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MAOMÉ E O ANJO GABRIEL

por João Brito, em 03.10.21

maomé e gabriel.jpg

É consabido que alguns textos sagrados da pregação original têm colocado a tónica no fim do mundo terrestre, várias vezes adiado ao longo da história da Humanidade (só Deus sabe), na condenação eterna dos pecadores, mormente dos ricos e profanos, e na felicidade perene dos justos, sobretudo dos desafortunados.

As recompensas divinas são a "subida ao Céu" sem passar pelo "Purgatório" - este último, assim a modos, uma espécie de limbo - e o direito à "felicidade eterna" na companhia de "setenta e duas virgens" sem burca. Estas são, segundo as veneráveis obras, as compensações celestes para os cristãos e muçulmanos, respectivamente.
A talhe de foice, confesso que trocaria de bom grado a "felicidade eterna" dos cristãos pela dos muçulmanos, dispensando a obrigação chata de ser mártir e também o exagerado número de virgens, evidentemente.
Remoques à parte, prossigamos, então, com o breve relato da fantástica aparição do "mensageiro de Deus" a Maomé:
Estava Maomé, nos subúrbios de Meca, a reflectir acerca das diferenças - subtis - entre o Velho Testamento e o Corão e, enquanto meditava sobre estes dogmas, ia bebendo uns goles de aguardente de medronho, como era seu hábito.
Tão absorto estava nos seus pensamentos que quase não se apercebeu da chegada ruidosa de um objecto voador de asa rotativa - o vulgar helicóptero dos nossos dias - vindo dos confins do firmamento. O piloto - um anjo - , depois de o ter imobilizado a seis passos dali, postou-se altivamente na sua frente, dizendo-lhe:
«Olha lá, pá, sabes quem sou, hã?… Eu sou o anjo Gabriel!»
«Tá bem, filho, e eu sou o Professor Marcelo!» - murmurou, entre dentes o profeta, cheio de tédio pela presença daquele cabotino estupidamente alto e loiro.
O anjo puxou do seu "smartphone", digitou qualquer coisa e ordenou-lhe:
«Lê, homem de Deus!»
«Foda-se, mas eu não sei ler!» - protestou Maomé que era efectivamente analfabeto e vivia raladíssimo com isso.
«Lê agora, vamos lá! E tento na língua que já me estou a passar!» - ordenou-lhe novamente o anjo, impaciente.
Desconfiado, como qualquer maometano que se preze, ou ele não fosse Maomé, olhou para o dispositivo e conseguiu ler:
"Ó tu que vives alheado, levanta-te e admoesta! Exalta o teu Senhor, purifica as tuas vestes, afasta-te das tentações do diabo, abomina a fornicação (...)".
«Estás a ver como foi bom induzir-te um curso de alfabetização XXF (Extra Extra Fast ou, em bom português de Portugal, às três pancadas) do nosso Centro Celeste das Novas Oportunidades, Meca and Medina (não confundir com o Fernando Medina) Incorporated?» - disse o anjo, enquanto punha o zingarelho a trabalhar. «Hoje em dia, a fé sem Marketing, já não cola, mano!» - acrescentou, já no ar…
«Milagre, milagre, já sei ler! - berrava Maomé, finalmente convencido pelo anjo e convicto da eficácia das Novas Oportunidades. Na verdade, nunca tinha completado a primeira classe da instrução primária e, ademais, passava todo o tempo na reinação com uma sobrinha do Moisés, só regressando a casa no dia seguinte com o sol já alto.
«Vai mas é jantar que estas coisas abrem o apetite!» - gritou-lhe Gabriel que já se esfumava nas nuvens. «E da próxima vez que te visitar, podes tratar-me por Gabi!» - disse ainda.
Maomé correu para casa, eufórico...
Refeito daquele magnífico encontro com o anjo, conseguiu finalmente contar o sucedido à sua esposa. Ela, sabendo da sua grave dependência do álcool, deu-lhe um par de bofetões, bem assentes, nas fuças e obrigou-o a um Ramadão de doze meses por causa do hálito intenso a aguardente. 

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ESTÓRIA DE NATAL

por João Brito, em 21.12.14

contos de natal.jpg

Certo dia, Elohim nomeou um emissário chamado Gabriel para ir anunciar a boa nova a Maria, uma mulher idosa(*), natural de Nazaré.
Porém, Mefistófeles, Seu eterno arquirrival, arquétipo da maldade suprema que, além de ser um excelente mimetista, era um mulherengo compulsivo, aproveitou-se da distracção momentânea do Criador, disfarçou-se de Gabriel - o qual fizera desaparecer de cena - e foi ao encontro da virgem Maria Nazarena que, não obstante o tempo lhe ter roubado a graça da juventude, ainda despertava no mafarrico apetites lúbricos. Ou não fosse Mefistófeles!
Assim que aterrou a máquina voadora na qual se fizera transportar desde algures(**) no infinito celeste, disse a Maria:
«Salve, ó afortunada virgem, o Senhor está contigo!»
Não compreendendo muito bem o significado das palavras do seu interlocutor, Maria esboçou um gesto de dúvida e, naturalmente, temor. Porém, Mefistófeles prosseguiu:
«Não tenhas receio, mulher! Ele enviou-me para te dizer que vais ser mãe brevemente; mais vale tarde do que nunca, n'é verdade?... Vai ser um rapaz vigoroso, fica tranquila. Está escrito que vai chamar-se Salvador. Gostes ou desgostes, é o que vai constar na Sua certidão de nascimento!»
«Mas eu não sou casada, meu senhor! Além disso, já não tenho idade para conceber, valha-me Deus!»
«Não te rales, Maria! Ele é omnisciente, tudo pode e tudo sabe; e, além disso, passa ao lado desses pequenos pormenores de ordem burocrática.
Prepara-te que o tempo urge. É de Sua indelével vontade que o menino solte o primeiro vagido no dia 25 de um mês de Dezembro. Apressemo-nos, pois, para cumprir os Seus desígnios. Quanto mais depressa for feito, mais depressa contentaremos o Senhor! Quando o sol se puser, unge-te com óleos perfumados e espera por mim que, em nome de Deus, depositarei em ti a semente do Divino Espírito Santo.
Então, Maria, disse:
«Nesse caso, faça-se a Sua vontade: vou ser escrava do Senhor!»
Passaram-se meses...
José era um homem porreiro, mas tudo tem um limite, mesmo para os valores daquela época em que as normas de boa conduta não eram tão filtradas como actualmente. É claro que, quando despontaram os primeiros sinais da gravidez de Maria, José, não sendo seu esposo, pensou que não estava para se casar com uma mulher impura. Ainda se fosse jovem e formosa, vá que não vá! O que é que iriam pensar dele? É que, apesar de tudo, naquele tempo ainda havia muito preconceito...
Numa noite, no regresso a casa, após uns copos e umas horas de reinação num lupanar de Séforis, cidade onde exercia o seu ofício de carpinteiro, teve uma visão. Vindo do nada, apareceu-lhe um tipo louro, alto, bem vestido e ligeiramente enxofrado que, laconicamente, lhe disse:
«José, filho de David, o Senhor ordena-te que não rejeites Maria. O fruto que ela traz no ventre é o Filho de Deus. Trata de casar com ela quanto antes, pois essa é a determinação do Senhor!»
No dia seguinte, acusando o efeito de uma noite de boémia, José não ligou grande importância ao sucedido, pensando que se tinha tratado de mais um sonho provocado pelo excesso de aguardente de medronho. Porém, no seu subconsciente, bem lá no fundo, sentia que não podia deixar a pobre criatura de Deus entregue a um destino de mãe solteira. Estava escrito.

Epílogo:
Elohim nunca soube que Mefistófeles Lhe tinha passado a perna, mais uma vez, e tal desconhecimento ou alheamento, como lhe quisermos chamar, adiou o primeiro cisma da cristandade. Contudo, nunca ficou provada a origem da paternidade do Salvador. E, mesmo à luz dos conhecimentos científicos actuais, a verdade, custe o que custar, ficará sempre por apurar. Penso que foi melhor assim porque senão o Natal não teria graça.

(*) Segundo os Evangelhos, a idade da Santíssima Virgem Maria, à altura do encontro, com o "enviado do Senhor", seria de doze anos. Ora, como não quero ser processado por publicar conteúdos pedófilos nas minhas estórias, decidi acrescentar muitas décadas à idade da Senhora para não ferir susceptibilidades.
Depois do episódio da aparição, José não relevou o acontecimento e passou a ter relações sexuais regulares com a Mãe de Jesus, fazendo-lhe mais quatro filhos: Tiago, José, Simão e Judas. Tratou-se, como é evidente, de um verdadeiro milagre. Não está posta de parte a teoria de que foi obra do Senhor.
(**) Há algumas teses que referem a existência de um lugar inóspito chamado inferno e associam-no, pela lógica, a Mefistófeles, mas penso que isso são especulações Dantescas.

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