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O CREME DO DOUTOR SANTINHO

por João Brito, em 06.11.19

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É um creme muito suave, de eficácia comprovada e de fácil aplicação, cujas propriedades são capazes de eliminar definitivamente quaisquer indícios de infecções associadas ao uso inadequado do ânus e recto e também muito útil no alívio de crises de almorreima e fissuras anais.
Descoberto há uns anos e só agora patenteado, vai ser posto brevemente à venda em farmácias. O seu inventor, que insistiu em manter o anonimato, o doutor Santinho, criou este fármaco surpreendente, após muitos anos de aturada investigação.
O novo produto foi testado directamente em seres humanos, pois não se conhecem, pelo menos até à data, cobaias que sofram de hemorroidal ou casos significativos de cópula anal entre estes curiosos bichinhos.
O doutor Santinho, tal como é conhecido entre os seus pacientes habituais, também eles insistindo em manter o anonimato, optou pela utilização de processos naturais, na sua longa investigação, testando o seu creme exclusivamente em voluntários. Presume-se que houve alguns sapadores infiltrados: as ovelhas ranhosas do costume, claro.
"As propriedades do meu unguento - disse o doutor Santinho em conferência de imprensa - são tantas e tão poucas que não hesito em afirmar que ele devia fazer parte, e com efeitos 'rectoactivos', da lista de medicamentos comparticipáveis pelo Serviço Nacional de Saúde."
Para quem não sabe, o doutor Santinho vive numa aldeiazinha algarvia, numa tapada muito humilde a que deu o nome de Tapada da Coelheira. Isto porque, para além da actividade que é motivo deste artigo, o senhor também cria coelhos.
Confessou que, desde que começou a dedicar-se aos coelhinhos, nunca desistiu de aperfeiçoar o dom que Deus lhe deu e de o repartir por quem mais necessita, como um bom samaritano, como faz questão de se arrogar.
O doutor Santinho adiantou que a constituição do seu lenimento medicinal não tem qualquer segredo que transcenda a compreensão humana, até porque foi uma descoberta empírica, a qual tem bastante dificuldade em explicar, senão deixava de ser empírica como é óbvio. No entanto, depois dos testes, necessários, efectuados no Instituto Ricardo Borges e a necessária aprovação do INFARCREME, "não há razão para adiar a sua comercialização" - disse.
"É remédio santo!" - Foi com esta frase que um dos muitos pacientes que formam bicha, todos os dias, junto ao portão da tapada, faça sol ou faça chuva, resumiu os efeitos do milagroso creme.
"O doutor Santinho é um santo! - Observou, reconhecido, outro paciente, José Fagundes Pisco que preferiu manter o anonimato - a gente dá o que pode, sei lá, um presunto, uns franguinhos, mel, vinho, pão, queijo, azeite, um ou outro borrego, um cabrito, enfim, a mais não se é obrigado, n'é?" - Foi a resposta quase unânime relativamente ao custo dos tratamentos.
"Há mais de 6 anos que venho ao doutor Santinho fazer tratamentos e hoje estou muito melhor, até tenho um andar novo e tudo, graças a Deus!» - Disse uma paciente, abençoada pelo maravilhoso creme do doutor.
"Andei a tomar supositórios Taveirola durante tanto tempo, sem resultados manifestos, e este creme, meu Deus, é uma maravilha, o doutor Santinho há-de ir para Céu!" - Exclamou, visivelmente satisfeita, outra paciente, Graciete Epitáfio da Silva que também preferiu manter o anonimato.
Após alguma insistência, o doutor Santinho lá foi revelando alguns dos ingredientes que utilizou para chegar a este maravilhoso resultado alquímico capaz de operar milagres: pezinhos de salsa, pezinhos de hortelã, pezinhos de leitão de coentrada, pezinhos de porco, pezinhos de algodão e patinhas de rã. O doutor Santinho pensa que foi este último ingrediente que desencadeou a reacção química em cadeia, por muito paradoxal que pareça.
"O último elemento é que não vou revelar, senão ainda aparecem para aí uns macaquinhos de imitação, como devem compreender. Demais a mais, há anos que anda para aí um gajo meio maluco que se diz padre, um tal Amaro, a espalhar o boato de que o creme é dele e a ameaçar-me de morte. Empírico, empírico, mas cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal! Vocês, jornalistas, sois uns tipos porreiros, mas não me comprometam, está bem? Pensem num slogan assim:
Esqueça os prolapsos e as tromboses hemorroidais, os papilomavírus humanos e as hemorragias anais. Se o resto é prazer, o creme do doutor Santinho é o Guronsan (passe a publicidade) do seu rabinho!"

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IRS

por João Brito, em 12.06.18

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O governo da "geringonça" promete que vai envidar todos os esforços, mesmo os mais depurativos, no sentido de abolir este tão contestado imposto. Isto, caso obtenha uma vitória com maioria absoluta  nas próximas legislativas que, como quase todos sabemos, são já no próximo ano.
A nobre intenção do executivo poderá vir a lume brando a breve trecho. Assim, cautelosamente, o órgão tutelar já mandou instalar extintores de incêndio, adicionais, nos corredores de São Bento.
"A actual situação económica, não sendo brilhante também não é desluzida e, por via de algum equilíbrio, permite, pelo menos, abolir este tributo tão impopular e, mesmo, de difícil digestão...perdão,  justificação; melhor dizendo!". Afirmação peremptória de um assessor do Ministro das Finanças ausente em parte incerta, devido ao cargo muito importante e de enorme responsabilidade que exerce, dentro da União Europeia.
"Posso acrescentar - continuou o adjunto - que grande parte dos objectivos da criação do Imposto sobre o Rendimento de pessoas Singulares (IRS) que, como é do conhecimento geral, veio substituir o Imposto Complementar (IC), também esse de má memória, foram cumpridos (pronuncie-se compridos em vez de cumpridos) e ultrapassaram, mesmo, o limite métrico da decência fiscal." 
E detalhou:
"Temos um ensino de excelência, um Serviço Nacional de Saúde que ombreia com os melhores da Europa da União, hospitais de referência, serviços administrativos altamente eficientes (graças ao programa Simplex), modernas autoestradas que ligam Portugal de lés a lés, um extraordinário PIB per capita, et cetera. Portanto, em nome do governo, declaro que é com um prazer desmedido que anunciamos aos nossos concidadãos que estamos dispostos a aliviá-los deste imposto arbitrário que absorve, a grosso modo, cerca de vinte por cento dos rendimentos mensais da generalidade dos portugueses."
"Entretanto - ainda segundo o suplente - ,  embora não seja intenção do governo onerar a carga fiscal dos contribuintes, está prevista a criação, também a breve prazo, de um novo imposto. Um imposto suplementar (IS), digamos assim."
"Porém - prosseguindo o circunstante - , pensamos que os portugueses vão, certamente, compreender a necessidade imperiosa de criar um fundo de maneio que permita garantir a manutenção das belas autoestradas que levam a algures, formar professores de excelência para escolas modelares, manter as boas referências do SNS e, por consequência, das unidades hospitalares e, claro está, motivar monetariamente os quadros técnicos superiores dos serviços públicos, sob risco de fugirem para o privado. Simplificando, trata-se de garantir a nossa magnífica posição no ranking da UE, dos cidadãos com melhor qualidade de vida, a par de países como, por exemplo, a Roménia ou a Bulgária. Ora, isso custa muito dinheiro!"
"Quanto ao montante da nova tributação que está em estudo, ainda não há certezas, mas presume-se que oscilará entre 30 e 50 por cento dos rendimentos do agregado familiar e terá de ser deduzido automaticamente todos os meses, pondo fim aos constrangimentos habituais, tantas vezes desnecessários, na entrega da declaração anual de rendimentos."
O governo não vê qualquer razão plausível para que o seu empenho no lançamento deste novo imposto seja reprovado pelos portugueses, dado que, suprimir o IRS, representa uma mudança substancial na relação entre os cidadãos e o fisco!" - concluiu o presente. 
Pensa-se que o imposto suplementar (IS) poderá ter efeitos 'rectoactivos' para a maioria dos portugueses. No entanto, caso seja posto em prática, aconselha-se o uso do creme do doutor Santinho, cuja eficácia foi, devidamente, comprovada. A ver vamos...

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