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deus, o diabo, o engenheiro e os malandros do cost

"Um engenheiro morreu e chegou às portas do Céu...
Antes de prosseguir com a narrativa, devo esclarecer que é do conhecimento geral que os engenheiros, devido à sua incorruptibilidade, quando dão o peido mestre (entenda-se derradeiro suspiro), vão direitinhos para o Paraíso sem passarem pelo Purgatório. A isenção do juízo final está contemplada em Jeremias, versículo 37:15-16, mais coisa, menos coisa. Prossigamos, então:
São Pedro, mazelado, cansado de séculos de existência e desconfiado desde que o seguro morreu de velho, antes de franquear as portas ao engenheiro, procurou a sua ficha no arquivo geral da ordem dos engenheiros, mas, como o programa informático do Céu estava um bocadinho desorganizado por via da sua obsolescência, não a conseguiu encontrar. Então, disse ao engenheiro:
«Lamento, mas não podes entrar; a tua ficha deve ter-se extraviado!»
O engenheiro, perante a recusa do guardião do Céu, não teve outro remédio senão descer vários lances de escada até chegar às portas do Inferno. O espertalhão do Mafarrico nem pestanejou; ofereceu-lhe alojamento de bandeja e demais apoio logístico.
Todavia, após ter sido instalado, faltava ali qualquer coisa, algo onde se pudesse sentir mais proactivo e, claro está, mais realizado. Só assim poderia garantir rentabilidade ao seu espírito sagaz e empreendedor. A necessidade aguça o engenho, como dizia alguém, não sei quem.
É preciso não esquecer que o nosso pobre engenheiro foi parar num lugar inóspito, logo sem grandes condições de habitabilidade, daí ser exigível, pelo menos, uma "zona de conforto" decente para poder trabalhar. Isto, não obstante toda a gente saber que o Inferno é um sítio indecente.
O tempo foi passando e já existiam alguns projectos materializados, entre os quais um de segurança contra incêndios, um térmico, um acústico e também sistemas altamente sofisticados de monitorização de cinzas e ar condicionado. Foram também montados os mais diversos aparelhos electrónicos, redes de telecomunicações, programas de manutenção e, evidentemente, um sistema rigorosíssimo de controlo de qualidade, não fosse a ASAE meter lá o bedelho só para chatear. Perante a evidência de melhorias tão concretas, o engenheiro passou da condição de degredado a reputado.
Um dia, Deus lembrou-se de fazer uma vistoria à Secretaria Geral do Céu e, estranhando a falta de reclamações que habitualmente chegavam das bandas do Inferno, ligou para o Demónio e perguntou:
- «Então, como é que vão as coisas por aí?»
- «Agora, estão bem melhores do que estavam! Temos vários programas de melhoria contínua, implementados no contexto da prática infernal, naturalmente, mas tudo a funcionar a cem por cento, graças a mim e aos projectos deste fantástico engenheiro que caiu do Céu! Se quiseres algumas indicações pormenorizadas acerca da implementação destes sistemas, manda-me uma mensagem para ohdiabo@vilmail.com..
Isto, agora, só aqui para nós que ninguém nos ouve: Francamente, não sei porque é que ainda não reformaste o Velho, pá, está, cada vez mais, senil!»
- «Hã?!... Vocês têm aí um engenheiro?! Mas, isso é um autêntico disparate! O lugar dele é aqui no Céu, caraças! Está registado na CRC (Conservatória do Registo Celestial) e tu assinaste por baixo. Manda-o para cima se fazes o favor!»
- «O quê?! Nem pensar! Este engenheiro é uma mais valia, pá! Estás parvo ou fazes-te? Garanto-te que vai ficar comigo, eternamente, e nem se fala mais no assunto; era o que faltava!»
- «Manda-me esse gajo para cima, senão lixo-te com uma pinta do caraças! Abro-te um processo daqueles que se podem arrastar por muitos e longos anos (passe a redundância)!»
O Diabo riu desbragadamente, feito um velhaco como é a sua obrigação, e retorquiu:
- «Ah, sim? Então, só por curiosidade, pá, diz-me uma coisa: Onde é que vais arranjar um advogado, um juiz ou até, mesmo, um procurador, aí no Céu, diz-me? Recambias essa gente toda para aqui e agora queres fazer omeletas sem ovos, n'é?! Mais a mais, ambos sabemos que, recurso após recurso, esses processos que se arrastam, acabam por prescrever, ora!»"

Nota: Este foi-me enviado, há uns tempos, não muito longínquos pelo meu querido e saudoso amigo "Zé do balão", do qual só me restam boas memórias. Estejas onde estiveres: Céu ou Inferno (nunca no purgatório porque não é carne nem peixe), passe a alegoria, espero reencontrar-me contigo, um dia destes ou, quiçá, daqui por uns anos, não obstante ser um céptico militante desde a primeira hora, como é curial dizer-se...

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COISAS DO ARCO-DA-VELHA

por João Brito, em 19.10.21

coisas do arco-da-velha.png

É uma expressão popular que, porventura, as gerações mais novas desconhecem. Isto porque caiu, naturalmente, em desuso. E digo "naturalmente" com muita convicção, dado que, como diz o Poeta, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".

"No meu tempo", aquele longínquo tempo em que o feijão era a cinco tostões o litro, era comum dizer-se esta frase quando alguém ficava de boca-aberta (ou cara à banda) com algo insólito ou com um acontecimento imprevisto.
Penso que as "coisas do arco-da-velha", também têm alguma relação com o "tempo em que o feijão era a cinco tostões o litro". Ambas fazem referência a um passado remoto que a época em que vivemos pretende apagar da memória colectiva. Porém, aceitável porque, entretanto, foram substituídas por expressões mais consentâneas com estes tempos.
É claro que algumas coisas, inexplicáveis à luz da razão, passaram a ser invenções ou histórias da carochinha; petas de raiz popular em que muita gente ainda acredita piamente, por via da sua iliteracia e, por consequência, temor ao desconhecido. Contudo, digo-o sempre com alguma reserva porque, por estranho que pareça, também sou muito temeroso. Contudo, isto dava outra estória...
As línguas dos povos também vão assimilando novos modos de comunicar; alguns são importados, mas isso é uma mais valia e também um resultado da globalização.
Afinal, são as comunidades linguísticas que fazem com que as línguas permaneçam vivas, e em constante mudança, e não os acordos ortográficos obscuros.
A nossa, com a passagem de povos oriundos de outros continentes desde tempos imemoriais, até antes da fundação da nacionalidade, está bem viva e recomenda-se. Actualmente, é o produto de uma sociedade multicultural. Por conseguinte, mantém-se sempre aberta a novas introduções de hábitos e costumes, mormente de origem oculta, mas nem por isso menos essenciais para o enriquecimento dos nossos léxico linguístico e modus vivendi.
Mas, voltando ao "meu tempo", ainda se conseguem ouvir da boca de algumas pessoas, particularmente de idade avançada, frases do tipo: "no meu tempo o respeitinho era muito bonito" e outras frases mais ou menos idênticas. Todavia, como disse, têm caído inevitavelmente em desuso. Algumas foram substituídas e outras assumiram uma nova importância.
Concentremo-nos no "arco-da-velha" e nas várias interpretações em torno do seu significado:
Por volta do século XIX, esta expressão - com carga bíblica - servia para simbolizar o arco-íris. Uma de várias explicações teria a ver com a "arca de Noé" e o "dilúvio" ou seja: após a "inundação universal", consta que Deus fez o arco-íris para celebrar um pacto com o Homem: uma espécie de tratado de não agressão celebrado com Noé.
Uma das cláusulas referia que o Criador não voltaria a enviar outra grande enxurrada tão devastadora como aquela que todos conhecem dos textos sagrados. No entanto, parece que Noé não leu aquilo até ao fim, por preguiça ou falta de visão, e assinou o documento às cegas. Não leu, sobretudo, nas entrelinhas. Mais a mais, naquele tempo, ainda não tinham inventado os óculos para ler ao perto e a malta limitava-se a passar os olhos pela papelada, o que era muito chato para o contraente, como é fácil de intuir.
Outra explicação para isto, teria sido a suposição generalizada de que Noé não sabia ler nem escrever, o que, até hoje, tem permanecido um mistério.
Assim, o resultado dessa confiança excessiva em Deus está à vista: dilúvios, furacões, tornados, maremotos, terramotos, erupções vulcânicas, vírus e outras catástrofes tramadas são coisas que não têm faltado por esse mundo fora; e são cada vez mais devastadoras. É claro que se debatesse isto com uma pessoa religiosa, essa pessoa iria certamente contrapor com aquele aforismo que nunca cheguei a compreender: "Deus escreve direito por linhas tortas". Parece que tem várias interpretações, entre as quais destaco uma que pretende dar a entender que as pessoas que mais sofrem na vida, sobretudo as crentes e boas (não confundir com quentes e boas), é que conseguem realizar-se ou ter um lugarzinho no Céu e por isso, a história de Noé também pode simbolizar a esperança na sua salvação.
Continuando:
A palavra "velha" representaria, então, a velha aliança entre Deus e o Homem que, afinal, o Criador tem vindo a violar sistematicamente.
Fora do contexto, até tem alguma similitude, respeitando as devidas distâncias, com a "velha aliança" celebrada entre os reinos de Portugal e Inglaterra, conhecida como "Tratado Anglo-Português de 1373", no qual os "bifes" impingiram a Dom João I, Filipa de Lencastre que, além de ser muito alta e muito feia, sofria de bicos de papagaio. Em troca, a gente enviava para os gajos vinho do Porto e pura lã virgem.
Outra explicação para a frase "arco-da-velha", esta de origem duvidosa, teria a ver com o facto de as pessoas antigas, muito antes de Benjamin Franklin ter inventado a electricidade (ressalvo que, em Portugal, esse hábito prolongou-se durante séculos após a invenção desta forma de energia), terem o hábito de salgar os presuntos dentro de arcas com sal e, por conseguinte, em vez de "arco-da-velha", seria "arca da velha" (vulgo salgadeira da minha sogra). Ainda assim, isto não é incontestável. Penso, até, que se pode contrariar à vontade porque o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira e ele há coisas, mesmo, do arco-da-velha!
Já, agora, uma nota final ou uma curiosidade em jeito de nota final: O arco-íris também é conhecido como Arca da Aliança que era um tabernáculo onde os judeus guardavam o vinho. Tabernáculo, estão a ver? Está de caras! Não? Eu também não disse que sabia muito de História Sagrada, n'é?
Prometo que nunca mais publico histórias do arco-da-velha, eu seja ceguinho!

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