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CORONAVÍRUS

por João Brito, em 30.09.21

coronavírus.jpg

15 de Março de 2020:

Entro numa farmácia de um conhecido centro comercial a fim de levantar um medicamento que havia encomendado dias antes. Estava pouca gente.
Algo que consideraria invulgar, em condições normais, dado que tem muita afluência.
A farmacêutica que me atendeu, uma moça aparentando estar na casa dos trinta, calçava luvas descartáveis, à semelhança dos restantes funcionários. Disse-me para adquirir tudo o que tinha de adquirir e evitar deslocações desnecessárias: "pela sua saúde e a de todos". Aconselhou-me a fazê-lo, com o ar mais apreensivo deste mundo e, simultaneamente, num tom brando; talvez a reproduzir uma frase que já repetiu tantas vezes nestes últimos dias a alguém, velho e imponderado como eu.
Estava a olhar para um tipo, quiçá, menos preocupado do que ela com o próprio estado de saúde e mais: deveras imprudente; um indivíduo que ainda não tomara consciência do que se estava a passar e que prossegue a uma velocidade célere de contaminação em cadeia. Ainda não há mortes em Portugal, mas, ao ritmo a que se processam os acontecimentos, serão inevitáveis. Gostava de não ter razão...
Penso que, não obstante os exemplos mais marcantes até à data: Itália e Espanha, ainda não estamos bem acordados do choque brutal e da drástica mudança de hábitos a que esta nova e trágica realidade nos vai sujeitar, porventura, durante tempo incalculável. É a nossa estúpida e persistente atitude de pensarmos que só acontece aos outros...
Ontem estava menos preocupado, mas hoje fiquei com a impressão de que levei uma enorme bofetada; talvez, para acordar da apatia. Foi, certamente, a "bofetada" afectuosa da farmacêutica que me atendeu...
Vou seguir religiosamente o seu conselho, pois não quero morrer já.
Espero, ainda, ter o prazer de continuar na companhia de quem me é caro até ao resto dos anos que me faltam para embarcar.
A vida também é feita de imponderáveis e este parece ser um dos mais terríveis de sempre que nos está a apoquentar.
Já não há gente viva para relatar o que foi a "pneumónica", mas deve ter sido, seguramente, a pior de todas as pandemias. Até hoje...

29 de Setembro de 2021:
E eis-nos aqui, os, até à data, sobreviventes desta coisa, passado mais de um ano sobre o seu primeiro surto em Portugal. Aparentemente, já não estamos dependentes de factores como a capacidade do SNS em vacinar o maior número possível de pessoas para se atingir a tal "imunidade de grupo". Acho que esse objectivo indispensável foi atingido. Agora só falta não neglicenciar o comportamento social para não deitar por terra tudo o que foi feito com diligência e sacrifício pelos nossos profissionais de saúde.

Seria injusto se não deixasse, também, uma nota de reconhecimento aos responsáveis políticos, DGS e, especialmente, ao pessoal da "task force" da vacinação sob o comando do Vice-Almirante Gouveia e Melo. Bem hajam!

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SERVIÇO DE URGÊNCIA

por João Brito, em 28.09.21

serviço de urgência.jpg

23H45 do dia 03 de Setembro de 2008:

Entro no serviço de urgência do hospital com um homem visivelmente debilitado. Sofre de náuseas, vertigens e uma pressão inusitada na cabeça e nos ouvidos.

Peço uma cadeira de rodas para o sentar, ao que prontamente dois seguranças correspondem. Sinto-me impotente para lhe aliviar o sofrimento.
Não demorou muito a ser atendido na triagem: de que é que se queixa, as drogas que toma, desde quando é que se sente assim, medição da tensão arterial, enfim, os procedimentos habituais em iguais circunstâncias, presumo.
Não é a primeira vez que corro com ele para as urgências e penso que não há-de ser a última, se bem que, quando para lá caminho, fique com a impressão de que já de lá não sai. A idade não perdoa estas "recaídas"...
«É familiar?»
«Sim, sou filho!»...
Acompanho-o, colam-me a etiqueta de acompanhante. Vai para a observação...
Um corredor, várias salas, macas com doentes, macas vazias, cadeiras de rodas e o cheiro característico a ar condicionado misturado com formol. Qualquer odor, bom ou mau, comunica-nos sempre algo. Os odores enviam mensagens óbvias em diversas circunstâncias; noutras requerem descodificação. Os cheiros de um hospital, causam-me invariavelmente desconforto. Talvez, resultado de uma experiência menos boa, em ambiente hospitalar, quando era criança. Curiosamente, ficaram-me fragmentos, nada agradáveis, dum episódio da minha infância...
Um sujeito, provavelmente a ressacar da sua toxicodependência, lança impropérios e pede desesperadamente a alguém que lhe dê uma "injecção". Algo que eu reclamaria, agora, a todos os santinhos, com a intranquilidade própria de quem quer a todo o transe alguma coisa para aliviar o tormento do homem a seu lado.
Perpassam-me ideias confusas, algumas absurdas. São as pessoas; os olhares; o estado de sofrimento e ansiedade de meu pai; os gemidos aqui e ali; o vai e vem dos médicos e enfermeiros; a mulher sentada numa cadeira de rodas que me pergunta se sou filho daquele senhor e que me diz estar ali, vai para muitas horas; que é de longe e está sozinha; que quer ir para casa e algo mais que balbuceia...
Uma auxiliar de enfermagem está quase a ficar passada com a cena do homenzinho presumivelmente ressacado; lê-se no seu olhar reprovador. Vocifera qualquer coisa entre dentes a que não presto muita atenção, tão imerso que estou na situação do meu pai.
Um homem andrajoso, com farta e suja cabeleira, passeia-se tranquilamente entre o corredor e as salas de observação. Pelo aspecto, estou certo de que não pertence aos quadros do hospital. Nem sei que raio de estatuto possa ser o seu, para deambular por ali. Entretém-se a devorar iogurtes, supostamente postos à disposição dos doentes e funcionários de serviço às urgências durante a noite. O tempo passa...
 
2H45 do dia 4 de Setembro de 2008:
Meu pai continua a desesperar na maldita cadeira de rodas. Não sente os pés, os braços pesam-lhe, ameaça bolçar o vazio que lhe resta no estômago, a cabeça rebenta-lhe, geme, adormece e volta a gemer. As queixas recorrentes. Uma médica, sorridente, olha-me nos olhos, pergunta-me há quanto tempo ali estamos, mira-me o autocolante, está lá indicada a hora de acesso às urgências:
«Estamos aqui há 3 horas, doutora!» - e ela sorridente; um sorriso cansado, aliás. Por isso não suficiente para me tranquilizar.
«Só 3 horas?!» - Olha para outro doente, o mesmo gesto, o mesmo sorriso, manda-o entrar, está lá há mais tempo para ser observado.
Uma acompanhante de outro doente, admirada com o facto de eu ter referido que estava ali há 3 horas, ironiza baixinho:
«E nós estamos aqui há 10!»
Pois é, esta história de clínicos tarefeiros, pagos à hora, dá maus resultados: é preciso que as horas de turno se esgotem, sem grandes sobressaltos - João Semana é um mito...
O homem andrajoso passa ao nosso lado e deixa um rasto fétido. Tira mais dois iogurtes, enfia um num bolso das calças e o outro espreme-o alarvemente para dentro da goela. Entra numa sala, conversa com um doutor e sai por outra.
O eventual toxicodependente vomita gritos intermitentes de agonia, agride verbalmente todos a torto e a direito e passeia-se numa cadeira de rodas, impedindo a circulação das macas com doentes. A tal auxiliar de enfermagem afasta-o do caminho, atira-lhe ameaças vãs e as horas continuam a passar...
 
3h30:
O meu pai é chamado:
«De que se queixa?»
«Sofre disto, daquilo e daqueloutro»
Análises ao sangue, ECG, RX ao tórax e não sei que mais. Outra espera interminável. Após o ECG:
«Sr fulano então, sente-se melhor?»
«Qual quê, são os noventa anos, sabe?... Que rica maneira de festejar a minha data de aniversário!»
«Faz 90 anos hoje?!...Ah, nem parece! Parabéns, senhor!»
«Obrigado, mas preferia não padecer desta aflição!»...
Dificilmente, consigo permanecer lúcido a esta hora da noite...
 
4H00:
Vou lá fora ao guiché das urgências, peço por obséquio para me trocarem uma nota de 5 euros. Preciso de tomar um café ou dois. A maquineta, ali, à mão de semear, um café que me restitua a espertina, me reponha alguma energia. Indiferente, a funcionária responde-me que não tem trocado. Uma miragem, o meu café; que raio de solidariedade!...
Regresso para junto do meu pai, mais uma espera infinita. Dormita e acorda com a mesma pergunta ao longo destas horas:
«Quando é que sou visto pelo médico?»
«Não tarda, pai, não tarda...»
RX ao tórax...mais uma espera. Um fulano esvai-se em sangue, supostamente do baixo ventre. Levanta-se do seu lugar e vai aos lavabos. Na cadeira um jornal tingido de vermelho, empapado. Impróprio para mentes fracas. Não para a minha, que jaz meio entorpecida a estas horas...
 
4H30, por aí:
O resultado dos exames tarda. Aguardamos no corredor...Entre o dormitar e o sobressalto, o meu pai solta:
«Diz-lhes que o mal está dentro da minha cabeça; dos meus ouvidos! De nada me servem esses exames! Sinto-me muito mal, mesmo, sinto a cabeça rebentar, o meu corpo pesa que nem chumbo!»
«Acalme-se, pai, vamos lá!»
Piorou! A ansiedade parece ter atingido o ponto de ruptura; digo a um enfermeiro que o meu pai não está nada bem, o enfermeiro diz à médica que o meu pai está com mau aspecto, a doutora ordena que o deitem numa maca: soro, fios ligados ao peito e algo injectável para o acalmar... Novo ECG para confrontar medições, a médica suspeita de enfarte, suspeita que não se confirma, após nova medição...
 
5H30, mais coisa menos coisa:
Meu pai dormita e acorda, diz-me para lhe pôr a cabeceira da maca mais elevada. Está mais sereno, com melhor cor. A médica está a acabar o turno de serviço e passa a bola a outro colega. Diz-me:
«O seu pai vai melhorar. Ele tem muito miminho não tem?»
Anuo, com alguma dificuldade em aceitar a evidência. O meu pai fica muito nervoso quando tudo lhe corre mal. Pensa que vai morrer. É o seu temperamento, a sua maldita idiossincrasia, face à mais ténue contrariedade.
O médico substituto lê o resultado dos exames e diz-me que está tudo bem. Receita uns comprimidos e deseja as melhoras. Tem a certeza que tudo aquilo não passou de um susto. Aconselha repouso absoluto.
 
São 7H00:
Saímos do hospital. Passamos pela mulherzinha solitária. Vai apanhar o autocarro.
Do presumível toxicodependente nem rasto.
Está uma manhã de chuva morrinhenta e um pouco fria. Saímos daquele purgatório, esgotados por razões diferentes.
Aconteceu no serviço de urgência do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca
 

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O CENTRO DE SAÚDE DA MINHA FREGUESIA

por João Brito, em 29.08.14

sns.jpg

Hoje, desloquei-me ao centro de saúde da minha freguesia. Tenho mais de 90 anos. Disseram-me que durante os meses de Verão não aceitam marcações de consultas por telefone.
Não vale a pena ligar para o centro de saúde da minha freguesia nos meses de Verão. Os meses de Verão são para respeitar, pronto e ponto!
Por conseguinte, peguei nas minhas pernas que, apesar do desgaste dos anos e um pouco trôpegas,  ainda estão capazes de me levar ao centro de saúde da minha freguesia.
A pessoa que me atendeu, a que enfaticamente se dá o nome de "médico(a) de família", perguntou-me de que me queixava:
«Olhe, doi-me aqui e ali. Além disso tenho tonturas, urino aos pingos, tenho zumbidos nos ouvidos, sinto náuseas e, com tanta chaga, não sinto prazer em viver!».
Enquanto me escutava ou penso que me escutava, perguntou-me que remédios tomava, mediu-me a tensão arterial, gabou-me a provecta idade, receitou-me mais comprimidos e requisitou exames, enfim, a regra a que me fui habituando ao longo dos meus já longos anos. Depois, disse-me para me deslocar ao centro de saúde da minha freguesia, assim que tivesse o resultado dos exames na mão.
Assim fiz, passados que foram 30 dias, mais dia menos dia, após a marcação da consulta e com os exames na mão.
Chegada a minha vez de ser atendido, após mais de três horas de espera, a pessoa que me recebeu, perguntou-me de que me queixava, mediu-me a tensão arterial, gabou-me a provecta idade, e quis saber se eu estava a ser medicado:
«Bem..., são as queixas recorrentes: umas dores aqui e ali, as tonturas persistentes, a urinação aos pingos, a agravação dos zumbidos nos ouvidos, as malditas náuseas e o desprazer da vida.
Aqui tem os exames que pediu. Quanto aos remédios estou a tomar aqueles que costumo tomar e outros tantos que me receitou.» - ao que retorquiu não ter a certeza de mos ter prescrito...
Enquanto mirava e remirava os exames, não sei se com atenção, disse-me para ir ao centro de saúde da minha freguesia, no dia seguinte, com o nome dos remédios que me tinha indicado.
Assim fiz. Agarrei nas minhas pobres pernas e fiz o percurso que elas conhecem tão bem, para mostrar à pessoa que me tem atendido, o nome dos remédios que me receitou. Assim que me recebeu, passadas que foram mais de três horas de espera, veio com a conversa repetida: de que me queixava, mediu-me a tensão arterial, gabou-me a provecta idade e quis saber que remédios estava a tomar. E eu, é claro!...

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