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RITOS E CELEBRAÇÕES DO CAMINHAR

por João Brito, em 07.04.22

é urgente o amor1.jpeg

Ando pelas ruas de Lisboa, é uma quente tarde de sexta-feira, as ruas estão quase despovoadas e as raras pessoas que caminham são pessoas possuídas por uma tristeza amável.
Dos velhos muito velhos, apenas dois velhos muito velhos estão sentados num banco de jardim. Não conversam: trespassam-se com o olhar, estão a ver para lá de tudo, para aquém de tudo.
Um cego avança pelo fio do passeio, junto do qual estão estacionados dezenas de automóveis, enquanto avança com todos os outros sentidos despertos. Surge um indivíduo aos gritos:
- Ó sua besta, então não vê o que anda a fazer?
O cego pára, cativo de uma angústia tão imensa como um desprezo ou como um ódio. Ergue a bengala e agita-a:
- Onde é que você está, seu malandro, para lhe partir a cabeça?
Estão nisto: no domínio de uma espécie particular de indignação - a dos agredidos, que, afinal, são ambos. Ando e penso: é como se estivesse perto de mortos, sem manifestar o mínimo interesse por eles.
Outrora, a cidade era mais confortável e menos hostil. As pessoas, mesmo sem se conhecer, cumprimentavam-se. Não era a celebração da cortesia, nada disso: era, sim, um aceno, um sinal de presença. Agora, as pessoas parecem assustados retirantes de todos os sítios, porque se não sentem bem em nenhum deles. Há nas pessoas uma forma confusa de não estar em parte alguma e o desejo obscuro de estar em todas as partes. Cegos. São cegos sem bengala mas igualmente desencontrados. Os tempos tornaram as pessoas assim. As maneiras de comunidade, que ultrapassavam, pela fertilidade e pela constância, toda a nossa capacidade de imaginação, foram inclementemente derruídas. Vê-se: há outra gente que não é nova de rejeitar, anular e excluir os outros. O sentido da consagração da vida foi substituído pela exaltação do êxito, da pressa, da aspereza. Há predicados e entendimentos que foram banidos das relações; por exemplo: o da solicitude. E eu gosto de solicitude, uma discreta expressão da malícia, do humor e, até, da dignidade. Não há teoria que explique esse banimento.
Vejam só isto: quantos carrinhos de bebé, empurrados pelos pais jovens, se vêem hoje nas cidades?
Eu sei, senhores, ah!, se sei!, quanto foi penosa a batalha que nos conduziu a um patamar de liberdade. Porém, não devíamos, penso que não devíamos, ter deixado que muito do que é essencial se perdesse - até uma fatia de afecto, até uma pequena ração de amor.
Ando pelas ruas de Lisboa, é uma quente tarde de sexta-feira, as ruas estão quase despovoadas e as raras pessoas que caminham são pessoas possuídas por uma tristeza amável. O casal de velhos olhou-se e sorriu com doçura. Ela pegou nas mãos dele e afagou-as lentamente, sem deixar de o olhar, sem deixar de sorrir.
Lá no fundo, impercetível quase, um ponto se move, alarga-se aos poucos, contorna-se-lhe agora o vulto, o vulto é um homem grisalho, um homem de muito mundo, de passo largo e pesado. Olho-o e sou eu. Olho-me e sou a imagem devolvida de uma ostensiva paixão. E, de repente, simplificado e livre, percebo que sou o sujeito de uma oferta e de uma procura. A oferta do amor e a procura de felicidade.
Desesperadamente, como o cego ou como os velhos. Desesperadamente, como todos nós.
Do livro: Lisboa Contada pelos Dedos - Crónicas de Baptista Bastos (Abril de 2001).

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uma tragédia pegada.jpg

Hoje, consagro este epítome (também gosto muito da palavra "epítome") a duas personagens de uma das mais famosas tragédias da obra Shakespereana.
No caso particular, penso que não ficará atrás de uma verdadeira tragédia grega. Acho que não encontro melhor epitáfio para lhes prestar, senão dedicar-lhes esta síntese. Julgo que quem conseguir ler isto até ao fim deverá estar de acordo comigo.
Como as estórias têm de começar por algum lado, começo pelo imaginário nariz de Cleópatra. Era tão evidente e tão exclusivo que não podia pegar nesta estória por outro lado; temos de convir que era um verdadeiro monumento. Até Marie Robes Pierre que não era dado a divagações particulares sobre anatomia humana, escrevera nas suas "Memórias": "se o nariz de Cleo fosse mais curto, não teria mudado a face do mundo". Ora, apesar de considerar Marie Robes Pierre um dos expoentes máximos do iluminismo, não posso estar mais em desacordo com a pouca iluminação de tal presunção. Quando muito, teria mudado a própria face ou até, mesmo, a dos seus amantes. Mas quem sou eu para contrariar tais fundamentos ou as suas pressuposições? Deus me livre, apesar de não ser religioso!
Depois desta breve introdução, é aqui que entram duas personagens que alimentavam animosidades recalcitrantes entre si, sem razão aparente, segundo reza esta estória: o imperador Júlio César e Pompeu, um general romano natural de Pompeia.
Obviamente que, provocação daqui e provocação dali, só podia dar escaramuça e o inevitável aconteceu, como tudo o que é inevitável.
Como era previsível, a Legião Romana do imperador era em maior número e altamente organizada e, por consequência, derrotou facilmente o bando de maltrapilhos e indisciplinados fenícios e cartagineses de Pompeu na célebre batalha campestre de Farsália. Acerca desta batalha, sabe-se agora que, após profundas pesquisas arqueológicas a cerca de meio metro, veio a confirmar-se através do carbono 14 que aquilo não passou de uma farsa.
Há quem sustente a tese de que Pompeu, depois de alguns reveses que não passaram pelos crivos desta estória, solicitou o estatuto de refugiado político ao Egipto.
Obedecendo a esta proposição, vou continuar a descrever o que aconteceu a seguir, incidindo particularmente na teoria do pedido de asilo político de Pompeu. Só para não acabar isto abruptamente, senão perde toda a graça . Então, sucedeu o seguinte:
Por essa altura subiu ao trono Ptolomeu que, desde pequenino, não ia à bola com Pompeu, vá-se lá saber porquê. Vai daí, matou-o enquanto este dormia uma sesta. É claro que César, apesar de adversário figadal de Pompeu na grande farsada de Farsália, não gostou e, por conseguinte, não foi de intrigas: deslocou-se pessoalmente ao Egipto para repor a ordem no império, tendo, para o efeito, degolado o Ptolomeu com requintes de malvadez, oferecendo a sua cabeça de bandeja... perdão, oferecendo o trono de bandeja à nova rainha, Cleópatra...
É aqui que reentra uma das personagens principais desta tragédia que, devido ao tamanho do nariz, já vinha a despertar há uma porrada de tempo desejos lúbricos no imperador...
Pois, acontece a qualquer pessoa, mesmo ao ti' César porque a vida não é só chegar, ver e vencer!
Ora, Cleo, como não podia deixar de ser, partilhou os seus lençóis com o senhor. Porém, naqueles tempos ainda não havia panaceias para levantar a moral e, além disso o velho sofria de arritmia galopante, uma doença chata que herdara da sua progenitora. Efectivamente, ele era um grande filho da mãe doente, desde o primeiro vagido.
Em face desse problema genético, César regressou a Roma para fazer um tratamento com águas termais, mas não resultou e, é claro, foi definhando aos poucos até que os médicos chegaram à triste conclusão de que o melhor era eutanasiar o homem; aquilo era sofrimento a mais...
É aqui que entra outra personagem essencial para a continuação desta estória: Marco António, ex-ajudante de César, que tinha formado um triunvirato de conveniência com Lépido e Octávio, dividindo tarefas administrativas do Estado. Quer dizer: todas menos dormirem, à vez, com Cleo; isso estava fora de questão. Por isso, MA tomou uma decisão drástica; ou seja:  Como, desde os tempos de César, já andava a arrastar a túnica a Cleo, às escondidas do imperador, para não ter a concorrência por perto, despachou Lépido para a Patagónia, Octávio para os Montes Hermínios e rumou ao Egipto. Antes de lá chegar, Cleo, só pelo cheiro, já sabia da sua vinda. Pudera!...
A pirâmide de Queóps desmoronou-se; as esfinges de Gisé e Tebas desfingeram-se; os Deuses rejubilaram e enfim, foi o bom e o bonito! Cleópatra havia-se esmerado na recepção a MA. Com mimos assim, era de esperar que o pobre estivesse perdido de amor, isso é factual; basta conhecer um pouco desta estória.
Mesmo com o rosto cheio de equimoses que mais parecia uma paisagem lunar, MA nunca desistiu da sua rainha. Paixões assim tão lindas acontecem uma vez de mil em mil anos; Pedro e Inês, comparados com este casal, deviam ser como o cão e a gata!
Por Cleo, MA era capaz de guerrear com Hórus e Doktem; que se lixassem, ele desejava desesperadamente! Havia o ónus do nariz da sua amada, que doía para caraças, mas que fazer se naquele tempo ainda não tinham inventado as cirurgias plásticas?!
Assim, como assim, concordaram em passar a fazer amor de lado; do mal o menos!...
É aqui que reentra, finalmente, outra personagem: Octávio, regressado a Roma. Como não era parvo, apesar de medir metro e meio de altura, aproveitou-se do idílio dos amantes para atacar o Egipto à socapa ou seja, pela calada da noite.
Cleo, para além de ser muito batida em batalhas na cama, também o era na batalha naval. Assim, fez uma pausa entre dois concúbitos (sem tirar, sublinhe-se) com MA e enviou ao encontro de Octávio a sua "invencível armada". Uma armada onde se incluíam algumas naus catrinetas cedidas pelo reino de Portugal de então, ao abrigo de um acordo de cooperação e defesa, bilaterais, celebrado entre ambos os reinos. Porém, foi derrotada; em parte porque muitas naus catrinetas metiam água e MA, atormentado pela dor e pela loucura, veio a falecer de desgosto e sífilis.
Octávio que, desde os tempos de MA, já cobiçava o nariz soberbo de Cleo, preparava-se, agora, para tomar para si tão ansiado e maravilhoso despojo de guerra. Todavia, Cleo estava pelos cabelos com todos os imperadores, senadores, cônsules, consulesas, pretores, tribunos, governadores, duques, duquesas, legados, legionários, et cetera, e (acho que vou rematar isto às três pancadas porque a parte final não me está a correr nada bem, peço desculpa) suicidou-se com veneno de cobra-de-capuz (chama-se assim porque o raio da cobra, ainda hoje, anda sempre encapuzada). Todavia, teve morte lenta e cruel porque morreu com indescritível sofrimento. Foi Shakespeare quem o disse e não altero nem uma vírgula, pá, desculpem lá!

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EXALTAÇÃO AO AMOR

por João Brito, em 06.10.21

Vítor entra em casa, apressado e a tiritar de frio. Despe o blusão que atira, ao acaso, para cima da poltrona, alheio ao cão que repousa nos estofos coçados pelo tempo. 

Cláudia, sem claudicar, mantém-se de pé, rígida e pensativa, virada para a lareira onde crepita um lume acolhedor. Lá fora, faz um frio glacial.

O recém-chegado olha para Joana, que foi Cláudia quando ele entrou, e toca-lhe delicadamente nos ombros. Não obstante, Maria que foi Cláudia quando ele entrou e Joana quando a tocou, estremece, pois estava absorta em pensamentos que se enovelavam na mente como o fogo nas cavacas. Volta-se e encara o homem com um olhar lânguido e simultaneamente voluptuoso (desculpem o pleonasmo, mas é só para tornar a ideia mais expressiva).
No entanto, Graça que foi Cláudia quando ele entrou; Joana quando a tocou e Maria que estremeceu, permaneceu expectante e receosa sobre o assunto inadiável que trouxera Vítor até si. Era algo que a inquietava tanto, ao ponto de quase a oprimir.
Todavia, Natália que foi Cláudia quando ele entrou; Joana quando a tocou; Maria quando estremeceu e Graça quando se beijaram com avidez, descola suavemente os lábios húmidos dos lábios do seu amante e exclama:
- Ah, Vítor, se amar fosse fácil não havia tantos a amar tão mal, meu Deus!
Porém, Sofia está equivocada. Ele era Vítor quando entrou e ela Cláudia; António quando a olhou e ela Joana; Luís quando a fez estremecer e ela Maria; Artur quando se beijaram e ela Graça; Francisco quando aliviaram o beijo e ela Natália; e, finalmente, José quando ela disse que não queria tanto a Vítor como agora.
Assim, Arminda de seu nome Luísa, contrafeita com o embaraço provocado pelo mal-entendido, pede desculpa a Nuno, de seu nome Paulo. Pensam celebrar a concórdia com uma noite só para eles, cheia de exaltação ao amor.
- Que dizes, Fernando?
- Por que não, Margarida?
E vão: Lúcio e Emília estão tão jubilantes por se terem reencontrado que tampouco se lembram das promessas de Teresa a Samuel.
Ninguém adivinhava desfecho tão pungente quanto o de Narciso e Elvira; quiçá, Luís e Cremilde.

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SOL DE INVERNO

por João Brito, em 15.03.17

sol de inverno.jpeg

Fez um ano, neste mês, que ocorreu um acontecimento muito triste: um daqueles factos que ficam registados na memória até ao fim dos dias; feito de amor, de perda e da inevitável dor que ainda custa a passar. No entanto, fica a doce recordação da permanência, ainda que breve, de um ser querido junto de nós.
Lembro-me, pouco depois desse episódio marcante, de me ter metido no comboio para ir a Lisboa tratar de assuntos e simultaneamente aproveitar, se possível, para acordar da letargia e tristura dos dias que sucederam à perda do nosso estimado amigo. Estados de espírito reforçados com o inadiável regresso ao Brasil de familiares que me eram (e são) muito caros.
Lembro-me de deambular pela capital a abarrotar de um simpático sol de Inverno, porventura, clamando pela Primavera a querer irromper, sorridente e gentil.
O sol também sorria; como um amplexo doce e quente que me fazia esquecer, por momentos, as dificuldades da vida e o desgosto. Não obstante senti-las, as dificuldades, não me posso considerar dos mais sacrificados. O provérbio "com o mal dos outros posso eu bem" é uma forma egoísta de nos sentirmos melhor quando outros estão pior. Francamente não sei quem foi o ou a idiota que o inventou. Desculpem o desvio.
Mas, como dizia, o sol sorria, generoso, mas paradoxalmente indiferente à vida que decorria cá em baixo.
Continuando a calcorrear por entre magotes de gente taciturna e apressada recordei-me inexplicavelmente do nosso primeiro e, parece-me, exclusivo satélite a entrar em órbita e lembrei-me também de pensar nas razões do nosso atraso, passados que são tantos anos de democracia esbanjada...
Então, pus-me a matutar na minha vida e na de todos nós, afinal, num quase Abril de todas as esperanças; apesar de tudo, uma vez mais, após quase meio século de falsas expectativas e liberdades implexas.
Passei por alguém que ainda não tinha dado conta de que o dia já alvorecera e continuava a dormir aninhado a um canto de um prédio, entre mantas e jornais; cruzei-me com duas gajas novas, altas, esguias e com ar petulante que comentavam qualquer coisa acerca do mendigo, com meio sorriso nas fuças. Lembro-me dos falsos valores que lhes infundimos, a respeito da liberdade...
Continuando o passeio, dei com uma montra de loja fina e com o meu olhar fixo involuntariamente numa senhora loira que compunha um manequim. Mulher bonita sorrindo para o vazio, porventura para o boneco, peito generoso aconchegado numa blusinha azul turquesa em contraste com o azul desmaiado da decoração da montra. Continuava a sorrir, quiçá, com o sentido nalgum acaso feliz da sua vida, e sorri também. Quando deu conta do meu sorriso deixou cair o seu. Não tive tempo de o apanhar, conquanto fosse morosa a sua queda, pois parecia leve como uma pena. Apesar dos meus esforços para evitar que caísse; e Deus é testemunha da ginástica que fiz: um passo para aqui, outro para ali, para a frente, para trás, meia volta, volta e meia, e quase que o sentia diáfano na concha das mãos: lindo e enigmático - ainda mais que o da Gioconda do Da Vinci - , esgueirou-se por entre os dedos, estatelando-se nas pedrinhas da calçada.
Tive pena de ter perdido aquele sorriso tão bonito, mas, enfim, não dramatizemos esta pequena, se bem que lamentável contrariedade; a vida tinha de prosseguir e havia que aproveitar os bons momentos tais como aquela luminosidade vital que pareceu retemperar-me o ânimo e dava um tom bonito à minha cidade.
Não queria opinar sobre política, mas já dei um encontrão na estuporada e, pronto, tenho de acabar... Mas, espera lá! Não!... Não vou macular isto com essa porca! Pelo menos por agora. Porque carga de água não desenvolvi mais ao pormenor o assunto da troca de sorrisos com a loira desconhecida da montra da loja chique? Quer dizer..., não foi bem uma troca de sorrisos, foi mais um desencanto. Um daqueles desencantos que nos fazem pensar com muita nostalgia de tantos outros desencantos e desencontros, mas é como é ou como diz Vinícius de Moraes no seu Samba da Benção: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.
Sei que seria mais fácil e mais apetecível para as mentes famintas de coisas carregadas de fantasia ou desejo que continuasse a minha história por aí; que a recriasse e introduzisse uns pozinhos de romance. Prometo que fica para um outro escrito, se me lembrar.

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CARTAS DE AMOR DE SÓROR MARIE ANA ALCUFURADO

por João Brito, em 08.11.15

cartas de amor3.jpg

Para quem desconhece uma das nossas mais belas e pungentes histórias de amor, talvez seja importante introduzir aqui uma breve nota explicativa, visto que se trata de uma obra que reúne seis de cinco cartas de amor (é obra!), não se sabe se verdadeiras. Todavia, garanto sem qualquer certificado de garantia que a que tenho o privilégio e o prazer de publicar é uma das cartas originais.
São cartas de uma jovem portuguesa do século passado, que se tornou freira, dirigidas ao seu dilecto amado que, por amor à Pátria, a abandonou para rumar até à Índia, como penso que é do conhecimento geral.
Às pessoas interessadas na sua leitura integral, devo salientar que toda a obra, sem excepção, tem um conteúdo deveras pesado e, por consequência, de difícil digestão. Daí que achei por bem não publicar tudo, mas, tão-somente, uma carta que afinal acabaria por ser a seis de cinco. Esta última em papel ph azul tornesol que é lindo e muda de cor sob a acção das lágrimas que são um líquido composto de água, sais minerais e outras coisas mais.
As Cartas Portuguesas acabariam por se tornar num clássico da literatura universal por anteciparem o movimento literário romântico e só mesmo muito mais tarde, mas mesmo muito, serviram de inspiração e, quiçá, expiração a autores de nomeada ligados ao romantismo clássico como Saint-Nectaire, Camembert, La Gruyere, Saint-Emmental, Roquefort (por parte da mãe que era de Míconos), La Vache Qui Rit (uma autora corsa natural de Bois de la Chaize que riu sem parar até ao último suspiro) e tantos outros; a lista é infinita até aos nossos dias, por muito antinómico que possa parecer. Adiante:
CARTA PARA O AMADO, O ALFERES PASSOS DIAS TRISTÃO (A TAL 6/5 EM PAPEL PH AZUL TORNESOL)
"Mon boner:
Respondo-te neste simples aerograma (*1) por razões de austeridade. Agora, quem manda no convento é o abade de Priscos e a abadessa de Arouca que andam de conluio e não me permitem as veleidades que tive em Paris, mon petit chou!
A dor que sinto, longe de desaparecer, bloqueia-me por vezes as vias biliares e deixa-me muito azeda. Por isso peço que me perdoes, aqui e ali, alguma pontinha de irascibilidade. Todavia, não posso lutar contra os desígnios do Salvador, sabendo que Ele escreve direito por linhas de crédito mal parado. Assim, sou obrigada a guardar esta paixão em silêncio! Quem me dera que fosse verdade estares longe da vista e do coração, meu amor! Ai de mim! Cinco longas e dolorosas cartas (*2) místicas, enxameadas de exaltação ao amor, te enviei, adorado da minha vida, e só hoje obtive resposta. Não te culpo pela dilação, meu querido. A culpa é sempre dos correios.
Desculpa tê-las escrito em bilingue, mas ainda não me avezei ao novo acordo ortográfico, não obstante o maldito hábito que me cobre o maculado corpo. Que o Senhor não releve o ultraje!
O esborratado foram lágrimas suadas, bem mais sofridas e santas que água benta, mon amour! Estava de rastos de tanto me arrastar nestas lajes sombrias, pois foi de rastos que as faxinei com potassa e uma escova de piaçaba. Fiquei mais morta do que viva e com bolhas nos joelhos! Por mal dos meus pecados...
Leio e suspiro. A tua singela, mas adorada lettre conforta-me o corpo e a alma. No entanto, sabe a tão pouco! Escreve-me mais cartas, amor, senão morro de desejo e o desejo morre solteiro e tenho medo de acabar sozinha!
Longe de ti e dos teus beijos, são ermos os caminhos, há beirais sem ninhos e contínuos desatinos. Partir é morrer aos poucos, mas ficar é adiar a morte. Ó triste contradição! Mais je vais laisser. Porque é que entre os teus braços e "entre os teus lábios é que a loucura acode, desce à garganta, invade a água"? Ai de mim, que o Criador tenha piedade desta Sua serva!
São esses "teus olhos castanhos de encantos tamanhos" e de um azul penetrante e profundo que me fazem despir o hábito e correr ao teu encontro. Como posso olvidar o dia em que te olhei pela primeira vez, de supetão, ainda noviça e casta? O baque que ia tendo, o efeito persuasor do barulho das tuas botas cardadas nas pedrinhas da calçada? Ou como esquecer o teu porte altivo e marcial; a tua estratégia, quando me abordaste, pela primeira vez, de espada enorme e em riste e me senti miseravelmente pecadora aos olhos da Madre Superiora e aos da infinita misericórdia do Salvador, por vacilar perante tanta potência bélica. Que Ele me castigue eternamente pela perda da inocência e por este fetiiche sordide, mais je ne peux pas evitá-lo!
E como posso também esquecer a forma graciosa e meiga como esporeavas o cavalo, mesmo sabendo que não tinhas cavalo? Como podia imaginar que o meu coração me ia caír aos pés, cega de amores por tanta beauté et l'élégance?
Como posso esquecer, ainda, aquela noite escura como breu em que, banhada pelo luar de uma noite cálida de Agosto, me arrancaste o escapulário e me beijaste, sofregamente, os joelhos e a parte interna das coxas, ao mesmo tempo que as tuas mãos suadas e frias afagaram docemente a minha testa. Je n'oublierai jamais as tuas palavras: «Tens a testa alta, ou é falta de cabelo, Marie Ana?» e eu respondi-te: «Vous avez besoin de lunettes!».
Ai, mon amour, nem toda a água benta deste mundo e do outro atenuará a ira do Senhor, mas que hei-de fazer? Amo-te insanamente! Olha, irei vestida de monja caramelita para não dar nas vistas.
Vous pour toujours, mon chéri
Marie Ana Alcufurado"
 
Nota final: Marie Ana Alcufurado acabou por regressar ao seu catre no Convento das Irmãs Arrependidas, em Beja, onde viria a falecer que nem uma Abadessa, com a provecta idade de 83 anos.
Rezam alguns livros brancos, sem confirmação devidamente fundamentada, que, no leito da morte, sóror Marie Ana conservava a medalha dos Serviços Distintos com Palma, supostamente atribuída ao seu falecido amado, pendurada no pescoço, sua única e saudosa recordação. Sabe-se, igualmente de fonte insegura, que o alferes Tristão devia o apelido a seu pai que fora fadista e também camareiro-mor de Dona Carlota Joaquina, durante as invasões napoleónicas.
(*1) O aerograma (vulgo bate-estradas na gíria militar), foi o meio de comunicação criado pelo, então, Serviço Postal Militar, que mais encheu as estações de correios durante a guerra colonial; de papel amarelo para os militares e azul para os civis (esta informação é de confiança).
(*2) Cartas originais e não umas tretas apócrifas, com o título "Lettres portugaises", publicadas posteriormente por um maçon oportunista (sempre os mesmos!), cujo nome me escuso de pronunciar, chamado Gaby (para os amigos) Guilleragues.

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MARIA

por João Brito, em 06.09.14

maria1.jpg

É quase impossível determinar a origem do nome Maria. Digo "quase" sob o ponto de vista de um ignorante na matéria - sublinho.
Talvez a partir do "hebraico Myriam" que significa "senhora soberana ou vidente", mas é incerto ou, se calhar, improvável.
Por ser um nome bastante comum; e até anterior a Cristo, pode ter derivado do "sânscrito Maryáh" que significa, literalmente, a "Pureza, a Virtude e a Virgindade".
Outra tese sustenta que o nome "Maryam" terá surgido a partir das expressões "assírias Yamo e Mariro"​, as quais se transcrevem como sendo "Mar azedo ou Acre no idioma aramaico assírio".
Pelo que consegui apurar na net - convém não desdenhar das coisas interessantes que se podem pesquisar nesta rede - e na escassa produção bibliográfica que possuo sobre o assunto, não cheguei a qualquer conclusão...
Certo é que, na tradição judaico-cristã, está associado ao culto mariano e é um nome que, como todos os católicos sabem, é dedicado com muito fervor à "Virgem Maria, Mãe de Jesus"
Todavia, a Mãe de que vos escrevo, não sendo Maria, como a "Virgem", nem por isso foi menos Santa.
Dizer de tudo o que representou para os seus filhos e netos não cabia nestas linhas singelas. A sua presença, a paz de espírito, a paciência que tinha para todos, a bondade e o amor que emanavam de si eram infindos. E o seu cheiro era bálsamo...como era bom o seu cheiro!
Um dos filhos conserva uma batinha, secretamente escondida, das que Ela usava no dia a dia até pouco antes de morrer. Porventura, na presunção de que talvez consiga preservar o olor próprio de sua mãe porque, desde que partiu, nunca mais abriu o "relicário" onde a guarda religiosamente. Talvez, um dia um pouco antes de chegar, também, a "sua hora"...
É uma peça de vestuário que, sem pretender sacralizá-la, tem pudor em corromper, expondo-a ao ar impuro, após anos de recolhimento. Não é dado a misticismos, mas é algo que o seu raciocínio não consegue explicar. A faculdade de estabelecer relações lógicas, às vezes, foge ao seu lado racional..
Mas, continuando a dizer sobre Ela:
Era uma Mulher que pensava muito com os seus botões; sobretudo na melhor forma de gerir o frágil orçamento familiar. E como era entendida no assunto! Tivéssemos uma ministra das finanças com o seu sentido de poupança e não precisávamos de resgates nem de troikas!
Passou anos a fio a madrugar para aprontar o começo do dia para todos; sem mas nem ais; sempre a mesma rotina; sempre a primeira a começar os quefazeres;  e sempre com o mesmo desvelo.
O "chefe de família" era o primeiro a ser servido e com honras de suserano! Aliás, era sempre o primeiro em tudo o que resultasse em benefício próprio...
Ao invés, Ela era sempre a última a servir-se. Era sempre a última em todas as circunstâncias e se mais circunstâncias houvesse...
Cuidava diligentemente de tudo e de todos e geria com parcimónia o parco vencimento que entrava em casa, proveniente da única fonte de rendimento: o trabalho do marido.
Lamentos, só os dos ossos com o avançar da idade. E sobrava-lhe tempo para amar o marido, os filhos e mais tarde os netos; com um sorriso doce que a todos enlevava. Ela fora sempre assim, com aquela expressão de quem estava de boas relações com o mundo, apesar das dificuldades da vida.
Era casada, claro, mas daquelas mulheres casadas à moda antiga; subserviente às vontades e caprichos do parceiro e, se calhar, pouco amadas ou talvez amadas de uma maneira assaz estranha...
Porém, eram tantos o apego, a bondade e a ternura que brotavam dela que, só agora, passados tantos anos, alguém se continua a dar conta do seu amor incondicional e da falta que lhe fazem o seu colo, os seus beijos e os seus doces afagos! Ela que não era Maria, nem Virgem, mas uma Santa!

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