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INSÓNIA

por João Brito, em 26.10.21

insónia.jpg

INSÓNIA

 

A manhã mal acordada
O intervalo do cigarro
O oceano escancarado
Vejo o Tejo a beijá-lo

No paraíso replantado
A eternidade embrutece
No lusco-fusco da placa
Quebro à saudade, anoitece
 
 
 
                                                          No quarto, matuto o tempo              
                                                          Esquadrinho o calendário
                                                          Risco o dia no armário
                                                          Penduro o fardamento

                                                         Trezentas páginas de encanto
                                                         Repousam brancas sobre a mesa
                                                         O diluente da tristeza
                                                         Torna mais espesso o meu pranto

                                                         Mortalha queima, mal a sinto
                                                         Derramo o último chuveiro
                                                         Enquanto, alheio, o dia teima
                                                         Perpetua-se noite adentro

                                                        Quiçá Morfeu se compadeça
                                                        Das minhas penas e me ofereça
                                                        O prazer sublime do seu colo
                                                        E extinga enfim meu pensamento

Composição poética criada a partir de uma carta que escrevi a alguém, há mais de quarenta anos, durante a minha comissão na guerra da Guiné. A autoria é do Zé Resende, poeta e músico nas horas vagas.
Lamentavelmente, perdi o rasto dessa carta...
 
A fotografia (Base Aérea de Bissalanca) é do António Esteves. Não sei se é vivo ou se é morto...

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A INSÓNIA

por João Brito, em 01.10.21

a insónia.jpg

"Quem nunca teve uma ou outra insoniazinha, faça o favor de atirar a primeira pedra, mas, primeiro, certifique-se de que não tem telhados de vidro"

(Alfred Hitchcock - why not?)

Comecemos, então, pela sua definição: A insónia é, etimologicamente, o oposto de Sónia, como já devem ter adivinhado. Para quem não tiver tal condão (o dedo mindinho também serve), eu explico:
Sempre que a Sónia diz que está com dores de cabeça, a coisa pode complicar-se e redundar em insónia. Porém, isto não se aplica ao oposto de Paula: impaula, o qual não faz qualquer sentido (não confundir com impala, pois, neste caso, é um caso sério).
Sob o ponto de vista médico (consultar Dicionário Básico da Língua Portuguesa de Manuel Gervásio da Silva), insónia é um termo que engloba as várias perturbações do sono, entre as quais se destaca a dificuldade em dormir. É claro que não se pode estabelecer qualquer termo de comparação com sonoplastia, pois, aqui, trata-se de uma operação plástica realizada durante a apneia do sono.
Também não devemos confundir insónia com sonambulismo nem com funambulismo: hábitos e artes que tornam algumas pessoas muito activas durante o sono e outras equilibristas, preferencialmente durante o dia, respectivamente.
Perturbações do sono podem ser, por exemplo, não adormecer; não acordar; adormecer e acordar no Paraíso rodeado de anjinhos ou, na pior das hipóteses, adormecer e acordar no Inferno a suar as estopinhas com um gajo chifrudo ao lado.
Também se pode adormecer e acordar a meio da noite à rasca para mijar ou adormecer na nossa cama e acordar na cama da Natércia, a vizinha do lado, cujo marido é embarcadiço; adormecer e acordar depois de passar trinta anos em coma profundo; adormecer em Lisboa e acordar em Shangri-La com menos um rim ou um pulmão, et cetera.
Há casos, devidamente assinalados, de pessoas que não conseguem adormecer sem um ursinho de peluche ou sem dar, pelo menos, três sem tirar.
Li, algures, que um estudo (os famosos estudos, topam?) efectuado por um grupo de cientistas americanos (sempre os mesmos, cagandas malucos!) provou que praticamente cem por cento deles sofria de insónias.
As causas eram as mais variadas e o estudo causou muitas dores de cabeça aos estudiosos, para além das insónias. Presumo que deve ter sido bestialmente doloroso.
Este estudo não foi conclusivo, e ainda bem - digo eu - porque estes estudos estrangeiros não servem de exemplo seja para o que for. É mais aquela nossa mania pacóvia de pensar que os estudos estrangeiros são melhores do que os nossos; que merda de auto-estima!
Mesmo assim, parece mais que provado, embora não hajam provas - passe a contradição - , que a insónia é um fenómeno global.
O modo de combater a insónia diverge um pouco de país para país, mas tomemos como exemplo, talvez, a forma mais universal de lutar contra este flagelo:
Um indivíduo de meia idade, sei lá, para aí setentas e tais (contando com o aumento da esperança média de vida) que costuma ir deitar-se por volta das cinco da matina e não consegue dormir até às sete, hora a que toca, habitualmente, o despertador para ir trabalhar (contando com o aumento da idade da reforma para os oitenta). O sujeito experimenta tudo o que vem no manual anti-insónia: contar carneiros (um clássico); escutar a emissão nocturna da RR em ondas médias; ler e reler um qualquer romance do José Rodrigues dos Santos, omitindo todos os substantivos próprios, advérbios de modo e de lugar e experimentando, depois, ler a obra do fim para o início. Se, mesmo assim, não conseguir cerrar os olhos, um serrote pode surtir algum efeito, embora não seja garantido.
Em jeito de conclusão (já não sei o que hei-de escrever mais, para fechar isto com chave de bronze, pelo menos), penso que o melhor remédio para combater a insónia é deixarmos de pensar na liquidez da conta-corrente quando vamos para a cama.
Olhem, experimentem dar uma boa queca (normalmente são precisas duas pessoas adultas, independentemente do género) até caírem para o lado. Na impossibilidade de obter parceria no acto, tentem outras formas lúdicas, igualmente satisfatórias que vos levem a um estado de relaxamento e sonolência. Por exemplo, calcular quantas telhas existem no telhado da casa, ou edifício onde residem, fixando os olhos num determinado ponto do tecto, sem os desviar um milímetro.
Durmam bem e, parafraseando alguém muito querido que já não está entre nós: "Façam o favor de ser felizes!"

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