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A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

28.12.17

SARL, RELATÓRIO E CONTAS


João Brito

sarl, relatório e contas.jpg

Prezadas e prezados accionistas, minhas senhoras e meus senhores:
É com imenso prazer e justificado orgulho que aproveito a generosa oportunidade que me é dada, para pedir a vossa atenção para a análise dos Relatório e Contas, anuais, da nossa Sociedade, referentes a 2017.

INTRODUÇÃO:
Não sem alguma ponta de mágoa e até pesar - passe a redundância - , começaria por recordar a Vossas Excelências que as bases programáticas para o OGSARL (Orçamento Geral da SARL) de 2017 - aliás iniciadas no ano de 2016, conforme em tempo oportuno se demonstrará - começaram da pior maneira para as nossas aspirações.
Recordaria, em primeiro lugar, esse recente e infeliz revés que foi o afastamento do Benfica de todas as competições europeias, já para não dizer do fraco desempenho nas competições domésticas. Tal facto veio comprovar, uma vez mais, que a metodologia seguida pelos nossos conselheiros não foi a mais adequada às necessidades do mercado cada vez mais competitivo.
Com efeito, em resultado do rigoroso inquérito prontamente ordenado pelo Conselho de Gerência, a tal propósito, foi já notificada a empresa Páginas Amarelas sobre a firme decisão de prescindirmos dos seus serviços.
Senhoras e Senhores accionistas: Em conformidade, tenho o grato prazer de vos anunciar, em primeira mão, que o nosso próximo candidato à Presidência já não será escolhido pelo método obsoleto da Lista Classificada.
Prossigamos na exposição que se pretende que seja objectiva, isenta e minuciosa antes que comece a divagar.

EXPECTATIVAS POLÍTICAS GERAIS DO EXERCÍCIO:
1 - Uma das grandes propostas de discussão de alteração dos nossos estatutos no sentido de corrigir, a páginas tantas, a clausula que diz que a nossa democracia empresarial é uma "democracia a caminho do socialismo", ainda não foi aprovada na generalidade por via da teimosia de alguns generais de três estrelas mais obstinados e a abstenção de mais uns tantos de cinco estrelas. Assim vai ficar a aguardar até ver se chove, dada a seca severa que se continua a fazer sentir.
2 - Todavia, esperamos ver atingida a maioria de dois terços "nem que seja necessário ir a arrastar os joelhos até Fátima!", parafraseando a nossa querida accionista Idalina Calvário do Rosário, no acto da entrega dos seus únicos dois terços na Comissão de Revisão da Constituição.
3 - Durante o corrente exercício foi lançado, numa fase experimental, o projecto da primeira rede nacional de frio glaciar, devido a uma massa de ar gelado proveniente do Polo Norte, cujos efeitos já se começaram a fazer sentir, como certamente algumas e alguns accionistas tiveram a oportunidade de constatar. Nomeadamente aquelas e aqueles que são defensores acérrimos da economia energética e que, por consequência, andam a tremer de frio.
4 - No concernente à nossa política externa, a prioridade das prioridades, depois do afastamento do Benfica e do Sporting da "liga milionária", passou a ser a manutenção do Futebol Clube do Porto na Taça das Feiras dos enchidos de atar e pôr ao fumeiro..., quiçá a passagem automática à Terceira Sub-distrital, série B.
5 - O processo de saída da União Europeia, Ptexit (pronunciar petéquezit), teve um retrocesso inesperado, devido ao facto de o actual Director de Finanças ter passado de "patinho feio a cisne resplandecente" na visão turva de um alto responsável de uma congénere alemã, facto que, aparentando algum atraso, é de facto um avanço, dado que se perspectiva, a longo prazo (na pior das hipóteses, sublinhe-se), que saiamos de marcha-atrás. Aliás, um dos sócios gerentes, Adalberto Damásio, anunciou durante a reunião da Associação de Jornalistas Europeus que teve lugar em Lisboa, sob o alto patrocínio do Correio da Manhã e da revista Sábado, que a deslocalização da nossa sociedade para Telangana é um dos propósitos da Administração a breve trecho. Para que tal se concretize é necessário que passe esta onda eufórica que coloca a nossa sociedade uns pozinhos acima do lixo. É questão de deixar assentar o pó...
6 - Durante o exercício em apreciação, o terceiro anel manteve-se praticamente cheio e sob risco de desabar, não obstante a grande quantidade de bilhetes falsos emitidos durante 2016, segundo a OCDE e o FMI (sempre os mesmos!). Porém, tendo em conta os demais anéis e também o cachucho do Professor Marbello, a inflação não se excedeu, graças a Deus.
7 - Em compensação registou-se um importante crescimento do PCIB (Produto Cultural Interno Bruto) o qual se deve, principalmente, a alguns programas emitidos regularmente pelas televisões "generalistas", designadamente "O Preço Certo", "Querida Júlia", "A Tarde é Sua" e "Manhã CM, na RTP1, SIC, TVI e CMTV, respectivamente. A gerência não dispõe, ainda, de dados definitivos sobre o espectacular aumento do PCIB durante o corrente ano, mas pode assumidamente garantir que os valores actualmente atingidos só encontram paralelo em resultados obtidos no longínquo ano de 1975 do século passado, durante as campanhas de dinamização cultural do MFODS (Movimento das Forças Desarmadas)
8 - Ainda, no plano cultural, cumprirá assinalar que no ano transacto se realizaram, em território nacional, incluindo as regiões autónomas, qualquer coisa como 969.696 discursos oficiais, alguns dos quais em português. É obra!
9 - Prevê-se, para 2018, alguma contestação independentista nos territórios insulares, pensa-se que por solidariedade com a Catalunha, a qual pode pôr em causa a continuidade do nosso investimento nas ilhas. Todavia, vamos apelar ao sentido patriótico dos portugueses do Continente (não confundir com a cadeia comercial) para consumirem mais queijo da ilha.
10 - No sector agrícola, a tendência, a médio prazo, é para o alargamento da reforma agrária para os 90 anos, com propensão gradual para aumentar até já não haver necessidade de reformar, seja quem for.
11 - No plano da educação, o número de chumbos pouco excedeu o milhão e meio, o que num ano de seca e das oscilações habituais do preço dos combustíveis (descidas irregulares de 1 cêntimo e subidas regulares de 5 cêntimos), não pode deixar de ser considerado positivo e, por consequência, antecipar um cenário mais optimista para a nossa capacidade produtiva.
12 - No plano político imediato, dois pontos avultam decisivamente:
1º - O Bloco Central ainda não foi constituído por subsistirem dúvidas em relação à sua constituição. Assim, enquanto alguns peritos defendem o cimento armado, outros mais afoitos preferem armar aos cucos.
2º - A produção de factos políticos vai ser sistematizada em regime de plano quinquenal dadas algumas fragilidades do sistema inicialmente previsto que, como é do conhecimento geral, era para ser concebido em regime de plano inclinado.
13 - Finalmente, o conselho de gerência espera ver aprovada, no próximo exercício, a sua proposta democrática e patriótica para a delimitação dos sectores, a qual assenta em bases muito sólidas, práticas e pragmáticas - passe a redundância - e que aqui se enfatizam, mais uma vez: Independentemente de dar lucro ou prejuízo, tudo deve ficar nas mãos da iniciativa privada, permanecendo no sector público, apenas e por enquanto, as Forças Desarmadas em Parada (FDP), apenas por uma questão de prestígio.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Senhoras e Senhores accionistas: Sem pretender afastar-me do assunto que me trouxe a esta assembleia geral ordinária - a prestação de contas da nossa sociedade - e para dar por encerrada esta sessão, pediria, contudo, a vossa indispensável atenção para uma última e pertinente questão que é a seguinte:
O ano que finda, ainda não terminou de facto, e por muito estranho que vos possa parecer, o ano que teve inicio no final do ano anterior, veio, efectivamente, pôr termo ao ano que ainda decorre.
Mesmo estando perante uma problemática aparentemente complexa, na verdade é bastante simples. No fundo tudo resulta, contrariamente ao expectável, da incompatibilidade existente entre o ano económico e o ano civil, a qual existe, por seu turno, entre outros anos, sejam comuns ou bissextos. É uma questão que dá dores de cabeça, sobretudo a quem sofre de enxaquecas, mas não há dor que uma aspirina - passe a publicidade - não possa, pelo menos, atenuar.
Então, para terminar sem mais delongas, se os anos religiosos não coincidem entre si, e tendo o ano ateu profundas raízes marxistas, a gerência deliberou pedir à Comissão de Revisão da Constituição um parecer, a fim de se determinar em que ano estamos.
Nas actuais condições, sentimos o dever de não apresentar a Vossas Excelências, afinal, quaisquer contas, o que aliás se insere na melhor tradição da nossa sociedade.
Aproveitando o ensejo, desejo a Vossas Excelências, Senhoras e Senhores accionistas, amigas e amigos, a continuação de um Santo Natal e um próspero Ano Novo.

O Presidente do Conselho de Gerência em exercício até ver,

António do Ó Costa