Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

RITOS E CELEBRAÇÕES DO CAMINHAR

por João Brito, em 07.04.22

é urgente o amor1.jpeg

Ando pelas ruas de Lisboa, é uma quente tarde de sexta-feira, as ruas estão quase despovoadas e as raras pessoas que caminham são pessoas possuídas por uma tristeza amável.
Dos velhos muito velhos, apenas dois velhos muito velhos estão sentados num banco de jardim. Não conversam: trespassam-se com o olhar, estão a ver para lá de tudo, para aquém de tudo.
Um cego avança pelo fio do passeio, junto do qual estão estacionados dezenas de automóveis, enquanto avança com todos os outros sentidos despertos. Surge um indivíduo aos gritos:
- Ó sua besta, então não vê o que anda a fazer?
O cego pára, cativo de uma angústia tão imensa como um desprezo ou como um ódio. Ergue a bengala e agita-a:
- Onde é que você está, seu malandro, para lhe partir a cabeça?
Estão nisto: no domínio de uma espécie particular de indignação - a dos agredidos, que, afinal, são ambos. Ando e penso: é como se estivesse perto de mortos, sem manifestar o mínimo interesse por eles.
Outrora, a cidade era mais confortável e menos hostil. As pessoas, mesmo sem se conhecer, cumprimentavam-se. Não era a celebração da cortesia, nada disso: era, sim, um aceno, um sinal de presença. Agora, as pessoas parecem assustados retirantes de todos os sítios, porque se não sentem bem em nenhum deles. Há nas pessoas uma forma confusa de não estar em parte alguma e o desejo obscuro de estar em todas as partes. Cegos. São cegos sem bengala mas igualmente desencontrados. Os tempos tornaram as pessoas assim. As maneiras de comunidade, que ultrapassavam, pela fertilidade e pela constância, toda a nossa capacidade de imaginação, foram inclementemente derruídas. Vê-se: há outra gente que não é nova de rejeitar, anular e excluir os outros. O sentido da consagração da vida foi substituído pela exaltação do êxito, da pressa, da aspereza. Há predicados e entendimentos que foram banidos das relações; por exemplo: o da solicitude. E eu gosto de solicitude, uma discreta expressão da malícia, do humor e, até, da dignidade. Não há teoria que explique esse banimento.
Vejam só isto: quantos carrinhos de bebé, empurrados pelos pais jovens, se vêem hoje nas cidades?
Eu sei, senhores, ah!, se sei!, quanto foi penosa a batalha que nos conduziu a um patamar de liberdade. Porém, não devíamos, penso que não devíamos, ter deixado que muito do que é essencial se perdesse - até uma fatia de afecto, até uma pequena ração de amor.
Ando pelas ruas de Lisboa, é uma quente tarde de sexta-feira, as ruas estão quase despovoadas e as raras pessoas que caminham são pessoas possuídas por uma tristeza amável. O casal de velhos olhou-se e sorriu com doçura. Ela pegou nas mãos dele e afagou-as lentamente, sem deixar de o olhar, sem deixar de sorrir.
Lá no fundo, impercetível quase, um ponto se move, alarga-se aos poucos, contorna-se-lhe agora o vulto, o vulto é um homem grisalho, um homem de muito mundo, de passo largo e pesado. Olho-o e sou eu. Olho-me e sou a imagem devolvida de uma ostensiva paixão. E, de repente, simplificado e livre, percebo que sou o sujeito de uma oferta e de uma procura. A oferta do amor e a procura de felicidade.
Desesperadamente, como o cego ou como os velhos. Desesperadamente, como todos nós.
Do livro: Lisboa Contada pelos Dedos - Crónicas de Baptista Bastos (Abril de 2001).

Autoria e outros dados (tags, etc)

UMA ESTÓRIA COM MUITO SANGUE

por João Brito, em 28.09.21

uma estória com muito sangue.jpg

Um homem mau pega num telemóvel e digita um número. Alguém atende:

Homem mau:
- «Boa tarde, daqui fala o estripador de Lisboa e telefono só para informá-lo de que acabei de matar a sua esposa.»
Do outro lado:
- «O quê, como disse?!...Quem fala?»
Homem mau:
- «Parece-me que fui bem claro! Sou o estripador de Lisboa e assassinei a sua mulher há minutos!»
Do outro lado:
- «E foi onde?»
Homem mau:
- «Foi em sua casa.»
Do outro lado:
«E como foi?»
Homem mau:
- «Matei-a com uma dúzia de facadas.»
Do outro lado:
- «Sangrou muito?»
Homem mau:
- «Um bocadinho, fiquei todo salpicado!»
Do outro lado:
- «E a alcatifa?»
Homem mau:
- «Ficou toda ensanguentada, o que é que esperava?!»
Do outro lado:
- «Você faz ideia de quanto me custou a porra da alcatifa?»
Homem mau:
- «Lá por isso eu pago-lhe a limpeza da merda da alcatifa; não é preciso ficar para aí todo abespinhado, homem!»
Do outro lado:
- «Sempre ajuda! Se você pensa que tenho para aqui alguma árvore das patacas, desengane-se!»
Segue-se um momento de pausa no diálogo e o homem mau prossegue:
- «Pensando melhor: não acha ilógico ser eu a pagar, depois de lhe ter comunicado o homicídio da sua esposa?»
Do outro lado:
- «E você ainda acredita na lógica das coisas? Não repara no que se passa ao seu redor, mais a mais, confessando ser um assassino da pior estirpe? Fico com a clara impressão de que não passa de um amador!»
Homem mau:
- «Visto desse ângulo... e quanto ao amadorismo, deixe-me dizer-lhe que sou credenciado e tenho boas referências. Ademais, fazendo jus a um avito familiar, não menos famoso!»
Do outro lado:
- «Com tão excelentes alusões, ao menos podia ter usado uma pistola com silenciador. Teria sido uma morte mais limpa e rápida e escusava de incomodar a vizinhança; ela deve ter gritado bastante, coitadinha! Não sou especialista, mas presumo que bastava apontar-lhe directamente ao coração e teria evitado a porcaria e, quiçá, o sofrimento que causou!»
Homem mau:
- «De facto, desta vez, não ponderei os prós e os contras. No entanto, deixe que lhe diga que, habitualmente, não uso armas de fogo; e não dramatizemos tanto esta estória porque a sua consorte, afinal, só gritou um bocadinho, não foi nada de especial, fique tranquilo. Queira aceitar, desde já, as minhas desculpas e aproveito o ensejo para lhe manifestar as minhas mais sinceras e profundas condolências...»
- «Ah, como quer que lhe pague a limpeza da alcatifa? Aceita transferência bancária ou mando-lhe um cheque?»

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D