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O VENDEDOR DE ENCICLOPÉDIAS

por João Brito, em 22.10.21

o vendedor de enciclopédias.jpg

Ele: «Bom; vamos lá saber uma coisa: se você diz que é grátis e eu não posso ficar com isso, em que pé é que ficamos? Ademais, andar a vender enciclopédias de porta a porta é algo que já caiu em desuso, homem!»
O outro sorriu novamente: «Ora, é exactamente aí que residem o interesse e as vantagens desta proposta e eu já estava a estranhar que uma pessoa de tão sólida formação como vossência não levantasse a questão. Primeiro porque, como disse e muito bem, já não se vendem enciclopédias como antigamente e há pessoas que, como vossência, sentem muitas saudades da época das enciclopédias e livros vendidos nas portas das suas casas. Segundo, e não menos importante, é que continuamos a valorizar esses sentimentos nostálgicos. Assim, tenho o enorme prazer de lhe apresentar esta magnífica "Enciclopédia Faça Você Mesmo" com 7398 páginas, profusamente ilustradas a 3 cores. Obra que lhe será entregue, inteiramente grátis, no momento em que vossência comprar este pequeno caderno de 25 folhas destacáveis, em formato A4, que, como pode verificar, se intitula "Terapia de Relaxe: Caderno de Colorir Anti-stresse"
Ela entreabriu um pouco mais a porta, receosamente:
«Não estamos interessados, já disse!» - e voltando-se para ele, fez notar:
«Mais a mais, você é daltónico!»
O outro interrompeu:
«Que isso não seja motivo de embaraço, minha senhora! Também, para esse caso, tenho a solução ideal: basta escolher o tipo exacto de caderno, em função da deficiência do seu esposo. Não deixe que o daltonismo o impeça de ser o feliz possuidor da "Enciclopédia Faça Você Mesmo ". Portanto, é com enorme satisfação que lhe apresento dois blocos distintos. Cada um tem exactamente 25 folhas A4, em papel cavalinho, e qualquer deles se adequa à dificuldade do seu marido em discriminar as cores.
Diga-me, então, o senhor: vossência padece de protanopia (não confundir com proctoscopia) ou é mais deuteranópico?»
Ele ajeitou a máscara:
«Olhe, aqui, meu amigo: eu tenho estado a ouvir a sua ladainha com toda a paciência, mas isso não lhe dá o direito de começar a ofender-me, certo?! Quero que isto fique bem claro!»
«Por amor de Deus! - fez o outro com ar obstrito - Vejo que vossência não está a par da terminologia científica destas coisas. O que eu pretendo saber, é se vossência é cego às cores vermelha ou verde, dado que disponho de alternativas para ambas as incapacidades e, conforme o seu caso, quando estiver a colorir, nem vai conseguir distinguir certas cores umas das outras (lógico).»
«Olhe, não sei que lhe diga...» - hesitou ele.
O outro:
«Não diga nada!... Aqui entre nós: se vossência não sabe, fique a saber que ainda tem direito a mais um brinde surpresa.»
Ela bateu o pé:
«Mas sei eu: vamos fechar imediatamente esta porta que já estou com os tímpanos em franja e não aguento mais o aranzel deste vendedor de banha da cobra!»
Moral da estória: mais vale vender por atacado e de atacado porque isto, apanha-se cada cliente-tipo que só visto!
A propósito, sabem quem foi John Dalton? Exactamente, foi ele que inventou o daltonismo sem saber como nem porquê! Estava a ver que não sabiam...

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O VENDEDOR DE SORRISOS

por João Brito, em 11.10.21

o vendedor de sorrisos.jpg

A janela estava aberta de par em par, deixando entrar o sol que se espalhava sobre a sala contígua ao hall. Olhou o rosto dela reflectido no espelho, por cima do aparador, e permaneceu ali parado, num misto de admiração e louvor aos deuses por lhe proporcionarem tão perfeita visão: bela e triste; de uma tristeza profunda e aparentemente distante:
«O seu sorriso, minha senhora!» - estendeu-lhe os braços, de mãos postas em concha, e ela virou-se para ele, renitente e reticente e, no entanto, as suas mãos tocaram, ao de leve, as dele.
Entregou-o com a sensação reconfortante de mais uma venda exclusiva, pois pensava de per si que não há dois sorrisos iguais. Lembrou-se de uma frase de José Saramago que também começava, assim, "Não há dois sorrisos iguais" e prosseguia com "Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso."
Porém, este que acabara de pôr nas mãos daquela mulher tão formosa, ao contrário do que disse o grande Saramago, na sua humilde opinião, era o Sorriso; tinha a certeza absoluta da sua exclusividade; ousava até pensar que era ainda mais sublime que o da imperscrutável Gioconda.
Ela virou-se novamente para o espelho e, circunstancialmente ou talvez para quebrar o gelo, ele disse-lhe: «Espero que seja do seu agrado. É garantidamente de excelente qualidade, espontâneo, rasgado, fácil, franco, aberto e, sobretudo, lindo! Se encontrar um sorriso mais bonito, barato e tão bom como este, tenha a certeza absoluta de que lhe devolvemos a diferença, minha senhora!»
Continuou de costas voltadas para ele, sem pôr o sorriso. Ele aproveitou o impasse e insistiu no degelo: «Não quer experimentá-lo antes de o colocar? É um sorriso encantador e tem certificação de qualidade, mas, mesmo assim...»
Ela pôs o sorriso e, cativado, o homem mordeu o freio e o bridão para não cair para o lado. A sua voz soltou-se. Deuses, como era maviosa e doce! Era o que faltava em tanta sensualidade exposta, exalando doces e inebriantes aromas de anis, canela e baunilha.
«Alguma vez leu a "Tragédia da Rua das Flores"?» - perguntou sorrindo e com graciosa eloquência. Que simbiose perfeita, os seus sorriso e voz!
«Li há muitos anos. Lembro-me das personagens e de algumas pass...»
Não lhe deu tempo para completar a frase. Deixou cair o sorriso, mudou de semblante e, sem mais aquela, galgou o parapeito da janela, lançando-se para o vazio.
Atordoado e pouco refeito com o que acabara de presenciar naquela fracção diminuta de tempo, apanhou o sorriso com todo o cuidado e tornou a embalá-lo com preceito. Aproximou-se da janela e lá estava ela, linda e triste, jazendo morta sobre um charco de sangue, irremediavelmente inerte, colada às pedras da calçada.
Saiu dali apressado e não quis aproximar-se do corpo. Entretanto, algumas pessoas curiosas tinham-se concentrado em redor da infeliz até chegar uma ambulância.
Foi a pé para casa, alegou má disposição e não jantou, indo deitar-se mais cedo. Teve o cuidado de colocar o sorriso da senhora triste em cima da mesa de cabeceira. Pensou que era mau mantê-lo fechado dentro da embalagem. Casos como este, felizmente, têm sido raríssimos ao longo da sua carreira, mas sensibilizam-no profundamente; não tem como evitar o seu envolvimento emocional. No fundo é um sentimental, é o que é!
A esposa entrou no quarto, trazendo-lhe um chá quente e umas bolachas para não adormecer, assim, sem nada no estômago. A curiosidade levou-a imediata e naturalmente a perguntar:
«Olha, de quem é este sorriso misterioso?»
«De uma queirosiana compulsiva.» - respondeu com uma lagrimazinha ao canto do olho.
A noite esgotou-se, o vendedor não pregou olho, e o sorriso não passou do quarto, estático, imperturbável e ligeiramente fechado; talvez, um pouco enigmático. Até que de manhã, ao pequeno-almoço, veio a notícia nas televisões generalistas: "Senhora triste caiu de um segundo andar, depois de ter perdido o sorriso. O seu corpo repousa em câmara ardente na Capela Mortuária de (...)".
Sentiu um nó no peito, mas também sentiu que parecia mal a senhora triste não ter o seu sorriso de volta, pois estava pago. Mais tarde, pegou nele e saiu a caminho da Igreja.
O corpo da senhora triste repousava rodeado de pessoas em pé, pessoas sentadas, flores, coroas e cartões, enfim, todas as coisas inerentes à fúnebre circunstância.
Aproximou-se discretamente do féretro, com o sorriso aconchegado entre as mãos e olhou-a mais uma vez ou duas. Jazia sobre a morte, sempre bela. Atributo que, graças a Deus, a maldita não lhe levara. Com extremo desvelo, depositou o sorriso nos seus lábios e então, oh sublime crueza! Mesmo desalmada, sorriu; um sorriso meio apagado e até um pouquinho amarelo, certamente, mas, ainda assim, do outro mundo; de boca a boca; lindo de morrer. Ele teve a vaga impressão de que aquele sorriso era para si, mas não passou de uma vaga impressão e as vagas impressões valem o que valem, como se costuma dizer.
Alguém acabara de testemunhar a mudança súbita e gritou: «Milagre, milagre, ela sorriu!»
Foi o alvoroço habitual, à semelhança de outros casos miraculosos, e já se ouviam gritos de «Ressurreição, ressurreição!»
Retirou-se tão discretamente como entrou, antes que aquilo gerasse um tumulto de proporções incalculáveis e desfecho imprevisível.
Epílogo: Não obstante a profunda tragédia que intimamente o tinha abalado, o vendedor de sorrisos deu-se por satisfeito. O seu a seu dono. Contrariamente às suas previsões mais pessimistas, a senhora triste teve um lindo enterro.
Nota final: lembrei-me desta velha máxima: "Sorrir não basta, é preciso correr atrás". Peço desculpa, mas não me lembro da sua autoria.

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