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ATAQUE DE CASPA

por João Brito, em 03.04.20

ataque de caspa.jpg

Alguém disse, e muito bem, que a contrafacção é um modo de vida, uma forma de estar e um estado de espírito muito português; uma coisa assim a modos como o fado ou algo para o qual estamos predestinados, mesmo antes de soltarmos o primeiro vagido. É claro que o fenómeno não é exclusivo de Portugal, mas, olhem, por exemplo: é como a saudade.
Também há quem diga que a saudade não tem tradução noutras línguas e que, por isso, só os portugueses é que a sentem de um modo especial e eu, muito sinceramente, acredito que é verdade!
Outro grande fadista de outrora também já dissera "erros meus, má fortuna, amor ardente" e, assim como assim, acho que é esta nossa aptidão nata para o género trágico, sei lá.
Porém, até então, ninguém se dispusera a dissecar o fenómeno com o bisturi exacto do cirurgião que opera um peito aberto ou com a perícia com que o talhante retalha uma rês.
No fundo, o objectivo desta minha incursão na contrafacção, foi uma tentativa para escalpelizar algo que pode vir a ser objecto de uma análise mais profunda e exaustiva por parte de quem de direito (ou de esquerdo, tanto faz). Perdoem-me se não fui mais longe, mas estas coisas não se compadecem com imponderabilidades; é a vida.
Os americanos genuínos, nomeadamente (ou exclusivamente) os "peles vermelhas", chamar-lhe-iam escalpar: um hábito cultural para o qual tinham muito jeito. Bom, mas naqueles tempos remotos a contrafacção não era um fenómeno tão preocupante como é actualmente. Nem de longe, nem de perto. Simplesmente, nem.
Depois desta pequena introdução, o leitor mais perspicaz já terá reparado que o artigo é, indubitavelmente, dedicado à imitação fraudulenta e a outras actividades económicas consideradas menos lícitas ou mesmo ilícitas, digamos assim. No concernente ao assunto em epígrafe, fiz questão de me atirar de cabeça e mergulhar nas águas turvas do crime organizado que, como devem calcular, é um polvo com mil tentáculos, mais tentáculo, menos tentáculo.
Também houve alguém, não sei quem, que disse um dia uma frase que ficou célebre: "Para quê remexer no que já foi mexido repetidas vezes sem sucesso?" O aforismo, se assim se lhe pode chamar, encerra quase que um dever moral de todas as pessoas de bons princípios (não quer dizer que não enveredem por caminhos tortuosos que as levem a maus fins) no sentido de não se cavar muito fundo; só um buraquinho ligeiro que dê para meter o dedo mindinho.
Bom, mas isto foi um aparte que, por sinal, até está fora do contexto desta estória; prossigamos dentro do propósito.
É do conhecimento geral que se contrafaz quase tudo: bacalhau seco e demolhado; relógios e canivetes suíços; chocolate; bebidas espirituosas e espirituais (estas últimas utilizadas no santo sacramento); discos compactos; camisas de Vénus e La Costa (não confundir com o senhor Costa); perfumes low cost baratos (ou eles não fossem low cost); "smartphones" de 10 polegadas made in PRC; políticos made in Portugal, et cetera; o rol é extenso para caber neste artigo singelo.
Ora, o que nunca pensei era que fosse possível fazer contrafacção de caspa! É verdade, leram bem - de caspa! Nunca vi coisa assim, nem quando o rei fazia anos! Daí que me propus investigar o fenómeno por conta e risco próprios.
Por conseguinte, enchi-me de coragem e entranhei-me no busílis da questão que é, claro está, a contrafacção de caspa, algo que testemunhei com estes óculos que, não obstante estarem a precisar de um "upgrade" de dioptrias, ainda conseguem distinguir entre o que é verdadeiro e o que é falso. E é aqui que a "chitarra suona piu piano" como cantava aquele célebre cantor lírico, do antigo anúncio da pescada. E porquê? - Devem perguntar vocês com toda a legitimidade. E eu respondo com toda a pertinência: porque me disseram que é um produto importado directamente aos países produtores de caspa, banhados pelo Mar Cáspio e, mais grave, sem contrapartidas. E para quê? - Presumo que também estejam interessados em saber. Mais a mais, tendo-a cá com qualidade tão duvidosa como a que é produzida nesses países! É o nosso ancestral capricho de julgar que o que é nosso não presta tão ou mais satisfatoriamente do que aquilo que vem de fora.
Assim, habituado que estou ao submundo perigoso dos valdevinos casposos, foi por veredas e travessas que me aventurei em busca da verdade escondida. Afinal, por muito inverosímil que nos pareça, "the true is out there", como dizia o agente Fox Mulder.
Aqueles homens que me confiaram o terrível segredo, os quais quis manter no anonimato para proteger a sua privacidade, de seus nomes, Iliev Fedorofsky kasparov e Akbar Kaspolin Salamalek, respectivamente, está de caras, explicaram-me, tintim por tintim, que a caspa contrafeita era trazida à socapa para ser vendida a uma firma muito conhecida que, por sua vez, a exportava furtivamente para países onde a predominância da caspa era escassa por via da carência de pilosidade craniana nas suas populações. Todavia, um acontecimento imprevisto e simultaneamente trágico, não me permitiu levar a investigação até ao fim, conforme o objectivo que me propus atingir, porque tanto um como outro acabaram por ser encontrados mortos numa valeta em La Valetta, ao que tudo indica, vitimados por um ataque de caspa de origem desconhecida.
Prometo voltar ao assunto, lá mais para a frente, se não morrer, entretanto, não com um ataque de caspa, mas com o estupor do "coronavírus". Até porque o assunto é digno de um "thriller" que se debruce seriamente sobre a temática, sempre presente, da teoria da conspiração, não vos parece?
José Inocêncio da Silva, investigador contrafeito e por contra própria.

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