se proporcionou ou calhou, sempre de forma acidental. Pouco generoso, diga-se em abono da verdade, mas também nunca fiz grande esforço para tirar algum proveito dessa escassa generosidade...
Por último, não me posso queixar do amor incondicional da minha família, embora em vida nunca tivesse querido fazer um acto de contrição por não ter correspondido de igual modo ou de não ter jeito para expressar a minha gratidão por dádiva tão generosa...
Foi como foi, pronto e ponto. Cada um é para o que nasce, como diz o adágio.
Fui.

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