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SCARLETT JOHANSSON

por João Brito, em 21.10.20

scarlett johansson censurada.jpg

É verdade; até me custa admitir! Todavia, tenho de o partilhar convosco, senão rebento pelas costuras.
Desta vez, ando a sonhar com a Scarlett Johansson. Desculpem lá se ainda não vos contei, mas nas últimas semanas o meu quotidiano tem sido tão atribulado que releguei este assunto para segundo plano. Contudo, penso que seria injusto esconder-vos isto. Assim, pensei em abrir o meu coração para vós, já que a minha mulher, infelizmente, não me escuta.
É difícil descrever com clareza o que vivenciei, mas é uma experiência quase real; quase tão real como as que tive como Papa e como mulher do Papa, embora continue a ter consciência de que não passam de sonhos, evidentemente.
Curiosamente - enfim, curiosamente é como quem diz - tenho, também, por enquanto, a percepção de que vivo momentos maravilhosos e tão intensos, não tivesse, e ainda por enquanto, a noção de que tais sonhos não passam de devaneios.
Já sonhei com a Nastassja Kinski e até, mesmo, com a Angelina Jolie, não obstante a primeira sofrer de dores reumáticas e a segunda estar transformada num chalezinho de ossos. Porém, não é a mesma coisa!
O problema é que, à semelhança dos sonhos com o casal papal, estes estão a adquirir contornos cada vez mais sinuosos a ponto de acreditar, cada vez mais, na minha insanidade mental. Não quero dizer que desgoste de sonhar com estas personagens; muito, antes, pelo contrário! Contudo, perco a ideia da sua volatilidade e, quando acordo e vejo a imagem da Scarlett desaparecer, fico com uma sensação de vazio e rompo num pranto incontrolável.
O que é mais perturbador é o facto de isto parecer tirado a papel químico dos sonhos que vos tinha relatado há tempo; só que desta vez com actrizes de cinema pelas quais sempre tive (desde pequenino) uma atração sexual compulsiva. Por analogia com sonhos passados, é uma situação recorrente e, deste modo, já começo a confundi-los com a realidade.
Apesar de tudo, devo sublinhar que gosto muito de sonhar e nada me move contra quem partilha do meu gosto. Como diz o poeta, "sonhar é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer". Ora, como facilmente se depreende, o poeta também já tinha chegado ao ponto de confundir o sonho com a realidade e isso mexe muito com qualquer espírito perturbado.
Em face desta situação insólita que mais uma vez ameaçava ficar fora do meu controlo, decidi, em mais uma tentativa, pôr tudo em pratos limpos e desabafar com a minha mulher e assim fiz mas sem grandes expectativas.
Um dia destes, já bem acordado, cheguei-me mais para o pé dela, mordi-lhe a ponta do hálux, e contei-lhe as experiências que tenho tido. Contei-lhe tudo, tintim por tintim, sem esconder os preliminares que, como sabem, são o melhorzinho destas cenas. Ela ironizou com a situação, perguntando-me em que personagem se encaixava, nos meus sonhos. Respondi-lhe que a mais óbvia era ela, visto ser a minha mulher e, naturalmente, partilharmos tudo. No entanto - ressalvei - , ultimamente, não tem aparecido nos meus sonhos, o que me deixa com um sentimento incómodo de culpa. Visivelmente aborrecida com a minha história, na presunção de que eu estivesse a traí-la com outras mulheres, inventando o pretexto de sonhar com actrizes de cinema, censurou-me energicamente e sugeriu-me que mudasse de assunto. Ou, então, que a deixasse dormir mais um pouco. Meio ensonada, virou-se para o outro lado e voltou a adormecer.
Não tinha como contra-argumentar. Que outra coisa poderia ser, a não ser mais um sonho? Um sonho lindo, certamente, mas não mais do que isso. Cá no íntimo dei razão à minha mulher, mas mesmo assim ...
Desta vez, beliscando-lhe o rabo, tornei a acordá-la e insisti na hipótese remota desta coisa me estar a dar a volta ao miolo. Expliquei-lhe, o mais convincentemente que me foi possível, que já não sabia onde ficava a fronteira entre a realidade e a fantasia e que as personagens femininas dos meus sonhos me estavam a consumir as últimas energias, nomeadamente a Scarlett Johansson.
Interrompeu-me o discurso, agora furibunda, ameaçou sair da cama e ir dormir, novamente, para o quarto da mãezinha. Pior, fez-me um ultimato: ou ela, ou as minhas fantasias, se eu teimasse em manter aquela «toada desagradável e sem nexo».
Um pouco magoado com a sua intransigência, embora compreendendo o seu aparente ciúme, obviamente infundado - abri-me com ela, mais uma vez, e não o devia ter feito - , virei-lhe as costas e acabei por adormecer novamente, a pensar como seria magnífico ter a Scarlett só para mim. As três seriam as cerejas no topo do bolo, mas não quero ser mais papista do que o Papa. Mais vale ter uma passarinha na mão do que três a voar, como é curial dizer-se.
Já o sol da manhã ia alto quando acordei a pensar que era a Scarlett Johansson e, para me certificar de que aquilo não era um sonho, belisquei o rabo do Colin. Desabafei o sucedido e ele sorriu enquanto se erguia da cama e vestia apressadamente uns boxers amarelo-canário com cupidos vermelhos estampados que havia enrolado ao fundo da cama. Depois, já bem acordado e com aquele seu olhar tão caracteristicamente lascivo, perguntou-me onde lhe escondera o seu "sex toy" predilecto.

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A MULHER DO PAPA

por João Brito, em 28.05.20

a mulher do papa.png

Há, relativamente, pouco tempo, não sei precisar, mas não foi há muito, acordei plenamente convicto de que era o Papa. Foi uma impressão muito forte, sei lá, uma espécie de experiência extra-sensorial ou qualquer coisa parecida. Desculpem, mas não percebo nada dessas cenas relacionadas com as ciências ocultas. No entanto, quero deixar bem claro que, apesar de não acreditar em coisas que ultrapassam o meu conhecimento racional, por outro lado...
Por via das dúvidas, até estive, vai-não-vai para frequentar um curso por correspondência de Esoterismo Ocidental e tudo, imaginem! O problema é que fiquei indeciso entre a astrologia e a magia e desisti, pronto, q'é que querem? É esta minha tendência chata para deixar ficar os meus projectos em águas de bacalhau; até chateia! Já pareço o doutor Santana Lopes! Se bem que ele conseguiu, com muito sacrifício, tirar o curso de Direito, vá lá!
Mas, adiante senão disperso-me:
Não é a primeira vez que acordo com a convicção de que sou o Papa e começo a ficar seriamente preocupado com a minha sanidade mental. Não sei se já passaram por uma experiência idêntica ao despertar: parece ser algo do tipo "déjá vù". No caso pessoal, a certeza inequívoca de reencarnar noutra personagem, tendo simultaneamente consciência absoluta do seu carácter duplo e de estar a viver outra realidade. Reitero que não acredito em misticismos, mas ele, há coisas do diabo! Desculpem estar a misturar o sagrado com o profano, mas não encontro termo mais adequado para confessar a minha perturbação.
O que mais me inquieta é o facto de isto, ultimamente, estar a tornar-se um fenómeno recorrente e temer chegar a um ponto em que jamais saberei quem sou.
De modo que decidi contar tudo à minha mulher porque é algo que não consigo esconder durante mais tempo, sob risco de ensandecer...
Já bem acordado, belisquei-lhe delicadamente o rabo e desabafei o sucedido. Contei-lhe o sonho tintim por tintim desde o início ou, pelo menos, aquilo de que me lembro. Ela ironizou com a descrição, perguntando-me em que personagem se encaixava nos meus sonhos. Respondi-lhe que o mais óbvio era ela inserir-se nos papeis de esposa e amante (há esposas que não são amantes e amantes que não são esposas, entenda-se), visto partilharmos os mesmos lençóis.
Visivelmente incomodada com a minha história, na presunção de que eu estivesse a brincar com as suas convicções religiosas, católica militante que é (eu não sou religioso), censurou-me energicamente e sugeriu-me, por todos os santinhos, que mudasse de assunto, senão que a deixasse dormir em paz. «Onde é que já se viram Papas casados?! Só mesmo dentro dessa tua cabeça, homem, valha-te Deus!»...
Não tinha como contra-argumentar. Que outra coisa poderia ser, a não ser mais um sonho? Cá no íntimo, dei razão à minha mulher, pois, desde os tempos dos Bórgia, não houve mais Papas casados; pelo menos oficialmente...
Porém, insisti na hipótese remota de isso acontecer. Expliquei-lhe o mais convincentemente que me foi possível que seria um emprego com vinculo para toda a vida, prestigiante, altamente remunerado e, por acúmulo desses privilégios, teríamos uma bela e ampla casa no Vaticano para residir e outra para férias em Castelgandolfo.
Para além das prerrogativas descritas, fartar-nos-íamos de viajar. Ela sentar-se-ia, sempre, a meu lado no "Papa móvel" durante os "banhos de multidão"; inclusive, se eu fosse um Papa porreiro, certamente não seria esquecido pelas gerações vindouras, et cetera...
Interrompeu-me o discurso, agora furibunda, ameaçou sair da cama e ir dormir no quarto da mãezinha se eu teimasse em manter aquela «toada sem fundamento».
Um pouco magoado com a sua intransigência (valia mais não me ter aberto com ela), virei-lhe as costas e acabei por adormecer novamente a pensar como seria magnífico ser Papa...
O sol da manhã ia alto quando acordei a pensar que era a mulher do Papa e, para me certificar de que aquilo não era um sonho, belisquei delicadamente o rabo do meu marido, o Papa. Desabafei o que acabara de sonhar e desatou a rir, alarvemente, enquanto vestia, estavanado, umas boxers brancas com querubins cor de rosa estampados, enroladas ao fundo da cama e me perguntava, com aquele seu olhar tão caracteristicamente lascivo, onde lhe escondera a mitra...

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