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SONETO

por João Brito, em 12.10.21

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Primeiro acto: No bar, o senhor Paulo Portas, tamborilando delicadamente sobre a mesa, a um empregado: «Um chazinho de tília e um brioche!»

Uma voz que se aproxima, ecoando nos corredores da Assembleia: «Salta uma taça de Colares, aqui, para o senhor João Soares! Já!»
O senhor Manuel Alegre, com ar taciturno, apoiando-se como pode, uma perna cruzada na outra, meio flectida e em equilíbrio instável, bebericando um uísque à vista de um cravo murcho pousado no balcão: «É preciso saber por que se é triste / é preciso dizer esta tristeza / que nós calamos tantas vezes mas existe / tão inútil em nós tão portuguesa (in Soneto - primeira estrofe).
O senhor Augusto Santos Silva, entre dentes: «O que é que ele diz?» - vozes de todos os quadrantes: «Ele cisma! Ele cisma!»
A oposição aproveita para atirar pacotinhos de açúcar ao senhor Manuel Alegre. Alguns deputados mais impetuosos grunhem epítetos obscenos que a agitação impede que atravessem as paredes.
 
Segundo acto: No hemiciclo, o senhor orador: «Senhor Presidente, os digníssimos senhores deputados da oposição não me deixam expor, que diabo, eu nunca interrompo!
O senhor Presidente: «Atenção, digníssimos senhores deputados da oposição: deixai o senhor orador expor, por obséquio!»
Vaias - que me eximo de reproduzir - e assobios da bancada da oposição: «O senhor não tem isenção nem alçada para ser Presidente! Fora! Fora!»
Instala-se a desordem: o senhor Presidente arremessa o microfone e a garrafa de água aos queixos da oposição; a maioria parlamentar atira portáteis à cara da oposição; a oposição ameaça arrancar os assentos parlamentares dos seus lugares; alguns senhores deputados uivam de cão; o senhor Passos Coelho, no auge da sua exaltação, arranca cabelos do peito; o senhor Carlos Abreu Amorim espalha uma quantidade prodigiosa de pontapés no ar; o senhor Jerónimo de Sousa, qual desassisado, clama continuamente: "Avante, camarada!"
O senhor Presidente: «Está encerrada a sessão, por hoje!»
Saem todos em tropel, gritando impropérios; correndo, possessos; tropeçando uns nas outras, as outras noutros; rebolando pelas escadarias; um charivari como nunca se tinha visto, nem tampouco imaginado, desde a última assembleia!
 
Terceiro acto: No bar, o senhor Manuel Alegre, com ar taciturno, apoiando-se como pode, uma perna cruzada na outra meio flectida e em equilíbrio instável, bebericando um uísque à vista de um cravo murcho pousado no balcão: «antes em nós semeia esta vileza / e envenena ao nascer qualquer ideia / É preciso matar esta tristeza (in Soneto - última estrofe).
As senhoras da limpeza recolhem o lixo e o poeta.
Adaptação abusivamente livre de um trecho da obra UMA CAMPANHA ALEGRE de Eça de Queiroz.
in João Ratão, Dezembro de 2015.

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