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UM CASO BICUDO

por João Castro e Brito, em 24.01.24

um caso bicudo.jpg

O corpo estava de costas. De costas voltadas para o chão. No ventre tinha um buraco redondo.
O inspector Casimiro avaliou-o minuciosamente e disse:
"Calibre 38".
Entretanto, Silvério – o fotógrafo forense – aproximou-se e informou:
"Apareceu a arma do crime, inspector: é uma faca de ponta e mola. Estava mesmo ao lado do corpo, dentro de um saco preto em veludo cotelê."
Aquilo não era propriamente uma faca de ponta e mola, mas antes um saca-rolhas.
O inspector Casimiro, pensou que o fotógrafo estava a precisar de ir ao oculista. Porém, não quis abrir ali uma discussão sobre o objecto do crime porque também tinha caído em erro ao aludir a uma arma de fogo.
Sem dar parte de fraco, mirou e remirou o saca-rolhas e concluiu:
"Deve ter sido à queima-rolha... Temos aqui um caso bicudo!"
"Diria, até, um bico d'obra, chefe! – disse o agente Silva
Reuniu os ajudantes e ordenou:
"Alinhem os suspeitos por alturas!"
O agente Silva alinhou os suspeitos por alturas e contaram oito.
"Não há mais?" – perguntou o inspector Casimiro.
O principal suspeito explicou:
"Não vieram todos, senhor inspector. Hoje dá o Sporting - Benfica na televisão.
"Assim, disponíveis, só há estes, chefe!" – disse o Silva.
"Bem...chegam." – disse o inspector Casimiro.
Puxou do cachimbo, acendeu-o, sorveu uma fumaça e cravou o olhar penetrante nos suspeitos perfilados à sua frente e por alturas, como havia pedido.
O mais alto apontou o dedo para as duas suspeitas que o precediam e declarou:
"Senhor inspector, como vê, estou acima de qualquer suspeita!"
Discretamente, o inspector Casimiro, ligou o gravador de voz do telemóvel.
"Bom, vamos lá saber qual de vós é que vai abrir o bico e confessar a autoria do crime de homicídio, na pessoa deste pobre que jaz morto e arrefece?"
Silêncio sepulcral.
"Vá lá!" – aconselhou o inspector com bons modos: "Quem diz a verdade não merece castigo!"
"Se calhar foi algum dos que foram à bola, senhor inspector!" – sugeriu um outro agente presente, o Pimentel.
O inspector encolheu os ombros e disse:
"Então, fica incumbido de ligar aos gajos na segunda-feira e faz-lhes a pergunta, ok?"
Nesse momento apareceu o médico legista a correr, espavorido.
"O homem está vivo!...Ele está vivo!"
Casimiro levantou um sobrolho e perguntou:
"Mas está vivo, quem? Desembuche, homem!"
"O morto, inspector! Quem havia de ser? – redarguiu o médico legista, perturbado.
O principal suspeito deu um passo em frente e confessou:
"Fui eu, senhor inspector. Fui eu que o matei!"
"Então, puxe uma cadeira e vamos lá conversar!"
Disse ao agente Silva pra mandar destroçar os restantes suspeitos.
"Agora, conte-me tudo, tintim por tintim!"
"Bom, senhor inspector, não foi com intensão." – disse o homicida, limpando, a um lenço, o suor que lhe escorria da testa: "Havia muito fumo na sala, não se via quase nada e, por causa disso, eu andava à procura da rolha. Mais a mais, a vítima veste um colete com botões de cortiça e eu fiquei baralhado!"
O inspector Casimiro reflectiu num ápice e disse:
"Ah foi? Então, vou acusá-lo de homicídio involuntário!"
"Não pode, inspector! – contrariou o médico legista – "Acabei de dizer que a vítima está viva; fui eu que a reanimei!"
O inspector Casimiro, gesticulou, em trejeito de pergunta, como é que o médico o havia feito.
"Pus-lhe a rolha!" – disse – "Tapei-lhe o buraco do saca-rolhas."
"Ah bom!" – condescendeu o inspector – "Portanto, temos aqui dois casos de tentativa de homicídio. Ora, eu não posso acusá-lo de tentativa de homicídio frustrado involuntário que diabo!"
Veio a vítima e dirigiu-se ao médico legista:
"Doutor, então, não me põe o lacre? É q'assim, a rolha salta!"
"Xi, já não me lembrava que você tem gases, homem!" – desculpou-se o médico legista.
"Já sei!" – exclamou, de súbito, o inspector Casimiro, questionando o homicida:
"Você tem licença de uso e porte de saca-rolhas?"
"Não, senhor inspector!" – confessou o ex-homicida, branco como a cal da parede.
"Ora, aí está! Você só pode sacar caricas! Abra-me lá uma míni, antes de o algemar, vamos!"
Todavia, o infractor, num salto, apoderou-se do saca-rolhas e apontou-o ao peito do inspector:
"Mãos ao ar! Ninguém se mexe!"
Soltando uma gargalhada sinistra, preparava-se para fugir pela janela quando se ouviu um estampido abafado. Atingido em cheio na nuca, o patife cambaleou e caiu redondo sem ter tido tempo para gritar pela mãe.
"Foi a rolha da vítima que saltou." – disse o médico legista.
"Matou-o?" – perguntou o inspector Casimiro.
"Está morto e bem morto!" – confirmou o médico legista após declarar o óbito.
"Ora, então, escreva aí, Silva:
Prende-se a vítima por homicídio involuntário!" – ordenou o inspector Casimiro.

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