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AS BICHAS

por João Brito, em 25.03.20

Talvez não saibam, mas, para alguns analistas, o século XX ficou marcado como "o século americano" (ver Wikipédia). Para outros, uma forma de capitalismo imperialista ou uma maneira popularucha de dizer ao resto do mundo que quem manda aqui é o "tio Sam", okay?...
O século XXI vai ficar nos anais(*) da história como o século das bichas. Não que não tivessem existido no século XX e em séculos anteriores, pois penso que existiram sempre, desde que as bichas se lembram de ser bichas, mas, no primeiro decénio deste novo século, as bichas ganharam um novo alor com o ressurgimento do anelídeo poliqueta ou simplesmente arenícola que, como é consabido, é uma bicha muito utilizada na cultura agrícola em areais ricos em citrato de potássio ou agricultura em solos arenosos salinos (vulgo fucus ceranoides), enfim, como quiserem entender.
Graças à conjugação de alguns factores favoráveis, que seria fastidioso enumerar aqui, as bichas adquiriram a importância e o estatuto determinantes que lhes são reconhecidos, tanto em Portugal como no resto do mundo, nomeadamente na União Europeia. Ora, para atingirem este excepcional status, muito contribuiu o extraordinário desempenho, muito esforçado e por isso louvável, de Durão Barroso à frente da Comissão Europeia. Justiça lhe seja feita que nem tudo foi só trabalho sujo para o Goldman Sachs. Contudo, se me lembrar, prometo dedicar meia-dúzia de linhas a este notável político, que concorreu exemplarmente para o engradecimento de Portugal. Prosseguindo:
Que belos tempos, aqueles, em que havia bichas para tudo e em tudo quanto era sítio! Faziam-se bichas até para a sopa do Sidónio, conseguem imaginar? Pensar num cenário desses, nos dias de hoje, faz-me sorrir, se bem que com alguma nostalgia. É claro que sempre houve ovelhas ranhosas que quiseram travar o processo de desenvolvimento das bichas; isso é transversal a todas as épocas e a todas as sociedades. Quase o conseguiram com métodos que actualmente estão proibidos e que as colocaram (as bichas) quase à beira da extinção. Estou a lembrar-me, por exemplo, da hortelã-crespa, protegida com pesticidas organofosforados e carbamatos, dois venenos literalmente tóxicos, muito utilizados em tempos recuados, ou do estragão, uma planta muito picante que provoca estragos na flora intestinal, provocando disenterias severas. Bárbaro, é o mínimo que consigo articular.
Que bom seria que todos entendessem a maravilhosa mensagem contida naquela música dos Beatles: "Strawberry Bichas Forever!". Alguém está recordado? Às vezes oiço-me, involuntariamente, a trautear esta passagem. Sim, porque eu de inglês pesco zero!
É claro que convém sublinhar a importância das bichas como factor de progresso, desenvolvimento e sustentabilidade económica. A elas se deve a expansão que o comércio ambulante conheceu nos últimos quarenta anos, nomeadamente o comércio de santinhos e similares; não desvalorizando o papel secundário, mas, mesmo assim, importante, das industrias subsidiárias, com especial ênfase para as industrias dos tremoços, amendoins, pistácios, pevides, batatas fritas e equivalentes (só para não repetir similares que é chato).
Graças a este panorama encorajador, as nossas finanças nunca estiveram tão saudáveis como agora. As bichas são disso testemunhas incontestadas de garante do progresso e plena convicção num futuro risonho para Portugal e, naturalmente, para os portugueses.
Não sou amante de paráfrases, mas esta enquadra-se bem neste contexto: "Ditosa pátria que tais bichas tem". Não sei quem foi o poeta que a escreveu, mas é tão bonita, tão profunda, tão sentida que não a quis deixar passar para que todos  reflictamos acerca do seu significado.
Estaria a ser injusto se não destacasse o carácter sócio-pedagógico das bichas. Que melhor exemplo poderia aqui citar senão o de que as bichas são, acima de tudo, uma forma de estar na vida.
Diria, até, e perdoe-se-me a ousadia, que as bichas são uma das essências da humanidade. Assim, se as bichas estão para o Ocidente como o yoga, o Kama Sutra, o Ju Jitsu ou a meditação transcendental e o Jan Thai (forma do verbo Jan Thar em tailandês) para o Oriente, nos Polos Árctico e Antárctico, cabe-nos defender e propagar esta filosofia que resume o carácter ecuménico da revelação divina - passe o paroxismo com que termino isto. Só visto...
(*)Do étimo latino annus e não ânus, como poderão, erradamente, presumir. Aqui fica a clarificação.

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