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O HOMEM COM AR SUSPEITO

por João Brito, em 05.10.21

homem com ar suspeito.jpg

Talvez a aparência do homem que acabara de entrar no casamento sem ser convidado o tivesse denunciado. Nomeadamente, o olhar furtivo e desconfiado, imagem de marca de qualquer homem com ar suspeito que se preze de patentear tal particularidade. Para ajudar a este factor de suspeição, o facto de trazer consigo uma enorme mala de viagem, sinal por demais manifesto e obviamente comprometedor da sua presença no evento. 

Sub-repticiamente, dirigiu-se à primeira pessoa que lhe pareceu mais receptiva a perguntas: 

«Boa tarde, amigo, desculpe lá: o senhor é que é a noiva?»

«Não, senhor, eu sou o mestre de cerimónias. Porque é que pergunta?»

O homem com ar suspeito compôs a lapela do sobretudo, cofiou a barba, esgargalou o pescoço e, um pouco menos tenso, respondeu:

«Ainda bem que o encontro, era mesmo consigo que eu queria falar...não queria incomodar...ainda por cima já é tarde!»
Tentando disfarçar alguma perturbação e até temor perante a presença do homem com ar suspeito, o mestre de cerimónias engoliu apressadamente três tigelinhas de Cristal Atlantis - passe a publicidade - , não reparando que duas delas já não continham arroz doce. Sem lhe dar tempo para se desengasgar, o homem com ar suspeito voltou à carga:
«Já agora, talvez me possa informar se o casamento está a decorrer conforme as suas expectativas...»
«Olhe..., se quer que lhe diga, não sei!» - respondeu-lhe o mestre de cerimónias, quase a sufocar - «Tenho est...estado a assistir à fin...final da Taça.»
Aproximando-se mais do mestre de cerimónias, agora com um ar inquisidor, perguntou:
«Sportinguista?»
«Sim senhor e dos quatro costados!»
«Porra, já podia ter dito, homem! Venham daí esses ossos!»
Pouco confortável, o mestre de cerimónias olhou em redor e, como já não havia frango, viu-se na obrigação de pedir desculpas; que agora era só refugo, nem sequer um ossinho para chupar; que se tivesse fome ainda se podia arranjar uma sandes de mortadela e escorripichar uma garrafita de Casal Garcia - passe a publicidade...
«Deixe estar, não se incomode, antes de vir para cá, comi qualquer coisa no caminho!» - respondeu o homem com ar suspeito enquanto tirava um caramelo do bolso do sobretudo e o desembrulhava com impaciência.
«Mas, talvez me pudesse dar uma ajudinha.»
«No que estiver ao meu alcance, amigo!»
«Olhe - disse segredando ao ouvido do mestre de cerimónias, para não dar muito nas vistas - , tenho aqui umas acções da SLN, fresquinhas, fresquinhas! Faço-lhe um preço de amigo!»
«Ó meu amigo, sei muito bem o que essa porcaria vale agora!»
«Oiça, oiça, espere lá, não se vá embora!» - murmurou o homem com ar suspeito, puxando o outro pelo braço esquerdo, pois era canhoto - Só porque é sportinguista, além das acções que são quase de borla, ainda leva um conjunto de duas toalhas de mesa, três pares de cuecas de senhora tamanho cinquenta e dois, cinco pares de peúgos de lã unisex, tamanho 47, dois panos de cozinha, um avental, dois jogos de cama - um de casal ventoso e outro de solteirão convicto - e, ainda, um chapéu de sol e uma ventoinha a pilhas. Hã, agrada-lhe?» - começou a esvaziar o conteúdo da mala que abrira, entretanto. - «Pela alminha da minha mulher que Deus tem e era uma santa, eu seja ceguinho! Leve que é material feito em Portugal, nada de chinesices; ainda têm selo e tudo, veja lá! Garanto que vai bem servido. E olhe que nestas coisas nunca me engano e raramente tenho dúvidas!»
«Bem, se você diz que traz selo, é um peso que me tira das costas!» - recuou o mestre de cerimónias, mal refeito do peso que o outro lhe acabara de tirar, a suar as estopinhas e com os olhitos gulosos postos nos panos e na ventoinha. - «Pronto, está bem, fico com isso tudo. Ponha ali em cima do bolo da noiva, se faz favor!»
«A propósito de noiva...» - perguntou o homem com ar suspeito, sacando uma amostra de água de colónia de dentro da mala e empestando o ar com o borrifo que espalhou sobre si. - ela é virgem?»
«Olhe, penso que não. Ela é caranguejo, se não estou em erro.»
«Bom, então, posso alimentar algumas esperanças, não?»
«Naturalmente! Sabe como é hoje em dia; casa-se e descasa-se. No entanto, devo informá-lo de que a noiva já está de esperanças, vai para seis meses. Só para não ir desprevenido.»
«Pois, o problema é a falta de água que tem havido. Não chove, é uma chatice!» - retorquiu o homem com ar suspeito.
«Sim, mas não se preocupe. Da maneira que a vida está, mais tarde ou mais cedo, vem de lá chuva, pode apostar mais uns pijamas, uns tapetes, uns edredões, umas mantas e uns cortinados. Vá por mim que sou barbeiro nas horas vagas.»

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O CASO DO SACA-ROLHAS

por João Brito, em 30.09.21

saca-rolhas.jpeg

Antes de iniciar a narrativa, convém avisar os eventuais leitores e leitoras mais distraídos de que este caso nada tem a ver com a mutilação sexual do cronista Carlos Castro, ocorrida há uns anos, em que o objecto do crime também foi um saca-rolhas. Aqui fica o esclarecimento e prossigamos, então:

A vítima estava de barriga para cima e tinha um buraco redondo no meio da testa: perfeito; sem mácula; sem pinta de sangue. Um distinto buraco de bala. Contudo, como não podia deixar de o fazer na circunstância, o inspector dos homicídios, homem muito batido nestas andanças, procedeu à avaliação do diâmetro do orifício onde a bala penetrara e deduziu sem pestanejar: «Calibre de 6.35 mm.»
Um minuto depois, surgiu outro agente e informou: «Já foi encontrada a arma do crime. É um furador; estava no bolso esquerdo das calças do cadáver. O inspector dos homicídios mirou e remirou o utensílio e fez um exercício de raciocínio lento: «Estou mais inclinado para lhe chamar um saca-rolhas, hã, q'é que acham?»
Como não houve quem contrariasse a sua suposição, baseada certamente em largos anos de experiência, intuição e um faro fora do comum, ou não fosse ele o inspector dos homicídios - não esqueçamos - , prosseguiu: «Bom, então tomem nota: o homicida é um gajo destro e quis tomar-nos por parvos ao guardar o saca-rolhas no bolso esquerdo das calças do cadáver. Para além disso tentou, debalde, confundir-nos com o velho truque do furador de balde. Ademais o crime foi perpetrado à queima-rolha, senão não tinha aberto um buraco tão pequeno e perfeito!»
Chamou os restantes polícias e ordenou: «Ninguém sai daqui! Mandem reunir os suspeitos do costume!»
Depois de reunidos os suspeitos do costume, notou-se a falta de um: «Então, por que razão falta aqui um suspeito do costume?» - perguntou o inspector dos homicídios. O principal suspeito respondeu de pronto: «Não veio porque o Sporting joga, hoje, com o Benfica e eu dispensei-o para ir ver o jogo, senhor inspector; ele sofre muito da bola!»
«Bem, dispensa-se esse e vamos prosseguir!» - disse o inspector dos homicídios.
Alinhados por alturas, o principal suspeito apontou as duas suspeitas que o precediam: uma criada de quarto e a sua esposa (a esposa da criada de quarto, entenda-se!) e declarou com alguma ironia: «Como vê, senhor inspector, estou acima das suspeitas; aliás, de qualquer suspeita!»
Discretamente, o inspector dos homicídios puxou de um bloco de notas e começou o interrogatório: «Alguém cometeu, aqui, um crime de homicídio muito grave na ex-pessoa deste cadáver que jaz no chão sem pinta de sangue! Espero não ser obrigado a arrancar-vos a confissão a saca-rolhas! Nem mesmo o senhor, como principal suspeito, está isento. Daí estar aqui presente como principal suspeito!»
Imediatamente, as duas suspeitas que precediam o principal suspeito reclamaram, com veemência, a sua inocência alegando que eram canhotas.
Um dos agentes sugeriu: «Não podemos afastar a hipótese do homicida ser o tipo que foi dispensado para ir ver a bola, senhor inspector!»
«Então, a seguir ao encontro, ligas para o telemóvel do gajo para ele comparecer com urgência no interrogatório!» - respondeu o inspector dos homicídios.
Quando se preparavam para intervalar e assistir ao encontro pela televisão, por proposta do principal suspeito - um benfiquista dos quatro costados - , eis que surgiu o médico forense, mais branco do que a bata branca que trazia vestida: «O morto está vivo! O morto está vivo, ele espirrou!»
O principal suspeito pôs imediatamente o braço no ar e disse: «Fui eu, senhor inspector, não tenho como negar!»
«Foi o senhor o quê, homem de Deus, desembuche?!» - questionou o inspector dos homicídios.
«Fui eu que matei o cadáver que jaz no chão, acabado de ressuscitar, senhor inspector!» - Respondeu o principal suspeito.
«Vamos lá esclarecer a cena do crime. Faça favor de relatar tudo direitinho e sem pontuação!» - ordenou o inspector dos homicídios.
«Foi sem querer senhor inspector havia muito fumo na sala e o exaustor tem estado avariado daí que tínhamos de andar às apalpadelas inclusive até levei um sopapo da senhora da limpeza que a seguir insistiu que a apalpasse novamente mas o que eu queria mesmo era a rolha por isso andava à procura dela e confundi a cabeça do cadáver com a rolha foi assim que desse modo o matei depois de morto inadvertidamente e enfim foi a tragédia que se consumou aqui senhor inspector» - declarou o principal suspeito, ofegante.
«Então vou acusá-lo, primeiro, de assédio sexual na pessoa da empregada da limpeza, seguido de homicídio por negligência grosseira, pois devia ter tido o cuidado de se certificar que era, efectivamente, a rolha que estava a sacar, não obstante o fumo envolvente!» - concluiu o inspector dos homicídios.
«Por enquanto só pode acusá-lo de assédio sexual, inspector. O cadáver está vivo! Acabei de o restituir à vida!» - contrariou o médico forense, negro como um tição, agora, com a cor que Deus lhe deu, passado o choque com o insólito acontecimento.
O inspector dos homicídios perguntou ao médico forense qual o método que tinha utilizado para o reanimar: «Tornei a rolhá-lo.» - explicou o médico forense.
«Então temos aqui, para além do acto repreensível de assédio sexual, um caso de duplo homicídio: negligência grosseira e um homicídio frustrado!» - sentenciou o inspector dos homicídios.
Restituído à vida, o cadáver com semblante preocupado, aproximou-se e disse: «Doutor, o senhor esqueceu-se de me lacrar; assim a rolha vai saltar de certezinha!»
«Xi, grande bronca! Nem me lembrei que você é alérgico ao pólen, pá!» - desculpou-se o médico forense.
No entretanto, o inspector dos homicídios lembrou-se de algo que, a julgar pela sua expressão facial, devia ser extremamente importante. Perguntou ao criminoso que deixara de ser o principal suspeito: «O senhor tem licença de porte de saca-rolhas?»
«Não tenho, não, senhor inspector!» - respondeu o homicida que tinha deixado de ser o principal suspeito, pálido de morte. «Cacei-o! Afinal, você só estava autorizado a sacar caricas! Faça favor de abrir uma garrafa de cerveja antes de o algemar, vamos lá! O tempo urge, ainda não jantei, caraças!» - ordenou-lhe o inspector dos homicídios, impaciente e com as paredes do estômago coladas. Numa fracção de segundo, o facínora que tinha deixado de ser o principal suspeito, deu um salto para trás das costas e apoderou-se da arma do crime: «Alto lá, aqui ninguém se mexe ou faço-lhe um furo na testa!»
De saca-rolhas em riste fugiu dali e, quando corria para a saída que nem um criminoso que deixara de ser o principal suspeito, ouviu-se um espirro violento seguido de um estampido abafado, tipo um tiro através de uma almofada (ou travesseiro). A rolha ainda fez ricochete numa pedra da calçada, mas já era tarde, pois o inspector dos homicídios queria aquilo resolvido a tempo de não ter que aquecer o jantar no micro-ondas e, como já estava cansado desta estória sem pés nem cabeça, rematou o final às três pancadas:
Atingido na barriga de uma perna, tanto se dá que tivesse sido na direita ou esquerda, o autor do crime que deixara de ser o principal suspeito, ainda teve tempo para gritar: «mãezinha!»
«Foi a rolha que o matou!» - confirmou o médico forense.
«Está morto?» - perguntou o inspector dos homicídios.
«Morto e bem morto!» - reconfirmou o médico forense.
«Bom, então, levante-se imediatamente um auto ao cadáver ressuscitado, por crime de homicídio involuntário, e prenda-se imediatamente, com efeito retroactivo e sem direito a recurso!» - ordenou o inspector dos homicídios.

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