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TRECHO DE UMA HISTÓRIA INACABADA: ACTO II

por João Brito, em 15.12.21

Desembarquei, pela primeira vez, em Lisboa numa manhã fresca e cinzenta de Outono. Decorria o ano de 1942.
Há fragmentos de memória que não se desvanecem, assim, do pé para a mão. Um qualquer sentido, uma vez subtil, outra vez abrupto, fá-los despertar, regressando momentaneamente ao pensamento; como se tivesse acontecido ontem.
Lembro-me que soprava, do lado do Cais das Colunas, uma aragem com cheiro intenso a maresia. Jamais vou esquecer esta particularidade. Fizera-me recordar as férias passadas no Algarve, entre Agosto e Setembro. Meu pai alugava casa em Albufeira todos os anos.
Assim que recebia as rendas das fazendas que tinham sobrevivido à loucura perdulária de seu pai, meu avô, estava pronto para partir com a família. E a família só ficava completa com a inclusão do seu estimado e inseparável cão na comitiva.
Era uma azáfama, a preparação da trouxa para o embarque. Ninguém ousava dormir na noite que antecedia o momento mágico da partida. Tentávamos não ser muito efusivos nas nossas manifestações de alegria. O senhor não acarinhava, fosse a que pretexto fosse, esse tipo de emoções, e nós tentávamos não contrariá-lo, não fosse mudar de ideias.
Felizmente para todos, as férias na praia, eram das poucas coisas em que meu pai não se coibia nos gastos. Eram prioridade número um, mesmo que passássemos o resto do ano a usar fatos de cotim e botas com solas cardadas, fizesse calor ou frio.
O odor do Tejo tinha-me reavivado, de forma brusca e violenta, essas memórias ainda frescas e, de repente, senti uma saudade enorme, todavia insuficiente para me fazer vacilar...
Refugiei-me sob as arcadas do Terreiro do Paço, deambulando por ali ao acaso, deixando as horas passarem sem saber ao certo como gerir a minha nova situação. Lisboa abria-se para mim e eu hesitava, tímido.
Ouvira falar, nas minhas tertúlias com camaradas mais vivaços, de um bairro alfacinha muito famoso naquela época - o Bairro Alto - e resolvi perguntar a quem passava como é que se ia até lá. O interlocutor propôs-me a tomada de um "eléctrico" até ao "Camões". Pensei que, com dinheiro contado no bolso, o melhor seria ir a pé e, esclarecido sobre o percurso a tomar, decidi dar corda aos sapatos e pôr-me a caminho...
Embrenhei-me naquele bairro de cangostas e becos, de estendais com roupa a pingar sabão, de cheiro a pataniscas, vinho e serradura proveniente das tascas galegas, quase uma em cada virar de esquina. Aqui e ali ressoavam-me os ecos de fadistas de ocasião, até a voz inconfundível do "Ti" Alfredo ecoava num qualquer rádio de goelas bem abertas. Cruzei-me com um bêbedo vagueando sem nexo, com putas atentando-me com promessas de prazeres inolvidáveis e outros cruzamentos.
Tantas emoções assim de chofre, nessas primeiras horas na capital, tinham-me deixado aturdido e encantado, saboreando tudo o que os meus sentidos puderam, até ali, abarcar.
Inebriei-me com o frenesim dos putos a chutarem na bola de trapos, das rameiras a invectivarem-se com verborreia indescritível, da varina a apregoar, com voz estrídula, algum peixe que lhe sobrara da manhã - a ninhada de gatos que pululava, em esfomeado miado, ao seu redor - e continuei a caminhar...
Exausto, mas estranhamente feliz, esgueirei-me por uma viela escura, a cheirar a vómito e a mijo, e ali verti águas, esquecendo momentaneamente o fedor nauseabundo.
Não senti remorso nem receio. Pensei como era boa a liberdade. Era, definitivamente, "o primeiro dia do resto da minha vida".

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