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O MILAGRE DO SOL

por João Brito, em 07.10.17

o milagre do sol.jpg

Na generalidade, os relatos foram considerados irrelevantes para abrir um inquérito. O fenómeno, descrito por cerca de uma centena de peregrinos em Ourém como o novo "milagre do sol", não vai ser investigado por especialistas da Igreja Católica. "Deus nos livre!" - desabafava um sacerdote mais céptico em relação a estes casos. 
Segundo fonte da Diocese de Leiria-Fátima, os relatos de quem presenciou o momento, não convenceram os clérigos que mantiveram finca-pé obstinado sobre o acontecimento.
O que os fiéis afirmaram ter visto, refere a mesma fonte, pode ter sido um "milagre" no sentido mais lato do termo, decorrente do fervor espiritual com que o momento estava a ser vivido.
Conforme alguns jornais noticiaram, há tempos, os peregrinos descreveram um clarão mais intenso do que o sol, que piscava e girava a uma velocidade estonteante, tipo ovni, com leve cheiro a enxofre. Ora, esse testemunho colectivo não é "suficiente para ser aberta uma investigação" - sublinha, uma vez mais, a fonte da Diocese.
O Santuário de Fátima optou por não comentar o assunto, por o achar desinteressante. Aliás, no dia em que o fenómeno foi observado, os Padres confessaram não ter visto "nada de especial".
"São assim, as manhãs nebulosas em Ourém, com o sol a brilhar para todos nós", defendeu um sacerdote mais espirituoso. "Talvez fosse a Nossa Senhora" - disse Maria Leontina Esgalhado que preferiu não revelar a identidade. Já José Ingrácio da Silva, que também optou por manter o anonimato, considera ser "um sinal inegável de que o fim dos tempos está mais próximo do que nós, pecadores, imaginamos".

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SOL DE INVERNO

por João Brito, em 15.03.17

sol de inverno.jpeg

Fez um ano, neste mês, que ocorreu um acontecimento muito triste: um daqueles factos que ficam registados na memória até ao fim dos dias; feito de amor, de perda e da inevitável dor que ainda custa a passar. No entanto, fica a doce recordação da permanência, ainda que breve, de um ser querido junto de nós.
Lembro-me, pouco depois desse episódio marcante, de me ter metido no comboio para ir a Lisboa tratar de assuntos e simultaneamente aproveitar, se possível, para acordar da letargia e tristura dos dias que sucederam à perda do nosso estimado amigo. Estados de espírito reforçados com o inadiável regresso ao Brasil de familiares que me eram (e são) muito caros.
Lembro-me de deambular pela capital a abarrotar de um simpático sol de Inverno, porventura, clamando pela Primavera a querer irromper, sorridente e gentil.
O sol também sorria; como um amplexo doce e quente que me fazia esquecer, por momentos, as dificuldades da vida e o desgosto. Não obstante senti-las, as dificuldades, não me posso considerar dos mais sacrificados. O provérbio "com o mal dos outros posso eu bem" é uma forma egoísta de nos sentirmos melhor quando outros estão pior. Francamente não sei quem foi o ou a idiota que o inventou. Desculpem o desvio.
Mas, como dizia, o sol sorria, generoso, mas paradoxalmente indiferente à vida que decorria cá em baixo.
Continuando a calcorrear por entre magotes de gente taciturna e apressada recordei-me inexplicavelmente do nosso primeiro e, parece-me, exclusivo satélite a entrar em órbita e lembrei-me também de pensar nas razões do nosso atraso, passados que são tantos anos de democracia esbanjada...
Então, pus-me a matutar na minha vida e na de todos nós, afinal, num quase Abril de todas as esperanças; apesar de tudo, uma vez mais, após quase meio século de falsas expectativas e liberdades implexas.
Passei por alguém que ainda não tinha dado conta de que o dia já alvorecera e continuava a dormir aninhado a um canto de um prédio, entre mantas e jornais; cruzei-me com duas gajas novas, altas, esguias e com ar petulante que comentavam qualquer coisa acerca do mendigo, com meio sorriso nas fuças. Lembro-me dos falsos valores que lhes infundimos, a respeito da liberdade...
Continuando o passeio, dei com uma montra de loja fina e com o meu olhar fixo involuntariamente numa senhora loira que compunha um manequim. Mulher bonita sorrindo para o vazio, porventura para o boneco, peito generoso aconchegado numa blusinha azul turquesa em contraste com o azul desmaiado da decoração da montra. Continuava a sorrir, quiçá, com o sentido nalgum acaso feliz da sua vida, e sorri também. Quando deu conta do meu sorriso deixou cair o seu. Não tive tempo de o apanhar, conquanto fosse morosa a sua queda, pois parecia leve como uma pena. Apesar dos meus esforços para evitar que caísse; e Deus é testemunha da ginástica que fiz: um passo para aqui, outro para ali, para a frente, para trás, meia volta, volta e meia, e quase que o sentia diáfano na concha das mãos: lindo e enigmático - ainda mais que o da Gioconda do Da Vinci - , esgueirou-se por entre os dedos, estatelando-se nas pedrinhas da calçada.
Tive pena de ter perdido aquele sorriso tão bonito, mas, enfim, não dramatizemos esta pequena, se bem que lamentável contrariedade; a vida tinha de prosseguir e havia que aproveitar os bons momentos tais como aquela luminosidade vital que pareceu retemperar-me o ânimo e dava um tom bonito à minha cidade.
Não queria opinar sobre política, mas já dei um encontrão na estuporada e, pronto, tenho de acabar... Mas, espera lá! Não!... Não vou macular isto com essa porca! Pelo menos por agora. Porque carga de água não desenvolvi mais ao pormenor o assunto da troca de sorrisos com a loira desconhecida da montra da loja chique? Quer dizer..., não foi bem uma troca de sorrisos, foi mais um desencanto. Um daqueles desencantos que nos fazem pensar com muita nostalgia de tantos outros desencantos e desencontros, mas é como é ou como diz Vinícius de Moraes no seu Samba da Benção: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.
Sei que seria mais fácil e mais apetecível para as mentes famintas de coisas carregadas de fantasia ou desejo que continuasse a minha história por aí; que a recriasse e introduzisse uns pozinhos de romance. Prometo que fica para um outro escrito, se me lembrar.

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