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A FAMA QUE VEM DE LONGE

por João Brito, em 28.11.20

Há praticamente meio século Portugal vivia uma crise muito profunda. Em termos de imagem podemos compará-la, se quisermos, com aquele anúncio velhinho ao brandy Constantino: "A fama que vem de longe" para quem se recorda.
A crise portuguesa também é afamada e vem de longe por assim dizer.
Será que alguém se lembra de algum momento em que não estivemos em crise, mesmo que esse momento tivesse sido quimérico?
Pois, por muito que esprema a memória não consigo vislumbrar nem uma leve anamnese desse instante iludente. Exceptuando o período Gonçalvista das "vacas gordas". Prometo que numa próxima oportunidade debruçar-me-ei sobre esse fantástico período.
Mas, recuando novamente até ao ano de 1974 do século passado, para não me dispersar, interessa dizer que Portugal passava por uma indefinição económica e cultural de tal modo confrangedora a ponto de se tornar num dos países mais atrasadinhos do mundo. Por isso havia muito trabalho a fazer para tentar apanhar o comboio e, mesmo assim, já em andamento. Não quero com isto dizer que a crise de que vos escrevo só tenha existido desde então, nada disso! A velhaca já existia antes, mesmo muito antes! Penso até que a sua génese se perdeu no tempo...
Contudo, debrucemo-nos sobre a crise da qual subsiste alguma percepção histórica e que felizmente já passou, pois parece que hoje em dia tal indefinição está definitivamente ultrapassada, podendo até afirmar-se que Portugal deixou de ser um dos países fortemente mais atrasadinhos do mundo para passar a ser efectivamente um dos países suavemente mais atrasadinhos do mundo.
Alguns viciados em círculos viciosos especulam sob a eventual criação do quarto mundo, uma vez que o nosso país já não tem cabimento no terceiro, o que não é de admirar.
Este estado de graça, do qual uma pessoa iluminada de um extinto governo apelidou, e em boa hora, de "milagre económico", deveu-se fundamentalmente ao esforço dos vários governos que temos tido desde a restauração da "democracia" no sentido da privatização total de Portugal; nomeadamente ao empenho, espírito de missão e sentido patriótico dos nossos políticos. Tudo boa gente.
Medida de longo alcance a curto prazo, a privatização total visa eliminar radicalmente o sector público da economia bem como a própria administração, deixando o país em autogestão. Sempre nos desenrascámos sozinhos e por isso não precisamos de ajudas de custo! Parafraseando alguém, sem saber quem: Metam lá a "bazuca" no olho do cu, suas couvinhas de Bruxelas!
Novecentos anos de história é pouco, mesmo que tenhamos a perfeita noção de que são novecentos anos a dormir à sombra da bananeira (o termo vem de algumas qualificações como "país de bananas" ou "república das bananas") com alguns laivos de glória épica.
Segundo os mentideiros do costume, o grande objectivo é acabar definitivamente com a balança de pagamentos e transferir a dívida pública para as dívidas privadas dos cidadãos-patrões de si mesmos, estão a ver a coisa?
Assim parece ser o objectivo da tríade que nos tem governado há quase cinquenta anos: ir mais longe do que os agiotas da "troika" algum dia fizeram. Afinal, a coisa dividida por todos custa menos ao Estado e deixa os contribuintes mais aliviados, o que representará uma mais valia para as contas públicas. Quer dizer: privadas de uns poucos, crónicos, mas bons...malandros. As minhas mais sinceras desculpas ao Mário Zambujal por fazer um aproveitamento abusivo da sua célebre "Crónica dos bons malandros"; o seu a seu dono.
Bom, mas o primeiro passo desta política revolucionária será a reabertura de um concurso para adjudicação do sector do ensino. Parece que a melhor proposta de rentabilização do sector, a médio prazo, acaba de surgir de alguns grupos ligados a holdings chinesas, os quais pretendem assaltar outros ramos de actividade tais como a saúde e as águas engarrafadas - nomeadamente as gaseificadas.
O presidente chinês não confirma nem desmente, mas ainda circulam rumores de que terá deixado um recado a um anterior governo: "Sim senhol, mas quelemos substituil o poltuguês pelo mandalim nas escolas pala que possamos concletizal um glande (não confundir com a nossa conhecida bolota) negócio da China."
No que concerne ao sector da saúde, não obstante as enormes lacunas e consequentes dificuldades derivadas da actual situação pandémica, parece ser intenção da empresa asiática The Private Equity Health Care Capital, fundada por um ex-Goldman Sachs e negociador da Opus Day Stealing Investment Management, lançar-se no "negócio" da saúde no nosso país. Porém, cuidado com os mexicanos! Os gajos pretendem alterar a dieta alimentar nos hospitais, caso venham a investir nesta actividade. Será que ainda vamos ver os internados no Hospital da Luz a comer burrito mix temperado com chili em pó picante? Aguardemos...
Outro sector que também poderá facturar muito é o da Justiça. Pelo menos já não é tão cega como dantes. Quer dizer: tem peneiras nos olhos para os endinheirados e continua cega para os tesos.
As forças de insegurança e as forças desarmadas, sectores muitos sensíveis em todo este processo de privatização, poderão vir a ser rematados em leilão por um consórcio liderado por um produtor de filmes de Bollywood, Aditya Aja Ananda Chanda (é nome feminino, mas fonte duvidosa garante que é macho, embora com alguma reserva).
Um general de vinte estrelas, reformado e a pingar do nariz, explicou numa entrevista ao CMTV que a medida, no que se refere à tropa, só vai aumentar o clima de mal estar entre soldados e soldadas. O governo espera poder contornar esta dificuldade tomando medidas concretas, inclusive abstractas, que possam ir no sentido de melhorar o rancho nos refeitórios dos quartéis e criar camaratas unissexo até à sua insolvabilidade.
Relativamente ao processo de insolvência dos ramos das forças desarmadas, já numa fase de irreversibilidade, o juiz presidente do Supremo Tribunal Administrativo pretende nomear uma equipa de gestores para o efeito, sendo quase certo que as figuras mais indicadas para gerir o andamento venham a ser o Ministro da Falta de Defesa e o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Desarmadas, os quais se ocuparão, prioritariamente, da liquidação das massas e massinhas insolventes, nomeadamente o esparguete, o macarrão, as estrelinhas, as letrinhas e as pevides, entre outras variedades.
A própria Presidência da República será vendida a preço de saldo a uma empresa especialmente criada para o efeito, uma PPP cujo presidente do Conselho de Administração será o ex-PR, tendo um Conselho Fiscal constituído e presidido, exclusivamente, pela esposa.
Como resultado destas medidas prevê-se que Portugal apresente uma situação económica ímpar à escala global, com taxas de inflação brutais, as quais não constituirão motivo de preocupação para a massa trabalhadora uma vez que vai ser liquidada.
A agricultura é outro sector que poderá vir a recuperar o sucesso dos primórdios da nossa História. O governo encomendou um estudo ao Ministério da Agricultura e do Mar no sentido de estudar - claro está - a viabilidade de reimplantar o Pinhal de Leiria, desta vez com eucaliptos. Passaria, então, a chamar-se Eucaliptal de Leiria. Aliás até soa melhor; pinhal é feio c'mo caraças e também demora muito tempo a crescer! Para o efeito, espera-se tirar alguma lição e ilação sobre a importância desta medida ancestral para a economia nacional e tornar clara, de uma vez por todas, a indefinição acerca da autoria da ideia de mandar plantar o estupor do pinhal. Se foi o Dom Dinis ou o Dom Afonso III. Quem melhor saberá esclarecer esta dúvida quase tão antiga como a própria História Pátria, senão o Professor José Mattoso?
Relativamente ao mar, depois de ficarmos sem Armada, sem frota de pesca, sem bacalhau, sardinhas e carapau, podemos negociar a venda parcial de algumas milhas nauticas aos espanhóis que bem precisados estão. Para que nos servem tantas milhas com dois submarinos, n'é? Ainda se tivéssemos um ou dois porta-aviões daqueles bonzinhos, mesmo em segunda mão, vá que não vá!
Penso que este panorama melhorará ainda mais com a nossa saída das ligas europeias e a passagem automática às ligas africanas. Tudo depende da preservação da nossa extraordinária capacidade para superar as crises ao longo da história.
E pronto, se me esqueci de adicionar alguma coisinha a este curto (?!) artigo de opinião, peço muita desculpa!

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