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DEVANEIOS

por João Castro e Brito, em 01.03.24

Apaixonei-me por ela numa tarde aprazível de um Verão longínquo. Cruzámo-nos na praia de Carcavelos.
Estava linda, loura dourada, cor de mel, docemente encostada a uma espreguiçadeira. Olhei-a de relance e pareceu-me expectante. Acho que estava à espera de que lhe dissesse qualquer coisa, sei lá, um galanteio, um dito lisonjeiro ou desejosa, quiçá, de um olhar cúmplice. Pelo menos, fiquei com essa impressão.
Mas, como não era rapaz para fazer olhinhos de carneiro mal morto ou lançar piropos, feito um palerma, prossegui o meu caminho e fui-me afastando até uma distância em que só consegui vislumbrar a sua vaga silhueta. Ao longe, pareceu-me triste ou, então, foi sugestão...
Foi a última vez que lhe pus a vista em cima.
Desgostoso por ser tão tímido, andei dias a cismar com o meu estúpido acanhamento; timidez que, ainda hoje, tenho dificuldade em dominar.
Assim, tomei uma decisão. Difícil, certamente, mas, a paixão, meu Deus, quão cruel é este ilógico sentimento!
De pronto fiz a mala e parti ao seu alcance, sei lá pra onde.
Cruzei-me com tanta gente, nesta busca inglória por um amor não anunciado e, tampouco, correspondido.
Na incessante procura, ficaram-me na memória estas personagens curiosas, talvez um tanto bizarras: três campistas alemães com trajes do Tirol; um casal inglês, tipicamente magrebino, e um cão albino a dar ao rabo. Todavia, ninguém me soube dizer dela.
Regressei mais triste e desiludido do que nunca.
Percebi, finalmente, que me tinha esquecido e, se calhar, desprezado por ter passado ao lado, apesar do amor assolapado que lhe tinha votado. Afinal, foi amor à primeira vista. E saberão os pobres amantes, silenciosos, que o amor à primeira vista é o mais sofrido e, em certos casos, o mais mortífero! Daí a expressão "morrer de amor".
Só Deus sabe como padeci, pois Ele foi Testemunha da minha angústia.
Ah que sofrimento! Ser escravo do amor cego era a causa do meu tormento!
Tinha de me libertar! – pensava com os meus botões.
Passaram anos a fio. Por fim, liberto, vi o logro em que caíra, com a escravidão obsessiva a que me arrastara esta louca paixão e disse não!
Acordei, abri os olhos, olhei à minha volta, e vi que o tempo avançava inexorável e inflexível (passe a redundância, mas é só para reforçar a implacabilidade do tempo).
Então, envolveu-me no seu manto diáfano e disse:
- "Deixa lá que outras mais merecedoras da tua nobreza de carácter hão-de cruzar-se contigo e quem sabe..."
E, com efeito, não podia estar mais de acordo com o tempo, já que um dia o senhor Ezequiel, da Leitaria da Esquina à Rua da Lapa – era assim que se chamava a leitaria do senhor Ezequiel – me disse o seguinte:
- "Conheço uma viúva muito jeitosa que vive numas águas furtadas, ali, às Escadinhas do Duque. É uma senhora das melhores famílias alfacinhas, de seu nome, Eugénia Sá Lemos ."
Pelo apelido, presumi imediatamente que a senhora era uma mulher à antiga, filha de famílias distintas e, por conseguinte, de ilustres tradições e fortes sentimentos.
Desde essa feliz sugestão do senhor Ezequiel, temos trocado alguma correspondência através da Internet, mas queremos ir mais longe.
Por isso, querido diário, esta nova felicidade que banha o meu velho coração, será total, quando, na próxima quarta-feira subir as escadas do amor.
É verdade, querido diário! Vai ser o primeiro de muitos chás das cinco, servido com palmiers recheados e biscoitos de canela, para o qual a Geninha teve a amabilidade de me convidar.
Finalmente, reencontrei-a, depois de tantos anos de desespero, graças ao senhor Ezequiel!
Assim Deus permita que consiga transpor aqueles duzentos degraus que me separam da felicidade, malgrado as dores físicas de que padeço.
 
 

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AMOR E RAZÃO

por João Castro e Brito, em 15.03.23
 
 

amor e razão.jpg

Não há paz entre o amor e a razão.
Amor racional é a razão acima do coração.
Amor passional é o coração acima da razão.
Se se ama não se pode pensar.
Se se pensa não se pode amar.
Ceder incondicionalmente ao amor?
Ou sofrer e abdicar?
 
Amor e razão. Conciliá-los é uma equação sem solução.
O amor é imponderado e ardente.
O amor é paixão!
A razão é fria e coerente.
 
Penosa, é a indecisão:
Provar o agridoce desejo de um louco amor?
Seja o amor eterno ou não?
Ou dure o tempo que for?

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RITOS E CELEBRAÇÕES DO CAMINHAR

por João Castro e Brito, em 07.04.22

é urgente o amor1.jpeg

Ando pelas ruas de Lisboa, é uma quente tarde de sexta-feira, as ruas estão quase despovoadas e as raras pessoas que caminham são pessoas possuídas por uma tristeza amável.
Dos velhos muito velhos, apenas dois velhos muito velhos estão sentados num banco de jardim. Não conversam: trespassam-se com o olhar, estão a ver para lá de tudo, para aquém de tudo.
Um cego avança pelo fio do passeio, junto do qual estão estacionados dezenas de automóveis, enquanto avança com todos os outros sentidos despertos. Surge um indivíduo aos gritos:
- Ó sua besta, então não vê o que anda a fazer?
O cego pára, cativo de uma angústia tão imensa como um desprezo ou como um ódio. Ergue a bengala e agita-a:
- Onde é que você está, seu malandro, para lhe partir a cabeça?
Estão nisto: no domínio de uma espécie particular de indignação - a dos agredidos, que, afinal, são ambos. Ando e penso: é como se estivesse perto de mortos, sem manifestar o mínimo interesse por eles.
Outrora, a cidade era mais confortável e menos hostil. As pessoas, mesmo sem se conhecer, cumprimentavam-se. Não era a celebração da cortesia, nada disso: era, sim, um aceno, um sinal de presença. Agora, as pessoas parecem assustados retirantes de todos os sítios, porque se não sentem bem em nenhum deles. Há nas pessoas uma forma confusa de não estar em parte alguma e o desejo obscuro de estar em todas as partes. Cegos. São cegos sem bengala mas igualmente desencontrados. Os tempos tornaram as pessoas assim. As maneiras de comunidade, que ultrapassavam, pela fertilidade e pela constância, toda a nossa capacidade de imaginação, foram inclementemente derruídas. Vê-se: há outra gente que não é nova de rejeitar, anular e excluir os outros. O sentido da consagração da vida foi substituído pela exaltação do êxito, da pressa, da aspereza. Há predicados e entendimentos que foram banidos das relações; por exemplo: o da solicitude. E eu gosto de solicitude, uma discreta expressão da malícia, do humor e, até, da dignidade. Não há teoria que explique esse banimento.
Vejam só isto: quantos carrinhos de bebé, empurrados pelos pais jovens, se vêem hoje nas cidades?
Eu sei, senhores, ah!, se sei!, quanto foi penosa a batalha que nos conduziu a um patamar de liberdade. Porém, não devíamos, penso que não devíamos, ter deixado que muito do que é essencial se perdesse - até uma fatia de afecto, até uma pequena ração de amor.
Ando pelas ruas de Lisboa, é uma quente tarde de sexta-feira, as ruas estão quase despovoadas e as raras pessoas que caminham são pessoas possuídas por uma tristeza amável. O casal de velhos olhou-se e sorriu com doçura. Ela pegou nas mãos dele e afagou-as lentamente, sem deixar de o olhar, sem deixar de sorrir.
Lá no fundo, impercetível quase, um ponto se move, alarga-se aos poucos, contorna-se-lhe agora o vulto, o vulto é um homem grisalho, um homem de muito mundo, de passo largo e pesado. Olho-o e sou eu. Olho-me e sou a imagem devolvida de uma ostensiva paixão. E, de repente, simplificado e livre, percebo que sou o sujeito de uma oferta e de uma procura. A oferta do amor e a procura de felicidade.
Desesperadamente, como o cego ou como os velhos. Desesperadamente, como todos nós.
Do livro: Lisboa Contada pelos Dedos - Crónicas de Baptista Bastos (Abril de 2001).

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CLEÓPATRA E MARCO ANTÓNIO: UMA TRAGÉDIA PEGADA

por João Castro e Brito, em 16.12.21

uma tragédia pegada.jpg

Hoje, consagro este epítome (também gosto muito da palavra "epítome") a duas personagens de uma das mais famosas tragédias da obra Shakespereana.
No caso particular, penso que não ficará atrás de uma verdadeira tragédia grega. Acho que não encontro melhor epitáfio para lhes prestar, senão dedicar-lhes esta síntese. Julgo que quem conseguir ler isto até ao fim deverá estar de acordo comigo.
Como as estórias têm de começar por algum lado, começo pelo imaginário nariz de Cleópatra. Era tão evidente e tão exclusivo que não podia pegar nesta estória por outro lado; temos de convir que era um verdadeiro monumento. Até Marie Robes Pierre que não era dado a divagações particulares sobre anatomia humana, escrevera nas suas "Memórias": "se o nariz de Cleo fosse mais curto, não teria mudado a face do mundo". Ora, apesar de considerar Marie Robes Pierre um dos expoentes máximos do iluminismo, não posso estar mais em desacordo com a pouca iluminação de tal presunção. Quando muito, teria mudado a própria face ou até, mesmo, a dos seus amantes. Mas quem sou eu para contrariar tais fundamentos ou as suas pressuposições? Deus me livre, apesar de não ser religioso!
Depois desta breve introdução, é aqui que entram duas personagens que alimentavam animosidades recalcitrantes entre si, sem razão aparente, segundo reza esta estória: o imperador Júlio César e Pompeu, um general romano natural de Pompeia.
Obviamente que, provocação daqui e provocação dali, só podia dar escaramuça e o inevitável aconteceu, como tudo o que é inevitável.
Como era previsível, a Legião Romana do imperador era em maior número e altamente organizada e, por consequência, derrotou facilmente o bando de maltrapilhos e indisciplinados fenícios e cartagineses de Pompeu na célebre batalha campestre de Farsália. Acerca desta batalha, sabe-se agora que, após profundas pesquisas arqueológicas a cerca de meio metro, veio a confirmar-se através do carbono 14 que aquilo não passou de uma farsa.
Há quem sustente a tese de que Pompeu, depois de alguns reveses que não passaram pelos crivos desta estória, solicitou o estatuto de refugiado político ao Egipto.
Obedecendo a esta proposição, vou continuar a descrever o que aconteceu a seguir, incidindo particularmente na teoria do pedido de asilo político de Pompeu. Só para não acabar isto abruptamente, senão perde toda a graça . Então, sucedeu o seguinte:
Por essa altura subiu ao trono Ptolomeu que, desde pequenino, não ia à bola com Pompeu, vá-se lá saber porquê. Vai daí, matou-o enquanto este dormia uma sesta. É claro que César, apesar de adversário figadal de Pompeu na grande farsada de Farsália, não gostou e, por conseguinte, não foi de intrigas: deslocou-se pessoalmente ao Egipto para repor a ordem no império, tendo, para o efeito, degolado o Ptolomeu com requintes de malvadez, oferecendo a sua cabeça de bandeja... perdão, oferecendo o trono de bandeja à nova rainha, Cleópatra...
É aqui que reentra uma das personagens principais desta tragédia que, devido ao tamanho do nariz, já vinha a despertar há uma porrada de tempo desejos lúbricos no imperador...
Pois, acontece a qualquer pessoa, mesmo ao ti' César porque a vida não é só chegar, ver e vencer!
Ora, Cleo, como não podia deixar de ser, partilhou os seus lençóis com o senhor. Porém, naqueles tempos ainda não havia panaceias para levantar a moral e, além disso o velho sofria de arritmia galopante, uma doença chata que herdara da sua progenitora. Efectivamente, ele era um grande filho da mãe doente, desde o primeiro vagido.
Em face desse problema genético, César regressou a Roma para fazer um tratamento com águas termais, mas não resultou e, é claro, foi definhando aos poucos até que os médicos chegaram à triste conclusão de que o melhor era eutanasiar o homem; aquilo era sofrimento a mais...
É aqui que entra outra personagem essencial para a continuação desta estória: Marco António, ex-ajudante de César, que tinha formado um triunvirato de conveniência com Lépido e Octávio, dividindo tarefas administrativas do Estado. Quer dizer: todas menos dormirem, à vez, com Cleo; isso estava fora de questão. Por isso, MA tomou uma decisão drástica; ou seja:  Como, desde os tempos de César, já andava a arrastar a túnica a Cleo, às escondidas do imperador, para não ter a concorrência por perto, despachou Lépido para a Patagónia, Octávio para os Montes Hermínios e rumou ao Egipto. Antes de lá chegar, Cleo, só pelo cheiro, já sabia da sua vinda. Pudera!...
A pirâmide de Queóps desmoronou-se; as esfinges de Gisé e Tebas desfingeram-se; os Deuses rejubilaram e enfim, foi o bom e o bonito! Cleópatra havia-se esmerado na recepção a MA. Com mimos assim, era de esperar que o pobre estivesse perdido de amor, isso é factual; basta conhecer um pouco desta estória.
Mesmo com o rosto cheio de equimoses que mais parecia uma paisagem lunar, MA nunca desistiu da sua rainha. Paixões assim tão lindas acontecem uma vez de mil em mil anos; Pedro e Inês, comparados com este casal, deviam ser como o cão e a gata!
Por Cleo, MA era capaz de guerrear com Hórus e Doktem; que se lixassem, ele desejava desesperadamente! Havia o ónus do nariz da sua amada, que doía para caraças, mas que fazer se naquele tempo ainda não tinham inventado as cirurgias plásticas?!
Assim, como assim, concordaram em passar a fazer amor de lado; do mal o menos!...
É aqui que reentra, finalmente, outra personagem: Octávio, regressado a Roma. Como não era parvo, apesar de medir metro e meio de altura, aproveitou-se do idílio dos amantes para atacar o Egipto à socapa ou seja, pela calada da noite.
Cleo, para além de ser muito batida em batalhas na cama, também o era na batalha naval. Assim, fez uma pausa entre dois concúbitos (sem tirar, sublinhe-se) com MA e enviou ao encontro de Octávio a sua "invencível armada". Uma armada onde se incluíam algumas naus catrinetas cedidas pelo reino de Portugal de então, ao abrigo de um acordo de cooperação e defesa, bilaterais, celebrado entre ambos os reinos. Porém, foi derrotada; em parte porque muitas naus catrinetas metiam água e MA, atormentado pela dor e pela loucura, veio a falecer de desgosto e sífilis.
Octávio que, desde os tempos de MA, já cobiçava o nariz soberbo de Cleo, preparava-se, agora, para tomar para si tão ansiado e maravilhoso despojo de guerra. Todavia, Cleo estava pelos cabelos com todos os imperadores, senadores, cônsules, consulesas, pretores, tribunos, governadores, duques, duquesas, legados, legionários, et cetera, e (acho que vou rematar isto às três pancadas porque a parte final não me está a correr nada bem, peço desculpa) suicidou-se com veneno de cobra-de-capuz (chama-se assim porque o raio da cobra, ainda hoje, anda sempre encapuzada). Todavia, teve morte lenta e cruel porque morreu com indescritível sofrimento. Foi Shakespeare quem o disse e não altero nem uma vírgula, pá, desculpem lá!

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EXALTAÇÃO AO AMOR

por João Castro e Brito, em 06.10.21

Vítor entra em casa, apressado e a tiritar de frio. Despe o blusão que atira, ao acaso, para cima da poltrona, alheio ao cão que repousa nos estofos coçados pelo tempo.
Cláudia, sem claudicar, mantém-se de pé, rígida e pensativa, virada para a lareira onde crepita um lume acolhedor. Lá fora, faz um frio glacial.
O recém-chegado olha para Joana, que foi Cláudia quando ele entrou, e toca-lhe delicadamente nos ombros. Não obstante, Maria que foi Cláudia quando ele entrou e Joana quando a tocou, estremece, pois estava absorta em pensamentos que se enovelavam na mente como o fogo nas cavacas. Volta-se e encara o homem com um olhar lânguido e simultaneamente voluptuoso (desculpem o pleonasmo, mas é só para tornar a ideia mais expressiva).
No entanto, Graça que foi Cláudia quando ele entrou; Joana quando a tocou e Maria que estremeceu, permaneceu expectante e receosa sobre o assunto inadiável que trouxera Vítor até si. Era algo que a inquietava tanto, ao ponto de quase a oprimir.
Todavia, Natália que foi Cláudia quando ele entrou; Joana quando a tocou; Maria quando estremeceu e Graça quando se beijaram com avidez, descola suavemente os lábios húmidos dos lábios dele e exclama:
- Ah, Vítor, se amar fosse fácil não havia tantos a amar tão mal, meu Deus!
Porém, Sofia está equivocada. Ele era Vítor quando entrou e ela Cláudia; António quando a olhou e ela Joana; Luís quando a fez estremecer e ela Maria; Artur quando se beijaram e ela Graça; Francisco quando aliviaram o beijo e ela Natália; e, finalmente, José quando ela disse que não queria tanto a Vítor como agora.
Assim, Arminda de seu nome Luísa, contrafeita com o embaraço provocado pelo mal-entendido, pede desculpa a Nuno, de seu nome Paulo. Pensam celebrar a concórdia com uma noite só para eles, cheia de exaltação ao amor.
- Que dizes, Fernando?
- Porque não, Margarida?
E vão: Lúcio e Emília estão tão jubilantes por se terem reencontrado que tampouco se lembram das promessas de Teresa a Samuel.
Ninguém adivinhava desfecho tão pungente quanto o de Narciso e Elvira; quiçá, Luís e Cremilde.

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SOL DE INVERNO

por João Castro e Brito, em 15.03.17

sol de inverno.jpeg

Fez um ano, neste mês, que ocorreu um acontecimento muito triste: um daqueles factos que ficam registados na memória até ao fim dos dias; feito de amor, de perda e da inevitável dor que ainda custa a passar. No entanto, fica a doce recordação da permanência, ainda que breve, de um ser querido junto de nós.
Lembro-me, pouco depois desse episódio marcante, de me ter metido no comboio para ir a Lisboa tratar de assuntos e simultaneamente aproveitar, se possível, para acordar da letargia e tristura dos dias que sucederam à perda do nosso estimado amigo. Estados de espírito reforçados com o inadiável regresso ao Brasil de familiares que me eram (e são) muito caros.
Lembro-me de deambular pela capital a abarrotar de um simpático sol de Inverno, porventura, clamando pela Primavera a querer irromper, sorridente e gentil.
O sol também sorria; como um amplexo doce e quente que me fazia esquecer, por momentos, as dificuldades da vida e o desgosto. Não obstante senti-las, as dificuldades, não me posso considerar dos mais sacrificados. O provérbio "com o mal dos outros posso eu bem" é uma forma egoísta de nos sentirmos melhor quando outros estão pior. Francamente não sei quem foi o ou a idiota que o inventou. Desculpem o desvio.
Mas, como dizia, o sol sorria, generoso, mas paradoxalmente indiferente à vida que decorria cá em baixo.
Continuando a calcorrear por entre magotes de gente taciturna e apressada recordei-me inexplicavelmente do nosso primeiro e, parece-me, exclusivo satélite a entrar em órbita e lembrei-me também de pensar nas razões do nosso atraso, passados que são tantos anos de democracia esbanjada...
Então, pus-me a matutar na minha vida e na de todos nós, afinal, num quase Abril de todas as esperanças; apesar de tudo, uma vez mais, após quase meio século de falsas expectativas e liberdades implexas.
Passei por alguém que ainda não tinha dado conta de que o dia já alvorecera e continuava a dormir aninhado a um canto de um prédio, entre mantas e jornais; cruzei-me com duas gajas novas, altas, esguias e com ar petulante que comentavam qualquer coisa acerca do mendigo, com meio sorriso nas fuças. Lembro-me dos falsos valores que lhes infundimos, a respeito da liberdade...
Continuando o passeio, dei com uma montra de loja fina e com o meu olhar fixo involuntariamente numa senhora loira que compunha um manequim. Mulher bonita sorrindo para o vazio, porventura para o boneco, peito generoso aconchegado numa blusinha azul turquesa em contraste com o azul desmaiado da decoração da montra. Continuava a sorrir, quiçá, com o sentido nalgum acaso feliz da sua vida, e sorri também. Quando deu conta do meu sorriso deixou cair o seu. Não tive tempo de o apanhar, conquanto fosse morosa a sua queda, pois parecia leve como uma pena. Apesar dos meus esforços para evitar que caísse; e Deus é testemunha da ginástica que fiz: um passo para aqui, outro para ali, para a frente, para trás, meia volta, volta e meia, e quase que o sentia diáfano na concha das mãos: lindo e enigmático - ainda mais que o da Gioconda do Da Vinci - , esgueirou-se por entre os dedos, estatelando-se nas pedrinhas da calçada.
Tive pena de ter perdido aquele sorriso tão bonito, mas, enfim, não dramatizemos esta pequena, se bem que lamentável contrariedade; a vida tinha de prosseguir e havia que aproveitar os bons momentos tais como aquela luminosidade vital que pareceu retemperar-me o ânimo e dava um tom bonito à minha cidade.
Não queria opinar sobre política, mas já dei um encontrão na estuporada e, pronto, tenho de acabar... Mas, espera lá! Não!... Não vou macular isto com essa porca! Pelo menos por agora. Porque carga de água não desenvolvi mais ao pormenor o assunto da troca de sorrisos com a loira desconhecida da montra da loja chique? Quer dizer..., não foi bem uma troca de sorrisos, foi mais um desencanto. Um daqueles desencantos que nos fazem pensar com muita nostalgia de tantos outros desencantos e desencontros, mas é como é ou como diz Vinícius de Moraes no seu Samba da Benção: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.
Sei que seria mais fácil e mais apetecível para as mentes famintas de coisas carregadas de fantasia ou desejo que continuasse a minha história por aí; que a recriasse e introduzisse uns pozinhos de romance. Prometo que fica para um outro escrito, se me lembrar.

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MARIA

por João Castro e Brito, em 06.09.14

maria.jpg

Determinar a origem clara do nome, seria tarefa inglória e morosa para alguém que nada sabe sobre a simbologia do sagrado e religioso e fastidioso para quem ainda tem pachorra (ou tempo) para ler as minhas publicações.
Porém, para os e as "pacientes" que me lêem, aqui vai uma sinopse: após aturada e não menos apurada pesquisa na Wikipédia, lá descobri qualquer coisinha.
Descobri que o nome pode ter surgido a partir do "hebraico Myriam" que significa "senhora soberana ou vidente", mas é incerto ou, se calhar, improvável.
Todavia, por ser um nome bastante comum e até anterior a Cristo, pode ter derivado do "sânscrito Maryáh" que significa, literalmente, a "Pureza, a Virtude e a Virgindade".
Outra tese sustenta que o nome "Maryam" terá surgido a partir das expressões "assírias Yamo e Mariro"​, as quais se transcrevem como sendo "Mar azedo ou Acre no idioma aramaico assírio".
Pelo que consegui "aclarar" – convém não desdenhar das coisas interessantes que se podem pesquisar na net – e na escassa produção bibliográfica que possuo sobre o assunto, não cheguei a qualquer conclusão...
Certo é que, na tradição judaico-cristã, está associado ao culto mariano e é um nome que, como todos os católicos sabem, é dedicado com muito fervor à "Virgem Maria, Mãe de Jesus".
Depois deste "extenso" proémio, a Mãe sobre a qual escrevo, não sendo Maria, como a "Virgem", nem por isso foi menos Santa.
Dizer de tudo o que representou para os seus filhos e netos não cabia nestas linhas singelas. A sua presença, a paz de espírito, a paciência que tinha para todos, a bondade e o amor que emanavam de si eram infindos. E o seu cheiro era bálsamo...como era bom o seu cheiro!
Era uma Mulher que pensava muito com os seus botões; sobretudo na melhor forma de gerir o frágil orçamento familiar. E como era entendida no assunto! Tivéssemos uma ministra ou ministro das finanças com o seu sentido de poupança e não precisaríamos de ter uma dívida pública, actual, de quase 300 mil milhões de euros!
Foi uma mulher que passou anos a fio a trabalhar para a família, sem mas nem ais; sempre com a mesma rotina; sempre a primeira a começar e sempre a última a acabar; e sempre com o mesmo desvelo.
O "chefe de família" era o primeiro a ser servido e com honras de suserano! Aliás, era sempre o primeiro em tudo o que resultasse em benefício próprio...
Ao invés, Ela era sempre a última a servir-se. Era sempre a última em todas as circunstâncias e se mais circunstâncias houvesse...
Cuidava diligentemente de tudo e de todos e geria com parcimónia o parco vencimento que entrava em casa, proveniente da única fonte de rendimento: o trabalho do marido.
Lamentos, só os dos ossos com o avançar da idade.
Contudo, sobrava-lhe tempo para amar o marido, os filhos e mais tarde os netos, com total entrega e um sorriso sempre doce que a todos enlevava.
Ela fora sempre assim, com aquela expressão de quem estava de boas relações com o mundo, apesar dos escolhos da vida.
Era casada, claro, mas daquelas mulheres casadas à moda antiga; subserviente às vontades e caprichos do esposo e, se calhar, pouco amadas ou talvez amadas de uma maneira assaz egoísta...
Porém, eram tantos o apego, a bondade e a ternura que brotavam dela que, só agora, passados tantos anos, alguém se continua a dar conta do seu amor incondicional e da falta que lhe fazem o seu colo, os seus beijos e os seus doces afagos! Ela que não era Maria, nem Virgem, mas era Santa!

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