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SEXO NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA

por João Brito, em 09.05.20

sexo na antiguidade clássica1.jpg

. Os gregos foram realmente uns licenciosos como os historiadores os pintam?
. É plausível pensar-se que os romanos praticavam relações eurogenitais muito antes da criação da Zona Euro?
. E as conjecturas que se têm feito acerca dos hábitos necrófilos dos egípcios têm, efectivamente, algum fundamento?
. É risível aceitar a ideia estapafúrdica de que os hunos cuspiam para o ar quando copulavam?
Regressado a um tema que me apraz sobremaneira, escolhi estas quatro incertezas históricas ligadas a civilizações da antiguidade clássica que julgo representativas de sociedades que foram influentes em vários patamares da evolução humana e que me pareceram pertinentes. Isto, sem embargo do estilo fabulístico da narrativa.
Julgo que estas culturas ajudaram a moldar os nossos costumes, particularmente, numa área que ainda consideramos restrita ou tabu.
Quanto às consultas que efectuei, é facto que pecaram por escassas, mas tenho a meu favor um álibi: é o medo patológico de frequentar bibliotecas por causa do cheiro intenso a lignina. Associado a esse medo, vem a minha preguiça em folhear livros, com a agravante de padecer de uma rinossinusite crónica. Já para não dizer do sacrifício que é botar cuspo nas pontas dos dedos. Isto, apesar da extensa bibliografia que podia percorrer, não fosse a indolência mental inata, aliada ao enorme esforço intelectual que teria de fazer. Assim, escolhi a Internet porque vem tudo condensado e, por conseguinte, é menos cansativo.
Por outro lado, também podia pesquisar em revistas da especialidade. Todavia, seria indigno se o fizesse porque, por exemplo, a Penthouse estava a milénios de existir em Atenas; a Playboy ainda não era vendida no Cairo; a Lui só apareceu nos quiosques de Roma depois de Cristo e os hunos, esses intratáveis broncos, supõe-se que liam revistas pornográficas dinamarquesas para conseguirem ter erecções. Isto porque as suas mulheres eram, supostamente, muito feias e gordas.
No entanto, pelo que me foi dado a ler, a conclusão a que cheguei, após análise exaustiva às práticas sexuais destas quatro civilizações, é que não diferiram substancialmente umas das outras e uma coisa é certa: os antigos já eram danados para a brincadeira.
Os romanos foram mais longe e internacionalizaram-na, com a introdução dos efémeros jogos sem fronteiras em que valia tudo menos tirar olhos.
Muito mais tarde, os gregos seguiram-lhes as pisadas e introduziram uma variante desses jogos: as Olimpíadas do Sexo que duraram um ano bissexto.
Numa dada passagem, na Wikipédia, li algo que me despertou a curiosidade: Júlio César, como romano que era, também tinha gostos fora do vulgar: por exemplo, adorava comer baguinhos de uvas moscatel de Setúbal enquanto uma escrava lhe afagava a virilha direita. Todavia, fica-se sem saber se JC apreciava mais os baguinhos de uvas moscatel de Setúbal ou os afagos na virilha direita, mas isso também é irrelevante para a história; foi somente um aparte, peço desculpa.
E que dizer do nariz de Cleópatra? É consabido que Marco António tinha uma atracção compulsiva por aquela bela protuberância carregada de sensualidade, mas pouco mais se sabe sobre esse seu encantamento fetichista.
Já um huno feio e peludo, completamente nu, devia ser uma visão desagradável, não? E uma múmia egípcia (não confundir com a famigerada "múmia paralítica" portuguesa) com cuequinhas de renda? Valha-nos Deus!..
Mas tentemos botar um pouco de ordem neste texto eivado de reticências e referências dúbias ao comportamento sexual dos nossos ascendentes remotos e prossigamos, senão divago como é meu hábito.
No que diz respeito às relações amorosas desta gente, pelo pouco que pesquisei, julgo que os gregos eram, efectivamente, muito liberais. Basta mencionar Afrodite sem esquecer, inevitavelmente, Eros, Anteros, Himeros e Pothos, os seus quatro filhos alados, uns Erotes que não negavam a sua proveniência divina.
E, é claro, Apolo que, para além de belo, também tocava lira para deleite dos cavalos de Eumelo (consta que Eumelo tinha ciúmes dos cavalos, mas nunca foi devidamente documentado).
A propósito de Apolo, é certo que Homero nutria um fascínio por ele, de tal modo alucinante, que o citou apaixonadamente na Ilíada.
Finalmente, Paralellepípedon. Não tenho palavras para o descrever, tão rica e vasta é a sua obra a propósito da arte do sexo. De tal modo que Catherine Millet se baseou nela para escrever o seu polémico romance, hipoteticamente, auto-biográfico, "A Vida Sexual de Catherine M.".
Contudo, os costumes sexuais variavam muito de cidade para cidade. Os espartanos, por exemplo, não queriam misturas, pois odiavam a concupiscência, a luxúria e eram atreitos a tibiezas; uns cinzentões do caraças! Por via disso, os rapazes eram enviados para escolas especiais, chamadas Androceus e as raparigas para os Gineceus. Pensa-se que Salazar teria copiado a ideia, muito mais tarde, criando escolas masculinas e femininas (outro aparte, peço desculpa).
Segundo alguns estudiosos das ciências comportamentais, estas medidas favoreceram a emergência da homossexualidade. Contudo, não fizeram com que a Grécia desaparecesse como civilização. Aliás, há teorias que explicam que esta separação dos géneros até foi benéfica, mas não me perguntem porquê e para quem!
Consta que um espartano, ginecófobo obsessivo, cujo nome foi apagado da história (terá existido?), decidiu formar-se em medicina como forma de contrariar tal fobia. Para tal, leu o "Corpus hippocraticum" do Hipócrates (obviamente) e os estudos do Alfred Kinsey (não tão óbvio).
Sagaz, o rapaz, embora muito reservado, especializou-se em fisiologia e patologia dos órgãos sexuais femininos, para o que teve que percorrer vários Gineceus de Esparta, onde examinou com minúcia, como convinha, todas as raparigas. À luz do conhecimento actual, pensa-se que foi deste modo que nasceu a Ginecologia. Não se sabe, ao certo, se o espartano ficou curado desse temor mórbido ao sexo feminino...
Em Atenas, as coisas eram mais tipo tudo ao molho e fé nos deuses do Olimpo. Gente de ambos os sexos, da mais nova até à mais velha, juntava-se à noitinha, junto à Acrópole, e dedicava-se a uma senda de promiscuidade sexual que faria corar Afrodite, se Ela, com efeito, não tivesse passado de uma fábula. As colunas da Acrópole estavam pejadas de grafítis obscenos e no chão podia-se tropeçar nos mais variados objectos, utilizados na estimulação sexual, e até escorregar nos fluidos corporais! Isto, contado, ninguém acredita...
É claro que a autarquia ateniense encarregava-se de limpar tudo pela manhãzinha para estar tudo limpinho e pronto para o recomeço, na soirée seguinte. Era uma perversão total da moral e dos bons costumes, nunca vista nem imaginada. Um século mais tarde, os gregos viram-se gregos para erradicarem estes costumes impudicos da sociedade. Até tiveram de pedir ajuda aos troianos, mandando vir um cavalo e tudo, imagine-se!...
Em relação aos egípcios, não pesquei grande coisa a não ser que tinham procedimentos assaz estranhos: andavam sempre de lado e a sua caligrafia era difícil de entender. Além disso era uma escrita papirosa c'mo catano! Demais a mais, construíram pirâmides com o bico para cima (?!) e não se livraram da fama de terem sido necrófilos, embora, como referi, só subsistam indícios.
Contudo, o culto pelos mortos, deste povo singular, alimenta-nos a suspeita de que só conseguiam obter prazer sexual à custa da profanação de cadáveres, preferencialmente múmias...
Os romanos, a par dos gregos, eram muito sofisticados. Diga-se de passagem que foram eles os verdadeiros precursores das orgias e dos bacanais, onde se comia, bebia e fazia-se sexo a torto e a direito, enquanto as legiões oprimiam os povos, como certamente, não constitui novidade. Afora isso, os romanos também não jogavam com o baralho todo. Exemplo dessa falta de cartas, era o facto de obterem prazer sexual à custa dos pobres cristãos que sacrificavam às feras ou dos gladiadores que se decepavam mutuamente nas arenas enquanto a populaça ululava de prazer. Um espectáculo triste e bárbaro que ainda hoje se repercute nas arenas de Portugal. A reacção é a mesma: é ver a "afición" a exprimir esgares de prazer sexual, quiçá orgasmos, enquanto assiste ao martírio de um animal acossado e a sangrar abundantemente.
Mas, continuemos senão disperso-me novamente e não é meu fito, por hoje, escrever sobre um dos mais vergonhosos crimes perpetrados contra animais; com a agravante de fazerem parte da "tradição cultural" de um país...
Os romanos tinham taras porque não havia mais nada para fazer em Roma a não ser cultivar a mandriice e o deboche; o trabalho era para os escravos.
Para não amolecerem com excesso de lazer, inventaram as guerras, indo travá-las para além das suas fronteiras. Aí, vinham ao de cima formas imaginosas e bizarras de não adormecerem durante os confrontos. Faço aqui uma referência, bem a propósito, às Guerras Púnicas, que foram três e julgo que duraram cem anos, pouco mais ou menos. Eram umas guerras muito recreativas, em que romanos e cartagineses rasgavam as suas túnicas e ali, no campo de batalha, praticavam sexo puro e duro para gáudio e volúpia dos generais romanos. Destaco um legado chamado Gaudêncio Jacinto Prazeres das Dores que mandava punir (daí o carácter punitivo das Guerras Púnicas) imediatamente, por castração, o legionário que não consumasse o acto durante a "peleja". Ora, como é consabido, isso levou à queda do Império Romano porque, ao fim dos tais cem anos, o paradigma "em Roma sê romano" deu lugar a outro: "Todos os eunucos vão dar a Roma".
Finalmente, os hunos. Que dizer dos hábitos sexuais desses bárbaros eurasiáticos, semi-analfabetos, capitaneados por Átila? Mais a mais, um brutamontes que, curiosamente, só sabia contar até dez e com grande dificuldade.
Uma coisa parece ser certa: as hunas eram férteis à brava! Tão férteis que – diziam as línguas viperinas das sogras – eram capazes de engravidar só pelo cheiro ou seja: o huno aproximava-se da huna, cheirava-a e, caso não lhe cheirasse a chamusco, era tiro e queda.
Todavia, como referi, eram, presumivelmente, feias e gordas e isso exigia, para além de um excelente olfacto, uma grande dose de imaginação e muito estímulo por parte delas porque os gajos não tinham maneiras nenhumas. E era, em parte, por via desses estímulos, não se sabendo de que tipo, que ficavam prenhes e pariam às ninhadas.
Só assim foi possível criarem as famosas hordas de que se serviam para invadirem outros territórios.
É claro que ficamos sem saber se, com efeito, os romanos praticavam relações eurogenitais muito antes da criação da Zona Euro ou se os hunos cuspiam para o ar durante o sexo, mas julgo que são pormenores de somenos importância. Contudo, posso voltar ao tema, lá mais para a frente, a pedido e sob consulta.
Com isto, espero ter contribuído, mais uma vez, e reitero, sem fins lucrativos, para um maior conhecimento dos hábitos e costumes dos nossos ancestrais.

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