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ADÃO E EVA OU OS ETERNOS MITOS PROTO-HISTÓRICOS

por João Castro e Brito, em 01.10.21

adão e eva ou os eternos mitos proto-históricos.

Era uma vez um jardim imaginário, muito distante no tempo, ao qual vou chamar jardim da Celeste...
Permitam-me um aparte: na minha modesta e pouco esclarecida opinião, presumo que substantivos próprios, como Celeste, por exemplo, ainda não constavam no Glossário da Criação Universal, mas pelo sim pelo não...
Adiante.
Andava um hominídeo de sexo indeterminado a passear no jardim, quando...
Desculpem lá mais esta interrupção da narrativa, mas aqui, vou ter de chamar Eva ao hominídeo. Todavia, com alguma reserva porque, apesar de ter algumas parecenças com o Homo Linnaeus, não tinha traços filogenéticos definidos ou explicando o melhor que posso: aparentemente, ainda não possuía as propriedades físicas que distinguem, actualmente, um macho de uma fêmea. No entanto, se não lhe chamasse Eva e não tivesse inventado o nome Celeste em cima do joelho, a estória teria menos piada, acreditem! Aliás, passados que são milhares de milénios, ainda hoje, em muitos casos, é difícil fazer tal distinção, assim, do pé para a mão e vice-versa. Todavia, abordarei este assunto noutra altura, se me apetecer, pois presumo que é um tema do agrado de muitas pessoas, nomeadamente das que se atiram vorazmente aos meus escritos como gato a bofe.
Prossigamos, então, senão começo a divagar e perco o fio à meada: Eva dirigiu-se ao Criador: «Estou a cismar, cá, c'uma coisa: sei que foste Tu que me moldaste e me mandaste vir ter com a Celeste e também sei que isto é um lugar porreiro e paradisíaco, mas falta-me qualquer coisa que não consigo explicar o que é. Só sei que, às vezes, me deixa à beira do desespero e a Celeste não me pode ajudar.»
«Então, Eva, o que é que te deixa à beira do desespero?...Conta-me!»
«Sinto-me muito, mesmo muito só e já estou farta de comer maçãs!»
A Entidade Criadora, reparando numa protuberância que sobressaía na parte ântero-superior do pescoço de Eva, também concluiu que havia um vazio na vida daquele ser indefinido que carecia de ser preenchido e disse:
«Ora, o que tu queres, sei eu! Julgas que nasci ontem ou quê? Onde é que eu estava com a cabeça que não pensei nisso antes, caraças?! Vou-te arrancar uma costela e faço-te um dildo; e estás solenemente proibida de comer mais maçãs, senão ficas com prisão de ventre; e podes continuar a brincar com a Celeste porque, por enquanto, nenhum mal advirá de uma boa brincadeira. Afinal, ainda não inventei o pecado!»
«O que é um dildo?! Isso come-se?»
«Não, propriamente..., mas está bem; faço-te um ser, a quem vou chamar Adão, se melhor te apraz. Devo avisar-te que não vou conseguir moldá-lo de forma perfeita e vai ser hostil quando as coisas não lhe correrem conforme os seus desejos. Está escrito e assim vai ser; não há volta a dar. Para além destes defeitos, vai ter, certamente, mais. Por exemplo, vai ter uma auto-estima desmedida e um sentimento de posse exclusivo.
Previno-te que não vai ser pêra doce...perdão, maçã doce aturar um tipo assim, mas é impossível moldá-lo à minha imagem e semelhança porque só consegue usar uma percentagem ínfima do seu cérebro. Ninguém é perfeito e eu, apesar de ser omnisciente e omnipotente, não fujo à regra.
Assim, a escolha é tua. Contudo, ainda estás a tempo de reconsiderar se queres continuar com a Celeste e viver uma vida boa, idílica, repleta de lazer, prazeres inolvidáveis e sobretudo sem dor.
Com este gajo vais passar as passas do Algarve, nomeadamente partos dolorosos e uma catrefada de filhos para criar.
Se julgas que só vais parir o Abel e o Caim, podes tirar o cavalinho da chuva! E vais ter toneladas de roupa para lavar, principalmente, fraldas. Não esqueças que fraldas descartáveis e máquinas de lavar roupa só vão aparecer daqui a muito tempo.
Vais ter, também, de passar uma porrada de roupa a ferro; ter noites perdidas; oferecer paparicos ao pitecóide; subjugares-te aos seus ímpetos carnais sem invocares dores de cabeça e ainda submeteres-te aos seus humores bestialmente variáveis.
Contudo, tranquiliza-te que nem tudo vai ser mau, vais ver! É claro que fará coisas que, pela sua natureza muito peculiar, terás alguma dificuldade em entender, tipo ter fantasias muito porcas; pesquisar na net o tamanho ordinário de um pénis para ver se o seu está dentro dos padrões considerados normais; assoar o nariz, com as mãos, na via pública; coçar os tomates; fazer força, ao mijar, para ver quão comprido e vigoroso é o jacto de urina; peidar-se debaixo dos lençóis, agitá-los e rir-se alarvemente da proeza; regozijar-se com as erecções matinais, et cetera.»
«Parece-me bem; é diferente de tudo aquilo a que estou habituada!» – disse Eva, muito contente e já a pensar em cenas repletas de volúpia com Adão.
«Sendo assim, resta-me impor-te uma condição.»
«Qual?»
«É imperativo que o deixes pensar que tirei uma costela dele e não de ti, senão temos o caldo entornado!...Os homens também têm sentimentos que diabo (o diabo, aqui, ainda era uma figura de retórica, dado que a divisão entre o bem e o mal ainda não tinha sido feita)!
Ah, outra coisa: essa maçã, no teu pescoço, não é tua. Vais ter de a restituir ao Adão.

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PLURAIS E CONJUNTOS

por João Castro e Brito, em 01.10.21

a minha pátria é a língua portuguesa.jpeg

A língua portuguesa foi sempre o meu calcanhar de Aquiles, não obstante ter tirado excelentes notas a aritmética na primeira classe. Todavia, penso, aliás com alguma legitimidade, que quem renova a língua ou melhor, a mantém viva é o povo e não alguns "doutores" que celebram acordos ortográficos à porta fechada.

Vem este pequeno intróito a propósito de nunca ter entendido a lógica de não se poder chamar os bois pelos nomes. Parece que há um certo escrúpulo em fazê-lo e ainda não percebi a razão de tal inibição. Porém, isso será assunto para outro artigo que publicarei mais adiante. Às vezes divago e perco-me que é quase a mesma coisa. Queiram aceitar o meu pedido de desculpas.
Então, vou debruçar-me sobre os plurais e conjuntos de alguns mamíferos, entre os quais nos incluímos, como é natural. Começo pelo chacal: chamar ao plural de chacal, chacais e não poder utilizar o mesmo princípio para o plural de cavalos (cavais), é uma enorme incongruência. Está certo que também pode ser uma forma do verbo cavar e daí? O que não falta na língua portuguesa, são palavras homónimas e ambíguas que podem induzir juízos precipitados nos espíritos menos atentos.
Prosseguindo o raciocínio com que iniciei esta dissertação, também não compreendo por que carga d'água o plural de leão não é leãos ao invés de leões. Logo, o plural de cão devia ser cões e afinal é cães. Pela mesma ordem, o plural de leão até podia ser leães ou leais, porque não? Mas, não! É, incompreensivelmente, leões, ponto final. É uma pena!
Se pensarmos bem, e matutar nisto gera uma confusão mental do caraças, o plural de chacal devia ser chacões, chacães, ou chacalos, mas, uma vez mais, contra toda a lógica, é chacais. Assim sendo, o plural de cão, devia ser cais, cãos, ou mesmo calos, mas não é. Mais uma vez, tenho pena.
Agora, concentremo-nos na noção de conjunto que, na minha modesta opinião, pode ser que facilite a compreensão do texto que - reconheço - é um bocadinho confuso. Ora, toda a gente sabe que um conjunto de porcos é uma vara. Até uma criancinha sabe. Nesse caso, por qual razão é que um conjunto de touros não é uma táurea e é, antes, uma manada? Onde é que foram buscar o raio do termo? Então, um conjunto de camelos devia ser uma camála, não? Mas não é; é uma cáfila, imaginem!
Um conjunto de lobos em fila indiana devia chamar-se uma lupusfila e não uma alcateia. Pelo que um conjunto de cães devia ser um canídelo e, afinal, é uma matilha. Donde se deveria inferir que um conjunto de bestas devia ser uma bestilha, sendo que é uma récua. Ainda, se fosse uma récua-tê vá que não vá!
No que nos diz respeito, pois, como têm lido até agora só me tenho referido aos mamíferos quadrúpedes (não confundir com gente estúpida), deixando-nos para último lugar, as coisas são bastante mais fáceis de compreender. Assim, o plural de homem pode ser homens, gajos, tipos, gandulos, filhos de pai incógnito, filhos da mãe e filhos da outra. Na mesma linha, um conjunto de homens pode ser um grupo, uma manada, uma cáfila, um bando, uma corja, uma cambada, uma maralha, uma quadrilha, um gangue, uma manifestação, uma concentração, uma multidão, et cetera.
Num próximo artigo, voltarei a este tema, mais propriamente sobre botões, colchetes e afins, mas, exclusivamente, a pedido, pois não gosto de escrever para o boneco.

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O DIA EM QUE ESTIVEMOS NUMA BOA

por João Castro e Brito, em 01.10.21

o dia em que estivemos numa boa.jpg

"Decorria o ano de 1877 (ou 1878?).
Eu e o Ivens aguardávamos, impacientes, até com alguma inquietude (passe a redundância), a chegada dos restantes membros da equipa expedicionária.
O briefing, antes da partida, tinha lugar naquele hotel, cujo nome a minha memória se encarregou de apagar.
O nosso objectivo assentava na exploração, para efeitos científicos, de um determinado território da África Central (para mais informação, queiram ter a amabilidade de consultar a Wikipédia, onde vem tudo detalhado).
Havia um mapa. As expedições não se faziam sem a preciosa ajuda das cartas geográficas. Até porque o GPS não passava de um mero projecto, igual a tantos outros que jaziam numa gaveta esquecida. É esta nossa secular tendência pra meter tudo na gaveta, topam?
O que tínhamos era exclusivo porque era nosso (óbvio). Por isso, os ingleses o cobiçavam. Os ingleses cobiçavam tudo; eram uns gananciosos; uns miseráveis que queriam tudo só para eles. Até sonhavam com um caminho-de-ferro a ligar a África do Sul ao Egipto, passando pelo estreito de Magalhães, imagine-se. Por essa e outras razões que não vêm ao caso, tampouco são fruto do acaso, e sabendo que éramos uns frouxos, impuseram-nos um ultimato, em nome da "velha aliança".
Todavia, não é do ultimato que trata esta estória. No entanto, poderei voltar a este tema, unicamente, a pedido, adiante:
Como ia a dizer (neste meio tempo dispersei-me, peço desculpa), era vital traçar os limites do território ultramarino com tinta cor de rosa, sob risco da nossa missão redundar num revés. Lá mais para a frente, se não me esquecer, explicar-vos-ei, tintim por tintim, como resolvemos este impasse.
Ambos, morríamos de tédio e canícula; estavam 45 graus, à sombra do mangueiral, no meio daquele inferno selvagem. Quem se lembra de construir um hotel em plena savana, valha-nos Deus?! Porém, urgia concluir a demarcação antes de levarmos por diante a grande viagem de exploração.
«Este hábito de nos adiantarmos muito à expedição pode ser arriscado» – disse o Ivens.
«É a vontade de entrar em acção, meu caro!» – justifiquei-me.
«Viemos parar ao cu de Judas; mais a mais, entregues à bicharada!» – insistiu ele.
Estávamos nesta toada morna, diria mesmo desinteressante, embora não isenta de alguma preocupação, quando irromperam por ali adentro duas bichas. Silenciosas, enormes, furtivas, sinuosas e, de certo modo, petulantes.
«Olhe, nem de propósito!» – exclamei surpreso e, naturalmente, receoso.
Horas depois, chegaram os restantes elementos. Alguém desconfiou de tanto silêncio para além do normal quando se está num hotel isolado, no meio de nenhures. Gato escaldado...
«Capitão Stanley!» – voz determinada.
«Não somos desses, sua besta!» – murmurei, colocando a tónica na minha habitual animosidade em relação aos britânicos.
«Doutor Livingstone?» – voz hesitante.
«Arre!»
«Ah, já sei! Major Serpa Pinto, certo?
«Até pensei que você ia perguntar, a seguir, se eu era a Rainha Vitória, porra!» – respondi.
«Mas..., onde pára, senhor Major que só escuto a sua voz abafada?»
«Estou numa boa!» – disse-lhe, já, meio assimilado.
«E o Comandante Ivens?»
«Eh pá, esse está na maior!»
Com efeito, a boa que abocanhara Roberto Ivens era de porte superior àquela que tentava digerir-me.
Contudo, mataram as bichonas ainda a tempo de nos livrarem de sermos processados. Abriram-lhes as panças; apararam metade do bigode do Ivens sem querer; completámos o mapa e seguimos viagem.
«O Capelo não quis vir, aquele cagarola!» – disse eu, na tentativa de não relevar esta lamentável peripécia.
«Pelo menos, safou-se de boas!» – reflectiu Ivens com o seu admirável poder de ponderação. Ou ele não tivesse uma enorme capacidade de reflexão (...)"
Post scriptum: Este episódio que, não obstante a falta de tinta, não ficou no tinteiro, é baseado numa estória cheia de acontecimentos fabulosos, titulada "O dia em que estivemos numa boa". Se tiverem interesse em ler a obra completa, pode ser que ainda a encontrem numa estante empoeirada de algum alfarrabista.

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O CONDE

por João Castro e Brito, em 01.10.21

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Estava uma noite de feição para aqueles lados. A bem dizer, estava uma noite fantástica para qualquer lado, mas, para aquele em particular, era como se pairasse por ali uma aura; uma coroa de sons, de luzes e de cheiros. Tudo harmoniosamente misturado.
A ajudar a esta prodigalidade, a luminosidade que saía das janelas, escancaradas de par em par – passe a redundância – , que se derramava, dúlcida, sobre o jardim frontal do esplendoroso palácio das Avencas.
Luxuosos automóveis não paravam de chegar e, à medida que iam estacionando, saíam das suas ostentosas entranhas as mais notáveis figuras da socialite citadina: políticos, generais de várias estrelas, banqueiros, empresários, inclusive um frade que nem parecia monge, pois não trazia hábito (aqui bem se pode dizer que o hábito nem sempre faz o monge), e outras pessoas menos importantes, contudo, importantes.
Todos iam chegando, em poses mil vezes estudadas ao espelho, cumprimentando a Viscondessa com a habitual afectação a que estes acontecimentos dão ensejo.
O Conde ia apreciando, nem sempre resignado, o desfile destas burlescas personagens, segundo a sua perspectiva.
Familiarizara-se com a rotina destes eventos ao longo dos seus últimos seis anos. Até com a voz habitual do mordomo no átrio, em idênticas circunstâncias:
«Doutor Pinto Reboredo e Silva e esposa!».
"Lá vem o corno manso e a rameira!" - pensou o Conde, de si para si, rindo escarninho. O Conde peidava-se enquanto ria. Não conseguia reprimir essa expulsão displicente de gases devido à deglutição de ar durante a alimentação. O Conde não tinha maneiras a comer. Aliás, o Conde não tinha maneiras nenhumas.
«Exm.ª Senhora Dona Constança da Cunha Figueroa Carvalheira Anderson e Barbosa, Marquesa de Chelas!»
"A velha lambisgóia não podia faltar!" - rosnou, novamente, o Conde que andava com vontade de ajustar contas com "aquele estafermo".
«Exm.º Senhor General de 18 estrelas, mais 16 comendas, Epindérico Engomadinho!»
"Já cá faltava o emproado a cheirar a naftalina!" - refilou o Conde, agitado com o barulho irritante dos penduricalhos do generaleco, a chocalhar uns contra os outros.
«Exm.º Senhor Ministro da Economia em Alta!»
"Este diz que a economia cresce e a oposição diz que baixa. Afinal, em que pé ficamos? Em pé de porco de coentrada ou mão de vaca com grão de bico?"
«Exm.º Senhor Doutor Juiz Embargador do Supremo Tribunal do Impedimento!»
"Olha, outro empata! Desta vez deixou o pote da mulher em casa. Também, é preciso ter muita coragem para apresentar um traste daqueles em público!" - mirava o Conde, coçando o escroto com frenesi e esgar de aparente prazer.
Foi mais ou menos por esta altura que surgiu Dona Isabel Maria Rosemberg de Pinto e Sousa, Viscondessa de Valdantas e tudo em redor. Descendo as escadarias lentamente e a coxear, ao deparar com o Conde perto do peristilo, encostado a uma árvore, exclamou:
«Como sempre, Conde! Quantas vezes é que tenho de lhe dizer que o seu lugar não é aqui, hã? Vá já para a sua casota, já, já, já! Não são horas de estar acordado! Ai, o menino! Hum!»
"Este cão... tem umas expressões que até parecem de gente, credo, até me arrepio toda!" - murmurou. 
 
 

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MAIS UMA ACHEGA PARA A HISTÓRIA DE PORTUGAL

por João Castro e Brito, em 01.10.21

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João Ratão 21.01.18

Confesso que, quando escrevi o primeiro artigo sob a epígrafe, nunca pensei que ia ter de retorno tanto élan mediático e tanto carinho para continuar. Simultaneamente, também senti o apelo sagrado dos nossos heróicos antepassados e a pressão expectante dos que hão-de vir depois de mim e, só assim, tive a percepção extra-sensorial de que tenho o dever de prosseguir na valorização da nossa História que anda tão arredada do conhecimento geral. Para além do mais, é reconfortante pensar que passo, mas o meu legado permanecerá perene, "per saecula" (segundo o tradutor do Google que eu de latim pesco zero).
Depois de tudo isto - e não é pouco - cada vez que me olho ao espelho, vejo reflectida a imagem de um gajo feliz porque tem a perfeita noção de que está a prestar um enorme serviço à folha, analisando e dissecando os factos mais significativos cá do burgo.
A seguir a este intróito, facilmente digerível, prossigamos, então, na demanda do saber da História Pátria.
Debrocemo-nos só um bocadinho (sem exagero) sobre a primeira dinastia, nomeadamente acerca de Dom Sancho I que, como sabem, era filho do primeiro rei de Portugal: Que espécie de garanhão teria sido, para merecer o cognome de "O povoador"? E o que seria de Portugal sem o seu - digamos - contributo?
É fácil de pressupor que seríamos um país deserto, com meia dúzia de mouros convertidos ou, pelo menos, envergonhados, e alguns cristãozitos novos espalhados por esta bestial imensidão territorial que o Afonso Henriques nos legou. Sim porque nos primórdios da nacionalidade já a Santa Inquisição fazia das suas para garantir uma fé católica com um elevado nível de qualidade, perseguindo, torturando e matando malta das minorias étnicas a torto e a direito, nomeadamente mouros e judeus. Era ver os malvados católicos, uns espertalhaços do caraças, a incitar à violência contra as mourarias e judiarias. É indescritível porque era uma carnificina pegada. Palavra, juro que isto não é ficção!
Ninguém escapava às malhas do Santo Ofício. Aliás, a bula emitida pelo Papa Alexandre III, a 23 de Maio de mil cento e qualquer coisa (é consultar a História da Vida Privada em Portugal, do Professor José Mattoso), que declarou o Condado Portucalense independente do Reino de Leão, reconhecendo o tratado de Samora Correia (não confundir com Samora Machel, cujo foral só lhe seria atribuído, séculos mais tarde), só teve efeito retroactivo quando Afonso Henriques se comprometeu, sob a honra de sua mulher, Dona Matilde condessa de Sabóia e Maurienne, a expulsar os jihadistas islâmicos do reino de Portugal (o dos Algarves ficaria para mais tarde) e a converter os gentios à fé cristã, a bem ou a toque de caixa. Mas regressemos a Dom Sancho I; divaguei novamente, peço desculpa.
Pacientemente, Sancho (não confundir com o Pança que só viria a nascer uns séculos mais tarde) andou por aqui e por acolá a povoar feito um obstinado, a encher ventres de Sanchinhos e Sanchinhas, dando desse sacrifício um exemplo de abnegação aos assépticos e escassos habitantes da novel nação.
Consequentemente, só bastante mais tarde é que Carlos I teria sido alvo de regicídio e, por conseguinte, seria implantada a república que teve em Aníbal Cavaco Silva o expoente máximo do seu esplendor (da república, evidentemente).
Muito tempo depois ou talvez antes, quem sabe, Thomas Edison substituía os candeeiros a petróleo da sua casa por lâmpadas eléctricas o que foi considerado, na época, uma inovação muito engenhosa.
Seria imperdoável omitir, aqui, o papel predominante e igualmente inovador do nosso rei Dom Dinis que, mais ou menos na mesma ocasião, mandou plantar o pinhal da Azambuja, conseguindo com essa ideia megalómana, mas deveras avançada para a altura, deter as areias movediças da Ericeira que ameaçavam soterrar o planalto de Santarém.
Dinis era um tipo muito cultivado e um excelente trovador, como é consabido; está escrito. Porém a sua grande paixão foi sempre a agricultura. Para o rei lavrador, amanhar a terra era trigo limpo e favas contadas e, contra isso, batatas. A talhe de foice, convém recordar que foi ele que inventou um analgésico (não confundir com medicamento para as hemorróidas) à base de essência de batatas, dado que o Paracetamol - passe a publicidade - só seria comercializado séculos mais tarde.
Os contemporâneos do rei, diziam que era uma pessoa muito à frente, porém muito simples e muito querida do povo. Todavia não acreditava em milagres. Míope como era, não via com bons olhos as acções caritativas de sua esposa, Dona Isabel de Herédia, mais tarde morta e muito mais tarde santa.
Vale a pena recordar, um tanto, aquele milagre que ficou para a História, lembram-se? A cena em que o rei interpelou a rainha, querendo saber o que é que ela trazia escondido no regaço e Dona Isabel, naturalmente atrapalhadíssima, teria respondido que eram "pepinos, meu senhor!" e, deixando cair o regaço - salvo seja - logo se soltaram doze lindas pombinhas brancas que esvoaçaram graciosamente até às cabecinhas dos pobrezinhos que a ladeavam e que, instantaneamente, se transformaram em "burritos" de peitinhos de pomba. Milagre puxa milagre, sabem o que é? O resto já tinham obrigação de saber...
Depois deste episódio singular e muito comovente, e vencido o rei, embora não convencido, lá teve que dar a mão à palmatória, lançando as raízes da provedoria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, nomeando para o efeito uma personagem enigmática, mas - dizia-se - com vastos pergaminhos nesse domínio, um plebeu sem brilho chamado Pedro Santana Loló. Parece ter sido uma decisão leviana do rei, mas, enfim, era lá com ele, o homem era soberano.
Entretanto devem ter havido montes de batalhas com os mouros, conflitos de interesses com os castelhanos e demais chatices. Porém, se quiserem aprofundar os vossos conhecimentos acerca deste e de outros episódios marcantes, sugiro que consultem também o Compêndio de História Medieval do Professor Mattoso.
Apesar de tudo, é de primordial importância esmiuçar os meandros, reflectir sobre os factos, meditar, por exemplo, sobre a sucessão dos reis desta dinastia tão decisiva para a independência nacional.
Voltando a Dom Dinis, suponhamos, só a título de curiosidade, que o rei já lavrava muito antes de Afonso conquistar Lisboa ao Estado Islâmico ou que Fernando poderia ser gordo, sendo um gajo formoso, ou que Afonso II, sendo gordo, poderia ser povoador ou mesmo Pedro I que, apesar de cruel, poderia ser gordo, borgonhês, povoador ou lavrador.
Suponhamos, ainda, que Teresa de Leão, uma aleivosa do piorio, com a qual seu filho, Afonso Henriques, não ia à bola, dobrava o Cabo das Tormentas, casando-se depois em segundas núpcias com o "doutor" Caçoleta Apara Relvas. Teríamos a primeira dinastia toda desordenada e não surgiria, possivelmente, esse período que foi, talvez, o mais belo da nossa História e que mereceu o nome de Interregno. Dá para reflectir um pouco, vá lá, puxem pelas cabeças!
E pronto; depois de mais esta achega, prometo que, brevemente, tentarei demonstrar como os portugueses, dispostos em dodecaedro regular, derrotaram os fenícios em Alcoentre, graças a um incontestável (não confundir com Condestável) entusiasta dos jogos de estratégia, Dom Nuno Álvares da Câmara Pereira. Séculos após essa famosa batalha épica, reinventou-se uma nova e próspera nação que culminou no milagre económico actual, tão elogiado por um ministro teutão que, quiçá, num momento de epifania, imaginou ver Mário Centeno na pele do CR7. Vai daí que o 'nomeou' ponta de lança da selecção europeia; não é bestial?! Esperemos que se porte na ponta da unha e não desate a dizer que alguns colegas estoiram a massa em noitadas, putas e vinho verde...
Finalmente, e contrariamente ao que se esperava, o país está porreiro porque alguém, num acaso oportuno e feliz de profunda inspiração, apelidou esta maravilhosa reinvenção de "geringonça". Assim, o alento me ilumine, também, as ideias...

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OS BENEFÍCIOS DA DESABITUAÇÃO

por João Castro e Brito, em 01.10.21

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Há quem diga que a necessidade aguça o engenho ou algo parecido, mas imaginemos em tese que, deixando de haver a necessidade, também se pode dispensar o engenho e passo a desenvolver o meu raciocínio para defender algo que tenho andado a cogitar há algum tempo. É um contributo pessoal, sem fins lucrativos, na procura de formas de tentar minorar os efeitos das malfadadas crises que têm contribuído para o nosso atraso secular. Diz o povo, e convém não lhe desdenhar a sabedoria, que as crises são devidas à má qualidade dos nossos governantes - actuais e ancestrais. Para ajudar à festa, ainda levamos com as crises alheias e outras imponderáveis; é injusto e há que procurar um remédio para isto; uma coisa assim a modos que radical.
Ora, recorrendo a uma máxima popular, "não há tabaco, não há vício", o mesmo se poderia dizer em relação a outros como, por exemplo, o vício do álcool. Presumo que, desaparecendo o vinho e as restantes bebidas alcoólicas, desapareciam os alcoólicos anónimos, pois não haveria razão para existirem.
Aliviados das despesas supérfluas do tabaco e do álcool, o ordenado mínimo já chegava para melhorar o rancho; pelo menos uma vez por mês. Bebia-se água da torneira nos restantes dias, não obstante as toneladas de cloro que lhe botam. Livres destes, passaríamos a combater o vício de comer carne. No primeiro mês íamos estranhar, mas, depois de feito o desmame, carne para que te quero! - Como é comum dizer-se.
Frases tipo "ainda me lembro do tempo em que comia entrecosto" ou "era um consumidor inveterado de lombinhos de vitela com cogumelos", teriam o mesmo sentido nostálgico de outras como, por exemplo, "ainda sou do tempo em que o feijão careto era a dez tostões o litro".
Perdido este hábito, penso que todos veríamos a nossa situação económica melhorada e a aproximar-se a passos largos dos padrões de qualidade de vida dos países mais desenvolvidos da Europa e, quiçá, do mundo.
Seria, então, a altura mais apropriada para atacar outra pecha muito nossa de comer peixe. Ou não fossemos um país virado para o mar, nomeadamente para a importação de pescada do Chile e peixe gato. Teria de haver aqui outro desmame. Digamos que no primeiro ano poderia comer-se peixe com a frequência com que se come, na generalidade, corvina ao sal ou Linguado au Meunier.
Sem gastarmos um cêntimo no tabaco, no álcool, na carne e no peixe, estou convicto de que este seria um ponto de viragem histórico. Finalmente, após dezenas de anos (para não falar em centenas que é muito chato), seríamos capazes de equilibrar a balança de pagamentos a nosso favor.
Mas teríamos de abandonar outros hábitos estúpidos como, por exemplo, o vício da pedinchice; é tão feio! Era reabilitar a velha Mitra, mandar para lá os pedintes de rua a pão e água, vadiagem! - é evidente que os turistas estrangeiros não apreciam bilhetes-postais destes, por amor da santa!
Acabava-se, também, com os transportes públicos e, por consequência, com os passes sociais para velhinhos reformados que só sabem andar de cu tremido. É consabido que andar a pé faz bem às coronárias e, enfim, juntar-se-ia o útil ao agradável, pois evitaria mais uma despesa supérflua. Concretizada esta desabituação, passaríamos a combater outros hábitos muito enraizados na nossa tradição alimentar, tais como os lacticínios. Acabar-se-ia com a criação de gado leiteiro e, consequentemente, com a produção de leite e seus derivados. Assim, os açorianos, por exemplo, já podiam dedicar-se à pesca a tempo inteiro porque mar não lhes falta. Além de que o cheiro intenso a chichi e cocó de montes de vacas a deambular nas estradas é insuportável!
Saindo um pouco deste âmbito, entraria no universo daquilo que usamos para nos vestirmos. Far-se-iam, primeiro, testes às pessoas no sentido de avaliar a sua resistência física aos elementos. Sabe-se que os nórdicos, e mais acima os esquimós, desenvolveram capacidades de resistência extraordinárias. Testemunhamos exemplos disso quando nos visitam no Inverno. É vê-los a passear de "slips" nas ruas enquanto nós andamos super-agasalhados e mesmo assim a tiritar de frio. Portanto, parafraseando uma afirmação de um conhecido banqueiro português, após uma questão levantada por um repórter sueco: "Se vocês aguentam o frio, os portugueses não aguentam porquê? Ora, essa! Ai, não que não aguentam!"
Penso que, com um bocadinho de força de vontade, também podemos reduzir drasticamente o uso da roupa.
Ora, devido às economias proporcionadas por mais esta desabituação, não tenho dúvidas (e raramente me engano) que o nosso nível de vida subiria em flecha e poder-nos-ia colocar quase no topo dos países com maior poder de compra e, por consequência, com melhor qualidade de vida.
Outro vício como o hábito de morar dentro de casa perder-se-ia facilmente através de incentivos à banca, no sentido de dificultar, ainda mais, o crédito à habitação. Aliás, isso já vem acontecendo nos dias actuais: a banca já só empresta a quem tiver dinheiro para a comprar a pronto, por muito paradoxal que nos pareça.
Outro paradigma deste enorme esforço da banca para que se perca mais um hábito inútil, é o concernente ao crédito mal parado. Há, novamente, famílias que não conseguem pagar as prestações das casas e isso representa uma grande aposta nos benefícios da desabituação. Há que estimular campanhas com o objectivo de mentalizar as pessoas para o ar livre. Viver do ar é natural e saudável. Há muita gente que vive do ar e não tenho conhecimento de que tivesse morrido... até à data.
É tudo uma questão de força de vontade. Se as pessoas colaborarem, os salários e as pensões chegam para todos e isso colocar-nos-á no topo dos países mais desenvolvidos do mundo. Vamos torcer pela desabituação total! Bora lá?

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A INSÓNIA

por João Castro e Brito, em 01.10.21

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"Quem nunca teve uma ou outra insoniazinha, faça o favor de atirar a primeira pedra, mas, primeiro, certifique-se de que não tem telhados de vidro"

(Alfred Hitchcock - why not?)

Comecemos, então, pela sua definição: A insónia é, etimologicamente, o oposto de Sónia, como já devem ter adivinhado. Para quem não tiver tal condão (o dedo mindinho também serve), eu explico:
Sempre que a Sónia diz que está com dores de cabeça, a coisa pode complicar-se e redundar em insónia. Porém, isto não se aplica ao oposto de Paula: impaula, o qual não faz qualquer sentido (não confundir com impala, pois, neste caso, é um caso sério).
Sob o ponto de vista médico (consultar Dicionário Básico da Língua Portuguesa de Manuel Gervásio da Silva), insónia é um termo que engloba as várias perturbações do sono, entre as quais se destaca a dificuldade em dormir. É claro que não se pode estabelecer qualquer termo de comparação com sonoplastia, pois, aqui, trata-se de uma operação plástica realizada durante a apneia do sono.
Também não devemos confundir insónia com sonambulismo nem com funambulismo: hábitos e artes que tornam algumas pessoas muito activas durante o sono e outras equilibristas, preferencialmente durante o dia, respectivamente.
Perturbações do sono podem ser, por exemplo, não adormecer; não acordar; adormecer e acordar no Paraíso rodeado de anjinhos ou, na pior das hipóteses, adormecer e acordar no Inferno a suar as estopinhas com um gajo chifrudo ao lado.
Também se pode adormecer e acordar a meio da noite à rasca para mijar ou adormecer na nossa cama e acordar na cama da Natércia, a vizinha do lado, cujo marido é embarcadiço; adormecer e acordar depois de passar trinta anos em coma profundo; adormecer em Lisboa e acordar em Shangri-La com menos um rim ou um pulmão, et cetera.
Há casos, devidamente assinalados, de pessoas que não conseguem adormecer sem um ursinho de peluche ou sem dar, pelo menos, três sem tirar.
Li, algures, que um estudo (os famosos estudos, topam?) efectuado por um grupo de cientistas americanos (sempre os mesmos, cagandas malucos!) provou que praticamente cem por cento deles sofria de insónias.
As causas eram as mais variadas e o estudo causou muitas dores de cabeça aos estudiosos, para além das insónias. Presumo que deve ter sido bestialmente doloroso.
Este estudo não foi conclusivo, e ainda bem - digo eu - porque estes estudos estrangeiros não servem de exemplo seja para o que for. É mais aquela nossa mania pacóvia de pensar que os estudos estrangeiros são melhores do que os nossos; que merda de auto-estima!
Mesmo assim, parece mais que provado, embora não hajam provas - passe a contradição - , que a insónia é um fenómeno global.
O modo de combater a insónia diverge um pouco de país para país, mas tomemos como exemplo, talvez, a forma mais universal de lutar contra este flagelo:
Um indivíduo de meia idade, sei lá, para aí setentas e tais (contando com o aumento da esperança média de vida) que costuma ir deitar-se por volta das cinco da matina e não consegue dormir até às sete, hora a que toca, habitualmente, o despertador para ir trabalhar (contando com o aumento da idade da reforma para os oitenta). O sujeito experimenta tudo o que vem no manual anti-insónia: contar carneiros (um clássico); escutar a emissão nocturna da RR em ondas médias; ler e reler um qualquer romance do José Rodrigues dos Santos, omitindo todos os substantivos próprios, advérbios de modo e de lugar e experimentando, depois, ler a obra do fim para o início. Se, mesmo assim, não conseguir cerrar os olhos, um serrote pode surtir algum efeito, embora não seja garantido.
Em jeito de conclusão (já não sei o que hei-de escrever mais, para fechar isto com chave de bronze, pelo menos), penso que o melhor remédio para combater a insónia é deixarmos de pensar na liquidez da conta-corrente quando vamos para a cama.
Olhem, experimentem dar uma boa queca (normalmente são precisas duas pessoas adultas, independentemente do género) até caírem para o lado. Na impossibilidade de obter parceria no acto, tentem outras formas lúdicas, igualmente satisfatórias que vos levem a um estado de relaxamento e sonolência. Por exemplo, calcular quantas telhas existem no telhado da casa, ou edifício onde residem, fixando os olhos num determinado ponto do tecto, sem os desviar um milímetro.
Durmam bem e, parafraseando alguém muito querido que já não está entre nós: "Façam o favor de ser felizes!"

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O TEMPO

por João Castro e Brito, em 01.10.21

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É provável, embora não descarte a possibilidade de ser inverosímil, que algumas pessoas, que habitualmente se preocupam com o tempo, já tenham participado, de alguma forma, em debates sobre o tema. Particularmente, devido à importância que tem no seu quotidiano, seja a contar o tempo ou fazer tempo que não são bem a mesma coisa. Algo impensável em tempo que não dista muito do tempo actual. Esta discorrência é, exclusivamente, para essas pessoas.

Normalmente, recorre-se ao tempo quando não ocorre mais nada para dizer ou quando falta dizer tudo a seu tempo, senão quando falta dizer qualquer coisa.
Outros casos há em que não se conhece o interlocutor de nenhum lado ou, pelo contrário, presume-se que se conhece bestialmente bem, só porque a cara é familiar. Para não dizer daqueles casos em que se conhece de ginjeira, apesar de ficar a dúvida sobre se o fulano ou a beltrana é de ginjeira ou do Ginjal.
Como já se devem ter apercebido, este último parágrafo nada tem a ver com o tempo, mas, de tempos a tempos, divago, desculpem.
Pela experiência que tenho destes tópicos de discussão, acho que apenas zero vírgula um por cento das pessoas considera o tempo como um assunto interessante, já que a generalidade o considera uma perda de tempo. Contudo, penso, embora sem certeza, que uma percentagem significativa de pessoas prefere mencionar o tempo que faz ou fez no próprio dia, enquanto outras preferem falar sobre o tempo que fez durante a semana, seguidas das que escolhem o tempo que fez no último mês como tema de conversa e das que preferem resumir o estado do tempo que fez durante o último ano. Ainda assim, há algumas que estão sempre a queixar-se de que não lhes sobra tempo para nada e eu pergunto: para que precisam de tempo para nada?
Finalmente, há uma percentagem ínfima de pessoas que prefere padronizar o quinquénio, o decénio ou até o último século.
Sublinho que estas suposições não passam de teses, não obstante a experiência pessoal; nunca é demais referir. Por conseguinte são pouco fiáveis do ponto de vista sociológico e até temporal, digamos assim. Todavia, isto é só para matar o tempo, como, certamente, já presumiram.
Se calhasse perguntar a uma pessoa muito idosa o que pensava sobre o tempo, provavelmente debruçar-se-ia sobre o tempo da outra senhora, quiçá, a Dona Urraca ou o Dom Fuas Roupinho. Ou, se calhar, referir-se-ia à intemporalidade de Frei Luís de Sousa, por exemplo. Porém, devo enfatizar que posso estar a incorrer num enorme equívoco temporal. Fica aqui a ressalva.
Sobre a exploração semântica do tempo, da sua interinidade e das transformações morfológicas associadas, desculpem lá, mas não me debruço porque, no meu fraco entendimento, é uma coisa sem pés nem cabeça. Até porque hoje é daqueles dias em que não há tempo para mais e além do mais, "time is money", como dizia aquele inglês muito fleumático, além de parvo e absurdamente materialista.
E, em jeito de conclusão - peço, desde já, muita desculpa pela escassez do tempo - , quem não tem uma relação afectiva com o tempo, atire a primeira pedra!
O tempo tem um valor sentimental inestimável para mim, pois adoro dizer frases feitas como: "No meu tempo o carapau era a vinte e cinco tostões o quilo"; "no meu tempo é que era bom" ou "no meu tempo havia mais respeitinho", et cetera.
Todavia, também tem dias em que me zango com o tempo. É assim a modos como uma relação amor-ódio, estão a ver a coisa?
Quantas vezes já vos aconteceu sair com o guarda-chuva e não chover? Dá ou não dá uma raiva do caraças?! O contrário também é válido, ou seja: de certeza que já vos aconteceu sair sem o guarda-chuva e desatar a chover; são situações recorrentes, de tal modo que se tornaram triviais no dia a dia das pessoas, independentemente da altura do ano, pois são daquelas incoerências do tempo que, às vezes, nos irritam sobremaneira, sobretudo quando não há tempo para aturar as excentricidades do tempo.
Também há por cá muitos meninos e meninas que só se lembram do tempo quando faz trovoada; é vê-los a rezar a Santa Bárbara, quais convertidos de última hora.
Estas coisas têm de ser feitas a tempo e horas e, além disso, é preciso dar tempo ao tempo, amadurecer as convicções, as ideias. Não se convertem descrentes em dois tempos!
Porém, acredito piamente que nós, de um modo geral, temos uma vocação oculta. Isto porque invocamos muitas vezes São Pedro como culpado número um do estado do tempo, exigindo, até, a sua substituição por uma pessoa mais nova e, naturalmente, mais competente para ocupar um cargo de grande responsabilidade como o que desempenha desde há milénios. Pudera! O homem regula o tempo desde a noite dos tempos e, ademais, acumula a função de porteiro do Céu, talvez, desde tempos imemoriais. Ora, isto já é muita responsabilidade, junta, para um ancião fora do tempo!
No fundo - parafraseando Chico Buarque no seu Fado Tropical - todos nós herdámos no sangue lusitano uma boa dose de previsão do tempo..."além da sífilis, claro"

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