Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

BREVES REFLEXÕES SOBRE HISTÓRIA (Episódio II)

por João Castro e Brito, em 19.03.24

cristóvão colombo.jpg

Na história, nada acontece por acaso. Todos os factos têm as suas interligações e os seus antecedentes lógicos. Isto até pode parecer uma banalidade ou algo que você já leu ou escutou em qualquer lado, mas vou tentar explicar como a importância de lugares comuns como este, pode transcender a nossa compreensão.
Imagine, por exemplo, se tivesse sido da Vinci a inventar a marmita de Papin; ou Newton a estabelecer o princípio de Pascal; ou Vasco da Gama a fazer a primeira viagem de circum-navegação. Onde ficaria isto tudo? Onde ficaria ou como seria, por exemplo, o estreito de Magalhães? Chamar-se-ia estreito de Magalhães? Provavelmente seria conhecido por estreito de Gama...
Ou se fosse Bertolt Brecht a inventar as pancadinhas de Moliére? Ou, ainda, a chef Cátia Goarmon a explicar, na 24Kitchen, como se faz uma salada de bacalhau salgado desfiado à mão (vulgo a dita cuja)? Ou se Bonaparte tivesse nascido no Egipto, filho de um humilde pescador do Nilo, e tivesse seguido as suas pisadas? Provavelmente, as invasões francesas não teriam existido e Junot, Soult e Massena não teriam levado a cabo milhares de acções de confisco, saque e destruição do nosso património cultural, jamais devolvido; e a Família Real Portuguesa não teria fugido para o Brasil, com o rabinho entre as pernas, deixando os portugueses entregues ao seu trágico destino; e não teriam entrado em Portugal os ingleses (outros saqueadores que tais), sob pretexto de expulsar os franciús, ao abrigo da "Mais Antiga Aliança do Mundo". Se bem que, sem as invasões francesas, Brites de Almeida seria, historicamente, uma ilustre desconhecida.
Até pelo exemplo da padeira de Aljubarrota, continuo convicto de que, na história, tudo é fruto do destino.
Ao contrário do que se pensa, Cristóvão Colombo não descobriu a América por acaso, mas antes por engano. E o que é o engano a não ser o destino? Calma que eu explico:
Diz-se que quando pisou o solo do Novo Mundo, pensou que tinha chegado à Índia. E porquê? – pergunta você com toda a legitimidade – Porque quando viu tanta gente desnuda e de pele vermelha a vir ao seu encontro, decidiu, ali mesmo, apelidá-la de índia. É claro que incorreu num equívoco, mas o que seria de Billy The Kid, Búfalo Bill e até do Grande Chefe Apache, Geronimo, se Colombo não se tivesse enganado? Ou se tivesse chamado americanos aos índios, como se chamariam, hoje, os americanos?
Regressemos à nossa História: Suponhamos que o 25 de Abril foi em Agosto. Como poderíamos falar dos Capitães de Abril?
E se os capitães fossem generais? Ou notários? Ou até mesmo carteiros? Soaria muito mal dizer-se que os Carteiros de Abril tinham derrotado o regime de Caetano em Agosto. Isto, sem desprimor para a nobre e quase extinta profissão de carteiro.
Pior soaria se Caetano se chamasse Óscar. Já pensou quão feio constaria se se tivesse derrubado um regime oscarista? Mesmo se, no caso, os capitães fossem carteiros e o 25 de Abril fosse em Agosto, hã?! Está a ver?
Suponhamos, agora, que Spínola era um autóctone australiano. Como poderia o senhor ter participado no 11 de Março? E se os acontecimentos de 11 de Março tivessem ocorrido nas montanhas dos Himalaias? Ou se os capitães fossem delegados de propaganda médica? Se o 25 de Abril fosse em Fevereiro? Se Caetano fosse José Vitalício Barbosa, caldeireiro, que não é tido nem achado nesta história? Se Afonso Henriques nascesse daqui a uma semana? Se Cavaco Silva fosse um parente afastado do Nosferatu? Se Cristóvão Colombo tivesse achado a Ilha da Madeira, ao invés de João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo? Se Dom João VI tivesse pedido asilo político aos Camarões?
Como certamente inferiu, o encadeamento dos factos, às vezes, é difícil, mas a história também nunca foi fácil, n'é verdade? Olhe, o CC que o diga! Por isso é que teve uma vida curta, coitado! Dizem que foram desgostos de amor...

Autoria e outros dados (tags, etc)

RITOS E CELEBRAÇÕES DO CAMINHAR

por João Castro e Brito, em 07.04.22

é urgente o amor1.jpeg

Ando pelas ruas de Lisboa, é uma quente tarde de sexta-feira, as ruas estão quase despovoadas e as raras pessoas que caminham são pessoas possuídas por uma tristeza amável.
Dos velhos muito velhos, apenas dois velhos muito velhos estão sentados num banco de jardim. Não conversam: trespassam-se com o olhar, estão a ver para lá de tudo, para aquém de tudo.
Um cego avança pelo fio do passeio, junto do qual estão estacionados dezenas de automóveis, enquanto avança com todos os outros sentidos despertos. Surge um indivíduo aos gritos:
- Ó sua besta, então não vê o que anda a fazer?
O cego pára, cativo de uma angústia tão imensa como um desprezo ou como um ódio. Ergue a bengala e agita-a:
- Onde é que você está, seu malandro, para lhe partir a cabeça?
Estão nisto: no domínio de uma espécie particular de indignação - a dos agredidos, que, afinal, são ambos. Ando e penso: é como se estivesse perto de mortos, sem manifestar o mínimo interesse por eles.
Outrora, a cidade era mais confortável e menos hostil. As pessoas, mesmo sem se conhecer, cumprimentavam-se. Não era a celebração da cortesia, nada disso: era, sim, um aceno, um sinal de presença. Agora, as pessoas parecem assustados retirantes de todos os sítios, porque se não sentem bem em nenhum deles. Há nas pessoas uma forma confusa de não estar em parte alguma e o desejo obscuro de estar em todas as partes. Cegos. São cegos sem bengala mas igualmente desencontrados. Os tempos tornaram as pessoas assim. As maneiras de comunidade, que ultrapassavam, pela fertilidade e pela constância, toda a nossa capacidade de imaginação, foram inclementemente derruídas. Vê-se: há outra gente que não é nova de rejeitar, anular e excluir os outros. O sentido da consagração da vida foi substituído pela exaltação do êxito, da pressa, da aspereza. Há predicados e entendimentos que foram banidos das relações; por exemplo: o da solicitude. E eu gosto de solicitude, uma discreta expressão da malícia, do humor e, até, da dignidade. Não há teoria que explique esse banimento.
Vejam só isto: quantos carrinhos de bebé, empurrados pelos pais jovens, se vêem hoje nas cidades?
Eu sei, senhores, ah!, se sei!, quanto foi penosa a batalha que nos conduziu a um patamar de liberdade. Porém, não devíamos, penso que não devíamos, ter deixado que muito do que é essencial se perdesse - até uma fatia de afecto, até uma pequena ração de amor.
Ando pelas ruas de Lisboa, é uma quente tarde de sexta-feira, as ruas estão quase despovoadas e as raras pessoas que caminham são pessoas possuídas por uma tristeza amável. O casal de velhos olhou-se e sorriu com doçura. Ela pegou nas mãos dele e afagou-as lentamente, sem deixar de o olhar, sem deixar de sorrir.
Lá no fundo, impercetível quase, um ponto se move, alarga-se aos poucos, contorna-se-lhe agora o vulto, o vulto é um homem grisalho, um homem de muito mundo, de passo largo e pesado. Olho-o e sou eu. Olho-me e sou a imagem devolvida de uma ostensiva paixão. E, de repente, simplificado e livre, percebo que sou o sujeito de uma oferta e de uma procura. A oferta do amor e a procura de felicidade.
Desesperadamente, como o cego ou como os velhos. Desesperadamente, como todos nós.
Do livro: Lisboa Contada pelos Dedos - Crónicas de Baptista Bastos (Abril de 2001).

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D