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EROTISMO OU PORNOGRAFIA

por João Brito, em 26.10.21

pornografia1.jpg

Como você sabe ou, pelo menos, devia saber, nos anos 80 do século passado era difícil estabelecer fronteiras entre erotismo e pornografia. Éramos uns atrasadinhos, por assim dizer. Bem vistas as coisas, não penso que estejamos mais evoluídos. Nem pouco, mais ou menos! Para ser correcto, nesses idos anos, era difícil estabelecer fosse o que fosse porque foi uma década que decorreu tão depressa que confundiu irremediavelmente o espírito das pessoas. De tal modo que não se conseguiu distinguir um conceito do outro. Já para não referir os preconceitos associados aos dois conceitos, como é óbvio.
Afinal, o erotismo conduz à pornografia ou vice-versa? Qual vai ser o meu almoço daqui a pouco? A casa de banho está livre? Será que amanhã ainda estou vivo? Este texto tem alguma piada? São algumas questões que tentei avaliar, coligindo uma pequena lista de acontecimentos, factos, objectos e situações que analisei com muito cuidado e dentro dos limites do meu fraco conhecimento da matéria.
Penso que, se ler este texto com muita atenção, tendo o cuidado de separar as sílabas das palavras que possuem hiato, vai ver que nunca mais me engana; isso é limpinho! Segue a lista:
1. Um polícia de giro, barbudo, a afagar o bastão: erótico.
2. Um polícia de giro, barbudo e nu, a fumar um cigarro: porno.
3. Um médico dentista, trajando uma bata, de estetoscópio em punho, a auscultar uma jovem com dentes saudáveis: erótico.
4. Um médico dentista, em biquíni, a auscultar, sem estetoscópio, um polícia de giro, barbudo (não confundir com um polícia giro), a afagar o bastão: porno.
5. Um empregado de balcão de uma charcutaria, em cuecas, a vender lingerie: erótico.
6. Um empregado de balcão de uma charcutaria, trajando um impermeável, sem roupa por baixo, a auscultar um polícia de giro, barbudo e nu, a afagar o bastão, perante uma jovem com dentes saudáveis, a qual tira o biquini a um médico dentista sem estetoscópio: porno.
7. Um professor lente, calvo, curiosamente sem óculos, avançando de ponteiro erguido e com ar concupiscente para uma finalista de línguas modernas: erótico.
8. Uma jovem de dentes saudáveis, vestindo uma bata, a auscultar um médico dentista, nu, o qual vende lingerie a um polícia giro (não confundir com um polícia de giro) e calvo, avançando simultaneamente de ponteiro erguido para um empregado de balcão de uma charcutaria que dá explicações de línguas modernas, em cuecas, a um general reformado de cinco estrelas e uma comenda: porno.
9. Um jogador de futebol, trajando um impermeável, a auscultar um médico dentista nu e com dentes saudáveis, a afagar o bastão de uma jovem calva e perneta, casada com uma finalista de línguas modernas com óculos, a qual despe o roupão à frente do empregado de balcão de uma charcutaria que, por sua vez, vende salsichas alemãs a um angariador de seguros enquanto fuma um cigarro com ar lascivo, o qual, de ponteiro erguido, avança para um polícia de giro barbudo e nu, que ausculta um médico dentista sem dentes que, em cuecas, beija loucamente um mediador de seguros: porno.
10. Um general reformado, de cinco estrelas e uma comenda, a afagar a nuca de um polícia de giro, barbudo e em negligé: erótico.
11. Um general reformado, de cinco estrelas e uma comenda, em biquíni, a auscultar sem estetoscópio um jogador de futebol, trajando roupão, que simultaneamente afaga o bastão de um empregado de balcão de uma charcutaria, de óculos escuros, agarrado a uma finalista de línguas modernas: porno.
12. Uma fotógrafa profissional, despida da cintura para baixo e de cigarro na boca, fotografando um polícia de giro barbudo, em várias poses, enquanto este afaga o estetoscópio de um jogador de futebol, calvo, que despe o biquíni perante uma licenciada em línguas modernas que, de ponteiro erguido e ar sensual, avança para um general reformado de cinco estrelas e uma comenda, o qual afaga a nuca de um empregado de balcão de uma charcutaria que vende salsichas alemãs a um angariador de seguros, nu, o qual ausculta o bastão de um médico dentista que usa um impermeável, sem roupa por baixo e que…: porno.
Podia continuar a dar exemplos até à exaustão. Porém, julgo que esta súmula é suficiente para que fique com uma ideia sinóptica da diferença, ainda que subtil, entre erotismo e pornografia. Espero, por isso, ter contribuído para um maior esclarecimento das boas mentes. Eu me demente já aqui, se isto é puro gozo, juro!
 
P.S.: A talhe de foice, a imagem que ilustra a publicação é erótica ou pornográfica?

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EROTISMO E PORNOGRAFIA

por João Brito, em 21.01.19

erotismo e pornografia.jpg

Sem certeza científica, crê-se que na idade da pedra lascada a indumentária ainda não fazia parte dos nossos usos e costumes. Tampouco se sabe, ao certo, quando é que o uso de roupa passou a ser uma rotina social. Associado à dispensabilidade de usar roupa, também não existia fosse o que fosse para preencher as horas de quietação dos seres vivos. Nomeadamente os de quatro patas.
Sim porque naqueles tempos o Homo sapiens idaltu erectus bípedus era uma quimera! Então, falar acerca das coelhinhas da Playboy ou das notícias do Correio da Manhã (mil vezes as coelhinhas!), seria algo inconcebível para aqueles tempos remotos. Daí que, com tanta limitação de meios lúdicos, havia tempo de sobra para a ociosidade. É preciso não esquecer que a agricultura ainda não tinha sido inventada e, por conseguinte, os bichos eram recolectores e, enfim, tudo o que mexesse fazia o que podia e a mais não era obrigado.
Mas, voltado ao propósito deste artigo e pedindo desculpa pelo devaneio, pode-se inferir, a grosso modo, que o erotismo precedeu a pornografia e passo a explicar, segundo a minha perspectiva:
Seguindo a linha evolutiva ou evolucionária dos hábitos dos nossos ancestrais chega-se à antiguidade clássica em que se colocam algumas questões quanto ao desregramento de costumes dos nossos avitos gregos ou até mesmo sobre as pretensas relações eurogenitais entre a senhora Merkel e o ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy (penso que se escreve orogenitais, mas não tenho a certeza) ou, quiçá, sobre a alegada necrofilia dos egípcios e os grandes bacanais dos romanos ou ao debate secular sobre a orientação sexual do nosso primeiro rei, Dom Afonso Henriques.
Contudo, a pergunta que deixo no ar é a seguinte: será que conhecemos a diferença – quanto a mim subtil – entre erotismo e pornografia? Vejamos as seguintes respostas (peço desculpa, mas só encontrei duas pessoas laicas que se prontificaram para responder a esta questão, afinal tão questionável (passe a redundância):

- Pistácio Prepúcio, professor de História Antiga, reformado: «Hoje, sem embargo dos meus vastos conhecimentos sobre um tema tão apaixonante, vou dar-lhe exemplos da nossa História que poderão confirmar que a sua tese é falsa e existe, com efeito, uma diferença abismal entre os dois conceitos. Repare nos amores de Pedro e Inês. Coisa mais linda! Indubitavelmente, um caso erótico, na minha modesta opinião. Outro caso, o dos enrolanços de Leonor Telles com os espanhóis foram pura pornografia, uma vergonha nacional! Mas, se quisermos avançar um pouco mais, podemos referir o caso da corte que fugiu para o Brasil por altura das invasões napoleónicas. Julgo que houve nesta decisão da Família Real um pouco de sadomasoquismo de cariz erótico. Já para não falar sobre a batalha de Trancoso: pornografia pura e dura, até doeu!... Não acha?»

- Morgado Morcão, ex-deputado do CDS: «Se me fizesse essa pergunta aqui há uns anos, nem me dava ao trabalho de responder à sua provocação. Já me bastou ter de engolir, em seco, aquele poema vergonhoso da Natália Correia, e as porcarias que o Correio da Manhã, inventou sobre mim, credo! Mas, para não ser sempre apelidado de reaccionário, aqui tem a minha opinião pessoal ou não fosse pessoal, óbviamente!
Então é assim: Acho que o erotismo é uma coisa a modos como fazer um filho através do acto sexual, mas somente isso; só procriação com a graça de Deus e nada mais! Pornografia, meu caro, tem que se lhe diga, é muito mais complexa! Já passou alguma vez pela rotunda do Marquês? Os testículos do leão, pá, aquilo é vergonhoso para o país e até insultuoso para o próprio Marquês, não lhe parece? É pornografia, ou não é? Use uns binóculos e, depois, venha falar comigo!»

Dado que só encontrei estes dois testemunhos que em nada abonam em favor da minha asserção, embora não questione a seriedade das suas intervenções, resta-me deixar no ar a permanente dúvida em relação à existência, ou não, de distâncias incontornáveis entre o erotismo e a pornografia. O espírito das pessoas também não contribui para esclarecer esta dicotomia entre dois conceitos cujas fronteiras se esbatem onde quer que dois seres se encontrem para uma boa cópula. Quem diz dois, diz três – o famoso "ménage à trois" – ou mais, sei lá, um comboio, uma ambulância, o maximbombo do amor, uma batalha campal, et cetera.

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