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O TÓRAX

por João Brito, em 28.10.17

o tórax.jpg

Para quem já esqueceu o que aprendeu na escola sobre a morfologia do corpo humano, apraz-me relembrar que o tórax situa-se ligeiramente abaixo do pescoço, medindo pouco mais do que um palmo de comprimento.
Muitas pessoas ainda acreditam que as pernas saem do tórax. Ora, tal crença há muito que foi desmistificada. No entanto, acho que ainda vai decorrer bastante tempo até que esta superstição seja erradicada da nossa sociedade. 
Há outras pessoas que questionam liminarmente a existência do tórax, dado que acreditam, sabe-se lá porquê, que a cabeça assenta em cima da barriga. 
A talhe de foice importa referir que o umbigo é uma aberração geográfica do abdómen, como veremos a seguir, se não me esquecer. Pode-se, portanto, inferir que o tórax está bestialmente bem situado.
Imaginemos, só por breves momentos, que o tórax se situava acima da cabeça. É evidente que não dava muito jeito; não é preciso ser muito esperto para chegar a esta conclusão, julgo eu, sabendo que não estou muito certo.
Pensa-se que o tórax foi descoberto pelos fenícios, embora não existam estudos que sustentem a veracidade de tal pensamento, ou seja, por enquanto é tudo muito vago. Todavia, desconhecendo-se em pormenor as circunstâncias que rodearam esta hipotética descoberta, também não é difícil imaginar como pode ter acontecido: um fenício lembrou-se de olhar para baixo, reparou que havia qualquer coisa a separar o seu pescoço da sua barriga e apressou-se a registar a patente. Penso que a maioria de nós deve ter concebido a coisa assim, não vejo outra explicação.
É difícil explanar, por palavras simples, a composição do tórax. Difícil e moroso, portanto o melhor é passar à frente. Bastará referir que o tórax contém o peito que por sua vez contém o coração, os pulmões e as costelas que protegem os dois órgãos em caso de queda ou choque.
Os pulmões são dois e servem para respirar. Se se tapar a boca e o nariz, em simultâneo, chegar-se-á facilmente a essa conclusão ao sentir-se falta de ar.
O coração, como é comummente aceite, é uma bomba e, paradoxalmente, não se pode viver sem ele. Há quem o tenha colado ao peito, na boca, nas mãos, aos saltos, ao alto, uns com coração mole e outros empedernido.
Há gente com muito bom coração, sem coração e, supõe-se, com coração de leão. A propósito desta conjectura, não está cientificamente provado que alguém tivesse sobrevivido com um coração de leão. Nem mesmo aquele gajo inglês - o Ricardo.
Quanto ao peito, a mulher leva, quase sempre, vantagem sobre o homem. Com efeito, ela possui dois peitos, não obstante ter um tórax. Bem, o homem é provido de igual número de peitos, mas, na generalidade, não são tão evidentes. Certo, certinho, é o facto indesmentível (até prova em contrário) de que o peito fica à frente das costas em ambos os sexos. Para fechar o assunto do peito, temos as vulgares dores de peito que nem sempre são sintomas de angina ou enfarte. Às vezes são gases ou crises existenciais ...
Em jeito de conclusão e a propósito das costas, elas representam a parte de trás do tórax e são, também, um elemento fundamental na sua constituição; não fossem elas e via-se tudo. Para além desse facto insofismável, as costas servem para carregar objectos, pessoas e animais e também para levarem palmadinhas e facadas. A somar a tudo isso, é sempre por elas que se trama quem não se grama, quem as tem largas ou quem queira ver alguém por elas.
Enfim, se me lembrar, pode ser que me debruce mais profundamente sobre a importância das costas, nomeadamente as dores de costas. Ora, quem não tem dores de costas, hã? Vá, diga lá!

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RETRATO DE DAMA COM COMICHÃO NAS COSTAS

por João Brito, em 09.11.16

retrato de dama com comichão nas costas.jpg

A grande virtude deste novo romance de Branca-flor Epitalâmio será, por hipótese (se quiserem também pode ser por acaso ou porventura), o facto de se chegar à última página sem se ficar a saber qual era o tema da narrativa ou se, com efeito, terá havido narrativa; mesmo com efeito retroactivo.
Estória situada na linha pensadora e descritiva das grandes obras da literatura clássica como "Quand j'étais jeune, j'aimais putains et vin vert", de um grande escritor franco-mação chamado Marie Mónique de La Forêt, maravilhoso fresco onde Branca-flor foi colher a inspiração que lhe faltava para o arranque desta ficção acerca do amor. Aliás, um pouco na sequência de outro belíssimo livro, titulado "O amor é lindo porque sim, prontos!".
Branca-flor foi mais longe e aventurou-se no território desconhecido da ambiguidade semântica, situando-se no plano inclinado de uma diacronia que diria quase neurótica ou nevrótica, se vos apraz.
Neste "Retrato de dama com comichão nas costas" perde-se, assumidamente, a capacidade significativa do discurso apócrifo em favor da acumulação vivencial de vocábulos, nomes, breves notas dissonantes de chocolate e frutos vermelhos, contactos telefónicos, contas para pagar, o carteiro toca sempre duas vezes, o padeiro toca três, interjeições significativas de volúpia, et cetera.
Articula-se de tal modo a escrita cuneiforme, cunctatória e contemporizadora - passe o circunlóquio - em torno daquilo a que chamaríamos uma devoradora paixão pelo "Prazer Solitário"; uma evocação misantrópica do grande poeta e dramaturgo John Smith Dick, contemporâneo de Frank Smart Jr. (que não é tido nem achado nesta estória).
Senão, vejamos a páginas poucas: "Maria Agripina Freitas Sanches do Ó... meu Deus, sou tão linda! Dia 23 escova de dentes ultra-suave, um pensinho para o dia a dia...vaselina...truca-truca, zuca-zuca, floc-floc, ai, Balecas, aqui não q'os telhades 'tão baixes, filhe!", (...).
Com absoluta convicção, digo que este romance, embora tenha um carácter procrastinatório, é definitivamente procrastinativo, pois é atravessado pelos temas da proximidade e da iminência - passe a redundância - , sempre adiados, uma vez que, página a página, vai aumentando a expectativa sobre o desfecho da narrativa inconsistente, eminentemente parda, como é apanágio de Branca-flor. São cerca de cinquenta páginas, mais coisa, menos coisa, de leitura perplexamente fascinante que, simultaneamente, nos deixam com uma agradável sensação de modorra.
A recusa da estória como catarse fácil de quem a lê, é, só por si, um acto de coragem da autora e uma chapada de modernidade no lodo da nossa literatura.
Julgo que ainda está à venda num quiosque perto de si e lê-se naquele intervalo entre a sanita e o bidé porque até ao lavar dos dentes é vindima.
Nota: Esta publicação teve o patrocínio da APHO (Associação Portuguesa de Higienistas Orogenitais).

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