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UMA ESTÓRIA DE ESPIONAGEM COM UM FINAL FELIZ

por João Brito, em 22.10.21

uma estória de espionagem com um final feliz.jpg

Escusado será dizer que qualquer tentativa de pesquisa sobre as personagens e acontecimentos aqui narrados, será em vão porque não vem descrita na Wikipédia.

Reza, então, segundo esta estória, que Francisco Toucinho, um cidadão luso-algarvio, terá sido um grande espião do princípio do século XX. Parece ser um facto inquestionável, mas pode ser revogável e o que mais houver a terminar em "ável"...
Em pequenino até lhe chamavam, carinhosamente, "o cheirinha", pois já tinha aquela tendência inata para meter o nariz onde não era chamado e, como se isso não bastasse, o petiz também gostava de meter o bedelho, vá-se lá saber porquê.
Já crescidinho, passou a ser conhecido por alguns pseudónimos entre os quais destaco: Chico Bacon, Chico Zarolho, Big Foot e Pé-curto porque, efectivamente, tinha dois pés: um comprido e um curto.
Presume-se, embora sem confirmação oficial (por isso é que se presume), que foi o primeiro agente secreto "free-lancer" da família Toucinho a espiar por encomenda e a cachet. Aliás, Toucinho, até tinha uma tabela de preços, contabilidade organizada e tudo o mais!
Francisco Toucinho foi pai de uma filha da mãe incógnita que lhe seguiu as pisadas, aliás, fáceis de identificar por via da particularidade dos pés, como já  tinha sobredito.
Um dia, juntaram-se os dois à esquina (pai e filha), disfarçados, respectivamente, de concertina e solidó, e Josefina - chamemos-lhe assim, dado o carácter ultra-secreto da operação em que ambos estavam, mais uma vez, envolvidos - decidiu revelar ao pai que ia romper a sociedade. Queria estabelecer-se por conta própria devido à provecta idade do progenitor, mais a mais com a agravante dos seus pés já não terem a agilidade de outrora. Para não dizer da preocupante falta de visão, devida à falta de um olho que perdera numa disputa, tipo desforra olho por olho, em que valia tudo menos arrancar olhos e dentes, mas, pronto, foi apenas uma pequena contrariedade.
Assim que o pai se reformou, Jojo (chamemos-lhe assim para poupar letras) abriu uma oficina de espionagem, provisoriamente, num vão de escada e só muito mais tarde e após alguns melhoramentos, passou, definitivamente, para um elevador. Isto porque o seu lema era o de que mais valia definitivo definitivamente do que provisório provisoriamente.
Foi a espiar por conta própria que desabrochou em todo o seu esplendor e sensualidade. De tal forma que não havia mácula que lhe retirasse a graça da plenitude da sua feminilidade. Pode-se mesmo afirmar que, ao pé dela, até o milho era ruim.
Depois de se separar do pai, passou a andar de faca na liga o que lhe deu fama de má pinta porque estava sempre com os humores. Mas Jojo já era assim desde pequenina: uma rapariga com muita pinta e cheia de caprichos.
O mau feitio não a coibia de escancarar a porta de casa a muitos espiões que a vinham espiar, rendidos aos seus encantos e ao relato, na primeira pessoa, das suas peripécias furtivas nos vários cenários onde operou.
Simultaneamente matava dois ou mais coelhos com uma cajadada porque, sob a brancura alva dos lençóis, no meio do envolvimento carnal, confessavam-lhe os segredos de estado mais bem guardados do continente europeu e arredores, inclusive de Portugal que estava longe de pertencer à Europa.
Chegou a matar dez ao mesmo tempo, o que era obra! Ora, espiando conjuntamente muitos países, isso dava-lhe um jeitão do caraças!
Foi então que surgiu, nesta estória, outro agente secreto, um tal Anacleto Périplo Pinto, cujo nome não vou revelar, a pedido do próprio, um papa-léguas do camandro, por força das várias missões (secretas) de que estava incumbido.
Era um tripeiro dos quatro costados, muito feio e  mausinho como as cobras. O sujeito era mesmo do piorio; palavra!
Também não vem na Wikipédia, mas especula-se que tinha maus fígados (1), precisamente por via do veneno da mordida de uma víbora, de que tinha sido vítima em pequeno, não o matando, mas tendo-lhe provocado danos irreparáveis em ambos os fígados, particularmente a incapacidade de os desopilar, pois nunca mais se lhe viu uma gargalhada, tampouco um sorriso. Era o chefe da contra-espionagem do MI5 às segundas, quartas e sextas e do MI6, às terças, quintas e sábados. O domingo era dia de descanso.
Importa referir que Périplo Pinto tivera, há muito tempo, uma paixão assolapada por Jojo sem ela saber (evidentemente, senão não era assolapada!).
Mas antes de prosseguir com a narrativa, merece a pena destacar a morte do espião Francisco Toucinho, aliás Chico Bacon, aliás Chico Zarolho, aliás Big Foot, aliás Pé-curto, como cinco das mais tristes ocorrências da estória da espionagem de cá e além fronteiras de Schengen.
Como se sabe, apesar da omissão na Wikipédia, Toucinho e os seus pseudónimos tinham a cabeça a prémio, não constituindo qualquer surpresa no mundo dos serviços secretos europeus. As suas mortes, portanto, não surpreenderam os observadores mais atentos. Ademais, para além da idade avançada, tinham bicos de papagaio e pés de atleta (como se não bastasse terem quatro pés curtos e outros tantos compridos). A somar a isso, e não era pouco, sofriam de bronquite crónica e estrabismo. Ora, quando veio a "pneumónica" foi um ar que lhes deu. Ainda mudaram de ares, indo tomar ar para o Caramulo, mas já era tarde.
À semelhança do malogrado pai e seus pseudónimos, também Jojo tinha a cabeça a prémio por ser filha de quem era. Contudo, quando ia às compras, lá conseguia disfarçar-se de Lady Godiva montada num camelo branco e passar despercebida por entre as multidões, sabe Deus como.
Porém, Anacleto Périplo Pinto, andava de olho nela, já para não dizer com olhos de carneiro mal morto quando não arregalava o olho. Pudera, ela era de encher o olho e isso saltava aos olhos, caramba!
Um dia, Jojo e Alzira, dirigiram-se a Santa Apolónia, tomaram o vapor da meia noite, meteram-se num vagão cama e, sem pregar olho, pintaram a manta durante toda a noite...
Perguntam vocês, caros leitores e leitoras, com toda a legitimidade: "Quem é a Alzira?!"... Pois, também não sei ao certo quem era a Alzira, mas é irrelevante para esta estória. Certo é que Jojo e essa misteriosa mulher viajaram até Campanhã e aguardava-as uma manhã de intenso nevoeiro. Foi assim que a Alzira saiu da estória tão depressa como entrou, desaparecendo no meio de uma névoa muito densa.
Havia de chegar uma altura em que era inevitável prolongar o jogo do gato e do rato ou melhor: do gato e da rata.
Chegado esse momento tão próximo e crucial para o desfecho desta estória que já vai longa c'mo caraças, o chefe da contra-espionagem, Anacleto Périplo Pinto, abeirou-se da plataforma onde o vapor acabara de estacar, aproximou-se discretamente de Jojo que já estava apeada, apertou o gatilho da sua pistola Luger e disparou, à queima-roupa, vomitando restos de tripas à moda do Porto. Estranhamente, vomitava tripas à moda do Porto, sempre que disparava a sua Luger. Vá-se lá saber a razão de tal anomalia...
Atingida em cheio no regaço, apesar do impacto quente e viscoso da matéria, Jojo não perdeu o sangue frio, tampouco o quente:
«Seu desajeitado - disse ela, limpando o vestido e as meias de liga, conforme pôde, com um lencinho de seda de cor rosácea - , tenho corrido Ceca e Meca sem o achar!»
«Ora essa! - respondeu o chefe da contra, feito espírito do contra - E eu tenho percorrido meio mundo à sua procura, sabe lá!»
«Oh! - exclamou ela - Então foi por isso que nunca nos encontrámos, olhe que engraçado!»... E mirava-o lá de cima com o olhar mais abrasador deste mundo, do outro e se mais houvera.
«Está cá uma brasa!» - disse ele, despindo rápida e descuidadamente a gabardina e beijando-a na mão de supetão. Com efeito, Anacleto Périplo Pinto era baixinho.
Depois deste acontecimento inesperado, mas muito significativo e lindo, pode-se afirmar, em bom rigor, que foi amor correspondido à primeira vista desarmada.
Jojo não perdeu tempo, dirigiu-se a um posto dos correios e mandou um telegrama à mãe do seu novo amado, pedindo-lhe a mão do filho. A respeitável senhora anuiu sem reserva e despachou a mão numa encomenda postal, registada e com aviso de recepção. Mesmo assim, Jojo acabaria por receber a mão de Anacleto Périplo seis meses depois de ter sido despachada pelos CTT, o que já era um grande avanço para a época. É claro que já vinha um bocadinho deteriorada por via do tempo que levou a chegar ao destino, mas, com muita paciência e força de vontade foi possível voltar a colocar os dedos com umas gotas de Super Cola 3 (passe a publicidade).
Para quem não leu nas entrelinhas, volto a aludir que o chefe Pinto nasceu com três mãos, uma das quais ficou religiosamente conservada dentro de um frasquinho com formol que sua mãe tinha guardado até àquela altura, à espera que alguém, um dia, a pedisse.
Claro está que levaram uma porrada de meses a consumar o casamento, pois casaram-se em muitos países e isso, burocraticamente, é muito complicado e moroso como é fácil de depreender por causa das bichas para isto, bichas para aquilo, horas de espera intermináveis nas conservatórias, et cetera.
Após a celebração do último acto de casamento, cerca de dez anos depois, fundaram, então, além de um lar da terceira idade para ex-espiões, a primeira "Sociedade Comercial de Espionagem e Contra-Espionagem, Lda" que aviou todas as encomendas durante alguns anitos.
Porém, houve um dia em que as secretas do mundo inteiro puseram a cabeça de casal a prémio, como não podia deixar de ser, acabando por condená-la à morte por guilhotinamento. Foi melhor assim porque era um processo de execução muito moroso e, ao mesmo tempo, era aborrecido serem guilhotinados aos poucochinhos. Por outro lado, esta estória comovente não merecia um desenlace triste. Além de que faziam um par perfeito.
(1) Como é do conhecimento geral, era normal ter dois fígados naquele tempo o que, actualmente, já não se justifica. Ainda se aplica esta expressão em conversas do dia a dia, com tendência para desaparecer...

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