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carlos henriques marques.jpg

No ano de 1828 do século XIX, Carlos Henriques Marques, um algarvio naturalizado alemão, despertou para a política sem saber como nem porquê. Parece ter sido uma espécie de epifania, mas não passa de mera conjectura, dado que já morreu há muito tempo e, pelo que se sabe, não deixou testamento. Todavia, especula-se que, enquanto a mãe lhe dava a sopinha à boca, estava tão absorto numa lagarta que boiava à superfície do caldo que nem escutou com atenção o debate que decorria na rádio, entre Hegel e Engels.
A dado momento o despertador despertou (claro!) inusitadamente e o jovem Carlos Marques, sobressaltado com o barulho estridente do relógio, deu inadvertidamente com os olhitos na concha da colher de sopa; uma circunstância acidental que, por pouco, não lhe provocou uma catarata no olho esquerdo e a dilatação da menina do olho direito. Se calhar, era porque a menina estava predestinada...perdão, o menino..., enfim, só Deus sabe.
No entanto, como era avesso a contrariedades, apesar de ser uma criança de tenra idade, não desistiu. Ele era um miúdo muito precoce e, por conseguinte, aguentou a dor que nem um homenzinho. Assim, com olho vivo e num volver de olhos, disse à mãe:
«Mãezinha, quando for grande quero ser um político português!»
A mãe, às voltas com a loiça suja e irritada com os esfregões de arame que lhe enferrujavam os fundos dos tachos (não confundir com outros fundos e tachos) e das panelas, replicou:
«Olha, para isso mais vale fazeres só a instrução primária, meu filho! Sim, mais vale! Vê os exemplos do engenheiro Sócrates e do doutor Relvas!
Carlos Marques, acabou de comer a sopa precipitadamente, tendo primeiro o cuidado de colocar a lagarta na beira do prato, correu apressadamente (passe a redundância) para o seu quarto, abriu a escrivaninha, pegou na sua sebenta e escreveu: "Manifest gegen das Kapital", enquanto trauteava a "Tia Anica de Loulé".
Depois deste primeiro episódio, digamos premonitório, passado na sua infância e volvidas algumas décadas, o manifesto que manuscrevera em tenra idade seria passado, de forma clandestina, para lá da fronteira a fim de ser imprimido, dado que, cá, ainda não existia a máquina do Gutemberg e o inventor do estêncil ainda não era nascido. Porém, como foi editado em bilingue, não se vendeu, sequer, um exemplar porque se esqueceram de o traduzir para outras línguas e a língua teutónica era, então, pouco conhecida, assim como a algarvia.
Furibundo com tal insucesso, Carlos Marques terá exclamado "mas estes gajos não sabem rever as provas, porra?!", expressão dramática que estará, eventualmente, na base do revisionismo moderno. Mercê deste lamentável incidente, Marques esteve tem-te não caias para aderir ao euro-comunismo (não confundir com o euro-ecumenismo). Todavia, antevendo maus ventos para o seu pensamento filosófico e para as suas convicções ideológicas, preferiu afastar-se da vida política activa e dedicar-se à criação de frangas, abrindo um aviário em Vila Real de Santo António, em sociedade com Kerensky e Bakounin, um social democrata e um social anarquista, respectivamente.
Detentor de um notável ascendente económico, dado o sucesso imediato do negócio, adquiriu apreciável prestígio e importância sociais. 
Da noite para o dia, Marques tornou-se uma imagem de marca, muito bem paga, deixando crescer o cabelo e a barba e fazendo-se grafitar em muros e paredes pelo MRRPP (Movimento dos Rapazes e Raparigas) que Pintam as Paredes).
Ofereceu um par botas da tropa e um boné ao seu amigo Lenine, por altura do nonagésimo nono aniversário natalício deste e custeou os óculos novos de Trotsky, um pobre proletário míope, cheio de ideias fixas, que tratou como se fosse seu irmão.
No meio de tanta solicitação, envolvência e tempo dedicado à luta pelos direitos dos povos oprimidos, para além de um altruísmo desmedido, ainda lhe sobrou disponibilidade para cometer a proeza de escrever (apenas numa noite!) uma obra que foi "best seller" naquela altura: "O Capital" (Volumes I a III). O primeiro foi um estudo profundo sobre instalações sanitárias públicas e higiene em geral; o segundo versou sobre a gripe das aves e a conservação dos ovos; o terceiro, finalmente (claro!), sobre reinvestimento e fuga de capitais para a Suíça.
Ao contrário do que acontecera com o seu primeiro ensaio "Manifest gegen das Kapital", assumidamente revolucionário, mas pouco mobilizador de massas, "O Capital" vendeu-se que nem água e, naturalmente, Marques ganhou umas massas o que constituiu para a sua apreciável conta bancária, sinal por demais evidente de que os tempos eram favoráveis ao empreendedorismo e afins. Ademais, "O Capital" foi traduzido em tantas línguas e por tantos incompetentes que a sua essência se perdeu no tempo, dando origem às confusões actuais.
Incompreendido, Marques começou a viajar pela Europa. Passou por Paris onde testemunhou o fracasso do socialismo de notrami Miterã e a ascensão do populismo de Le Pénis, comeu algumas francesinhas (pensa-se que foi ele que lhes pagou as passagens para o Porto, onde se instalaram definitivamente até aos nossos dias), beijou, longa e apaixonadamente, Anita Ekberg na Fontana di Trevi em Roma, comeu paelha e valencianas em Valência, turrón em Alicante, et cetera.
Preparava-se, também, para fruir o mundanismo e a fleuma Londrina, à luz dos primeiros candeeiros eléctricos e sob o ruído dos primeiros carros a vapor, quando descobriu que estava teso, tendo-lhe sido cancelados todos os cartões de crédito. Enviou, então, um telegrama a Henry Miller, a quem tinha apresentado anos antes Anaïs Nin e Maria de Medeiros, para que este lhe valesse com dois mil dólares. Como não obteve resposta do amigo (mal agradecido), mendigou anos a fio entre a zona aristocrática de West End e a zona deprimida de East End.
Foi na Pinchin Street que travou conhecimento com Jack , o "estripador" e o "homem elefante", dois amigos que se condoeram com a sua miserável condição e o acolheram na sua água-furtada. Humanamente, era o máximo que podiam fazer para o ajudar porque a vida estava má para todos (menos para a aristocracia, naturalmente!).
Carlos Marques regressou à Alemanha carregado de dívidas, cheio de dúvidas e sem a glória de outrora. No entanto, a sua barba e o seu corte de cabelo continuaram a ser moda desde a Rue de Saint-Lazare em Paris até à rua de São Lázaro em Lisboa. Coco (pronuncia-se cocó) Chanel, Dior, Lapidus, Versage, Ach Brito, Jerónimo de Sousa, Cavaco Silva e o "Barbas" foram alguns dos que espalharam aos quatro ventos e aos sete mares o encanto inconfundível de Marques.
Mas, como dizia, regressado à Alemanha, o nosso teórico socialista é imediatamente preso pela Gestapo, por ordem do chanceler Adolf Hitler, acusado de ser um agitador comunista da pior estirpe e por suspeitas de ligação à Opus Dei (também pensei que não tinha lógica, mas há que convir que o Hitler era um maníaco-depressivo).
Longo foi o cativeiro de Carlos Marques e, durante o seu calvário, apanhou muita chuva e muito vento porque as prisões ainda não eram climatizadas. Consequentemente, apanhou gripe, escarlatina e tosse convulsa. O advogado oficioso nomeado para o defender, esforçou-se, conforme pôde, para lhe fazer ver as razões da detenção. De tal forma o fez, tanta literatura lhe levou que, se até então Carlos Marques tinha sido um comunista convicto, a partir dali passou a ser um anti-comunista primário.
Quando a Alemanha perdeu a guerra e após a libertação do cárcere, a primeira atitude que tomou foi dirigir-se a Vila Real de Santo António, partir a cara a Karensky, dar um pontapé no cu do Zinoviev e soltar a franga, a única sobrevivente do aviário.
Depois desse episódio, Marques, arruinado, velho e cansado, retirou-se para a sua casa de campo na Aldeia da Coelha, comprou um pacote de esferográficas "BIC" (passe a publicidade), oitenta maços de papel cavalinho e, como até então sempre fora um atado, desatou a escrever, compulsivamente, a sua teoria económica do anti-comunismo científico que também chamou de "O capital é que está a dar".
A partir daquela altura tornou-se tão mais teórico do que tinha sido até ali que até plagiou a teoria da relatividade de Albert Einstein, só para lhe fazer pirraça.
Assim, passou Carlos Henriques Marques os últimos anos da sua vida: a escrever, raladíssimo com a profusão de discípulos que copiaram, mal e porcamente, as suas ideias, um pouco por todo o mundo, nomeadamente na Rússia (URSS) onde Josef Stalin, um "social-fascista" georgiano, semi-analfabeto, foi disso o exemplo mais paradigmático (ou o paradigma mais exemplificativo).
Finou-se em Boliqueime no ano de 1883 com um enfarte durante um jogo de xadrez que disputava a Andrey Kasparov, um arménio naturalizado algarvio que, curiosamente, não era xadrezista, mas sofria de ataques de caspa.
Diziam os soalheiros lá da terra que o homem era um bebedor compulsivo de aguardente de medronho. Constava que bebia para esquecer a miséria franciscana em que viveu até ao fim dos seus dias. Contudo, já se sabe que, nestas estórias (ou contos) há sempre quem lhes acrescente uns pontos.
Desde o seu desaparecimento, as suas ideias e obra, continuam a ser incompreendidas, daí a razão pela qual nunca foi nomeado para prémio Nobel de coisa alguma.

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