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PEDRO E INÊS: UMA ESTÓRIA DE FACA E ALGUIDAR

por João Brito, em 17.11.21

pedro e inês.jpg

Peço encarecidamente desculpa aos hipotéticos leitores e leitoras, mas tinha de regressar a um tema que me fascina sobremaneira que – presumiram bem – é História de Portugal, isso mesmo! Assim, sem mais delongas, vou debruçar-me, desta vez, sobre uma das histórias de amor mais lindas e mais pungentes do reino de Portugal, dos Algarves e "se mais mundo houvera lá chegara" - parafraseando o meu estimado amigo Luís Vaz. Prossigamos, então:
Inês foi aia e Pedro foi rei. Para quem não está ao facto, isto, de facto, foi um facto. Logo, tivemos mais um caldo entornado na nossa História ou um caldinho como é comum dizer-se. Tanto que se consumou e tragicamente se consumiu.
Conta esta estória que, nas galerias sombrias do Paço, Pedro cruzava-se, nessora, já lusco-fusco e amiúde, com Inês, ali, a dois passos, e reparava que os seus olhos eram lindos e de uma luminescência esfuziante. Para não dizer dos ombros que eram tão alvos e tão cândidos que davam para encher o olho (mais adiante, explico a razão porque davam para encher o olho). De tal modo que, cada vez que se viam, Pedro sentia uma vontade desmedida de lhe deitar a alça do vestido abaixo.
Permitam-me, aqui, uma pequena digressão: Segundo estudos efectuados muito recentemente, está comprovado, por portas e travessas, que os reis eram uns licenciosos do piorio (não confundir com licenciados porque, salvo honrosas excepções, eram uns bestuntos analfabetos), capazes dos piores desregramentos, pondo em causa o pundonor da monarquia. É claro que estes hábitos ancestrais não constituem novidade para quem está a par das marotices da nobreza de antanho. No entanto, é só mais uma achega para tentar desmistificar a falsa noção que as pessoas têm acerca da superioridade moral da aristocracia de outrora. Felizmente que a fidalguia, agora, tem maneiras! Honras lhe prestem porque fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia, como disse alguém, cujo nome já se me varreu. Prossigamos:
Certa noite de luar (como sabem, o luar nada mais é do que a luz do Sol reflectida pela Lua), a aia devaneava, doce, lânguida, derramando uma lagrimazinha de crocodilo, quiçá pelas cebolas do Egipto, entre frondosos arbustos, aprumando o busto, inalando a fragrância que vinha do Mondego ou talvez do Alva, quando Pedro, arrastando o manto, coçando o mento, exalando menta e avivando a mente, se encontrou com ela, cara a cara e de caras, pintaram a manta.
O calor da noite (ou entusiasmo), a brisa branda do Dão, o aroma das benefes, a distância dos olhares pudibundos e furibundos dos cortesãos e cortesãs, fez com que os dois amantes inacabados percebessem que era chegado o tempo de dirimir aquela indefinição do amor.
Sem perderem tempo, submeteram-se, segundo a própria vontade, aos ímpetos lúbricos da carne, como convinha e, claro, a bronca estalou: toda a corte ficou a saber que o rei estava metido numa grande alhada por via de uma bela plebeia, pois embrulhara-se nas saias de uma, pondo em perigo os costumes, usos e abusos da realeza.
Vou sintetizar um pouco mais isto porque não me está a correr nada bem...
A troco de uma mão-cheia de Dobras, três magalas horrentes, coniventes e sem dentes, apanharam Inês, lavando no rio, desacautelada, semi-nua, semi-inconsciente das intenções maliciosas dos conspiradores, defensores da nata e, com a frieza inata dos estripadores, vararam-na...
Pedro uivou que nem um lobo, espumou de raiva que nem um cão, berrou que nem um bode e jurou vindicta.
Cavalgou por todo o reino e além fronteiras, conforme tinha aprendido no livro de Bem Cavalgar Toda Sela, vasculhou as comarcas, as dinamarcas, perscrutou as marcas, as peugadas, os rastos, os indícios, os vestígios, os sinais, enviou emissários, comissários, mercenários e, por fim, caçou os sanguinários.
Os assassinos a soldo foram sumariamente presentes ao Rei que os esventrou, sem mais aquela, perante uma multidão exaltada, aficionada e sedenta de sangue e arena.
Ao primeiro extraiu-lhe o fígado pelas costas e fê-lo em iscas. Ao segundo, sacou-lhe o coração pelo peito e, tendo-o desfeito, jogou-o aos cães; a multidão ululava de prazer mórbido e gritava "olé!". O terceiro jamais apareceu, mas foi excomungado, exonerado e expulso das Forças Armadas, sem direito a qualquer estipêndio ou subsídio.
Depois, com uma lágrima ao canto do olho, dado que era zarolho, Pedro sentou o corpo jacente e arrefecido de Inês numa poltrona e prometeu punição aos poltrões. A fidalguia contrita, temendo o castigo régio, comia tremoços e pevides e enganava a inquietude torcendo as orelhas.
Um a um, em fila do pirilau (fila indiana), vieram beijar as mãozinhas frias de Inês que lhes retribuía com um sorriso de morte ...
Esta estória não se esgota aqui, como constatam pelas reticências. Todavia, deixo o seu desfecho ao juízo da vossa imaginação ou à leitura atenta do último romance de Joaquim da Silva Reboredo: "O Amor Infinito de Pedro e Inês", Edições Maozinhas de Veludo.pt.
Uma coisa é certa: Não casaram nem tiveram filhos, tampouco foram felizes para sempre. Também nunca brincaram às escondidas ou à apanhada, mas amaram-se perdidamente até ao fim.
Passados séculos, ainda se escuta o restolhar dos seus corpos quando se passa junto ao túmulo, no Mosteiro de Alcobaça.
Nota final: Mais uma vez quero pedir desculpa ao professor José Mattoso pela minha falta de rigor histórico e, por conseguinte, elevada ignorância. Muito obrigado e bem haja!

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