Dizia aquela senhora, ainda no tempo em que foi directora do FMI, que era necessário "partilhar o crescimento". Dizia-o no final de uma cimeira dos países mais ricos do mundo. Segundo ela, os líderes desses países haviam concordado em identificar e dar prioridade às reformas que são essenciais para aumentar o estímulo do crescimento de cada país, área em que a organização que dirigia, supostamente, actua. Reforçava a ideia com a importância que deve ser dada à "partilha alargada dos recursos e do conhecimento"...
Ora, como estamos habituados a discursos de conjuntura, já não estranhámos mais este.
É do senso comum que, sem as ferramentas que reduzam as desigualdades e aumentem, assim, as perspectivas económicas, designadamente dos grupos de mais baixos recursos e com poucas qualificações – os primeiros a serem afectados com as mudanças tecnológicas – , o fosso entre ricos e pobres aumenta inevitavelmente. Palavras, portanto...
A propósito desta assimetria sem solução (?) e a fazer fé nas estatísticas, a concentração de riqueza continua imparável mesmo em tempo de guerra, sem embargo dos constrangimentos que lhe estão associados. Direi, até, que a reforçou, especialmente, com os chamados lucros excedentários de empresas ligadas a sectores mais impactantes nos bolsos dos cidadãos. Sem contar com os ganhos fabulosos da banca.
E, a talhe de foice: com tantas famílias em dificuldades económicas, que dizer desta imoral atribuição de meio milhão de euros a uma ex-funcionária da TAP, actual secretária de Estado do Tesouro como forma de a indemnizar. A título de quê?! É legal – dizem – , mas, do ponto de vista ético, está correcto? Onde pára a equidade social?
É claro que há formas de combater as desigualdades, mas pergunto: alguém está interessado em fazê-lo?
Há algum empenho político, por exemplo, em combater eficazmente a fuga à tributação de fortunas incalculáveis?
Portugal, onde alguns pensavam (se calhar, vivendo uma realidade virtual) que o número de pobres tinha diminuído, contrastando com os relatórios da OCDE que contrapõem como permanecendo entre os países mais desiguais e com maiores níveis de pobreza consistente, permanece em banho-maria.
Portanto, continuamos a marcar passo na UE e a deixar-nos ultrapassar por países europeus, supostamente de menores recursos, que parecem ter apostado em mudar para melhor.
Para compor o ramalhete, mudaram, também, todas as perspectivas e espectativas a um ritmo extraordinário e violento, devidas a esta guerra que ninguém sabe muito bem durante quanto tempo se vai prolongar e de desfecho imprevisível.
Todavia, mantenho a profunda convicção de que o cenário social se vai agravar e, pela ordem de "prioridade", o eterno lixado é o mexilhão – passe o vulgarismo.