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A MINHA VELHA ESCOLINHA

por João Castro e Brito, em 23.02.23

a minha velha escolinha.jpg

Há uns anitos, tinha publicado um texto acerca da minha velha escolinha, num blogue que jaz morto e arrefece. Há factos que nos marcam de tal forma para sempre que vão permanecer até a nossa memória começar a falhar. Assim, recupero um artigo que tenho muito gosto em partilhar com quem passar por aqui pra deitar o rabo de boi a isto.
Como ia a dizer, a minha querida e velha escolinha, felizmente, continua lá, de pedra e cal e em actividade. Se bem que um pouco descuidada. Pelo menos, continuava quando me deu uma fúria de saudade e fui visitá-la há meia dúzia de anos.
Tinha deixado de cumprir o seu papel básico, mas fundamental, de ensinar as primeiras letras e os primeiros algarismos aos meninos. Todavia, a mudança não foi menos nobre, pois passou a ensinar a representar. Sim, era (não sei se continua a ser) uma escola de teatro.
Mas, volvendo à vocação original da minha velha escolinha: Foi lá que, como disse, aprendi as primeiras letras e os primeiros algarismos. Além disso, aprendi que Portugal era o melhor país do mundo e que vencera todas as guerras travadas com a Espanha.
Aprendi que era um país de gente boa e muito cordata e que o Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar também era boa pessoa e zelava pelo bem estar de todos os portugueses. Assim como o Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, de quem era muito amigo.
Aprendi que as meninas e os meninos não podiam estar juntos nas escolas. Por isso, no meu tempo, haviam as escolas masculinas e as escolas femininas. E até havia uma escola feminina, paredes meias com a minha velha escolinha, onde estava a minha primeira namorada, a Fernanda, que também morava na minha rua; na nossa rua a bem dizer.
Aprendi, com a Fernanda, a dar o primeiro beijo. Quer dizer: não aprendi com ela. Ou por outra: aprendemos juntos. E também íamos juntos para as nossas escolas, mas não íamos de mãos dadas porque ela era mais alta do que eu e eu tinha vergonha de ir de mãos dadas com a Fernanda. Coisas de miúdos.
Foi na minha velha escolinha que, pela primeira vez, senti nas palmas das mãos o efeito doloroso das reguadas. Também senti o efeito discriminatório dos "métodos" de ensino de alguns professores ao separarem os meninos, nas salas de aulas, em "filas dos burros" e "filas dos espertos".
Também foi lá que comi a sopa que era destinada aos meninos pobres, com a condição de tomar uma colher de óleo de fígado de bacalhau. Havia fome e raquitismo em Portugal. Era em 1959 e eu era um menino pobre...
Foram tempos que não se recuperam, mas quando passei por lá, percorrendo os mesmos caminhos que percorria quando tinha sete anos, pareceu-me não ter decorrido muito tempo e são daqueles momentos que dão uma vontade tramada de chorar, mas de chorar descontroladamente.
Quando me der na bolha, se ainda cá estiver, faço mais uma romagem de saudade até à minha velha escolinha para sentir uma estranha, mas boa nostalgia da minha infância: pobre, mas feliz. Sim, posso dizer que, por muito paradoxal que pareça, tive uma infância feliz.
E, mais uma vez, aqui fica o testemunho e os meus eternos amor e gratidão à minha velha escolinha.

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NO TEMPO DA OUTRA SENHORA

por João Castro e Brito, em 01.05.22

no tempo da outra senhora.jpg

Havia gente que era presa, torturada e morta pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) por contestar o regime; havia gente cuja miséria era tão desesperante que a obrigava a ir a salto para a França; havia gente que vivia em barracas nas periferias das grandes cidades; havia uma guerra ultramarina com três frentes: Angola, Moçambique e Guiné. Um esforço de guerra que aumentava a nossa pobreza e nos distanciava dos elevados padrões de crescimento dos países europeus mais desenvolvidos. Uma guerra que obrigava ao sacrifício de milhares de jovens, nomeadamente dos provenientes das zonas rurais, cujas famílias, para subsistirem, dependiam do seu amparo; havia o exílio, forçado ou voluntário, de figuras públicas contrárias ao regime e, não raras vezes, o seu assassinato; havia as prisões políticas e os algozes do sistema; havia a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa, organizações paramilitares de integração ideológica; havia a censura prévia e a proibição de manifestações na via pública; havia a arregimentação de milhares de pessoas para virem periodicamente a Lisboa, à Praça do Comércio, louvar o Salazar; havia a repressão policial sobre os movimentos de contestação estudantil e do operariado; havia uma Igreja que pactuava com a ditadura; havia um bispo, o do Porto, que era a excepção à regra e foi obrigado a exilar-se; havia o General Humberto Delgado que um dia, respondendo a uma pergunta, foi imprevidente afirmando que se fosse eleito Presidente da República, "obviamente", demitia o tirano, sendo morto na fronteira pelos seus verdugos; havia uma cadeira da qual o iníquo caiu e feneceu; havia uma certa "Primavera Marcelista", mas foi sol de pouca dura; havia a necessidade premente de acabar com a "Guerra do Ultramar"; havia a vontade popular de se juntar aos militares revolucionários naquele memorável dia; havia muito para fazer há quarenta e oito anos; havia...

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