Adoré Mariane:
Estimo que se encontre de boa saúde, assim como as suas santas e amabilíssimas irmãs, sem esquecer a Abadessa, que eu cá vou indo conforme a vontade de Deus e a graça do meu Rei.
Tolere-me, por todos os santinhos, o atraso desta singela cartinha, mas só ontem me foi dado a conhecer, em detalhe, o conteúdo das suas six longues Lettres Portugaises Inédites, entregues pela mão de Guilleragues, as quais me tomaram o final do dia e se prolongaram até ao raiar do Sol deste em que lhe respondo, apesar de enevoado.
Perdoe-me, também, todo o mal que lhe fiz, inclusive a perda da soma preciosa de três vinténs, esse o pior deles e, infelizmente, irreparável aos olhos de Deus e aos da física.
Aimé Mariane, pagarei, caro, tal mal, nem que para tal passe a comer do rancho das praças ou assente praça na Legião Estrangeira. Ordene-me e fá-lo-ei por penitência!
Oh, ma douce et malheureuse Mariane, o que fomos fazer, valha-nos Deus?! A carne é fraca, é o que é!
Epistolar Mariane, é um militar que lhe suplica, embora seja seu hábito ordenar: venha pra cá viver comigo o socialismo celeste. Plongeons notre amour dans la Rose. Aqui, estaremos juntos, no centro da União Europeia, rodeados de queijos, legumes, vinhos, teatros e muita cultura, ma chérie, ma vie!
Fuja, belle Mariane, desse convento escuro e frio! Faça-se à vela, antes que o nosso amor se vá à vela, e venha, meu rico tesouro!
Dispa o hábito e embarque no comboio da meia noite pro Barreiro, mon amour! Depois é só tomar outro em Santa Apolónia pra Paris. É rápido, vai ver, minha flor!
Espero por si, junto ao Arco do Triunfo onde estou acampado em greve de fome, antecipando o castigo pela ignomínia da desonra.
A barraca é pequenina, mas cabemos nela aconchegados.
Beijos apaixonados do seu plus que tout,