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australopithecus.jpg

O australopiteco apercebeu-se da maleficência que o Homo sapiens havia feito à civilização e não perdeu a oportunidade para lhe jogar tal facto à cara:

«Escuta aqui, ó palerma: tu que presunçosamente te gabas de utilizar 90 a 109 por cento do Q.I. que herdaste do macaco, teu progenitor, podias ter-lhe dado melhor uso, não achas?»

Apanhado na curva, o Homo sapiens que tinha a perfeita noção da rivalidade existente entre aquela horripilante e estúpida criatura e o seu ancestral antropóide, sentiu ganas de esganar, já ali, o vil mostrengo. Porém, não fosse, naquele estádio, um ser muito complexo e altamente evoluído, não teria refreado os extintos primários adormecidos. Assim, numa atitude de altiva indiferença, a única coisa que lhe saiu, foi:
«Q'é que estavas a grunhir?»
«És, mesmo, um toino! - voltou o néscio com maus modos - Tu que tiveste oportunidades fantásticas de fazer coisas giras e porreiras para a malta, na verdade, fizeste tudo ao contrário e foste inventar tretas como os impostos, taxas, sobretaxas e outras tributações para quê?! És parvo ou fazes-te? Se a malta estava satisfeita até ali; colhia o que queria do jardim da Celeste*; não havia motivo para se preocupar com o IVA e o IRS; não tinha de gramar o primeiro ministro ou o presidente da República a falarem ao mesmo tempo nas televisões generalistas e podia ter as fêmeas que quisesse, por que é que foste regurgitar essas aberrações, pá?!»
«Estás muito enganado, o meu pai nunca cobiçou fêmeas alheias!» - disse o sapiens, pouco refeito da provocação do pitecóide.
«Não percebeste, pois não, sapiens?... O teu pai - chamemos-lhe assim - sofria de disfunção eréctil irreversível, meu! Ora, se ele padecia de tal maleita, como é que foste concebido, se ainda faltam alguns milhões de anos para o advento do poder da concepção virginal por obra e graça do Divino Espírito Santo, diz lá!»
«Desculpa lá, mas o meu pai era um excelente macaco!» - respondeu o sapiens, circunstancialmente.
«Está bem; e o meu era um babuíno bargante! - disse o piteco - Mas é o que tens andado a germinar que está em discussão e não o infeliz acaso de seres filho de pai incógnito. Portanto, passemos à frente. Sabes o que significa hipocrisia?»
«Parece-me que essa palavra ainda não faz parte do meu léxico; vou ter que memorizá-la para não me esquecer.» - disse o sapiens.
«Atrevo-me a dizer-te que não passas de um dissimulado e que sabes perfeitamente o seu significado. Fazes o que te convém, de acordo com as tuas prerrogativas! A sociedade do futuro será um somatório de todas as tuas vicissitudes, inclusive do teu egoísmo. Coisas simples como, por exemplo, o livre arbítrio, não precisam de regulamentos ou de convenções; são um direito universal! Percebeste, meu adunco?»
Sob tão pesado e persuasivo argumento, para mais com tão imaculada prosódia, naquele momento preciso, sapiens passava dramaticamente ao estado de curvilíneo perante a ascensão do australopiteco ao estatuto de bípede racional. É claro que esta mudança não se deu do dia para a noite, mas é só para avançar mais depressa porque a prosa está a ser secante e parece-me que esgotei o repertório. Vou rematar, embora não goste muito deste final:
Então, o piteco, lá do alto dos seus erectos, 1 metro e 52 centímetros, atirava para o fundo da baliza:
«Havia erva da boa; fruta; árvores; peixe; carne; sessões contínuas no Olímpia; o Benfica era Campeão europeu; o Ronaldo marcava uma porrada de golos pela selecção; não tínhamos de levar todos os dias com debates sobre futebol ou com discussões entediantes sobre as operações Marquês, E-toupeira, Cartão Vermelho e outras que tais ou gramar a gajada política de todos os quadrantes a tentar convencer-nos de que o seu partido é que nos vai devolver a felicidade, enfim...»
 
(*) O Jardim Celeste já neste período proto-histórico era um mito. Comprovou-se, através de datação por carbono 14, bastante anterior ao aparecimento da escrita, que o jardim era efectivamente da Celeste.

 

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