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Criei este blogue com a ideia de o rechear com estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. Penso que são escritas sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. No entanto, honestas.

15 de Março de 2020:
Entro numa farmácia de um conhecido centro comercial a fim de levantar um medicamento que havia encomendado dias antes. Estava pouca gente.
Algo que consideraria invulgar, em condições normais, dado que tem muita afluência.
A farmacêutica que me atendeu, uma moça aparentando estar na casa dos trinta, calçava luvas descartáveis, à semelhança dos restantes funcionários. Disse-me para adquirir tudo o que tinha de adquirir e evitar deslocações desnecessárias: "pela sua saúde e a de todos". Aconselhou-me a fazê-lo, com o ar mais apreensivo deste mundo e, simultaneamente, num tom brando; talvez a reproduzir uma frase que já repetiu tantas vezes nestes últimos dias a alguém, velho e imponderado como eu.
Estava a olhar para um tipo, quiçá, menos preocupado do que ela com o próprio estado de saúde e mais: deveras imprudente; um indivíduo que ainda não tomara consciência do que se estava a passar e que prossegue a uma velocidade célere de contaminação em cadeia. Ainda não há mortes em Portugal, mas, ao ritmo a que se processam os acontecimentos, serão inevitáveis. Gostava de não ter razão...
Penso que, não obstante os exemplos mais marcantes até à data: Itália e Espanha, ainda não estamos bem acordados do choque brutal e da drástica mudança de hábitos a que esta nova e trágica realidade nos vai sujeitar, porventura, durante tempo incalculável. É a nossa estúpida e persistente atitude de pensarmos que só acontece aos outros...
Ontem estava menos preocupado, mas hoje fiquei com a impressão de que levei uma enorme bofetada; talvez, para acordar da apatia. Foi, certamente, a "bofetada" afectuosa da farmacêutica que me atendeu...
Vou seguir religiosamente o seu conselho, pois não quero morrer já.
Espero, ainda, ter o prazer de continuar na companhia de quem me é caro até ao resto dos anos que me faltam para embarcar.
A vida também é feita de imponderáveis e este parece ser um dos mais terríveis de sempre que nos está a apoquentar.
Já não há gente viva para relatar o que foi a "pneumónica", mas deve ter sido, seguramente, a pior de todas as pandemias. Até hoje...
29 de Setembro de 2021:
E eis-nos aqui, os, até à data, sobreviventes desta coisa, passado mais de um ano sobre o seu primeiro surto em Portugal. Aparentemente, já não estamos dependentes de factores como a capacidade do SNS em vacinar o maior número possível de pessoas para se atingir a tal "imunidade de grupo". Acho que esse objectivo indispensável foi atingido. Agora só falta não neglicenciar o comportamento social para não deitar por terra tudo o que foi feito com diligência e sacrifício pelos nossos profissionais de saúde.
Seria injusto se não deixasse, também, uma nota de reconhecimento aos responsáveis políticos, DGS e, especialmente, ao pessoal da "task force" da vacinação sob o comando do Vice-Almirante Gouveia e Melo. Bem hajam!


Hoje, desloquei-me ao centro de saúde da minha freguesia. Tenho mais de 90 anos. Disseram-me que durante os meses de Verão não aceitam marcações de consultas por telefone.
Não vale a pena ligar para o centro de saúde da minha freguesia nos meses de Verão. Os meses de Verão são para respeitar, pronto e ponto!
Por conseguinte, peguei nas minhas pernas que, apesar do desgaste dos anos e um pouco trôpegas, ainda estão capazes de me levar ao centro de saúde da minha freguesia.
A pessoa que me atendeu, a que enfaticamente se dá o nome de "médico(a) de família", perguntou-me de que me queixava:
«Olhe, doi-me aqui e ali. Além disso, tenho tonturas; urino aos pingos; tenho zumbidos nos ouvidos; sinto náuseas e não sinto prazer em viver!».
Enquanto me escutava ou penso que me escutava, perguntou-me que remédios tomava, mediu-me a tensão arterial, gabou-me a provecta idade, receitou-me mais comprimidos e requisitou exames, enfim, a regra a que me fui habituando ao longo dos meus já longos anos. Depois, disse-me para me deslocar ao centro de saúde da minha freguesia, assim que tivesse o resultado dos exames na mão.
Assim fiz, passados que foram 30 dias, mais dia menos dia, após a marcação da consulta e com os exames na mão.
Chegada a minha vez de ser atendido, depois de três horas de espera, a pessoa que me recebeu, perguntou-me de que me queixava, mediu-me a tensão arterial, gabou-me a provecta idade, e quis saber se eu estava a ser medicado:
«Bem..., são as queixas recorrentes: umas dores aqui e ali; as tonturas persistentes; a urinação aos pingos; a agravação dos zumbidos nos ouvidos; as malditas náuseas e o desprazer da vida.
Aqui tem os exames que pediu. Quanto aos remédios estou a tomar aqueles que costumo tomar e outros tantos que me receitou.» - ao que retorquiu não ter a certeza de mos ter prescrito...
Enquanto mirava e remirava os exames, não sei se com atenção, disse-me para ir ao centro de saúde da minha freguesia, no dia seguinte, com o nome dos remédios que me tinha indicado.
Assim fiz. Agarrei nas minhas pobres pernas e fiz o percurso que elas conhecem tão bem, para mostrar à pessoa que me tem atendido, o nome dos remédios que me receitou. Assim que me recebeu, passadas que foram mais de três horas de espera, veio com a conversa repetida: de que me queixava, mediu-me a tensão arterial, gabou-me a provecta idade e quis saber que remédios estava a tomar. E eu, é claro!...
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