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Migas e açordas – grande confusão para os lisboetas. Quando, nos restaurantes da capital, vejo no menu “sopa à alentejana” até fico arrepiada – é sempre um caldo ralo temperado com azeite, alho e coentros pisados, onde flutuam bocados de papo seco inchado – um verdadeiro crime de lesa gastronomia. Por outro lado, chamam açorda – açorda de mariscos, açorda de camarão, açorda de berbigão – a um prato que, nem sendo mau, devia ser obrigado a mudar de nome – são os papo secos do costume batidos com caldo de mariscos, com um ovo aberto em cima e uns coentrinhos polvilhados por cima.
Mas migas, ou pelo menos com essa designação, fazem-se não só no Alentejo, mas também no Algarve e em Trás-os-Montes, na Andaluzia (onde lhe chamam sopas de ajo e se comem ao pequeno almoço, com um ovo estrelado em cima), em Aragão e até no sul de França, sob a designação de miques.
Mas migas verdadeiras são as nossas, as alentejanas. Como já referi aqui falando da nossa açorda de alho, que acho o cúmulo do engenho transtagano – fazer uma sopa deliciosa, pisando um dente de alho com um raminho de coentros, uma golada de azeite e um pouco de água a ferver, só pode ter sido inventada por um génio. As migas também resultam dessa habilidade para, a partir de quase nada, conseguir fazer uma obra de arte.
Migas com entrecosto, migas de bacalhau, migas gatas, migas de batata, migas de espargos, migas de feijão-frade, migas de chícharos, migas de couve, migas de tomate, migas de miolos, migas doces, migas de broa, migas de farinheira, migas de grelos com bacalhau, migas de poejos, migas de coentros, enfim, há migas de tudo e, se nunca as comeram, pelo menos, já ouviram falar. Mas migas de assobio, quem é que conhece?... É uma história muito enternecedora que, se não tivesse o seu toque dramático, era do melhor que se conhece em gastronomia.
Nos tempos da fome no Alentejo (que já passaram e que, esperamos, não vão voltar nunca mais) as mães de família esforçavam-se para dar de comer à prole, gastando o menos dinheiro possível. Não há nada mais barato do que o pão, o toucinho salgado e umas ervinhas do campo. O toucinho, cortado em quadradinhos minúsculos tinha que render e chegar para todos – o pão duro, um dentinho de alho, um raminho de poejos e a água, resolviam o resto. Se houvesse mais uma pinguinha de azeite, melhor, mas se não houvesse, também se comia assim. Que remédio!
Mas os bocadinhos de toucinho, ainda que muito pequeninos, eram encontrados com muita alegria – a quem calhasse no prato, dava um assobio. Daí as migas de assobio.

Texto: Maria Antónia Goes
Escritora e gastrónoma
Imagem: Diário do Alentejo
In Diário do Alentejo de 9/10/2017

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