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O VENDEDOR DE SORRISOS

por João Brito, em 11.10.21

o vendedor de sorrisos.jpg

A janela estava aberta de par em par, deixando entrar o sol que se espalhava sobre a sala contígua ao hall. Olhou o rosto dela reflectido no espelho, por cima do aparador, e permaneceu ali parado, num misto de admiração e louvor aos deuses por lhe proporcionarem tão perfeita visão: bela e triste; de uma tristeza profunda e aparentemente distante:
«O seu sorriso, minha senhora!» - estendeu-lhe os braços, de mãos postas em concha, e ela virou-se para ele, renitente e reticente e, no entanto, as suas mãos tocaram, ao de leve, as dele.
Entregou-o com a sensação reconfortante de mais uma venda exclusiva, pois pensava de per si que não há dois sorrisos iguais. Lembrou-se de uma frase de José Saramago que também começava, assim, "Não há dois sorrisos iguais" e prosseguia com "Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso."
Porém, este que acabara de pôr nas mãos daquela mulher tão formosa, ao contrário do que disse o grande Saramago, na sua humilde opinião, era o Sorriso; tinha a certeza absoluta da sua exclusividade; ousava até pensar que era ainda mais sublime que o da imperscrutável Gioconda.
Ela virou-se novamente para o espelho e, circunstancialmente ou talvez para quebrar o gelo, ele disse-lhe: «Espero que seja do seu agrado. É garantidamente de excelente qualidade, espontâneo, rasgado, fácil, franco, aberto e, sobretudo, lindo! Se encontrar um sorriso mais bonito, barato e tão bom como este, tenha a certeza absoluta de que lhe devolvemos a diferença, minha senhora!»
Continuou de costas voltadas para ele, sem pôr o sorriso. Ele aproveitou o impasse e insistiu no degelo: «Não quer experimentá-lo antes de o colocar? É um sorriso encantador e tem certificação de qualidade, mas, mesmo assim...»
Ela pôs o sorriso e, cativado, o homem mordeu o freio e o bridão para não cair para o lado. A sua voz soltou-se. Deuses, como era maviosa e doce! Era o que faltava em tanta sensualidade exposta, exalando doces e inebriantes aromas de anis, canela e baunilha.
«Alguma vez leu a "Tragédia da Rua das Flores"?» - perguntou sorrindo e com graciosa eloquência. Que simbiose perfeita, os seus sorriso e voz!
«Li há muitos anos. Lembro-me das personagens e de algumas pass...»
Não lhe deu tempo para completar a frase. Deixou cair o sorriso, mudou de semblante e, sem mais aquela, galgou o parapeito da janela, lançando-se para o vazio.
Atordoado e pouco refeito com o que acabara de presenciar naquela fracção diminuta de tempo, apanhou o sorriso com todo o cuidado e tornou a embalá-lo com preceito. Aproximou-se da janela e lá estava ela, linda e triste, jazendo morta sobre um charco de sangue, irremediavelmente inerte, colada às pedras da calçada.
Saiu dali apressado e não quis aproximar-se do corpo. Entretanto, algumas pessoas curiosas tinham-se concentrado em redor da infeliz até chegar uma ambulância.
Foi a pé para casa, alegou má disposição e não jantou, indo deitar-se mais cedo. Teve o cuidado de colocar o sorriso da senhora triste em cima da mesa de cabeceira. Pensou que era mau mantê-lo fechado dentro da embalagem. Casos como este, felizmente, têm sido raríssimos ao longo da sua carreira, mas sensibilizam-no profundamente; não tem como evitar o seu envolvimento emocional. No fundo é um sentimental, é o que é!
A esposa entrou no quarto, trazendo-lhe um chá quente e umas bolachas para não adormecer, assim, sem nada no estômago. A curiosidade levou-a imediata e naturalmente a perguntar:
«Olha, de quem é este sorriso misterioso?»
«De uma queirosiana compulsiva.» - respondeu com uma lagrimazinha ao canto do olho.
A noite esgotou-se, o vendedor não pregou olho, e o sorriso não passou do quarto, estático, imperturbável e ligeiramente fechado; talvez, um pouco enigmático. Até que de manhã, ao pequeno-almoço, veio a notícia nas televisões generalistas: "Senhora triste caiu de um segundo andar, depois de ter perdido o sorriso. O seu corpo repousa em câmara ardente na Capela Mortuária de (...)".
Sentiu um nó no peito, mas também sentiu que parecia mal a senhora triste não ter o seu sorriso de volta, pois estava pago. Mais tarde, pegou nele e saiu a caminho da Igreja.
O corpo da senhora triste repousava rodeado de pessoas em pé, pessoas sentadas, flores, coroas e cartões, enfim, todas as coisas inerentes à fúnebre circunstância.
Aproximou-se discretamente do féretro, com o sorriso aconchegado entre as mãos e olhou-a mais uma vez ou duas. Jazia sobre a morte, sempre bela. Atributo que, graças a Deus, a maldita não lhe levara. Com extremo desvelo, depositou o sorriso nos seus lábios e então, oh sublime crueza! Mesmo desalmada, sorriu; um sorriso meio apagado e até um pouquinho amarelo, certamente, mas, ainda assim, do outro mundo; de boca a boca; lindo de morrer. Ele teve a vaga impressão de que aquele sorriso era para si, mas não passou de uma vaga impressão e as vagas impressões valem o que valem, como se costuma dizer.
Alguém acabara de testemunhar a mudança súbita e gritou: «Milagre, milagre, ela sorriu!»
Foi o alvoroço habitual, à semelhança de outros casos miraculosos, e já se ouviam gritos de «Ressurreição, ressurreição!»
Retirou-se tão discretamente como entrou, antes que aquilo gerasse um tumulto de proporções incalculáveis e desfecho imprevisível.
Epílogo: Não obstante a profunda tragédia que intimamente o tinha abalado, o vendedor de sorrisos deu-se por satisfeito. O seu a seu dono. Contrariamente às suas previsões mais pessimistas, a senhora triste teve um lindo enterro.
Nota final: lembrei-me desta velha máxima: "Sorrir não basta, é preciso correr atrás". Peço desculpa, mas não me lembro da sua autoria.

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