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PÔR AS BARBAS DE MOLHO

por João Brito, em 19.04.20

pôr as barbas de molho.jpg

Peço desculpa, mas tinha de regressar a um assunto sobre o qual me apraz muito escrever: isso mesmo, história de Portugal. Como é que adivinharam?! Então, vamos lá:
Julga-se que o termo em epígrafe data do interregno e parece ter sido criado nesse lapso de tempo em que Portugal era palco de anarquia e guerra.
Pensa-se, embora sem certeza (por isso é que se pensa), que o autor desta frase coloquial foi o moço de câmara de Dom João das Regras. Sim, não estou equivocado. Efectivamente, João das Regras era um senhor com regras, não obstante as regras serem tabu no seu tempo ou período, conforme queiram interpretar.
Portanto, é um dito que já tem barbas e que não tem nada a ver com dar água pela barba, entenda-se. Isto, apesar de saber-se que João das Regras tinha a barba rija.
Todavia, este tema só foi debatido, alguns séculos mais tarde, por Segismundo Freud e seus pares e presume-se que terá sido um debate muito freudulento. Porém, será tema para uma outra história, se não me levarem a mal.
Também se diz que Dom João das Regras foi uma personagem determinante nesse período. Determinante não se sabe muito bem em que sentido, a não ser o facto provado, comprovado e consumado de ter sido muito amigo do mestre de Avis que não sei a que propósito o introduzi aqui.
Sem ele uma coisa era certa: ainda teríamos muitas naus catrinetas na pesca do bacalhau e do carapau.
Durante 1383 e 1385, isto já lá vão uma porrada de séculos, João das Regras - que usava uma barba farta e rija, como já tinha sublinhado - trabalhou muito para preservar a unidade nacional. Tinha noites em que se esquecia de ir para a cama, não cumprindo, assim, as suas obrigações conjugais, o que, à luz da percepção actual, devia ser algo muito chato para a sua esposa. Porém, e segundo as crónicas de antanho, a senhora aparentava não se importar com o jejum do esposo. Vá-se lá saber porquê...
Quando tinha aquelas crises lixadas de demência galopante, ausentava-se bastante da realidade social que assolava o país, refugiando-se atrás dos muros da residência. Para além disso esquecia-se, com uma facilidade confrangedora, das promessas que era seu hábito fazer aos que o rodeavam e era muito distraído. Pensa-se que estas crises eram devidas a algum esgotamento nervoso por via da indisciplina dos seus alunos, já existente nesses tempos (imagine-se!). Contudo, nada ficou provado, até ao momento em que vos escrevo esta estória, acerca da sua fidedignidade.
Temos, isso sim, exemplos, ainda não muito distantes, que mostram que João das Regras não foi o único que teve apagões. Séculos depois dele, houve notáveis que tiveram essa perda temporária de memória, nomeadamente figuras incontornáveis como "Paulinho das feiras" com a sua "decisão irrevogável" ou Passos "Pinóquio" que prometia pela alminha da mãe dele que não aumentava os impostos nem metia a mão nas pensões dos "velhinhos". Só para citar estes dois espécimes. Houve muitos e tantos outros haverá. Quase cinquenta anos de promessas falsas de políticos tachistas...
E vou concluir isto às três pancadas porque fugiu-me a "caneta" para a política caseira e não era esse o meu propósito. Além de que a coisa não está a fluir como eu quero e aproxima-se a hora do almoço, adiante:
João das Regras, certa noitinha, enquanto comia com cautelas um caldo de galinha a escaldar, tão absorto estava nos seus pensamentos que as barbas mergulharam profundamente na canja. Este episódio trivial, mas muito importante para a compreensão da nossa História não passou despercebido ao seu camareiro que, sempre que o fidalgo conferenciava com os seus botões, parecendo não estar neste mundo, comentava entre dentes: Olha, pôs as barbas de molho, coitado!
E pronto; enquanto os senhores e as senhoras cientistas não inventarem uma "vácina", protejam-se do estupor e tentem ser felizes!

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