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SEXO NO SÉCULO XXII

por João Brito, em 03.02.17

sexo no século XXII1.jpg

Chegaram ao condomínio, situado no subúrbio, e estacionaram o veículo de propulsão electromagnética numa plataforma móvel que o transportou ao silo correspondente.
Depois, entraram no ascensor,  desceram noventa pisos e digitaram o código de entrada no apartamento. Seguidamente, dirigiram-se ao andróide mordomo, comutaram-no para a posição off, arrumaram-no na despensa e (uf!), em uníssono, chamaram:
«Querida, onde estás?...Uhu!... Não há nada que se coma nesta casa, amor? Estamos esganados!»
Dos lados da casa de banho, veio a resposta:
«Já desligaram o vatel? Pois, não deviam tê-lo feito! Agora não vos posso atender, estou a acabar a depilação!... Ai!... Têm de mandar arranjar esta pistola de raios lazer que está uma autêntica porcaria; fico cheia de pêlos na mesma, sabem?»
Estrelaram uns ovos de dodô(*) e, enquanto os devoravam gulosamente, contaram as novidades do dia:
«Queres saber uma que nos disseram hoje no serviço? Então, não é que o Tó Zé foi apanhar a mulher na cama com o andróide jardineiro, pá, já viste?! E sabes que mais? A coisa deu divórcio litigioso, o gajo aproveitou o pretexto e amancebou-se com o estupor do bonifrate, vê lá tu! Há cada uma que a gente até fica com as caras à banda, francamente!
Estranhando o silêncio da mulher perante a novidade tão surpreendente que acabaram de lhe anunciar, dirigiram-se à casa de banho, pé ante pé, e descobriram-na na posição de quatro com o andróide despenseiro e, simultaneamente, a fazer um felatio ao andróide da limpeza doméstica.
Perante o lamentável cenário de libertinagem pura e dura com que se depararam, não estiveram com meias-medidas: mandaram um par de estalos à mulher por andar a estragar os robôs com mimos e deram-lhes uma grande descasca por estarem a fazer aquelas coisas dentro do horário normal de expediente. E ainda os ameaçaram com desligamento colectivo, sem justa causa, por via das tosses.
Passado o infeliz episódio, resolvido a contento de todas as partes envolvidas e após o jantar, entretiveram-se a fazer zaping em canais de memórias televisivas do século XXI. Entre os programas memoráveis dos canais generalistas de outrora, o tempo ia passando enquanto esperavam que o andróide lava-loiça acabasse de arrumar a cozinha.
Após as tarefas domésticas cumpridas, desligaram a máquina e foram-se deitar; o dia tinha sido bestialmente fatigante.
«Querem ter relações sexuais?» - perguntou ela, alheia às respostas.
«Estamos com dores de cabeças...» – esquivaram-se, notando o tom desapaixonado da sua pergunta.
«Deixem lá, delegamos nas nossas unidades sexuais autónomas» - disse ela.
Trataram de colocar umas caixinhas cheias de luzinhas coloridas, a piscar e a silvar intermitentemente, cada uma em cima da respectiva mesa de cabeceira, e caíram instantaneamente num sono profundo, quase de morte. Os módulos deram, então, início a um ciclo de coito tântrico automático (ou não fossem autómatos) que se iria prolongar noite adentro.
Módulo xy: Pronto para inicializar acto, coordenadas XPD (xray, paso-doble) - 33° 69' 96'', diga se já posso metê-lo, over.
Módulo xx: Over me, é claro; para já, apénis tenho contacto visual. Pode dar início à aproximação copular...ups, "just a minute", necessita lubrificar um pouco!
(A memorizar expressões e interjeições designativas programadas para hoje: «isso, aí, aí tá bom, quero-te todinho só pra mim, tens um corpinho de sonho, mete-o todo, ai, ui"...brup, slurp, truca-truca, chloc, over.)
Módulo xy: Cuidado, não perca o controlo nem declame poesia erótica da Natália Correia e muito menos do Bocage ou do António Botto sob risco de sobreaquecimento das células de iões de hidrogénio!
Comutar para a posição de gozo total ATL (argenta, tango-louco) - 433... Ah, confirme se tomou pílula, over.
Módulo xx: Afirmativo, pílula processada. Vou comutar libido para pilota automática para poupar a sua pilha (pila em madeirense). Diga se tomou comprimido azul, over.
Módulo xy: Ok, acabei de processar sete. Já sinto algo. Todavia, mantenho-me em standby a aguardar efeito mais acentuado, over.
Horas mais tarde:
Módulo xx (a escaldar e a deitar fumo): Gozei que nem uma máquina perdida; noite inesquecível; estou de rastos; tenho de desligar; over and over.
Na manhã seguinte:
«Dormimos que nem uns anjinhos, querida!» - exclamaram os andróides siameses, na casa de banho, sentados na sanita.
«Ontem não vos contei o que se passou na mercearia do senhor Narciso? Vejam lá que a do 222º esquerdo pegou-se com uma venusiana do 335º direito! Tudo por causa da outra deixar sempre a roupa a pingar no estendal e molhar-lhe a roupa toda! O bom e o bonito, foi quando a venusiana a acusou de ter feito sete abortos espontâneos de uma relação extra-conjugal com um terminal de computador obsoleto. Como se não bastasse, ainda gritou, para quem a quisesse ouvir, que a do 222º tinha ido para a cama com um sujeito verde com antenas cromadas, vejam só! A do 222º não foi de modas e chamou-lhe venusiana(**), imaginem! Zangam-se as comadres e descobrem-se as verdades, é uma vergonha!... Ai, estas malditas hemorróidas dão cabo de mim!» - desabafou ela a fazer um semicúpio, no bidé, com água das malvas.
Eles, com os ares mais paternalistas da galáxia, já imersos na banheira, enquanto deixavam um robô lavar-lhes as partes, perguntaram:
«Foi bom, o sexo, ontem?»
Ela anuiu com indiferença. Eles desconfiam, há algum tempo, que ela tem um caso traumático com um andróide ucraniano.
Não tardaram a separar-se. Eles, lá seguiram a caminho de mais um dia de trabalho e ela caminhou até uma cinemateca próxima de casa, onde desempenha trabalho de recuperação e catalogação de filmes indianos "hard-core" do século XX. Uma actividade cultural assim, a modos muito "kitsch".
É um trabalho visual árduo e, naturalmente, cansativo, não obstante aqueles olhos grandes e doces que Saturno, um dia, lhe há-de comer.

(*) Ave pré-histórica das Ilhas Maurício.

(**) Seres hermafroditas com três pernas, quatro mamas, duas vaginas e um pénis assoberbante atrás das costas; e detestam que lhes chamem venusianas. Manias!

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