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QUARENTA ANOS

por João Brito, em 13.01.22

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Fazia quarenta anos que Ricardo partira para a França em busca de melhores condições de vida. Porém, desde que deixara de ser "piegas" e abandonara a sua "zona de conforto", morria de saudades da sua esposa e do seu lindo país. Além desses sentimentos, fortemente nostálgicos, sentia a vida a fugir-lhe e, por conseguinte, tinha pressa de retornar à terra que o vira nascer.
Os médicos tinham-no aconselhado a regressar a Portugal, o mais breve possível, porque, se continuasse a adiar a sua vinda, podia dar-se o caso de se esquecer de tal propósito, dado que parecia alhear-se, cada vez mais, de tudo. 
Para Rita, os últimos quarenta anos também tinham sido extensos e penosos. Anos ao longo dos quais tinha aguardado, ansiosamente, o regresso do seu marido amado.
Nos seus sonhos e fantasias de mulher solitária conseguia evocar aquela saudosa imagem, embora menos clara. Contudo, ainda capaz de alimentar a chama do amor e manter viva a sensualidade que a caracterizava.
Quarenta anos tinham sido uma eternidade, mas Rita resistira às tentações, sabe Deus como!
O homem alto, moreno, bonito, imaculadamente escanhoado que lhe dera o derradeiro beijo de despedida na estação de Santa Apolónia, jamais lhe saíra do pensamento.
Finalmente, chegara o dia tão ardentemente aguardado: o dia do regresso do seu Ricardo.
Um bom par de anos antes, havia recebido uma carta dele manifestando-lhe a intenção de regressar a casa, já debilitado pela doença e cansado de errar por terras gaulesas. Afinal errare humanum est como diria o outro se fosse vivo.
Agora, Rita esperava-o na estação de Santa Apolónia, naturalmente inquieta. Quarenta anos são um evo e não sabia se iria reconhecê-lo, passado tanto tempo. Entretanto começavam a desembarcar os primeiros passageiros, provenientes de Paris, carregados de bagagens. Rita procurava descobrir, impaciente, um rosto familiar entre os grupos de pessoas que saíam do comboio.
Subitamente, conseguiu vislumbrar um homem alto, moreno e lindo. "Meu Deus, será ele?" – pensou, o coração em ritmo acelerado – Era tal e qual o seu homem de há quarenta anos com os mesmos trejeitos, a mesma expressão, o mesmo meneio. Foi como se o tempo tivesse estacado na despedida e, volvidos tantos anos, recomeçasse no exacto ponto onde fora interrompido.
Absorta no feliz reencontro, nem quis saber do insólito acontecimento. Só podia ser um milagre o que lhe estava a acontecer e esqueceu momentaneamente todas as dores  de que padecia. Imediatamente, movida por um desejo reprimido durante décadas, correu apaixonadamente para os braços do filho de Ricardo.

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TORNEIO INTERNACIONAL DE JUJITSU PARIS 2016

por João Brito, em 20.07.16

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Dimitri Payet foi considerado o melhor lutador do Torneio Internacional de Jujitsu Paris 2016, depois de ter deixado o português Cristiano Ronaldo muito mal tratado. O atleta francês desferiu-lhe um golpe muito feio no joelho esquerdo, logo aos 7 minutos de combate. De seguida, arremessou o português ao chão, sem mais aquela, incapacitando-o decididamente de continuar a disputa.
Todavia, Portugal ficou em primeiro lugar, colectivamente e, naturalmente, trouxe a Taça.
O treinador francês, Didier Deschamps, chauvinista dos quatro costados, como um verdadeiro gaulês que se preza de tal predicado, afirmou que Portugal foi uma surpresa de merda; que lutámos todos à defesa e todos ao ataque, táctica futebolística inapropriada para este contexto de artes marciais (sem saber como nem porquê, lembrei-me de outro grande treinador, chamado Béla Guttmann).
Para além do mau perder habitual dos gauleses, faltou-lhes a eficácia e lucidez (sobrante no adversário luso) para calar o Fernando Santos que já andava a ameaçar, há uma porrada de dias, que só saía de França no dia 11, mais a mais com a taça na mão, o que contribuiu para irritar ainda mais, o treinador da França que até espumou de raiva.
Griezmann, Gareth Bale, Toni Kroos, De Bruyne, Hazard, Ozil e Pogba, entre outros, também deram luta, mas não foram suficientes para nos roubar o título colectivo.
E pronto, daqui a quatro anos há mais, se a gente não morrer antes. Entretanto o título é nosso durante uma "legislatura" e o resto são tristes cantigas francesas com um grande galo depenado e um vira minhoto com um belo galinho de Barcelos...

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"SELFIE"

por João Brito, em 13.06.16

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Em Paris, Marcelo e Costa tiraram montes de "selfies" com os emigrantes portugueses.
Numa cerimónia bilingue na "Mairie" de Paris, o professor Marcelo, aliás, o presidente Marcelo, aliás, o avô Marcelo, falou primeiro em português para os avós e depois falou em francês para os pais e para os putos que, em coro, gritavam "Ronaldo!...Ronaldo!".
Aqui e ali, também se erguiam alguns cartazes com "rendre notre argent", ou "BES est un voleur" e outros impropérios indescritíveis.
O professor Marcelo, aliás, o presidente Marcelo, aliás, o avô Marcelo está fartinho de saber o que é a "emoção de quem tem a melhor parte da família a viver fora do território português".
- "Oh, triste sina, a dos lusitanos, obrigados a sair da Pátria, engrossando as fileiras da eterna diáspora!" - Choros, clamores e mais vivas a Ronaldo - "Mas vós sois o melhorzinho q'a gente tem; os genuínos; as elites não valem um avo de vós! E a melhor parte são os netos!".
- "Vós sois o chantilly e a cereja no topo!" - prosseguia o professor, aliás, presidente, aliás, avô, comovido até às lágrimas, recordando a bravura dos portugueses que, desde tempos imemoriais, direi, mesmo, desde o tempo do grande guerreiro lusitano Viriato, partiram de Portugal à procura de novos horizontes, fugindo à pobreza e às dificuldades. Sim, sim, acreditem! Depois do Sertório, isto nunca mais foi o mesmo. É que, sem o Viriato, não era a mesma coisa, 'tão a ver? Os emigrantes agradeceram as suas palavras muito emocionados, direi, mesmo, em pranto clamoroso - passe a redundância - e, simultaneamente, empunhavam os cartazes com maior afinco e gritavam palavras de ordem a torto e a direito, também indescritíveis. Ao longe um rapaz, com uma voz efeminada, gritava algo como "Ronaldo veulent faire l'amour avec vous!"
No final da cerimónia, o professor Marcelo, aliás, o presidente Marcelo, aliás, o avô Marcelo, agarrou o braço do primeiro-ministro, aliás, ex-presidente da câmara, aliás, senhor Costa, tiraram a última "selfie" da jornada e deram às de Vila-Diogo como quem não quer a coisa. 

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