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O CASO DO SACA-ROLHAS

por João Brito, em 30.09.21

saca-rolhas.jpeg

Antes de iniciar a narrativa, convém avisar os eventuais leitores e leitoras mais distraídos de que este caso nada tem a ver com a mutilação sexual do cronista Carlos Castro, ocorrida há uns anos, em que o objecto do crime também foi um saca-rolhas. Aqui fica o esclarecimento e prossigamos, então:

A vítima estava de barriga para cima e tinha um buraco redondo no meio da testa: perfeito; sem mácula; sem pinta de sangue. Um distinto buraco de bala. Contudo, como não podia deixar de o fazer na circunstância, o inspector dos homicídios, homem muito batido nestas andanças, procedeu à avaliação do diâmetro do orifício onde a bala penetrara e deduziu sem pestanejar: «Calibre de 6.35 mm.»
Um minuto depois, surgiu outro agente e informou: «Já foi encontrada a arma do crime. É um furador; estava no bolso esquerdo das calças do cadáver. O inspector dos homicídios mirou e remirou o utensílio e fez um exercício de raciocínio lento: «Estou mais inclinado para lhe chamar um saca-rolhas, hã, q'é que acham?»
Como não houve quem contrariasse a sua suposição, baseada certamente em largos anos de experiência, intuição e um faro fora do comum, ou não fosse ele o inspector dos homicídios - não esqueçamos - , prosseguiu: «Bom, então tomem nota: o homicida é um gajo destro e quis tomar-nos por parvos ao guardar o saca-rolhas no bolso esquerdo das calças do cadáver. Para além disso tentou, debalde, confundir-nos com o velho truque do furador de balde. Ademais o crime foi perpetrado à queima-rolha, senão não tinha aberto um buraco tão pequeno e perfeito!»
Chamou os restantes polícias e ordenou: «Ninguém sai daqui! Mandem reunir os suspeitos do costume!»
Depois de reunidos os suspeitos do costume, notou-se a falta de um: «Então, por que razão falta aqui um suspeito do costume?» - perguntou o inspector dos homicídios. O principal suspeito respondeu de pronto: «Não veio porque o Sporting joga, hoje, com o Benfica e eu dispensei-o para ir ver o jogo, senhor inspector; ele sofre muito da bola!»
«Bem, dispensa-se esse e vamos prosseguir!» - disse o inspector dos homicídios.
Alinhados por alturas, o principal suspeito apontou as duas suspeitas que o precediam: uma criada de quarto e a sua esposa (a esposa da criada de quarto, entenda-se!) e declarou com alguma ironia: «Como vê, senhor inspector, estou acima das suspeitas; aliás, de qualquer suspeita!»
Discretamente, o inspector dos homicídios puxou de um bloco de notas e começou o interrogatório: «Alguém cometeu, aqui, um crime de homicídio muito grave na ex-pessoa deste cadáver que jaz no chão sem pinta de sangue! Espero não ser obrigado a arrancar-vos a confissão a saca-rolhas! Nem mesmo o senhor, como principal suspeito, está isento. Daí estar aqui presente como principal suspeito!»
Imediatamente, as duas suspeitas que precediam o principal suspeito reclamaram, com veemência, a sua inocência alegando que eram canhotas.
Um dos agentes sugeriu: «Não podemos afastar a hipótese do homicida ser o tipo que foi dispensado para ir ver a bola, senhor inspector!»
«Então, a seguir ao encontro, ligas para o telemóvel do gajo para ele comparecer com urgência no interrogatório!» - respondeu o inspector dos homicídios.
Quando se preparavam para intervalar e assistir ao encontro pela televisão, por proposta do principal suspeito - um benfiquista dos quatro costados - , eis que surgiu o médico forense, mais branco do que a bata branca que trazia vestida: «O morto está vivo! O morto está vivo, ele espirrou!»
O principal suspeito pôs imediatamente o braço no ar e disse: «Fui eu, senhor inspector, não tenho como negar!»
«Foi o senhor o quê, homem de Deus, desembuche?!» - questionou o inspector dos homicídios.
«Fui eu que matei o cadáver que jaz no chão, acabado de ressuscitar, senhor inspector!» - Respondeu o principal suspeito.
«Vamos lá esclarecer a cena do crime. Faça favor de relatar tudo direitinho e sem pontuação!» - ordenou o inspector dos homicídios.
«Foi sem querer senhor inspector havia muito fumo na sala e o exaustor tem estado avariado daí que tínhamos de andar às apalpadelas inclusive até levei um sopapo da senhora da limpeza que a seguir insistiu que a apalpasse novamente mas o que eu queria mesmo era a rolha por isso andava à procura dela e confundi a cabeça do cadáver com a rolha foi assim que desse modo o matei depois de morto inadvertidamente e enfim foi a tragédia que se consumou aqui senhor inspector» - declarou o principal suspeito, ofegante.
«Então vou acusá-lo, primeiro, de assédio sexual na pessoa da empregada da limpeza, seguido de homicídio por negligência grosseira, pois devia ter tido o cuidado de se certificar que era, efectivamente, a rolha que estava a sacar, não obstante o fumo envolvente!» - concluiu o inspector dos homicídios.
«Por enquanto só pode acusá-lo de assédio sexual, inspector. O cadáver está vivo! Acabei de o restituir à vida!» - contrariou o médico forense, negro como um tição, agora, com a cor que Deus lhe deu, passado o choque com o insólito acontecimento.
O inspector dos homicídios perguntou ao médico forense qual o método que tinha utilizado para o reanimar: «Tornei a rolhá-lo.» - explicou o médico forense.
«Então temos aqui, para além do acto repreensível de assédio sexual, um caso de duplo homicídio: negligência grosseira e um homicídio frustrado!» - sentenciou o inspector dos homicídios.
Restituído à vida, o cadáver com semblante preocupado, aproximou-se e disse: «Doutor, o senhor esqueceu-se de me lacrar; assim a rolha vai saltar de certezinha!»
«Xi, grande bronca! Nem me lembrei que você é alérgico ao pólen, pá!» - desculpou-se o médico forense.
No entretanto, o inspector dos homicídios lembrou-se de algo que, a julgar pela sua expressão facial, devia ser extremamente importante. Perguntou ao criminoso que deixara de ser o principal suspeito: «O senhor tem licença de porte de saca-rolhas?»
«Não tenho, não, senhor inspector!» - respondeu o homicida que tinha deixado de ser o principal suspeito, pálido de morte. «Cacei-o! Afinal, você só estava autorizado a sacar caricas! Faça favor de abrir uma garrafa de cerveja antes de o algemar, vamos lá! O tempo urge, ainda não jantei, caraças!» - ordenou-lhe o inspector dos homicídios, impaciente e com as paredes do estômago coladas. Numa fracção de segundo, o facínora que tinha deixado de ser o principal suspeito, deu um salto para trás das costas e apoderou-se da arma do crime: «Alto lá, aqui ninguém se mexe ou faço-lhe um furo na testa!»
De saca-rolhas em riste fugiu dali e, quando corria para a saída que nem um criminoso que deixara de ser o principal suspeito, ouviu-se um espirro violento seguido de um estampido abafado, tipo um tiro através de uma almofada (ou travesseiro). A rolha ainda fez ricochete numa pedra da calçada, mas já era tarde, pois o inspector dos homicídios queria aquilo resolvido a tempo de não ter que aquecer o jantar no micro-ondas e, como já estava cansado desta estória sem pés nem cabeça, rematou o final às três pancadas:
Atingido na barriga de uma perna, tanto se dá que tivesse sido na direita ou esquerda, o autor do crime que deixara de ser o principal suspeito, ainda teve tempo para gritar: «mãezinha!»
«Foi a rolha que o matou!» - confirmou o médico forense.
«Está morto?» - perguntou o inspector dos homicídios.
«Morto e bem morto!» - reconfirmou o médico forense.
«Bom, então, levante-se imediatamente um auto ao cadáver ressuscitado, por crime de homicídio involuntário, e prenda-se imediatamente, com efeito retroactivo e sem direito a recurso!» - ordenou o inspector dos homicídios.

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