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DIÁRIO DE UM AMNÉSICO

por João Brito, em 26.04.20

diário de um amnésico.jpg

Creio já ter escrito, algures (mas onde, Santo Deus?!), um artigo acerca do tema em epígrafe. Por isso, queiram perdoar a minha insistência na abordagem do assunto.

3 de Janeiro de 2014:
Acordei mal disposto na cama: os pés estavam sobre a almofada, a cabeça jazia sobre o tapete e só o corpo se mantinha, embora vacilante, sobre o leito. Ergui-me a custo, apoiando-me numa peça móvel, que julgo ser de mobília, cujo nome não recordo, mas é, aparentemente, uma espécie de tábua quadrada, almofadada, com quatro pernas e, perpendicular a ela, tem fixado algo parecido com um espaldar.
Ao longo dos últimos dias, tenho matutado sobre a utilidade desta coisa, mas ainda não cheguei a qualquer resultado. Quanto ao outro objecto, não muito diferente do anterior, se bem que redondo, colocado numa divisão contígua, coberta de azulejos até ao tecto, acho que já descobri a sua utilidade. Depois de várias tentativas e alguns enjoos (o assento anda à roda) consegui pará-lo e sentar-me nele. Descobri que o conforto era quase total. Pelo menos, fiquei bastante aliviado. Atribuí-lhe o nome de sanita, embora sem certeza.
Uma vez por outra, tenho lampejos de memória e saltam-me as ideias como torrentes de lava, dado que fico com a cabeça a escaldar. No entanto, a esperança é a última a morrer e, por conseguinte, um dia destes, hei-de recuperar a memória na totalidade. Assim, Deus permita e me dê alento para lutar contra esta adversidade.
Apesar da provação por que estou a passar, paradoxalmente, vou descobrindo este estranho, mas maravilhoso mundo dos objectos que me rodeiam. Isto é a prova, mais que provada, de que estou no bom caminho.

6 de Outubro de 2014:
A ideia de escrever um diário foi boa, não acham? É que, assim, vou registando regularmente a evolução do meu regresso, quando mais não seja, à memória de grilo; se bem que o ideal seria mesmo a memória de elefante, mas mais vale ter um grilo na mão do que dois elefantes a voar, como se costuma dizer. Nem sei se é o termo mais apropriado para o caso, mas adiante:
Hoje, por exemplo, vi onde fica o umbigo. Tenho quase a certeza de que é o umbigo. Foi assim: Na tal sala azulejada, onde existe a já descrita sanita, por suposição, na qual me sento uma ou várias vezes ao dia, consoante a vontade, entre outros objectos que ainda não descobri para que servem, há uma espécie de tina côncava de formato ovalado com duas peças metálicas, paralelas, inseridas numa borda. Cada uma possui dois manípulos móveis que rodam para ambos os lados, sendo que, ao rodá-los para o lado esquerdo, brotam água com maior ou menor fluxo, dependendo da maior ou menor abertura dos manípulos. Fiquei deslumbrado com a descoberta e, ao mesmo tempo, intrigado, pois não sei para que efeito servem.
Porém, depois de as abrir e fechar várias vezes, cheguei à conclusão de que servem para lavar as mãos. Ora, se servem para lavar as mãos também servem para lavar a cara, como, com toda a lógica, inferi sem pestanejar. Fiquei de tal modo maravilhado com a descoberta que não me cansei de lavar a cara para aí umas duzentas e tal vezes, mais coisa menos coisa. Foi uma lavagem de tal modo intensa que as mãos ficaram engelhadas e a cara mudou de branca para roxa. Porém, não me canso de pensar que estou a melhorar a olhos vistos.
Assim, esta tina côncava só pode ser um bidé porque consigo ver-me reflectido numa superfície polida, imediatamente acima. Foi desta maneira que descobri o umbigo, mesmo debaixo do meu nariz. Só não sei, ainda ao certo, para que serve, além de mastigar e produzir saliva, mas vamos por partes.

24 de Março de 2015:
Hoje, reparei, por mero acaso, que a água não sai apenas daqueles dispositivos metálicos presos ao bidé e explico: Fui acordado por um barulho intenso e dirigi-me, com alguma apreensão, à abertura que existe numa das paredes do edifício onde acho que moro, a qual dá para o exterior. Lá fora, constatei que chovia a cântaros, mas, curiosamente, a chuva não era proveniente dos mesmos, e vinha acompanhada pela atroada que referi, carregada de luminosidade dispersa dentro de uns flocos parecidos com o algodão, mas, ao contrário da alvura do algodão, estes eram muito escuros e densos. Não obstante o som ensurdecedor, achei a experiência linda e até lavei a cara, para aí, umas trezentas vezes. Curiosamente, pareceu-me ser mais eficaz do que as simples lavagens a que já me acostumei e aproveitei para me lavar todo, inclusive as ceroulas que trazia no corpo, algo que não fazia, ia para muitos meses. Pelo menos, serviu, temporariamente, para acabar com o mau cheiro persistente que me tem andado a seguir para todo o lado.

28 de Fevereiro de 2016:
Afinal, sofri a minha primeira grande desilusão ao constatar que a peça onde me costumo sentar não é uma sanita. De manhãzinha, quando me sentei à pressa em cima do tampo rotativo para me aliviar, descobri, subitamente, que aquilo é um descanso, pois, após a satisfação da necessidade, senti-me em paz e sossego. Bom, se calhar até estou a exagerar um bocadinho ao chamar grande desilusão à minha constatação. O termo sanita é que não estava correcto, foi só isso.
Olhem, agora é que baralhei tudo e já não sei como se chama a tina côncava. Todavia, tenho uma teoria de que o nome correcto daquilo seja um bacio.
Com esta estória tão emaranhada, ainda me passo, ponho os pés à parede e faço em pé. Curiosamente, outro dia pus-me a mirar um bicho peludo a fazê-lo, com a língua de fora e ar muito satisfeito. Ora, se ele ficou satisfeito, acho que também devo ficar, não obstante apreciar muito o descanso. Entretanto, não arredo pé, pois já ando a meter os pés pelas mãos. Nestas cenas, por vezes, precisamos de ter os pés bem assentes no chão.

4 de Agosto de 2016:
Há algum tempo que não cai água para me lavar dos pés à cabeça. Porém, enquanto houver no bacio, posso lavar, pelo menos, a cara as vezes que me apetecer. Também descobri, assim de repente, que o lavatório serve para fazer chichi. Ora, se serve para fazer chichi, é natural que também sirva para fazer cocó. O chato, no meio destes sucessos, são os retrocessos porque, agora, não sei para que serve o descanso.
O mau cheiro incomoda-me menos. Presumo que o meu nariz parece ter-se acostumado.
Entretanto, apesar dos avanços e recuos, fiz novas descobertas que me deixaram mais esperançado em relação ao futuro: Numa divisão que penso que seja uma cozinha, existem duas caixas metálicas com aberturas circulares no meio, ambas com tampas: uma em plástico transparente e outra em plástico opaco. Com efeito, ainda não descobri ao certo para que servem, mas estou cá desconfiado que sejam cabine de duche e secador de cabelo, respectivamente. Isto porque uma delas enche-se de água e às vezes roda a uma velocidade vertiginosa. Tentei meter-me dentro da que suponho ser a cabine de duche, mas ficava muito apertado devido à minha estatura. Contudo, acho que, com o tempo, acabarei por conseguir; é como tudo. Experimentei meter a cabeça na que julgo ser um secador e ia ficando com um torcicolo. Já para não dizer do calor intenso que brota do seu interior. Julgo que deve estar avariada. Ele, há coisas que ainda não consigo entender, apesar da minha enorme força de vontade de aprender.
Com muita perseverança e com a ajuda de Deus vou recuperando a memória aos poucos, vocês vão ver!"

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UM CASO DE AMNÉSIA

por João Brito, em 03.12.18

um caso de amnésia3.jpg

11 de Janeiro de 2017:
É, no mínimo, curioso o número de voltas que um gajo dá, até descobrir a utilidade das coisas!
É evidente que a minha pobre memória já não é a mesma desde que... olhem, varreu-se-me!
A título de exemplo, hoje, vasculhei as gavetas de uma caixa de tamanho médio existente aqui, neste espaço onde presumo que durmo, mesmo ao lado de uma abertura que dá para um espaço que confina com outras aberturas pelas quais penso que ainda não me aventurei. Lá chegarei, se Deus quiser.
Assim, voltando à tal caixa de tamanho médio existente aqui, onde presumo que durmo, mesmo ao lado da tal abertura – vou chamar-lhe candeeiro e vou ver se não me esqueço – , vasculhei as gavetas, como penso que fiz, e observei uns pacotes misturados com outros objectos. Num dos pacotes, já aberto, descobri umas coisas cilíndricas e moles, com revestimento de papel de cor branca, lado a lado, só faltando, aparentemente, uma, ou duas. Tentei tirar uma com a ponta dos dedos, mas foi preciso virar o pacote ao contrário e bater com ele várias vezes na ponta do dedo indicador esquerdo (sou destro) para, finalmente, puxar uma que se partiu ao meio e, ao partir-se, fiquei com um bocado de uma substância castanha presa entre os dedos; por sinal com um cheiro agradável, embora não consiga associá-lo a qualquer cheiro parecido.
Fiquei tão excitado com a descoberta que corri imediatamente para a abertura que dá para o espaço que confina com outras aberturas, mas, receoso, refreei o impulso para não me desorientar.
Finalmente, já o sol se tinha posto na linha do horizonte, decidi deitar-me na carpete para descansar das primeiras emoções. Tinha sido um dia pródigo em novas sensações, algumas um bocado bizarras, diga-se em abono da verdade.
Amanhã, se Deus quiser, vou tentar descobrir para que serve uma coisa branca, circular e ligeiramente côncava que encontrei em cima da caixa de tamanho médio. De manhã, inadvertidamente, deixei que me escorregasse das mãos e quase que se escaqueirou no chão; ainda se lascou um bocadinho, coisa sem importância.

10 de Julho de 2017:
Despertei mais cedo do que é costume, decidido a pôr tudo em pratos limpos, não obstante desconhecer o significado desta expressão, e tudo o que consegui foi um punhado de contratempos.
Levantei-me cheio de dores nas costas e com uma vontade enorme de urinar. Decidido, caminhei dois passos até à abertura que dá para o espaço que confina com outras aberturas. A necessidade aguça o engenho e era urgente. Por isso não havia tempo a perder e eu carecia de verter águas. Ainda, sem passar para além da dita abertura, senti-me húmido e quente nas partes baixas e pensei que era natural sentir-me aliviado porque alguém tinha tido o cuidado de me limpar, após o alívio. Pareceu-me ter sido uma senhora que não consegui identificar, mas cuja cara me é familiar. Satisfeito, tornei a deitar-me na carpete.

5 de Agosto de 2017:
Raios partam a puta da memória! Agora não sei o que é uma carpete, mas descobri, finalmente, que a substância dos tais cilindros serve para fumar e fiquei muito contente com a descoberta. De tal modo que meti logo uma mão cheia deles, de uma assentada, na boca e acendi um fósforo! Tossi tanto que cuspi a prótese dentária que pensava ter engolido há séculos. De repente começou a chover sem razão aparente; até porque, lá fora, fazia um dia bonito e cheio de sol e esta incoerência do tempo deixou-me um bocadinho perturbado.
Momentos depois, pareceu-me escutar um burburinho e um som parecido com o de uma sirene e vi uns sujeitos de porte atlético irromperem por ali adentro, seguidos pela tal senhora cuja cara não me era estranha. Lembrei-me, naquele preciso momento, que era a minha esposa. Dois, avançaram para mim com caras de poucos amigos: um trazendo debaixo do braço uma espécie de camisa ou colete – não sei precisar porque foi tudo muito rápido – e outro segurando firmemente, numa das mãos, uma coisa parecida com um tubo transparente, contendo um êmbolo e uma agulha na ponta. Ao todo eram uns quatro ou cinco e todos vestiam batas brancas. Ironicamente, antes de adormecer sem perceber como nem porquê, ainda tive tempo para me perguntar para que seriam necessários tantos, para segurar uma pessoa tão franzina e sorri a pensar que tudo isto era um sonho mau e que ia acordar no momento seguinte.

20 de Novembro de 2017:
Devia estar desesperado, pois a minha memória não experimenta melhorias significativas, mas que se lixe! Parece que me estou a habituar a passar mais tempo metido na tal camisa ou colete que referi há tempo. Hoje enfiaram-me montes de "M&M's" pela goela abaixo. Não sabiam a chocolate, mas achei muita piada ao colorido e, pelo menos, acalmaram-me. Fiquei sem saber se a substância castanha dos tais cilindros moles, para além de causar muita tosse e servir efectivamente para fumar, é boa para a saúde. Tampouco tenho a certeza da sua existência e ainda não descobri se, para além da abertura que dá para o espaço que confina com outras aberturas, existem outros espaços ou se, afinal, isto é um pesadelo do qual é impossível despertar. Contudo, essa ideia fixa deixou de ser relevante porque, pelo aspecto do novo espaço, tenho a sensação agradável de que mudei de sítio.
Uma coisa é certa: pelo menos trocaram-me a carpete e, por sinal, esta não range tanto. Agora, já não sinto tantas dores de costas ao acordar.

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