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RETRATO DE DAMA COM COMICHÃO NAS COSTAS

por João Brito, em 09.11.16

retrato de dama com comichão nas costas.jpg

A grande virtude deste novo romance de Branca-flor Epitalâmio será, por hipótese (se quiserem também pode ser por acaso ou porventura), o facto de se chegar à última página sem se ficar a saber qual era o tema da narrativa ou se, com efeito, terá havido narrativa; mesmo com efeito retroactivo.
Estória situada na linha pensadora e descritiva das grandes obras da literatura clássica como "Quand j'étais jeune, j'aimais putains et vin vert", de um grande escritor franco-mação chamado Marie Mónique de La Forêt, maravilhoso fresco onde Branca-flor foi colher a inspiração que lhe faltava para o arranque desta ficção acerca do amor. Aliás, um pouco na sequência de outro belíssimo livro, titulado "O amor é lindo porque sim, prontos!".
Branca-flor foi mais longe e aventurou-se no território desconhecido da ambiguidade semântica, situando-se no plano inclinado de uma diacronia que diria quase neurótica ou nevrótica, se vos apraz.
Neste "Retrato de dama com comichão nas costas" perde-se, assumidamente, a capacidade significativa do discurso apócrifo em favor da acumulação vivencial de vocábulos, nomes, breves notas dissonantes de chocolate e frutos vermelhos, contactos telefónicos, contas para pagar, o carteiro toca sempre duas vezes, o padeiro toca três, interjeições significativas de volúpia, et cetera.
Articula-se de tal modo a escrita cuneiforme, cunctatória e contemporizadora - passe o circunlóquio - em torno daquilo a que chamaríamos uma devoradora paixão pelo "Prazer Solitário"; uma evocação misantrópica do grande poeta e dramaturgo John Smith Dick, contemporâneo de Frank Smart Jr. (que não é tido nem achado nesta estória).
Senão, vejamos a páginas poucas: "Maria Agripina Freitas Sanches do Ó... meu Deus, sou tão linda! Dia 23 escova de dentes ultra-suave, um pensinho para o dia a dia...vaselina...truca-truca, zuca-zuca, floc-floc, ai, Balecas, aqui não q'os telhades 'tão baixes, filhe!", (...).
Com absoluta convicção, digo que este romance, embora tenha um carácter procrastinatório, é definitivamente procrastinativo, pois é atravessado pelos temas da proximidade e da iminência - passe a redundância - , sempre adiados, uma vez que, página a página, vai aumentando a expectativa sobre o desfecho da narrativa inconsistente, eminentemente parda, como é apanágio de Branca-flor. São cerca de cinquenta páginas, mais coisa, menos coisa, de leitura perplexamente fascinante que, simultaneamente, nos deixam com uma agradável sensação de modorra.
A recusa da estória como catarse fácil de quem a lê, é, só por si, um acto de coragem da autora e uma chapada de modernidade no lodo da nossa literatura.
Julgo que ainda está à venda num quiosque perto de si e lê-se naquele intervalo entre a sanita e o bidé porque até ao lavar dos dentes é vindima.
Nota: Esta publicação teve o patrocínio da APHO (Associação Portuguesa de Higienistas Orogenitais).

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