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ESFÉRICA OU CHATA?

por João Brito, em 04.10.21

esférica ou chata.jpg

«Faço-a esférica ou faço-a chata?» - perguntou Elohim (Elo para os amigos), com um pé na Via Láctea, a dar uns toques num asteróide.

«Faze-a chata!» - disse Mefistófeles (Mefisto para os amigos).
«Fá-la, burro!» - corrigiu Elo.
«Estou a falar, e não me chames burro, foda-se!» - disse o anjo das Trevas.
«Não é isso, é o pronome!» - disse Elo - E além disso proíbo-te terminantemente de utilizares vulgarismos que ainda não criei!
«Ah, é o pronome?...Realmente!» - fez Mefisto com a ligeira impressão de que Elo tinha metido a pata na poça.
Elo, para não ficar mal na fotografia, criou a Gramática logo no primeiro dia. Mefisto olhou-o com despeito: "Tem a mania que é o Criador!" - disse entre dentes...
Assim, a Terra foi criada e ficou chata. Fizeram-se as inscrições e publicações legais na Conservatória do Registo Celestial, como manda a Lei, mas Mefisto ainda lembrou:
«E depois vêm o Copérnico, o Galileu, o Kepler e mais gajada chatear-nos, vais ver!»
«Deix'os vir, podemos muito bem com as teorias deles!» - fez Elo
«E Portugal é para fazeres hoje, ou guardas para amanhã?» - perguntou Mefisto.
«Tem tempo, tem tempo!» - disse Elo
«Ficava feito e dava tempo àqueles manjericos para se prepararem!» disse Mefisto
«Prepararem?» - fez Elo - «Essa é boa!... Para quê?»
«Democracia, qualidade de vida, adesão ao Mercado Comum, essas merdas, 'tás a ver?» - disse Mefisto
«Já te disse que tem tempo!» - repetiu Elo, feito obstinado.
Mefistófeles achou que o mar estava encarapelado de mais para a pesca, muito embora a noção de mar não passasse, por enquanto, dos planos da Criação. Elohim irritava-o sobremaneira. Omnipotente, omnisciente, infinitamente bom, infinitamente justo. "São os piores", pensou. E com um suspiro: "Portugal podia ser, se Ele quisesse, uma grande e próspera Nação."
Elohim percebeu que o outro começava a encordoar e que isso lhe poderia estragar as sestas...
«Vai um bagacinho?» - perguntou Elo.
«Quê, já criaste?» - fez Mefisto.
«Posso fazer agora, alinhas?» - disse Elo.
«Não quero, o primeiro fica sempre muito rascante!» - respondeu Mefisto
«E uma voltinha a pé? É porreiro para as coronárias, pá!» - fez Elo
«'Tás parvo, ou fazes-te? Com este reumático não me tenho nas canetas!» - respondeu Mefisto.
Elohim pensou que o dia não dava para mais nada, não obstante ainda não terem sido criados os dias, tampouco as noites. Não quer dizer que tivesse sido dos menos produtivos. No entanto, criada a Gramática, as contracções pronominais, um plano para o bagaço, e a Terra Chata, por acordo entre as partes, era tempo de descansar.
«Vou-me chegando.» - disse Elo.
«Ci vediamo domani!» - respondeu Mefisto, embora Roma fosse, ainda, uma quimera.
«Até amanhã, se eu quiser!» - fez Elo
"Peneiras do catano!" - pensou Mefisto, descendo aos infernos.

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ESTÓRIA DE NATAL

por João Brito, em 21.12.14

contos de natal.jpg

Certo dia, Elohim nomeou um emissário chamado Gabriel para ir anunciar a boa nova a Maria, uma mulher idosa(*), natural de Nazaré.
Porém, Mefistófeles, Seu eterno arquirrival, arquétipo da maldade suprema que, além de ser um excelente mimetista, era um mulherengo compulsivo, aproveitou-se da distracção momentânea do Criador, disfarçou-se de Gabriel - o qual fizera desaparecer de cena - e foi ao encontro da virgem Maria Nazarena que, não obstante o tempo lhe ter roubado a graça da juventude, ainda despertava no mafarrico apetites lúbricos. Ou não fosse Mefistófeles!
Assim que aterrou a máquina voadora na qual se fizera transportar desde algures(**) no infinito celeste, disse a Maria:
«Salve, ó afortunada virgem, o Senhor está contigo!»
Não compreendendo muito bem o significado das palavras do seu interlocutor, Maria esboçou um gesto de dúvida e, naturalmente, temor. Porém, Mefistófeles prosseguiu:
«Não tenhas receio, mulher! Ele enviou-me para te dizer que vais ser mãe brevemente; mais vale tarde do que nunca, n'é verdade?... Vai ser um rapaz vigoroso, fica tranquila. Está escrito que vai chamar-se Salvador. Gostes ou desgostes, é o que vai constar na Sua certidão de nascimento!»
«Mas eu não sou casada, meu senhor! Além disso, já não tenho idade para conceber, valha-me Deus!»
«Não te rales, Maria! Ele é omnisciente, tudo pode e tudo sabe; e, além disso, passa ao lado desses pequenos pormenores de ordem burocrática.
Prepara-te que o tempo urge. É de Sua indelével vontade que o menino solte o primeiro vagido no dia 25 de um mês de Dezembro. Apressemo-nos, pois, para cumprir os Seus desígnios. Quanto mais depressa for feito, mais depressa contentaremos o Senhor! Quando o sol se puser, unge-te com óleos perfumados e espera por mim que, em nome de Deus, depositarei em ti a semente do Divino Espírito Santo.
Então, Maria, disse:
«Nesse caso, faça-se a Sua vontade: vou ser escrava do Senhor!»
Passaram-se meses...
José era um homem porreiro, mas tudo tem um limite, mesmo para os valores daquela época em que as normas de boa conduta não eram tão filtradas como actualmente. É claro que, quando despontaram os primeiros sinais da gravidez de Maria, José, não sendo seu esposo, pensou que não estava para se casar com uma mulher impura. Ainda se fosse jovem e formosa, vá que não vá! O que é que iriam pensar dele? É que, apesar de tudo, naquele tempo ainda havia muito preconceito...
Numa noite, no regresso a casa, após uns copos e umas horas de reinação num lupanar de Séforis, cidade onde exercia o seu ofício de carpinteiro, teve uma visão. Vindo do nada, apareceu-lhe um tipo louro, alto, bem vestido e ligeiramente enxofrado que, laconicamente, lhe disse:
«José, filho de David, o Senhor ordena-te que não rejeites Maria. O fruto que ela traz no ventre é o Filho de Deus. Trata de casar com ela quanto antes, pois essa é a determinação do Senhor!»
No dia seguinte, acusando o efeito de uma noite de boémia, José não ligou grande importância ao sucedido, pensando que se tinha tratado de mais um sonho provocado pelo excesso de aguardente de medronho. Porém, no seu subconsciente, bem lá no fundo, sentia que não podia deixar a pobre criatura de Deus entregue a um destino de mãe solteira. Estava escrito.

Epílogo:
Elohim nunca soube que Mefistófeles Lhe tinha passado a perna, mais uma vez, e tal desconhecimento ou alheamento, como lhe quisermos chamar, adiou o primeiro cisma da cristandade. Contudo, nunca ficou provada a origem da paternidade do Salvador. E, mesmo à luz dos conhecimentos científicos actuais, a verdade, custe o que custar, ficará sempre por apurar. Penso que foi melhor assim porque senão o Natal não teria graça.

(*) Segundo os Evangelhos, a idade da Santíssima Virgem Maria, à altura do encontro, com o "enviado do Senhor", seria de doze anos. Ora, como não quero ser processado por publicar conteúdos pedófilos nas minhas estórias, decidi acrescentar muitas décadas à idade da Senhora para não ferir susceptibilidades.
Depois do episódio da aparição, José não relevou o acontecimento e passou a ter relações sexuais regulares com a Mãe de Jesus, fazendo-lhe mais quatro filhos: Tiago, José, Simão e Judas. Tratou-se, como é evidente, de um verdadeiro milagre. Não está posta de parte a teoria de que foi obra do Senhor.
(**) Há algumas teses que referem a existência de um lugar inóspito chamado inferno e associam-no, pela lógica, a Mefistófeles, mas penso que isso são especulações Dantescas.

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