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A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

30.11.21

AS MELGAS


João Brito

melga.jpg

"Será que as melgas: insectos dípteros, nematóceros, de distribuição cosmopolita – de acordo com qualquer enciclopédia boazinha – podem ser avaliadas como sendo produtos descartáveis, da mesma forma que alguns artigos de higiene pessoal como, por exemplo, o papel higiénico; o sabonete; os cotonetes ou até o vulgar penso rápido (não confundir com velocidade de pensamento), como é pretensão de alguns sectores mais conservadores da sociedade, desde a civil até à Sociedade Recreativa União Tremocelense, esta última a deixar-me muitas dúvidas sobre a sua imparcialidade neste debate de importância vital para todos nós?
Na minha modesta opinião, penso que não. As melgas foram sempre, através dos tempos, geração após geração, durante tempos imemoriais, et in saecula saeculorum (sempre e sempre em latim, segundo o tradutor Google que eu de latim pesco zero, como já tive oportunidade de referir), bens de primeira necessidade. Aliás, se me permitem a ousadia, as melgas foram e são um indicador seguro do nível social, cultural e económico de um país.
Nas sociedades mais industrializadas e, por consequência, mais desenvolvidas, chegam-se a atingir níveis da ordem das 50 melgas por metro quadrado per capita, por noite, nomeadamente no pico do Verão. No norte da Europa, onde erradamente se presumia que as melgas não tinham capacidade de sobrevivência aos frios rigorosos do Inverno, estes simpáticos bichinhos conseguiram adaptar-se admiravelmente, ultrapassando, mesmo, as expectativas mais optimistas. Em Portugal dificilmente se conseguem ultrapassar as 2-3 melgas no mesmo período. Mesmo com as janelas abertas. E porquê? Porque existe no mercado uma panóplia de substâncias que são utilizadas indiscriminada e desapiedadamente no combate a estas inocentes criaturas.
A verdade nua e crua é que, no que a tal matéria concerne, continuamos na cauda da União Europeia.
Se ainda pretendemos apanhar o comboio das nações mais desenvolvidas da UE, e saliento que agora só em andamento, temos de repensar seriamente o repovoamento territorial ordenado das melgas. É de primordial importância a participação de todos os portugueses na conservação das espécies autóctones nacionais.
Os fundos da UE, através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) garantem-nos, aqui, uma oportunidade ímpar para proteger estes pequenos e frágeis insectos em vias de extinção.
O contributo de todos é importante para travar este êxodo trágico, desde a simples partilha da iniciativa em blogues e redes sociais até ao planeamento de actividades a nível local.
É verdade que os sucessivos governantes pós-25 de Abril têm apregoado aos quatro ventos o seu empenhamento na resolução deste problema, mas não têm passado de boas intenções.
Para promover um desenvolvimento sustentável e uma disseminação planificada das melgas pelo país, é essencial criar-lhes condições de sobrevivência e ir para além disso, garantindo-lhes qualidade de vida.
Não se deve pensar na existência de melgas, exclusivamente, no Verão. Há que mudar as mentalidades e os hábitos. Urge fomentar a insalubridade dos rios, ribeiros, poços, valetas e charcos, nas cidades e nos campos; começar, já, neste Inverno que se aproxima a passos largos!
É indispensável muita firmeza e inflexibilidade para pôr fim às iniciativas irresponsáveis de algumas organizações pseudo-ambientalistas (optei por não nomeá-las porque é chato) que querem punir empresas que não tratam as águas residuais, não eliminam lixeiras a céu aberto e outras merdas muito foleiras, como é apanágio de todas as merdas, aliás.
Não é só uma questão de economia ambiental mal gerida, é também política. Só um alargamento da influência da melga a todas as camadas sociais trará benefícios para todos e constituirá uma defesa intransponível contra as tentações totalitárias de alguns sectores mais populistas da sociedade. Avançar com medidas isoladas, só para conquistar votos, é pura demagogia e um atentado infame à classe média! Já para não dizer das outras classes mais abaixo, coitadinhas!
A melga é o garante real de um futuro promissor para os nossos filhos, netos, bisnetos, trinetos, tetranetos e por aí adiante até à quinta geração. Quem vier atrás que feche a porta (agora bloqueei porque não sei se é quem vier atrás ou quem vier depois).
Contudo, a indiferença com que os poderes têm tratado este assunto tão delicado, tão primordial e, por isso mesmo, fundamental para a nossa sobrevivência como Nação, una e indivisível, poderá vir a constituir o fim da picada.
Tem de se legislar, antes que seja tarde. Inclusive legislação que ponha cobro à produção, importação e venda de produtos destinados ao extermínio das melgas. Isso deve ser considerado um crime muito grave e, por consequência, julgado e punido exemplarmente!
Não acreditem em tudo quanto de mal se tem dito sobre as melgas, como algumas frases batidas tipo "ganda melga!"; "melgas do caraças!" ou ainda "já não consigo aturar aquela melga!". São maledicências, não liguem! Vivam as melgas, as melgas são nossas amigas!"

Nota breve: Este artigo foi escrito pelo presidente da ala esquerda do lado direito do PM (não confundir com Partido das Melgas, é mesmo Partido do Meio como certamente presumiram).

27.11.21

CASOS JUDICIAIS IMPROVÁVEIS


João Brito

o carteirista.jpg

Baseado no romance homónimo de Robert Burnier, vá-se lá saber porquê, "O Carteirista" (Pickpocket, para inglês ver) narra a estória atribulada de dois corruptos que se cruzam algumas vezes, um no papel de corruptor e outro no papel de corrompido (não confundir com cu rompido, não obstante serem palavras homófonas).
Como em todas as estórias que metem corruptores e corrompidos, há quem os considere boas pessoas e, às vezes, até vítimas de suposições infundadas, torpeza ou das circunstâncias.
Bem diz o povo, e muito sabiamente, que "a ocasião faz o corrupto", ou "corrupto que rouba a corrupto tem cem anos de perdão (não rimam, mas que se lixe)". Estes aforismos acabam por ter alguma lógica; quando mais não seja, aforística.
Outros anseiam vê-los na cadeia durante muito tempo, mas, enfim, é como tudo, pá (não confundir com "eu como tudo, pá!" em alentejano ou algarvio)!
A obra é uma abordagem centrada, em primeiro lugar, num caso de absolvição sui generis, dado que só se conheceu o seu desfecho após um longo processo que se arrastou durante mais de trinta anos, com tudo o que isso pesa, em termos de ansiedade e incerteza, para os infelizes agentes delituosos e respectivas famílias.
Uma das personagens e, de certo modo, o sujeito fulcral da obra, é um indivíduo de aparência cuidada, ar inocente e um "bon vivant". O seu nome é Artur Salgado Inocêncio, carteirista de profissão e corrupto nas horas vagas.
Este ex-provável meliante, de presumível ascendência dolicocéfala por parte do pai e mística por parte da mãe, protagoniza o autor confesso de um violento crime de assalto à mão desarmada efectuado numa manhã remota de 4 de Fevereiro, cujo ano foi omitido de forma inexorável e sem qualquer explicação do autor, mas, do mal o menos, "é só fazer as contas".
O referido assalto havia sido perpetrado na estação de metro da Rotunda (actual Marquês de Pombal), na pessoa de uma senhora idosa, com cerca de noventa e sete anos, que se aprontava para entrar numa carruagem com destino a Alvalade. Desse ferino e despropositado crime (a mala da velhinha continha apenas um lencinho de mão com ranho seco, algumas moedas de tostão dispersas, uma nota de vinte paus muito amarrotada, um terço e dois preservativos por estrear) resultaram ferimentos graves na pobre anciã, a qual foi prontamente socorrida por populares que imediatamente ligaram para o 115 (na altura ainda não existia o 112 nem o 808242424) que, sem perder tempo, deslocou uma ambulância para o local, três horas depois.
De pouco serviu a prontidão do 115, pois a senhora jamais recuperou das pisaduras de que foi alvo, até hoje, encontrando-se, por consequência, em estado de coma induzido a seu pedido.
Durante a fase de julgamento, a defesa, astuta como convém, apresentou uma dúzia de testemunhas, sendo que nenhuma delas se lembrou do que tinha feito no dia anterior, quando mais no longínquo dia 4 de Fevereiro.
A acusação bem insistiu no sentido das ditas tentarem avivar a memória, mas foi em vão, nicles de bitocles; bateu o pé, rabujou, chamou nomes, mas daquelas bocas não saiu fosse o que fosse, tampouco, uma vogalzinha, ou uma consoante, nada de nada.
A defesa pediu que fosse declarada a inefabilidade crono-jurídica (penso que esta palavra composta não existe, mas que se lixe) do momento e a acusação pediu baixa devido a uma crise de rinite alérgica do Delegado do Ministério Público. Contudo, o pedido foi indeferido para não adiar o julgamento sine die.
Foi requisitada, sem demora, a presença de um Subdelegado do Ministério Público, mas como tardava a substituição do Delegado pelo Subdelegado, por este último se encontrar a banhos nas Ilhas Seychelles (não confundir com a Ilha Seixal e muito menos com município do Seixal), o colectivo requereu a presença de um Inspector Adjunto Principal, da Inspecção-Geral, em serviço na Subdelegação; só para desenrascar.
O meritíssimo Juiz da comarca, Doutor Honoris Aadhunik Chandrachur, de nítida ascendência escocesa, não só absolveu o réu desse crime hediondo, como ainda confessou que tinha sérias dúvidas sobre a ocorrência do assalto, no dia em causa, porque podia ter-se dado um dia antes ou um dia depois. Para além disso, o douto e respeitável juiz reconheceu que Artur Salgado Inocêncio tinha transmitido até ali provas inequívocas de honestidade e, acima de tudo, de modéstia à parte e, por isso, dignas de reconhecimento.
E, ao concluir o acórdão, obviamente com o acordo de todos e a abstenção da acusação, salientou: «Vá para casa e livre-se de praticar assaltos em dias de feriado, homem! Para mais, sendo o dia 4 de Fevereiro; por amor da Santa!» - sublinhando que trabalhar em dias santos era crime passível de julgamento e, no máximo, repreensão agravada com recurso de agravo (Decreto Lei nº 169/17, Artigo 25º), rematando que desta vez deixava passar, realçando que era uma vez sem exemplo.
No mesmo processo: "Operação Mão de Vaca", como vem referido, a páginas tantas, nesta excelente criação imaginária, temos, então, outro corrupto, um falsário, personagem de índole duvidosa, como todos os falsários, chamado Joaquim Sócras da Silva, sobre o qual recaíam fortes suspeitas de crimes de peculato e falsificação de notas de mil escudos. O sujeito havia sido condenado preventivamente a prisão domiciliária numa conhecida hospedaria de Évora e só fora libertado depois de caucionar o pagamento de uma bica e um bagaço a uma juíza e um garoto ao oficial de justiça. Tudo isto em consequência de fortes indícios do seu envolvimento em outros ilícitos para além dos previstos na lei (há aqui uma incoerência, peço desculpa). As suspeitas eram tão evidentes que ele próprio - passe a redundância - , em dado momento, chegou a pensar, embora não o dissesse, que os cometera.
Os seus advogados entenderam que a pena era acrónica e, por esse facto, inadmissível, injusta e desprestigiante para o alto gabarito e honestidade do seu constituinte; sobretudo, uma enorme afronta contra a sua honra.
O suspeito, ao tomar conhecimento do recurso, teve um breve momento de desalento e, embora fosse agnóstico, exclamou: «Valha-me Deus, onde é que isto vai parar? Porque é que estão todos contra mim?»
Quase no epílogo da estória e resumindo toda a acção deste drama narrativo, pois já estou com uma calanzice do caraças, lê-se a tantas outras páginas que o processo da "Operação Mão de Vaca" foi arquivado, embora a senhora idosa continue em estado de coma induzido. Porém, foi imediatamente reaberto outro com o nome "Operação Grão de Bico", por suspeita de arquivamento, mais a mais em arquivo morto, de pedidos sucessivos de inquérito, formal e atempadamente formulados pelo Ministério Público.
Parece que esse tal Inspector Adjunto Principal da Inspecção Geral, veio agora alegar, apesar de alguma hesitação, mas querendo mostrar serviço, ao que parece, que afinal o suposto meliante pode estar implicado em vários atropelamentos de bicicleta, devido à utilização mal calculada do método do esticão para sacar objectos, nomeadamente malas de senhora. Bom, mas estas suspeitas ainda estão por confirmar.
E pronto, não escrevo mais porque isto, hoje, correu-me mal pra caraças!

26.11.21

ESTÓRIA URBANA


João Brito

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Durante a permanência de um denso manto de nevoeiro sobre a cidade, daquele tipo de nevoeiro que não deixa vislumbrar um palmo à frente do nariz, ocorreu um fenómeno que ainda hoje o perturba, conquanto o sol já se erguesse alto e caldo.
Um desembargador reformado e viúvo, de nome Ezequiel Cipriano Canário, morador na Travessa do Pelourinho, Nº15, rés-do-chão Dtº, ao virar a leitaria da esquina à Lapa, de quem me reservo o direito de manter no anonimato para preservar a sua privacidade, deambulava ali para os lados do Jardim da Estrela, quando ouviu uma voz feminina murmurar "és tu, Sotero?". Sem conseguir identificar a sua proveniência, sentiu um gelo súbito percorrer-lhe a medula espinhal, acompanhado de tremura intensa na perna (era perneta). De tal modo que não a conseguia dominar e as gotículas que lhe afloraram os poros das regiões frontal, occipital e parietal depressa congelaram, embora a temperatura à sombra rondasse os trinta graus. Apesar do enorme temor e tremor que sentiu com o estranho episódio, não se pôs a cismar naquilo e concentrou a atenção no que se estava a passar, não muito distante do local onde se encontrava; talvez a uns três metros, se tanto:
Tendo apurado melhor o nariz, embora precisasse mais de óculos e não obstante o nevoeiro já se ter desvanecido, divisou um grupo de pessoas em passo solene e a toque de caixa, o qual lhe pareceu ser da Irmandade dos Fiéis de São Bento, pela ladainha que o vulto da frente vinha a invocar ao Santo. Porém, tal suposição não se confirmou quando passaram perto do seu curto campo de visão.
O cortejo era encabeçado pelo padre Américo, acompahado por um rancho de gaiatos, o que o deixou algo pasmado, pois julgou tratar-se de uma visão fantasmagórica. Uma associação defensora dos direitos das passarinhas enjauladas, cujas representantes desfilavam nuas da cintura para baixo, fechava a comitiva bizarra.
Visivelmente perturbado, mas sem dar nas vistas, esperou que passassem, não fosse o acontecimento uma visão ilusória e até alegórica (porque não?) do outro mundo.
Depois de ter presenciado a cena (em boa verdade, bastante paranormal) e ainda mal refeito do que acabara de testemunhar, saiu do esconderijo e percorreu o caminho pisado por aquelas personagens insólitas. Por lá encontrou vários objectos, entre os quais dois bacios de fina porcelana portuguesa, Bellavista, um em estilo rococó e outro em estilo richichi, uma chávena chinesa, efectivamente made by RPC, com um restinho de chá, ainda fumegante, duas celas do melhor couro andaluz, um par de botas de montar, em calfe, ambas do pé esquerdo, uns óculos de Sol Honório Hernani aparentemente novos, um lencinho de assoar, vermelho, debruado com fiozinhos de oiro a preceito e a exalar um suave perfume a água das rosas e, finalmente, excrementos de equídeo, o que achou muito estranho, pois não vira cavalos, tampouco éguas, muito menos burros. Todavia, podem ter sido mulas ou machos que passaram despercebidos, vá-se lá saber. Presumindo que tudo aquilo já se encontrava ali antes da passagem do cortejo, excepto um pauzinho de gelado Olá (passe a publicidade) que guardou religiosamente, regressou a casa cheio de inquietude e, simultaneamente, excitação desusada pelo achado.
«Repara como o nevoeiro nos reserva surpresas interessantes» – disse à falecida, exibindo triunfalmente para o vazio o pauzinho de gelado.

26.11.21

SOPA DE LETRINHAS


João Brito

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Heitor era doido por sopa de letrinhas.
Desde menino que tinha esta obsessão gastronómica que herdara de seu tio Arlindo, conhecido industrial de alimentos e um indefectível da sopinha de massa.
Muito antes de conhecer o alfabeto fonético, paradoxalmente, já arranhava muito bem o grego, interessando-se, em particular, pelo chamado período clássico, onde Heródoto de Halicarnasso, por exemplo, lhe despertava um apetite voraz por rosbife.
Perante um cenário tão promitente é fácil conjecturar ou até especular - passe a redundância - que se deve ter tornado, surpreendentemente ou, quiçá, sei lá, num potencial literato emergente. A tal ponto que é consabido que dominava precocemente conhecimentos avançados de estudos literários à distância.
Todavia, sempre recusou sopa de tomate e manjericão; abominou a de abóbora e declarou guerra às sopas de pevides e estrelinhas, por muito inverosímil que nos pareça.
Na fase da adolescência, aquele período muito parvo e inconsciente, cheio de sangue na guelra e espinha no dorso, quando os fedelhos se escamam por tudo e por nada, ele era diferente; comia sempre num enorme prato de sopa "Cerâmica de Valadares" - passe a publicidade - que ele, nestas coisas, era muito esquisito, benzesse-o Deus Nosso Senhor.
Era nas bordas do prato que ensaiava prosa cacográfica com as letrinhas da sopa. Também tinha aquela intuição, só acessível aos seres eleitos, de que a leitura e a escrita criativa prejudicavam seriamente a ignorância e, por isso, insistia na sua ordenação perfeita de modo a formar, pelo menos, frases lacónicas; e a mais não era obrigado, pois já fazia muito para além da sua aptidão inata.
Heitor faleceu há dias, com tanto ainda para dar, mas a vida é mesmo assim: feita de imponderáveis, por muito que nos tentem convencer de que o destino marca a hora...
O relatório da autópsia não podia ter sido, bem a propósito, mais conciso: utilização excessiva de palavras parónimas com acento tónico na primeira sílaba como, por exemplo, átono e átomo ou na segunda como apóstrofe e apóstrofo.

Quanto ao Acácio, há muito que emudeceu. Saturado de contar mentiras e semear mexericos a torto e a direito, a boca resolveu pregar-lhe uma partida, fugindo-lhe para a verdade. Tantas vezes vai o cântaro à fonte, é o que é! Ainda esboçou a tentativa de a perseguir, mas debalde (não confundir com de balde); era impossível! Desta vez a boca correu mais célere do que o boato.
Escusado será dizer que, para recuperar a fala, Acácio aguarda que alguém, por caridade, lhe mande a boca.

A Arlete, ao passar por uma montra da Rua Garrett (leia-se o trissílabo garréte), viu exposta uma linda jaqueta de pele com a qual sempre sonhara. Olhou-a através da vitrina, de todos os ângulos que as suas trinta dioptrias permitiam, e ficou fascinada.
Em casa, comentou isso com o esposo:
«Hoje, estive vai-não-vai para comprar uma jaqueta de pele, daquelas que tu nem calculas! Só não a comprei porque me ia custar os óculos da cara!»
«Graças a Deus que tiveste o bom senso de não os teres deixado lá, filha! Era muito desagradável voltares a usar olhos!»

Já o Sargento Ramires, estava de folga a curtir música rock. Um pouquinho juvenil, um tudo-nada rebelde, mas, mesmo assim, um nadinha ruidosa. Contudo, nada marcial, coisíssima alguma uma brigada, tampouco regimento, batalhão ou pelotão. Assim, o Sargento Ramires tomou uma decisão inalienável, indiscutível e exclusiva: pediu a carta patente de oficial subalterno depois de passar à reserva territorial.
Heitor, Acácio, Arlete e Ramires, quatro casos pessoais, quatro exemplos de desprendimento; quatro lições de altruísmo, dedicação e abnegação. Sobretudo, quatro estórias paradigmáticas.

25.11.21

RECEITA FÁCIL DE PERU POPULISTA, ASSADO NO FORNO, PARA A CONSOADA


João Brito

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Olá, meus caros e minhas caras. Sei que ainda é um bocadinho cedo para comemorarmos o Natal (este ano, provavelmente, ainda circunscrito ao núcleo familiar dos nossos lares...) e também sei que uma boa parte de vós estaria mais interessada em ler uma estória picante, mas, por se tratar de vésperas de um acontecimento festivo muito importante, cheio de paz, amor e comezaina até rebentar, não vou fazer-vos a vontade, desculpem lá, mas é inapropriado!
Porém, para não pensarem que sou um desmancha-prazeres, tive uma ideia que considero luminosa; ao fim e ao cabo enquadrada no verdadeiro espírito natalício, n'é verdade? Ideia luminosa. Estão a ver a simbiose?
Assim, aproveitando o ensejo de que o Natal, para além de significar amor (João 3:16-17), também significa mesa farta (José 4:2-3,14159), resolvi proporcionar-vos uma receita muito fácil de fazer e que vai agradar-vos sobremaneira. Dei-lhe o nome sugestivo (se calhar pomposo de mais, peço desculpa) de "Peru populista à Tocam os sinos". No entanto, é um vulgar prato de peru assado no forno que não requer grande mestria na arte de cozinhar, como já referi. Contudo, se por um lado é um pitéu de trás da orelha; e olhem que a mim, nestas coisas, ninguém me faz o ninho atrás da orelha porque ando sempre com a pulga atrás dela - acreditem - , por outro lado também não sei porque é que se diz orelha em vez de orelhas, pois são duas: precisamente, uma em cada lado do rosto. Todavia, mais havia para dizer em relação às orelhas, mas prometo que abordarei este assunto lá mais para a frente, se Deus quiser.
Espero que gostem da sugestão e, a talhe de foice, desejo-vos bom apetite (também concordo convosco; "bon appétit", neste contexto, suava pindérico de mais)!

Ingredientes:

- Um peru populista nédio (não confundir com médio porque sobra sempre um bom garfo e um médio pode não ser suficiente)
- Um balde de água fervente (o balde de água fria é escusado porque, para o efeito, tem de borbulhar)
- Alho, salsa  e fuligem qb e depois logo se vê.
- Tapas e biqueiros qb.
- Batata nova qb (Se não houver batata nova, pode ser semi-nova), com o respectivo saco de serapilheira.
- 20 quilos de banha, mais coisa, menos coisa (se o bicho for muito anafado, deve-se reduzir a quantidade de banha, mais ou menos, para metade). 
- Bota (direita ou esquerda) pra pregar uns quantos biqueiros no cu do animal, previamente, untado.

Modo de preparação:

Toma-se um peru populista, de preferência bem nutrido. Bota-se em água a ferver, depena-se muito bem e esfrega-se com alho, salsa e fuligem.
Seguidamente, retira-se-lhe a barba (sai sem dificuldade porque é rala) e demais adereços inúteis.
Se o sujeito começar a espadanar é conveniente ferrarem-lhe algumas tapas. Conferem algum ambiente e abrem o apetite.
Bota-se o peru populista num pirex de dimensões generosas e junta-se-lhe batata nova (ou semi-nova) e, mais ou menos, 20 quilos de banha.
Como já tinha aconselhado, não convém pôr muita para aproveitar a gordura do galiforme. Para ornamentar pode ficar ao vosso critério, mas proponho que se lhe despeje o saco de batatas, juntamente com o resto do seu conteúdo em cima. Aposto que todos vão gramar à brava! Nomeadamente, a pequenada.
Recomendo, também, que se lhe junte molho tártaro e muito vinagre na expectativa de que liguem horrivelmente mal com algum resto de fuligem que possa ficar alojado nas virilhas ou atrás das orelhas que são partes escondidas e, por consequência, mais difíceis de limpar.
Polvilha-se com vinte quilos de coentros picados "et voilà" (não sou apologista de estrangeirismos, mas acho que esta expressão vem muito a propósito)!
É possível que o peru populista se sinta um bocado marfado e ofereça alguma resistência à entrada no forno. Todavia, ao contrário do que possam pensar, isso é sinal de que tudo corre pelos ajustes e o assado vai ficar bem apurado.
Portanto, e em jeito de conclusão, se ele conseguir escapar, pois que escape! O apreciador mais exigente pode, mesmo, ajudá-lo a fugir com meia dúzia de biqueiros no cu.
Quando já só se vislumbrar a sua silhueta depenada e gordurenta no horizonte, desliga-se o forno, parte-se o pirex, deita-se tudo para o lixo, canta-se, naturalmente, o "Tocam os sinos", preparam-se umas sandochas de mortadela, abre-se um tetrapack de vinho tinto rascante Camilo Alves (passe a publicidade), mandam-se os putos para a cama e passa-se a consoada a contar anedotas do Bocage. De preferência, daquelas muito porcas. Espero que gostem.

23.11.21

A PILINHA E O PIPI


João Brito

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Antes de prosseguir a narrativa, convém referir que o tema não sendo novo também não é velho por aí além (no caso, aquém), n'é? Contudo, estou ciente de que é susceptível de provocar alguma celeuma, como é natural. Isto, não obstante a educação sexual fazer parte do programa oficial de ensino desde tempos imemoriais. Nesse sentido, penso que o controlo parental é dispensável; até porque as crianças de hoje já não são as crianças de ontem (bela frase) e, partindo desta premissa, não as devemos aborrecer com falsos moralismos.
Por conseguinte, este texto pode ser lido em família e sem qualquer tipo de impedimento.
Depois desta curtíssima introdução, vou passar, então, à descrição taxinómica dos órgãos em epígrafe:
Ora, imediatamente, surgem os primeiros obstáculos. Isto porque existem órgãos externos e internos. Todavia, quando se mencionam, pensa-se, invariavelmente, nos que estão à vista desarmada, embora estejam ordinariamente tapados. No que concerne aos nomes que lhes atribuímos, são tantos que não sabemos por que ponta lhes devemos pegar. Desde torneirinha, pilinha, pirilau e piloca nos meninos, até pipi, rosinha, pombinha e rolinha nas meninas.
É claro que existem outras designações menos simpáticas que me recuso a transcrever por uma questão de decência e porque são sobejamente conhecidas do público em geral e do púbico em particular, não esquecendo o púdico, evidentemente.
Tudo o que a nossa imaginação permitir, poder-se-á assemelhar aos órgãos sexuais, sei lá, uma simples esferográfica, ou a cratera de um vulcão, sofás, lava-loiças, despensas, sanitas, banheiras, enfim, uma infinidade de coisas que não caberiam aqui. Portanto, e antes que este texto degenere, vou passar à frente.
Como descrever seriamente, e de uma forma geral, os órgãos sexuais? Uma questão sempre difícil para a perspectiva analítica do anatomista, dado que o acessório está inevitavelmente inserido na percepção do sujeito. Efectivamente, são órgãos que merecem descrições particulares. No caso dos órgãos sexuais masculinos as coisas podem atingir vários aspectos, conforme as circunstâncias. Por exemplo, em condições excepcionais, podemos considerá-los como órgãos extraordinariamente versáteis, capazes de assumir diversos feitios. Julgo que é suficiente para se ter uma compreensão abrangente da sua dissimilitude em relação a outros órgãos com menos visibilidade postural, mas não com menos apostura. Como no género feminino, em que os órgãos externos são diferentes e cuja atitude é mais subtil ou menos explícita – passe a redundância – como já devem ter presumido ou tido a oportunidade de constatar.
Depois da descrição ao pormenor, tratemos do tema da sua utilização ou seja, para que servem? Outra questão delicada. Peço desculpa àquelas pessoas mais recatadas, pela exposição dos órgãos de uma forma um bocadinho despudorada, mas, para simplificar a explicação vou designá-los por pilinha e pipi para não provocar muitos melindres.
Então é assim: A pilinha, se observarem bem (as pessoas obesas podem socorrer-se do vulgar espelho), está situada, mais ou menos, a um palmo abaixo do umbigo e serve para fazer chichi e perpetuar a espécie, segundo o conceito de um ex-deputado do CDS, João Morgado. O pipi é quase a mesma coisa, com uma ou outra nuance (mais uma vez, as pessoas obesas podem socorrer-se do espelho).
A pilinha e o pipi, quando estão pelos ajustes, são porreiros um para o outro. Toda a gente se lembra daquela quadra muito bonita que aprendeu nos primeiros aninhos de escola e que reza assim: A pilinha e o pipi, são dois amigos leais / quando o pipi está contente / logo a pilinha dá sinais. Lembra, certamente, claro!
E pronto, penso que, quanto à anatomia, descrição, classificação e utilização dos órgãos sexuais, mais haveria a dizer; o assunto não se esgota aqui, nomeadamente em relação ao sexo, mas, como sou oriundo de uma família de convicções e rituais profundamente religiosos, constrange-me falar abertamente sobre este tema sempre polémico. É que falar de sexo, oralmente, já é difícil; fará por escrito!
Isto é muito sério, como certamente devem ter-se apercebido. "Com o sexo não se brinca!" – já dizia a minha avó com a sabedoria que lhe era peculiar – , mas se não podemos brincar com o sexo, brincamos com o quê? Ora, bolas!

P.S: A talhe de foice, eis a resposta ao Morgado, da grande poetisa Natália Correia, antiga deputada parlamentar do PSD. Resposta relacionada com o facto de o sujeito ter dito, numa sessão do parlamento, em 1982, que "(...)o acto sexual é para se ver o nascimento de um filho":

Truca-Truca

Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado. 

17.11.21

PEDRO E INÊS: UMA ESTÓRIA DE FACA E ALGUIDAR


João Brito

pedro e inês.jpg

Peço encarecidamente desculpa aos hipotéticos leitores e leitoras, mas tinha de regressar a um tema que me fascina sobremaneira que – presumiram bem – é História de Portugal, isso mesmo! Assim, sem mais delongas, vou debruçar-me, desta vez, sobre uma das histórias de amor mais lindas e mais pungentes do reino de Portugal, dos Algarves e "se mais mundo houvera lá chegara" - parafraseando o meu estimado amigo Luís Vaz. Prossigamos, então:
Inês foi aia e Pedro foi rei. Para quem não está ao facto, isto, de facto, foi um facto. Logo, tivemos mais um caldo entornado na nossa História ou um caldinho como é comum dizer-se. Tanto que se consumou e tragicamente se consumiu.
Conta esta estória que, nas galerias sombrias do Paço, Pedro cruzava-se, nessora, já lusco-fusco e amiúde, com Inês, ali, a dois passos, e reparava que os seus olhos eram lindos e de uma luminescência esfuziante. Para não dizer dos ombros que eram tão alvos e tão cândidos que davam para encher o olho (mais adiante, explico a razão porque davam para encher o olho). De tal modo que, cada vez que se viam, Pedro sentia uma vontade desmedida de lhe deitar a alça do vestido abaixo.
Permitam-me, aqui, uma pequena digressão: Segundo estudos efectuados muito recentemente, está comprovado, por portas e travessas, que os reis eram uns licenciosos do piorio (não confundir com licenciados porque, salvo honrosas excepções, eram uns bestuntos analfabetos), capazes dos piores desregramentos, pondo em causa o pundonor da monarquia. É claro que estes hábitos ancestrais não constituem novidade para quem está a par das marotices da nobreza de antanho. No entanto, é só mais uma achega para tentar desmistificar a falsa noção que as pessoas têm acerca da superioridade moral da aristocracia de outrora. Felizmente que a fidalguia, agora, tem maneiras! Honras lhe prestem porque fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia, como disse alguém, cujo nome já se me varreu. Prossigamos:
Certa noite de luar (como sabem, o luar nada mais é do que a luz do Sol reflectida pela Lua), a aia devaneava, doce, lânguida, derramando uma lagrimazinha de crocodilo, quiçá pelas cebolas do Egipto, entre frondosos arbustos, aprumando o busto, inalando a fragrância que vinha do Mondego ou talvez do Alva, quando Pedro, arrastando o manto, coçando o mento, exalando menta e avivando a mente, se encontrou com ela, cara a cara e de caras, pintaram a manta.
O calor da noite (ou entusiasmo), a brisa branda do Dão, o aroma das benefes, a distância dos olhares pudibundos e furibundos dos cortesãos e cortesãs, fez com que os dois amantes inacabados percebessem que era chegado o tempo de dirimir aquela indefinição do amor.
Sem perderem tempo, submeteram-se, segundo a própria vontade, aos ímpetos lúbricos da carne, como convinha e, claro, a bronca estalou: toda a corte ficou a saber que o rei estava metido numa grande alhada por via de uma bela plebeia, pois embrulhara-se nas saias de uma, pondo em perigo os costumes, usos e abusos da realeza.
Vou sintetizar um pouco mais isto porque não me está a correr nada bem...
A troco de uma mão-cheia de Dobras, três magalas horrentes, coniventes e sem dentes, apanharam Inês, lavando no rio, desacautelada, semi-nua, semi-inconsciente das intenções maliciosas dos conspiradores, defensores da nata e, com a frieza inata dos estripadores, vararam-na...
Pedro uivou que nem um lobo, espumou de raiva que nem um cão, berrou que nem um bode e jurou vindicta.
Cavalgou por todo o reino e além fronteiras, conforme tinha aprendido no livro de Bem Cavalgar Toda Sela, vasculhou as comarcas, as dinamarcas, perscrutou as marcas, as peugadas, os rastos, os indícios, os vestígios, os sinais, enviou emissários, comissários, mercenários e, por fim, caçou os sanguinários.
Os assassinos a soldo foram sumariamente presentes ao Rei que os esventrou, sem mais aquela, perante uma multidão exaltada, aficionada e sedenta de sangue e arena.
Ao primeiro extraiu-lhe o fígado pelas costas e fê-lo em iscas. Ao segundo, sacou-lhe o coração pelo peito e, tendo-o desfeito, jogou-o aos cães; a multidão ululava de prazer mórbido e gritava "olé!". O terceiro jamais apareceu, mas foi excomungado, exonerado e expulso das Forças Armadas, sem direito a qualquer estipêndio ou subsídio.
Depois, com uma lágrima ao canto do olho, dado que era zarolho, Pedro sentou o corpo jacente e arrefecido de Inês numa poltrona e prometeu punição aos poltrões. A fidalguia contrita, temendo o castigo régio, comia tremoços e pevides e enganava a inquietude torcendo as orelhas.
Um a um, em fila do pirilau (fila indiana), vieram beijar as mãozinhas frias de Inês que lhes retribuía com um sorriso de morte ...
Esta estória não se esgota aqui, como constatam pelas reticências. Todavia, deixo o seu desfecho ao juízo da vossa imaginação ou à leitura atenta do último romance de Joaquim da Silva Reboredo: "O Amor Infinito de Pedro e Inês", Edições Maozinhas de Veludo.pt.
Uma coisa é certa: Não casaram nem tiveram filhos, tampouco foram felizes para sempre. Também nunca brincaram às escondidas ou à apanhada, mas amaram-se perdidamente até ao fim.
Passados séculos, ainda se escuta o restolhar dos seus corpos quando se passa junto ao túmulo, no Mosteiro de Alcobaça.
Nota final: Mais uma vez quero pedir desculpa ao professor José Mattoso pela minha falta de rigor histórico e, por conseguinte, elevada ignorância. Muito obrigado e bem haja!

14.11.21

DIÁLOGO ENTRE COLBERT E MAZARINO


João Brito

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Colbert: «Para encontrar dinheiro, há um momento em que já não é praticável enganar seja quem for.
Senhor Superintendente, gostaria que me explicasse como é que é possível continuar a gastar tanto, quando já nos empenhámos até ao pescoço?!...»
Mazarino: «Bom, então, passo a explicar:
Se estivermos a falar de um miserável Zé ninguém coberto de dívidas, e não tendo como as pagar, é óbvio que vai preso. Mas o Estado..., bem..., o Estado é diferente! Não se pode mandar prender o Estado que diabo! A solução natural para o problema é continuar a acumular dívidas... Todos os Estados o fazem, não somos excepção, Colbert!»
Colbert: «Ah sim? É essa a sua convicção, então? No entanto, continuamos a precisar de dinheiro. Como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?»
Mazarino: «Criando outros com designações incompreensíveis para a população ignara. Dada a sua complexidade, presumirão que são vitais para combater a falta de liquidez das finanças do reino e, naturalmente, a manutenção do seu estatuto de pobreza e, por consequência, iliteracia»
Colbert: «Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres. Sujeitamo-nos a uma insurreição popular!»
Mazarino: «Realmente tens razão, também pensei nessa possibilidade!»
Colbert: «Bem, sobram os ricos!»
Mazarino: «Os ricos também não, nem ouses tal pensamento! Deixariam de gastar ou pior ainda: tratariam de transferir a totalidade das suas fortunas para reinos onde não fossem taxadas! Um rico que gasta faz viver centenas de pobres, não esqueças!»
Colbert: «Então onde vamos arranjar dinheiro?»
Mazarino: «Ai, Colbert, comes muito queijo, homem de Deus! A coisa processa-se da seguinte forma: há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham, com o sonho de um dia se tornarem ricos e com um medo insuportável de ficarem pobres. É a esses que devemos sobrecarregar com impostos atrás de impostos, cada vez mais, sempre mais, percebes?! Esses, quanto mais lhes tirarmos, mais se esfalfarão a trabalhar para compensarem o que lhes tirámos. São uma reserva inesgotável!»

As personagens são reais, o diálogo é fictício ( adaptação livre da peça teatral Le Diable Rouge, de Antoine Rault. Circula por aí...), mas pode-se reportar aos tempos actuais, como facilmente se depreende nesta magnífica rábula...
“Jean-Baptiste Colbert (Reims, 29 de Agosto de 1619 — Paris, 6 de Setembro de 1683) foi um político francês que ficou conhecido como ministro de Estado e da economia do rei Luís XIV. Instalou o Colbertismo na França, onde teve uma grande importância no desenvolvimento do mercantilismo ou da teoria mercantilista (com adeptos fervorosos em Portugal), bem como das práticas de intervenção estatal na economia, que o mercantilismo advogava.
Em 1651, Michel Le Telier, apresenta-o ao Cardeal Mazarino que o contrata para gerir a sua vasta fortuna pessoal. Antes de morrer, em 1661, Mazarino recomendou Colbert ao rei Luís XIV de França, salientando as suas qualidades de dedicado trabalhador. Nesse mesmo ano o rei fez de Colbert ministro de Estado e, em 1664, atribui-lhe o cargo de superintendente das construções, artes e manufacturas e ainda o de intendente das Finanças.” - Wikipédia

14.11.21

RICOS E POBRES: A ETERNA DICOTOMIA


João Brito

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Dizia aquela senhora, ainda no tempo em que foi directora do FMI, que era necessário "partilhar o crescimento". Dizia-o no final de uma cimeira dos países mais ricos do mundo. Segundo ela, os líderes desses países haviam concordado em identificar e dar prioridade às reformas que são essenciais para aumentar o estímulo do crescimento de cada país, área em que a organização que dirigia, supostamente, actua. Reforçava a ideia com a importância que deve ser dada à "partilha alargada dos recursos e do conhecimento"...
Ora, como estamos habituados a discursos de circunstância, já não estranhámos mais este. É do senso comum que, sem as ferramentas que reduzam as desigualdades e aumentem, assim, as perspectivas económicas, nomeadamente dos grupos de mais baixos recursos e com poucas qualificações – os primeiros a serem afectados com as mudanças tecnológicas – , o fosso entre ricos e pobres aumenta inevitavelmente. Palavras, portanto...
A propósito desta assimetria e a fazer fé nas estatísticas, a concentração de riqueza continua imparável, mesmo em tempo de pandemia. Direi que até a reforçou, nomeadamente, no lóbi farmacêutico que, como se sabe, é muito poderoso. Segundo o meu entendimento, é um grupo que não quer abdicar do avaro acúmulo de abastança. Ademais, sabendo-se que há países, cuja população ainda não está vacinada...

É claro que há formas de combater as desigualdades, mas pergunto: alguém está interessado em fazê-lo? Alguém continua empenhado, por exemplo, em combater a fuga à tributação de fortunas incalculáveis, mesmo vivendo-se uma das maiores crises pandémicas de todos os tempos?
E Portugal, onde alguns pensavam (se calhar, vivendo uma realidade virtual) que o número de pobres tinha diminuído, contrastando com os relatórios da OCDE que contrapunha como permanecendo entre os países mais desiguais e com maiores níveis de pobreza consistente? 
Para compor o ramalhete, mudaram, também, todas as perspectivas e espectativas a um ritmo extraordinário e violento, devidas a esta nova peste que continua a assolar o mundo, e ninguém sabe muito bem como vai ser daqui para a frente.
Porém, mantenho a profunda convicção de que o cenário social vai-se agravar e, pela ordem de "prioridade", o eterno lixado é o mexilhão.

13.11.21

MITOS BÍBLICOS


João Brito

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Naquela manhã, Abraão acordou o filho muito cedinho:
«Levanta-te Isaac, temos de abalar, já, meu filho!»
«Mas..., paizinho, nem ao menos uma torradita e um leitito de burra?!»
«Anda! Levo aqui pãnito, azeitonitas e um queijito de Serpa, vá, comemos pelo caminho, despacha-te!»
«Paizinho, não leva uma garrafita de vinhito?»
«Bebes aguinha do Ardila e já vais com sorte, mê menino!»
Chegados ao local indicado pelo mensageiro do Senhor, nos sonhos de Abraão, ali pintaram a manta... perdão, estenderam a manta e despacharam o resto da merenda.
Isaac estava impaciente para adorar e sacrificar fosse o que fosse:
«Paizinho, quando é que a gente vai adorar e sacrificar?»
«Tem lá calma! Tudo tem a sua hora que diabo! Ai..., perdoai-me, Senhor, porque invoquei Lúcifer, esse capeta dum cabrão!»
Passado algum tempo e estando Isaac a dormir uma soneca à sombra de uma azinheira, o pai aproveita a oportunidade, salta-lhe em cima, dá-lhe uma cachaporrada no toutiço, amordaça-o, amarra-o à árvore e posta-se de alerta à espera que o moço acorde:
«Q'a porra vem a ser esta, paizinho, só pode 'tar a mangar?! Até pareço um enchido de Estremoz!»
«Está escrito, meu filho! E tu não m'arranjes mais cargas de fezes q'aquelas que já tenho; olha q'ainda levas uma lamparina! Vá; não podemos contrariar as escrituras!»
Abraão pôs-se a jeito para desferir um golpe de cutelo no seu indefeso filho:
«Desinfectou isso, ao menos? Pode-se apanhar o tétano, paizinho!»
Abraão não teve tempo de responder. Um enorme e repentino rugido, vindo dos céus, acompanhado de vento e poeira, acabara de anunciar a presença de um anjo do Senhor:
«Oiça lá, ó seu grandessíssimo Abraão, então você, sua besta quadrada que não tem outro nome, confundiu o seu rapaz com um borrego, seu tira moncos, seu..., seu ratecégo, seu tombaque? Vá lá judiar com o raio que o parta, seu alarve! Arre porra que você não vale um chocalho d'erva, catano! Não sabe que é aquele bicho que tem de imolar? Para a próxima vai de raboleta para o inferno, 'tá ouvindo?»
O pobre e assustado ancião virou-se e viu ali, escarrapachado, um carneiro escanzelado, vindo, sabe Deus d'onde. Mataram-no e Abraão fez um ensopado dentro das circunstâncias que, tudo leva a crer, não devem ter sido as melhores. A carne saiu um bocadito dura, mas, pelo menos, o anjo chamou-lhe um figo e comeu que nem um bruto.
Cheio e farto – passe a redundância – , agarrou nos quatro arrátes, com muita dificuldade, e desapareceu por entre as nuvens.
Com tanta emoção junta, pai e filho ficaram sem fome. Abraão até se esquecera das suas dores nos artelhos, própria da sua provecta idade.
O Isaac, coitadinho, é que não se lembrava de ter apanhado um escalda rabos tão grande. O importante é que não ficaram derramados com o episódio que, graças a Deus, foi resolvido sem infortúnio.
Todavia, isto ficou fortemente guardado na alembradura de ambos, de tal modo que, mais de 2000 anos depois, é repetidamente recordado pelas alminhas lá daquele monte que não vou identificar q'é p'ra não ficarem raladas dentro dos caixões. Nã é que se importem, agora, muito, mas, naquela altura, a coisa podia ter dado para o torto e seria uma grande moidera, n'acham? E termino esta estória sem talho nem maravalho, não sem esclarecer, finalmente, que as personagens e o contexto histórico e geográfico são fictícios como, certamete, entenderam, n'é verdade?
E, a talhe de foice, alguém me disse que a expressão "sem talho nem maravalho" é um dito algarvio. Aqui fica o meu reparo e pedido de desculpa pelo abuso, obrigado.

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