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ALTA INFIDELIDADE À DISTÂNCIA REGULAMENTAR

por João Brito, em 11.05.20

alta infidelidade2.jpg

Você já experimentou construir um sistema de alta infidelidade (hi-infi), aí em casa? Aposto que deve estar a pensar em coisas do tipo "este chico-esperto julga que só ele é que percebe de bricolage, querem ver?!". 
Todavia, e longe de mim pretender armar-me em técnico de corrida, caso haja um ou outro que seja perito na matéria, saiba que há tipos que, embora tenham cana, não pescam nada do assunto e é a eles que dedico este artigo. Portanto, está dispensado de ler isto.
Agora, aqui só para nós, amigo: Num sistema destes, com o imprescindível emprego de tecnologia de ponta, tudo começa pelo amplificador estéreo integrado. Não opte por amplificadores histéricos a válvulas porque aquecem muito, são atreitos a ataques de AVC (Acidente Valvular Cerebral) e, por  conseguinte, desintegram-se facilmente. 
Acredite que, actualmente, sem um amplificador com as características de um integrado não é possível dar música!
Antes de mais, pense montá-la (a hi-infi) nas próximas férias de Verão e tente convencer a sua sócia (esqueci-me de referir que este artigo é só para homens de barba rija e, eventualmente, mulheres com pêlos no peito) a ir passar a primeira semana de férias a sós com os putos em Monte Gordo. É aconselhável o isolamento (confinamento social também soa bem no actual contexto sociopandémico*) para que você se concentre integralmente (integralmente e integrado, está a ver a concomitância?) na execução da tarefa que lhe proponho, para garantir a operacionalidade do equipamento e, obviamente, um excelente desempenho. Além de que é um serviço que até vem a propósito porque dispensa muita gente próxima, barulhos, preocupações extra e também a chatice de ter de distribuir solhas a torto e a direito aos fedelhos, pois todos sabemos que os chavalos são uns turbulentos do caraças e deixam um gajo com os nervos em franja. Já agora, ela que leve o Alex e vá dar banho ao cão, não vá o bicho andar armado em cão com pulgas.
Está preparado? Então, 'bora lá!
Pegue numa máscara de protecção e vá comprar uma caixa de fósforos de cozinha "Quinas" (passe a publicidade), uma lupa, um compasso, tinta, pincéis e um disco de vinil de 78 rpm (vulgo "Long Play" ou LP) de rock alemão dos anos 60 e 70 do século passado, estilo Krautrock**.
Quando regressar a casa, deite a máscara para o lixo, lave bem as mãos, e pinte com primor (não confundir com manteiga Primor, senão fica uma cena lúbrica e não é esse o objectivo) e minúcia a caixa de fósforos. A cor é ao seu gosto, mas para que tenha um aspecto realista, sugiro que a pinte de "black" ou "silver" (eh pá, "sorry" lá, mas os inglesismos, neste contexto, até que não são desadequados).
Num dos lados da caixa pinte pontinhos, vermelhos ou azuis, a fingir que são luzinhas. Pinte também tracinhos, botõezinhos e outras coisinhas (desculpe os diminutivos, mas estou a referir uma caixinha que cabe na palma de uma mão). Em cima pinte uma grelha (não confundir com a gralha da sua sogra) a imitar a área do dissipador de calor.
Entretanto, faça um pequeno intervalo (coffee break em inglês, segundo o tradutor Google que eu de inglês pesco zero) e aproveite para telefonar à sua mulher, só para saber se está tudo bem; é de bom tom e ela vai pensar que você, apesar da ausência, está sempre com  ela e a canalha no pensamento.
Saia novamente (não se esqueça de colocar outra máscara de protecção), compre dois caixotes de papelão de 90x30x20 centímetros e um rolo de papel adesivo a imitar madeira. A cor, mais uma vez, é à sua escolha, mas aconselho um tom cárneo que é mais sensual e – acredite – consensual. Regresse a casa, deite a máscara de protecção para o lixo, lave novamente as mãos com muito cuidado e prossiga o trabalho conforme os passos seguintes:
Forre os caixotes com a película autocolante, trace, com um compasso, três círculos de diâmetros distintos em cada um, correspondentes a três vias ( altifalantes agudos, médios e graves por ordem descendente) e pinte-os de forma convincente. Em seguida ponha a caixa de fósforos entre os caixotes, afastando-os previamente cerca de três metros e dezassete centímetros, pouco mais ou menos.
Saia outra vez, não sem colocar outra máscara de protecção, e compre um gira-discos. Não vou repetir as recomendações de segurança porque acho que você já as memorizou, certo?
Pronto, então, depois de ter dado os passos necessários, seguindo as instruções à letra, continue, colocando o gira-discos ao lado da caixa de fósforos e ligue tudo entre si, tendo o cuidado de respeitar a polaridade das ligações (vermelho com vermelho e preto com preto). Lembre-se, também, que é preciso respeitar as impedâncias dos aparelhos ou seja: verifique a impedância dos caixotes em relação à impedância da caixa de fósforos. A dos caixotes tem de ser sempre igual ou superior à da caixa de fósforos e não me pergunte porquê porque seria difícil e moroso explicar-lhe a coisa sob o ponto de vista de um especialista na matéria; aliás não é esse o propósito deste artigo; tenha, isso sim, estes critérios em mente, sob risco da coisa explodir nas suas mãos.
Depois de tudo prontinho, ligue para aquela giraça da repartição que, para além de giraça, é boa c'mo milho. Sim, aquela em que você está a pensar, seu bargante do camandro! Ou você acha q'a malta lá do escritório não topa, de ginjeira, a vossa troca de olhares cúmplices? Vá lá, não se faça de sonso e convide-a para ir aí a casa escutar o LP de rock alemão que você anda há uma porrada de tempo para comprar. Aliás, ela deve estar mortinha para escutar seja o que for. Nem que seja Quim Barreiros!
Quando a mandar entrar, é natural que ela o vá encontrar em pêlo, só com uma bata cirúrgica estéril a cobri-lo, máscara, gel desinfectante e lupa nas mãos, mas isso é pormenor e estou convencido de que a moça nem vai achar estranho. Pelo contrário, vai pensar que o conceito é inovador e muito excitante. Vá por mim porque tenho alguma experiência destas coisas da electrónica, apesar de empírica.
Ponha o disco no prato do gira-discos e olhe para a caixa de fósforos com a lupa. Como, nessa fase, já estão deitadinhos no chão, à distância regulamentar, tenha o cuidado de desligar a luz do candeeiro com o dedo grande do pé direito (se for canhoto use o do pé esquerdo) e, sempre com o recurso indispensável da lupa, aumente o volume até ao máximo, só para testar o som.
O sistema nunca falha, revela-se de fácil manuseio e é, garantidamente, de dupla e alta infidelidade.
E olhe que nem de propósito! Não sei se já deu conta, mas, desde há umas semanas, os dias são mais compridos e as noites mais curtas!
(*) Consultar o novo dicionário monolingue do Professor Tolentino Porrinha
(**) Krautrock (Kosmische MusikKraut, ou ainda Krautwave) é um nome genérico atribuído às bandas experimentais alemãs, no final da década de 1960 e princípio da de 1970. Originalmente, era um termo utilizado de forma pejorativa pela imprensa musical britânica; e acredita-se que tenha sido criado pela mesma a partir da expressão popular Kraut, que significa "uma pessoa alemã", por sua vez derivada do prato tradicional alemão chucrute,  sauerkraut (literalmente, "repolho azedo").
Todavia, muito por causa do sucesso dessas bandas, o termo ganhou mais tarde um significado melhorativo, sendo atualmente visto como um título de reconhecimento ao invés de insultante.

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