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ULISSES E PENÉLOPE

por João Brito, em 08.10.21

ulisses e penélope.jpg

Olá, caros e improváveis leitores e leitoras desta escrita prodigiosa (desculpem lá este assomo de auto-estima, mas, se não for eu, ninguém assoma por mim, n'é verdade?). Hoje, apeteceu-me escrevinhar umas letrinhas (apenas) sobre a vida atribulada de uma personagem, erradamente atribuída à mitologia grega; isto, claro está, na minha modesta opinião. É só para não estar sempre a escrever acerca do Dom Afonso Henriques ou de qualquer outro rei da nossa História porque o que é demais é moléstia, como dizia a minha avó, com a excelente capacidade discursiva que sempre lhe reconheci. Dito isto, a figura que hoje vos proponho é Ulisses, mais precisamente, como já adivinharam. Também conhecido por Odisseu, ou não fosse o herói da suposta Odisseia de Homero, foi rei de Olissipóna, muito antes dos romanos a conquistarem aos cartagineses, sob o comando de Cornélio Cipião Calvo que, com efeito, era calvo, e rebatizarem de Olissipo. É só consultarem a Wikipédia. Prosseguindo com a consulta à referida enciclopédia (online para quem não sabe), também se constata que foi casado com Penélope Cruz e que dessa perfeita relação nasceu um filho, um belo rapagão, registado na freguesia de São Sebastião da Pedreira, com o nome de Telémaco Dionísio da Silva. Penso que estas coisas também não constituem novidade, seja para quem for. Afinal de contas, na net, descobrem-se estórias fantásticas e a interactividade é tão absorvente que folhear livros torna-se tarefa morosa e chata c'mo caraças! Sobretudo para quem sofre de preguiça mental, como é o meu caso. É evidente que isto teria outra piada se fosse uma estória inédita, mas vou fazer um esforço cerebral na tentativa de não repisar os lugares comuns da célebre Odisseia, sob risco de me tornar repetitivo. Sendo assim, só vos peço um pouco de paciência para ler a minha versão da estória. Prometo-vos que vou tentar sintetizá-la o máximo que puder. Nem vou começar por "Era uma vez (Once upon a time, para inglês ver)", justamente para não perder tempo. Então, cá vai:
Ulisses participou na famosa guerra de Troia, travada, obviamente, na península com o mesmo nome, com o seu não menos notável cavalo de Troia, um puro sangue lusitano por excelência. Contudo, a arte de cavalgar não era, definitivamente, o seu forte. Não por não ter querido ou sabido tirar proveito do "Livro de Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela" de El Rei Dom Duarte, mas porque essa publicação só seria editada pela Livraria Bertrand (passe a publicidade) milhares de anos mais tarde. Depois, a cavalo dado não se olha o dente, como é comum dizer-se; isto porque o bicho tinha sido uma oferenda do deus Árion, também ele, um cavalo dos quatro cascos (quatro costados soava mal neste contexto e, efectivamente, Árion tinha quatro cascos).
Isto dava outra estória e não vos quero maçar. Continuando:
Assim que despachou os gregos para Ítaca, regressou a Olissipóna donde era natural.
Quanto aos gregos, coitados, viram-se à rasca (para não repetir gregos) para voltarem ao mar Jónico, pois, em vez de virarem à esquerda, a seguir a Vila Real de Santo António, navegaram sempre em frente e foram parar ao Cabo das Tormentas. Foi o cabo dos trabalhos (para não repetir tormentas) para evitarem o gigante Adamastor, mas lá conseguiram arrepiar caminho. Apesar disso, foi uma experiência de arrepiar os cabelos!
Lá, no Cais das Colunas (nesse tempo ainda não existia a Torre de Belém, local donde partiam e chegavam as naus catrinetas), era aguardado com impaciência desmedida por Cérbero, um possante cão com três cabeças, e um grupo mais ou menos numeroso de indivíduos de porte atlético e caras de poucos amigos que, tal como o canídeo, queriam apossar-se do reino e, por inerência, da bela Penélope que, como sabem, era um belo pedaço de mulher. Como eram em maior número que o dos tripulantes do seu navio, nem ousou acostar; aproveitou a maré alta e deu às de vila diogo, rumando até à terra dos Mitófagos, uma gente muito esquisita que se alimentava de mitos. Ora, como o próprio era um mito, entendeu que era vital preservar a sua lenda.
Prosseguindo a sua odisseia, foi parar ao país dos Ciclopes, assim chamados por possuírem apenas um olho no meio da testa. Por lá se demorou algum tempo à procura de Biciclopes, espécie, infelizmente, em vias de extinção naquelas paragens. Porém, o que encontrou foi o gigante Polifemo que lhe engoliu oito companheiros, de uma assentada, enquanto esfregava o olho. Todavia, o nosso herói, num assomo de coragem, bravura, intrepidez, destemor, arrojo (passe a prolixidade) e sede de vingança, espetou-lhe uma lança no olho que o deixou ceguinho, só para não se armar em hominívoro.
Entretanto, em Olissipóna, os candidatos a usurpadores, inclusive Cérbero, não paravam de assediar a sua amada esposa, naturalmente à vez para não gerar tumultos.
Penélope que, além de ser gira, era muito esperta, embora sagaz, de qualquer modo extremamente arguta e de rara inteligência, disse que só assumiria compromissos com todos os candidatos, inclusive Cérbero, quando terminasse um tapete de Arraiolos, o que, para aquele tempo recuado, demorava uma eternidade. Toda a gente anuiu, inclusive Cérbero e até o canito Argos que, embora não fosse cão que não reconhecesse dono, apenas identificava Ulisses pelo cheiro porque tinha cataratas e, pelo menos, era dono do seu nariz, como mais adiante comprovarei, se tiver tempo de terminar a estória.
Enquanto isto, o nosso herói prosseguia a sua odisseia, aportando à Eólia, terra inóspita e muito tempestuosa, onde morava com a sua esposa, Rosa dos Ventos, um deus com duas cabeças: vento de Norte e Suão, o qual lhe ofereceu um saco cheio desses ventos antagónicos para o que desse e viesse. Parecendo que não, podia dar algum jeito, em face do tempo não ficar de feição para a marinhagem. Só que um marinheiro mais afoito ou descuidado abriu o saco e foi um ar que lhe deu (ao marinheiro), pois os ventos de lá saídos foram tão violentos que projectaram o pobre diabo a muitas milhas de distância. Assim, Ulisses teve de adiar a partida, cerca de vinte e quatro horas.
No dia seguinte, conseguiu seguir viagem por mares nunca dantes navegados, indo atracar numa ilha onde vivia uma bruxa boazinha, chamada Circe que, como é consabido, era muito versada em maus olhados, males de inveja e de amor, inclusive males de vesícula.
A pedido de Ulisses conseguiu transformar oito jovens suídeos, uma espécie de mamíferos bunodontes extremamente parecidos com o homem e abundantes naquela ilha, num grupo de marinheiros altos e garbosos que nem Adónis se lhes comparava. No entanto, isso tinha um preço, e o preço era o nosso herói e a sua tripulação permanecerem na ilha por tempo indeterminado, submetendo-se aos seus caprichos e feitiços; e Ulisses rendeu-se às suas condições de bom grado. Até porque a cachopa era um encanto, diga-se em abono da verdade.
Entretanto, em Olissipóna, apertava-se o cerco à bela Penélope que, em desespero de causa, decidiu usar um estratagema muito conhecido, mas sempre com óptimos resultados: fingiu fazer o tapete durante o dia e desfazê-lo durante a noite. Tal estratégia resultou muito bem, conseguindo, assim, adiar o que se comprometera a fazer, dado que o tapete não passava de um simples naperão.
A malta estava a ser bem embarrilada pela Penélope, não se apercebendo disso porque passava o tempo todo a olhar para Telémaco que ia crescendo a olhos vistos e não tardaria muito a transformar-se num homenzinho de barba rija.
Na terra dos Cimérios, para onde prosseguira muito tempo depois, a sua epopeia (só para não repetir odisseia que é chato) devido ao longo idílio com Circe, Ulisses encontrou um tipo chamado Tirésias, um fantasma muito parvo (não obstante ser alto), que se entreteve todo o santo tempo a mostrar-lhe alminhas penadas do outro mundo. Como se isso não bastasse, aconselhou o nosso herói a oferecer um sacrifício, mesmo pequenino, ao pai do Polifemo que chorava copiosa e ininterruptamente (só de um olho), há mais de dez anos, desde que o filho ficara ceguinho (só de um olho). Ulisses assentiu sem discutir e cortou o dedo mindinho que ele, nestas coisas, era muito supersticioso.
Muito mais tarde, já velhinho e cansado de navegar, após ter passado por muitas terras, ter conhecido muitas culturas, usos e costumes, criaturas estranhas, deuses e deusas de vários tamanhos e feitios, eis que um mar chão e um canto docemente apelativo proveniente de uma ilha chamada Lesbos, quase que o convenceram e à sua tripulação a ir no canto das sirenes. Porém, ao chegarem mais perto da ilha, com Ulisses, bem amarrado ao mastro da sua trirreme e com algodão nos ouvidos (previamente avisado por Tirésias), fez orelhas moucas ao canto que, com efeito, era muito desafinado.
Penélope, continuava a fazer e a desfazer o tapete; e estava, naturalmente, mais velhinha e com tendinites cada vez mais dolorosas...
Na ilha de Hélios, o nosso conhecido Sol, os sobreviventes desta já longa odisseia, mortos de fome e calor, repararam numas lagostas suadas (permitam-me a liberdade de escrita, apesar de saber muito bem que estes bichinhos pertencem à família dos crustáceos decápodes) que aparentavam estar a pastar à sombra escaldante de uma azinheira. Vai daí, devoraram-nas ali mesmo. Até porque elas estavam a pedi-las, pois pareciam mais mortas do que vivas. É claro que Hélios não achou piada àquela cena e pediu a Poseidon que destruísse a embarcação de Ulisses com uma tempestade. O deus dos mares fez-lhe a vontade, mas o nosso Odisseu, estava destinado a sobreviver e sobrenadar, contra todas as perspectivas.
Penélope, fazia e desfazia o tapete com dores atrozes e artroses...
Ulisses, depois de nadar à deriva apenas com um braço enquanto o outro segurava a Odisseia, completamente exausto, só e perdido, foi dar à costa da Ogígia, onde conheceu Calipso, uma ninfeta insaciável, que o enfeitiçou com propostas lúbricas. Por lá permaneceu durante sete anos, mais coisa menos coisa, gozando que nem um perdido.
Penélope, fazia e desfazia o tapete (com os pés)...
Decrépito, com gonorreia e chupado das carochas, fez-se novamente ao mar, a nado, sempre com a Odisseia debaixo de um braço e rumou até à terra do seu tio Alcino que, ao escutar a sua maravilhosa epopeia (ou odisseia) condoeu-se de tal forma que chorou compulsivamente até ficar sem lágrimas. Como resultado de tanta compaixão pela estória do sobrinho, ofereceu-lhe um batel no qual o nosso herói tentou viajar até Olissipóna.
Contudo, com o mar encrespado, a falta de instrumentos de navegação e a sua conhecida dificuldade em viajar interpretando as estrelas, tudo se conjugou para que Poseidon o levasse a uma terra desconhecida, para além do Mar de Atlas, cujos habitantes tinham a pele vermelha, provavelmente por via dos enormes escaldões que apanhavam. Convém relembrar que os protectores solares estavam longe de serem inventados.
Todavia, não era, garantidamente, Hélios, mas a terra prometida, um verdadeiro sonho por desbravar.
Montes de séculos mais tarde, um explorador viquingue, chamado Américo Leif Erikson (Erikson por parte do pai que era natural de Trás-os-Montes) deu-lhe o nome de América, não se sabendo, ainda hoje, a razão de tal denominação, pois reza esta estória que era do género masculino...
Aí viveu Ulisses, doente, o resto dos seus dias, que não foram muitos, na companhia de Matryoshka, uma mulher de origem eslava, muito matreira, que, contudo, era a cara chapada da sua amada esposa, Penélope. Enfim, quem vê caras...
E pronto; como é habitual nestas estórias, o desfecho é muito rápido; diria, até, brusco. É difícil comprimir uma estória tão extensa, mas foi o melhor que consegui fazer. Assim, destaquei as passagens mais importantes, segundo o meu ponto de vista, tendo em vista fazer vista grossa ou, pelo menos, não dar nas vistas. Julgo que o resultado está à vista. Para algumas pessoas, é natural que não esteja à vista desarmada, mas não é obstáculo que um bom par de óculos não possa corrigir.
Penélope morreu a fazer e a desfazer o tapete (só com um pé), Telémaco herdou o reino de Olissipóna, cheio de buracos e calotes (já nesse tempo, imagine-se!) e Argos morreu, velho e cego, sempre a cheirar o ar à procura do dono. Morreram todos, certamente, mas ficou o legado da Odisseia, erradamente atribuído a Homero. Julgo, aliás, que o poeta plagiou alguns cantos de Os Lusíadas, mas isso dava outra estória.
Espero que tenham gostado. Eu gostei muito, mas sou suspeito.

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CAMÕES

por João Brito, em 10.06.20
Primeira estrofe do Canto I, dos Lusíadas:
 

camões2.jpg

As armas e os Barões assinalados,
(Porém, jamais apanhados),
Que da Ocidental praia Lusitana
(Sumiram com toda a grana)
Por mares nunca de antes navegados
(Submergiram e não foram achados)
Passaram ainda além da Taprobana
(Bermudas, Granada e Guiana)
Em perigos e guerras esforçados
(Por avara riqueza se viram ousados)
Mais do que prometia a força humana,
(Todavia, exaltando a mente insana)
E entre gente remota edificaram
(Com mais valias que daqui levaram)
Novo Reino, que tanto sublimaram,
(Em édenes que alcançaram)
 
Nota breve sobre o olho de Camões: sei que, segundo reza a história, o poeta perdeu o olho direito numa peleja (há quem sustente a tese de que foi o esquerdo e ao jogo). Todavia, deixo essas conjecturas ao vosso juízo a priori ou a posteriori; é igual ao litro.

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