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este país não é para velhos (1).png

Lembrei-me do fantástico "thriller" dos irmãos Coen, baseado no romance homónimo do americano Cormac McCarthy e protagonizado por excelentes actores, entre os quais destaco Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin e Woody Harrelson.
Certo é que os "velhos" vivem cada vez mais; não há como desdizer tal facto. No entanto, julgo que esta evidência não significa que vivam melhor; pelo contrário!
A partir do ocaso da vida, os "velhos", de um modo geral, não usufruem de uma "velhice" despreocupada, com todas as condições que lhes garantam um final de vida tranquilo e com qualidade. Mereciam-na, certamente, mas há factores – seria fastidioso enumerá-los – que contribuem para que, muitos, apenas sobrevivam.
É inegável que o aumento da esperança média de vida nas últimas décadas, tem a ver, entre outras causas, com a melhoria dos níveis gerais de sanidade; não contando com a calamidade global provocada pelo novo coronavírus, a qual veio obrigar a uma revisão dos dados relativos à longevidade.
Todavia, penso que a sociedade não se preparou para as consequências desse benefício e os problemas são sentidos hoje, de uma forma acerba, pelos mais desassistidos.
Com o Outono, vem a solidão e a tristeza que lhe é inerente. É igual para todos: em aldeias desertificadas do interior e em centros urbanos. Tanto nuns como noutros, vemos "velhos" vetados ao abandono, alguns tolhidos nas próprias casas.
Não é raro encontrarem-nos mortos, só depois de alguém sentir o cheiro dos corpos em decomposição.
Contudo, a saúde, ou falta dela, é o lado mais dramático da sua ancianidade. Disposição que se veio a agravar com o surgimento da nova peste que parece ter vindo para transformar as rotinas sociais num novo normal.
Se o apoio médico já era deficiente e o preço dos medicamentos insuportável para muitos "velhos", imaginemos, nas actuais circunstâncias, casos particularmente angustiantes de "velhos" afectados por doenças degenerativas. Alzheimer, por exemplo:
Segundo um relatório de 2018, da OCDE, "Cuidados necessários: Melhorar a vida das pessoas com demência", Portugal encontrava-se no "final da tabela entre 45 países, com uma taxa de prevalência de demência de 19,9 casos por 100 mil habitantes, bem acima da média da OCDE (14,8). Pior, só o Japão, a Itália e a Alemanha."
Outra situação prende-se com a forma como os familiares dos "velhos" lidam com o seu envelhecimento, pois, não havendo condições para os manterem em casa, quando não os abandonam à sorte nas instituições hospitalares (públicas) por incapacidades de vária ordem, nomeadamente económica (acontecia antes do advento da pandemia) internam-nos em lares que, apesar de desenvolverem um trabalho louvável e dedicado, não dispõem de grandes meios nem de pessoal tecnicamente habilitado. Sabe-se, até, que há lares e centros de dia que os recebem, nas mesmas instalações, juntamente com outros que padecem de patologias degenerativas.
Quem gere essas instituições não tem soluções para esta concomitância. É claro que há algumas boas excepções, mas são pouco expressivas e um luxo no panorama nacional. Ademais, a crise pandémica veio despoletar mais casos de infracções graves na gestão dos lares, inclusive o encerramento de alguns "ilegais"...
A acrescentar a tudo isto e só para terminar, acho que já não há garantias de que as reformas cheguem para todos. Se essa perspectiva era quase uma miragem antes desta coisa nos atingir, agora, com os efeitos colaterais, resultantes, de muitas falências e consequente estagnação da economia, vão ser cada vez menos os que vão mantendo os seus postos de trabalho para sustentar um número crescente de "velhos", não obstante a Covid-19 ter dado uma "ajudinha" à Segurança Social (desculpem a impudência, "meus queridos velhos").
São crises, umas atrás das outras e já não acredito; este país não é, literalmente, para "velhos" e vai ser difícil ser para todos...

 

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