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OS BENEFÍCIOS DA DESABITUAÇÃO

por João Brito, em 01.10.21

os benefícios da desabituação.jpg

Há quem diga que a necessidade aguça o engenho ou algo parecido, mas imaginemos em tese que, deixando de haver a necessidade, também se pode dispensar o engenho e passo a desenvolver o meu raciocínio para defender algo que tenho andado a cogitar há algum tempo. É um contributo pessoal, sem fins lucrativos, na procura de formas de tentar minorar os efeitos das malfadadas crises que têm contribuído para o nosso atraso secular. Diz o povo, e convém não lhe desdenhar a sabedoria, que as crises são devidas à má qualidade dos nossos governantes - actuais e ancestrais. Para ajudar à festa, ainda levamos com as crises alheias e outras imponderáveis; é injusto e há que procurar um remédio para isto; uma coisa assim a modos que radical.
Ora, recorrendo a uma máxima popular, "não há tabaco, não há vício", o mesmo se poderia dizer em relação a outros como, por exemplo, o vício do álcool. Presumo que, desaparecendo o vinho e as restantes bebidas alcoólicas, desapareciam os alcoólicos anónimos, pois não haveria razão para existirem.
Aliviados das despesas supérfluas do tabaco e do álcool, o ordenado mínimo já chegava para melhorar o rancho; pelo menos uma vez por mês. Bebia-se água da torneira nos restantes dias, não obstante as toneladas de cloro que lhe botam. Livres destes, passaríamos a combater o vício de comer carne. No primeiro mês íamos estranhar, mas, depois de feito o desmame, carne para que te quero! - Como é comum dizer-se.
Frases tipo "ainda me lembro do tempo em que comia entrecosto" ou "era um consumidor inveterado de lombinhos de vitela com cogumelos", teriam o mesmo sentido nostálgico de outras como, por exemplo, "ainda sou do tempo em que o feijão careto era a dez tostões o litro".
Perdido este hábito, penso que todos veríamos a nossa situação económica melhorada e a aproximar-se a passos largos dos padrões de qualidade de vida dos países mais desenvolvidos da Europa e, quiçá, do mundo.
Seria, então, a altura mais apropriada para atacar outra pecha muito nossa de comer peixe. Ou não fossemos um país virado para o mar, nomeadamente para a importação de pescada do Chile e peixe gato. Teria de haver aqui outro desmame. Digamos que no primeiro ano poderia comer-se peixe com a frequência com que se come, na generalidade, corvina ao sal ou Linguado au Meunier.
Sem gastarmos um cêntimo no tabaco, no álcool, na carne e no peixe, estou convicto de que este seria um ponto de viragem histórico. Finalmente, após dezenas de anos (para não falar em centenas que é muito chato), seríamos capazes de equilibrar a balança de pagamentos a nosso favor.
Mas teríamos de abandonar outros hábitos estúpidos como, por exemplo, o vício da pedinchice; é tão feio! Era reabilitar a velha Mitra, mandar para lá os pedintes de rua a pão e água, vadiagem! - é evidente que os turistas estrangeiros não apreciam bilhetes-postais destes, por amor da santa!
Acabava-se, também, com os transportes públicos e, por consequência, com os passes sociais para velhinhos reformados que só sabem andar de cu tremido. É consabido que andar a pé faz bem às coronárias e, enfim, juntar-se-ia o útil ao agradável, pois evitaria mais uma despesa supérflua. Concretizada esta desabituação, passaríamos a combater outros hábitos muito enraizados na nossa tradição alimentar, tais como os lacticínios. Acabar-se-ia com a criação de gado leiteiro e, consequentemente, com a produção de leite e seus derivados. Assim, os açorianos, por exemplo, já podiam dedicar-se à pesca a tempo inteiro porque mar não lhes falta. Além de que o cheiro intenso a chichi e cocó de montes de vacas a deambular nas estradas é insuportável!
Saindo um pouco deste âmbito, entraria no universo daquilo que usamos para nos vestirmos. Far-se-iam, primeiro, testes às pessoas no sentido de avaliar a sua resistência física aos elementos. Sabe-se que os nórdicos, e mais acima os esquimós, desenvolveram capacidades de resistência extraordinárias. Testemunhamos exemplos disso quando nos visitam no Inverno. É vê-los a passear de "slips" nas ruas enquanto nós andamos super-agasalhados e mesmo assim a tiritar de frio. Portanto, parafraseando uma afirmação de um conhecido banqueiro português, após uma questão levantada por um repórter sueco: "Se vocês aguentam o frio, os portugueses não aguentam porquê? Ora, essa! Ai, não que não aguentam!"
Penso que, com um bocadinho de força de vontade, também podemos reduzir drasticamente o uso da roupa.
Ora, devido às economias proporcionadas por mais esta desabituação, não tenho dúvidas (e raramente me engano) que o nosso nível de vida subiria em flecha e poder-nos-ia colocar quase no topo dos países com maior poder de compra e, por consequência, com melhor qualidade de vida.
Outro vício como o hábito de morar dentro de casa perder-se-ia facilmente através de incentivos à banca, no sentido de dificultar, ainda mais, o crédito à habitação. Aliás, isso já vem acontecendo nos dias actuais: a banca já só empresta a quem tiver dinheiro para a comprar a pronto, por muito paradoxal que nos pareça.
Outro paradigma deste enorme esforço da banca para que se perca mais um hábito inútil, é o concernente ao crédito mal parado. Há, novamente, famílias que não conseguem pagar as prestações das casas e isso representa uma grande aposta nos benefícios da desabituação. Há que estimular campanhas com o objectivo de mentalizar as pessoas para o ar livre. Viver do ar é natural e saudável. Há muita gente que vive do ar e não tenho conhecimento de que tivesse morrido... até à data.
É tudo uma questão de força de vontade. Se as pessoas colaborarem, os salários e as pensões chegam para todos e isso colocar-nos-á no topo dos países mais desenvolvidos do mundo. Vamos torcer pela desabituação total! Bora lá?

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