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COISAS DO ARCO-DA-VELHA

por João Brito, em 19.10.21

coisas do arco-da-velha.png

É uma expressão popular que, porventura, as gerações mais novas desconhecem. Isto porque caiu, naturalmente, em desuso. E digo "naturalmente" com muita convicção, dado que, como diz o Poeta, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".

"No meu tempo", aquele longínquo tempo em que o feijão era a cinco tostões o litro, era comum dizer-se esta frase quando alguém ficava de boca-aberta (ou cara à banda) com algo insólito ou com um acontecimento imprevisto.
Penso que as "coisas do arco-da-velha", também têm alguma relação com o "tempo em que o feijão era a cinco tostões o litro". Ambas fazem referência a um passado remoto que a época em que vivemos pretende apagar da memória colectiva. Porém, aceitável porque, entretanto, foram substituídas por expressões mais consentâneas com estes tempos.
É claro que algumas coisas, inexplicáveis à luz da razão, passaram a ser invenções ou histórias da carochinha; petas de raiz popular em que muita gente ainda acredita piamente, por via da sua iliteracia e, por consequência, temor ao desconhecido. Contudo, digo-o sempre com alguma reserva porque, por estranho que pareça, também sou muito temeroso. Contudo, isto dava outra estória...
As línguas dos povos também vão assimilando novos modos de comunicar; alguns são importados, mas isso é uma mais valia e também um resultado da globalização.
Afinal, são as comunidades linguísticas que fazem com que as línguas permaneçam vivas, e em constante mudança, e não os acordos ortográficos obscuros.
A nossa, com a passagem de povos oriundos de outros continentes desde tempos imemoriais, até antes da fundação da nacionalidade, está bem viva e recomenda-se. Actualmente, é o produto de uma sociedade multicultural. Por conseguinte, mantém-se sempre aberta a novas introduções de hábitos e costumes, mormente de origem oculta, mas nem por isso menos essenciais para o enriquecimento dos nossos léxico linguístico e modus vivendi.
Mas, voltando ao "meu tempo", ainda se conseguem ouvir da boca de algumas pessoas, particularmente de idade avançada, frases do tipo: "no meu tempo o respeitinho era muito bonito" e outras frases mais ou menos idênticas. Todavia, como disse, têm caído inevitavelmente em desuso. Algumas foram substituídas e outras assumiram uma nova importância.
Concentremo-nos no "arco-da-velha" e nas várias interpretações em torno do seu significado:
Por volta do século XIX, esta expressão - com carga bíblica - servia para simbolizar o arco-íris. Uma de várias explicações teria a ver com a "arca de Noé" e o "dilúvio" ou seja: após a "inundação universal", consta que Deus fez o arco-íris para celebrar um pacto com o Homem: uma espécie de tratado de não agressão celebrado com Noé.
Uma das cláusulas referia que o Criador não voltaria a enviar outra grande enxurrada tão devastadora como aquela que todos conhecem dos textos sagrados. No entanto, parece que Noé não leu aquilo até ao fim, por preguiça ou falta de visão, e assinou o documento às cegas. Não leu, sobretudo, nas entrelinhas. Mais a mais, naquele tempo, ainda não tinham inventado os óculos para ler ao perto e a malta limitava-se a passar os olhos pela papelada, o que era muito chato para o contraente, como é fácil de intuir.
Outra explicação para isto, teria sido a suposição generalizada de que Noé não sabia ler nem escrever, o que, até hoje, tem permanecido um mistério.
Assim, o resultado dessa confiança excessiva em Deus está à vista: dilúvios, furacões, tornados, maremotos, terramotos, erupções vulcânicas, vírus e outras catástrofes tramadas são coisas que não têm faltado por esse mundo fora; e são cada vez mais devastadoras. É claro que se debatesse isto com uma pessoa religiosa, essa pessoa iria certamente contrapor com aquele aforismo que nunca cheguei a compreender: "Deus escreve direito por linhas tortas". Parece que tem várias interpretações, entre as quais destaco uma que pretende dar a entender que as pessoas que mais sofrem na vida, sobretudo as crentes e boas (não confundir com quentes e boas), é que conseguem realizar-se ou ter um lugarzinho no Céu e por isso, a história de Noé também pode simbolizar a esperança na sua salvação.
Continuando:
A palavra "velha" representaria, então, a velha aliança entre Deus e o Homem que, afinal, o Criador tem vindo a violar sistematicamente.
Fora do contexto, até tem alguma similitude, respeitando as devidas distâncias, com a "velha aliança" celebrada entre os reinos de Portugal e Inglaterra, conhecida como "Tratado Anglo-Português de 1373", no qual os "bifes" impingiram a Dom João I, Filipa de Lencastre que, além de ser muito alta e muito feia, sofria de bicos de papagaio. Em troca, a gente enviava para os gajos vinho do Porto e pura lã virgem.
Outra explicação para a frase "arco-da-velha", esta de origem duvidosa, teria a ver com o facto de as pessoas antigas, muito antes de Benjamin Franklin ter inventado a electricidade (ressalvo que, em Portugal, esse hábito prolongou-se durante séculos após a invenção desta forma de energia), terem o hábito de salgar os presuntos dentro de arcas com sal e, por conseguinte, em vez de "arco-da-velha", seria "arca da velha" (vulgo salgadeira da minha sogra). Ainda assim, isto não é incontestável. Penso, até, que se pode contrariar à vontade porque o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira e ele há coisas, mesmo, do arco-da-velha!
Já, agora, uma nota final ou uma curiosidade em jeito de nota final: O arco-íris também é conhecido como Arca da Aliança que era um tabernáculo onde os judeus guardavam o vinho. Tabernáculo, estão a ver? Está de caras! Não? Eu também não disse que sabia muito de História Sagrada, n'é?
Prometo que nunca mais publico histórias do arco-da-velha, eu seja ceguinho!

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A GUERRA DAS LETRAS

por João Brito, em 19.10.21

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Uma estória baseada na obra homónima de H. G. Bells, escritor britânico, publicada em mil oitocentos e qualquer coisa. Ver Wikipédia:
As coisas iam de mal a pior no mundo das letras. Vivia-se uma espécie de paz podre. Havia muita corrupção, ganância, incompetência, intrigas, guerrinhas por dá cá aquela palha, os processos judiciais arrastavam-se ad aeternum, alguns prescreviam, culpavam-se estas, culpavam-se aqueloutras, havia a informação, a contra-informação, a desinformação, enfim, o costume numa sociedade onde as letras não se entendiam. Isto, apesar dos esforços de mediação de algumas letras maiúsculas preocupadas com a situação.
Um dia, a letra erre, na tentativa hegemónica de se assenhorear do mundo das letras, decidiu atacar as palavras sem aviso prévio. O mundo das letras foi tomado de surpresa porquanto não estava à espera de um ataque tão frontal, tão rápido e devastador. Palavras como caraças, farófia, caramelo, paragem, parir, entre outras, passaram a escrever-se carraças, farrófia, carramelo, parragem, parrir, et ceterra.
Porr outrro lado, surrgirram palavrras novas como, porr exemplo, porada, pora, guera, marar e outrras mais.
A letrra erre decidirra atacarr as palavrras forrte e feio e não havia forrma de parrar esta ofensiva.
Orra, toda esta situação estava a torrnar o mundo das letrras num autêntico baril de pólvorra, como erra esperrado e temia-se que este ataque gerrasse uma guera de prroporrções inimagináveis.
Eis que, num dia qualquerr, cuja data já não sei prrecisarr em concrreto, a letrra xis lançou um contrra-ataque brrutal, dirrei mexmo, avaxaladorr. De tal modo que palavrrax como chiça, ou acesso, paxarram a escrreverr-xe xixa e axexo. Currioxamente, um xenerral de trrêx extrrelax dax forrxax da coligaxão até comentou: «Ah, querrem porada? Poix vão tê-la, pora, vão lá marar com outrrax! Têm muita farrófia, max a gente tirra ax maniax a exas carramelax, ai tirra tirra!»
A letga guê, que não ega tida nem achada nexte conto contugbado, acabou envolvida nexta luta xem xentido, e foi uma gande confuxão.
A guega xenegalixou-xe e em bgeve tognous-xe impoxível xabegue quaix egam ax letgax aliadax e ax letgax inimigax e, paga ajudague à fexta, foi o cabo dax togmentax pga tegminague exta extóguia. Exa é que é exa!

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Estava aqui a pensar com os meus botões acerca de um tema que me parece ser de primordial importância para todos os portugueses e portuguesas, pois penso que não é todos os dias que um assunto desta natureza é abordado ou, pelo menos, não se aborda a torto e a direito como se abordam outras coisas de menor importância. Presumiram, e bem, que se trata da bússola, um instrumento que "contém uma agulha magnética montada sobre um eixo vertical, em torno do qual gira, indicando aproximadamente a direcção norte-sul", segundo qualquer dicionário minimamente bonzinho.

Ora, como toda a gente sabe, a bússola é uma ferramenta indispensável para todos nós. Eu, por exemplo, tenho uma e garanto que não a trocaria por um Tom Tom qualquer (passe a publicidade)!
Pensa-se que foram os chineses que a inventaram. Sempre à frente, estes bacanos! Como se não lhes bastasse terem inventado a pólvora, o papel, o clepe chinês (obviamente), o sorriso amarelo, o Mexia e, há quase dois anos, um "novo coronavírus", ainda tiveram o atrevimento de inventar a bússola.
Recordemos, pois, como eles criaram este aparelhinho que cabe na palma da mão de uma pessoa adulta e pode ser utilizado na A1 ou A2, dependendo da direcção que quisermos tomar e em alternativa ao GPS:
Estava um chinês a desmontar um relógio quando, por esquecimento de tomar nota dos pormenores da desmontagem, não teve competência para repor a engrenagem nos seus lugares. As únicas peças que conseguiu montar foram um ponteiro e o vidro que protege a caixa.
De repente, ficou com os olhos em bico que, para um chinês, não era normal, por muito paradoxal que nos pareça. E porquê? - perguntam vocês com toda a legitimidade. Porque o ponteiro apontava teimosamente para o norte. O chinês ainda andou ali às voltas até ficar tonto, mas o obstinado ponteiro não saía do Norte.
Nunca se chegou a saber o nome deste inventor porque nesta altura ainda não havia registo de patentes, mas uma coisa é certa: a bússola acabara de ser, empiricamente, inventada.
Descrever a bússola não é uma empreitada fácil, não obstante a sua aparência singela e até algo frágil. Se é evidente que o ponteiro (ou agulha) indica sempre o Norte, não é menos claro que, chegados ao Norte, ela continua a apontar para esse ponto cardeal o que deixa qualquer pessoa, naturalmente, desnorteada.
Hoje em dia, a bússola mais utilizada continua a ser a bússola electromagnética.
Supostamente, foi o italiano Flavio Nicolini Gigolo que, em 1136 DC, completou a primeira bússola electromagnética, introduzindo-lhe (parece que, também neste caso, sem qualquer método) uma inovação tecnológica: a Rosa dos ventos, assim chamada, presume-se, em homenagem a uma mulher que se chamava Rosa e que fazia pés-de-vento por tudo e por nada. Não se encontra outra explicação plausível. Dália das Tempestades, Hortênsia das Trovoadas, Azaleia dos Nevoeiros e Camélia dos Furacões, teriam sido outros nomes possíveis, dependendo do número de mulheres que trabalhavam para Gigolo na altura.
A talhe de foice, devo referir que os nossos valentes descobridores também souberam dar bom uso à bússola do italiano. Rumaram, "por mares nunca dantes navegados", em direcção ao Norte e, milagrosamente, descobriram o Brasil que, como é consabido fica a Sul. Foi mais um descobrimento empírico que não correu lá muito bem, mas, graças a Deus, chegaram sãos e salvos.
Mesmo sem a ajuda da bússola, ela é sempre recordada nos momentos mais importantes da história da humanidade e está presente nos nossos corações. Todos temos patente no espírito que sem a sua presença ficamos à rasca, pois faz-nos muita falta.
Graças a ela, os quatro Reis Magos, que faziam parte do Quarteto Magnífico, conseguiram dar com a cabana onde nasceu o Jorge Jesus... perdão, o Menino Jesus.
Todavia, houve um que seguiu uma estrela errante e nunca mais foi visto. Com efeito, os Reis Magos foram quatro e não três, como erradamente nos têm impingido ao longo dos últimos dois mil anos...

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No âmbito de um, cada vez mais, necessário debate nacional que se pretende que seja isento de arremessos de partidarite aguda e outras discussões chatas de carácter ideológico, sinto-me no dever moral, e até patriótico, de manifestar perante vós uma opinião que sempre foi a minha e creio que absolutamente válida e apropriada dentro do contexto abetesgado em que nos inserimos por força da condição do momento presente ou conjuntura, conforme vos aprouver.

Haverá, porventura, por hipótese ou até mesmo por acaso, quem afirme convictamente o contrário só porque sim.
Porém, não nos deixemos enganar por manobras de diversão lançadas por agentes a soldo de interesses indizíveis que, contrariando os verdadeiros sentimentos do povo português, apenas pretendem criar a confusão e adiar a consecução de uma política verdadeira e exclusivamente empenhada e, não raro, endividada (passe a redundância), no bem comum que é o que nos interessa, pois, caso contrário, a coisa pode nem dar para o petróleo.
É com isso q'a gente conta, na esperança renovada no dia de amanhã porque o de hoje termina daqui a umas horitas, mais minuto menos minuto.
Afirmemos, pois, bem alto e a pés juntos, sem receio da verdade nua e crua, que jamais nos deixaremos fraudar com quimeras demagógicas que alguns nos acenam e cuja irresponsabilidade nos pode conduzir, por certo, sabe-se lá para onde, mas, certamente para muito longe; quiçá, para os confins da via láctea.
É normal em democracia que assim seja, já que a história nos julgará pelos pecados do passado e o futuro, não obstante incerto, dirá quem tem razão, mesmo que tenhamos de travar-nos de razões.
É assim que penso e não podia calar por mais tempo tal pensamento sob perigo de ficar de mal com a minha consciência que, já de si, pesa c'mo caraças!
Assim, a plenos pulmões, por enquanto limpos do desgraçado vírus, mas sujos de outras merdas, apelo à vossa condescendência, no sentido de minorar a minha aflição, neste momento particularmente difícil para a vida da Nação.
Agradecendo desde já a atenção dispensada, envio-vos as minhas cordiais saudações e os meus melhores cumprimentos daqui deste contérmino ponto territorial, paredes meias com o cu de judas(*).

Américo de Sousa e Silva do Ó

(*)Não confundir "cu de judas" com o Cu de Judas da freguesia de Água Retorta, concelho de Povoação, na Ilha de "São Miguel"

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CACOGRAFIA

por João Brito, em 15.10.21

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Você sabe, ao menos, quem é Kevin Richardson (não confundir com o Kevin Richardson dos Backstreet Boys)? Pois, olhe, se tem alguma curiosidade em saber, tem muito sítio onde procurar.
Bem, como não quero ser mais papista do que o Papa, dou uma ajudinha: se tiver a mania da bisbilhotice, procure numa boa enciclopédia pelo nome de Patricia Richardson, mãe e pai, respectivamente.
Se já a tem à mão de semear, procure, igualmente, em Kevin Costner que não é tido nem achado, pois não é filho da mãe.
Se não tem enciclopédia, pédi-a! Já pédiu-a? Não? Então, não fez mal porque de Kevin só lá consta Bacon e é entremeado.
Mas se continua a desfolhear a enciclopédia, não se impaciente porque vem lá escrito, a páginas tantas, que numa cervejaria bebe-se bejeca, fino, imperial, caneca, girafa, et cetera; numa leitaria bebe-se galão, garoto, meia de leite, et cetera; numa cafetaria bebe-se abatanado, escorrido, italiana, café sem ponta, café com muita ponta, cimbalino, bica escaldada, et cetera. Numa tinturaria bebe-se, exclusivamente, tintu, dado que não existe brancuraria.
Saiba, também, que KR é branco e nascido na África do Sul, o que é pouco relevante ou mesmo nada relevante, a não ser para esta conjunção cacográfica.
Curiosamente (digo eu), os filhos, não obstante descenderem de mãe e pai, brancos, têm a tez muito morena porque isto anda tudo ligado, como diz o outro ou seja: há pessoas que têm pele e há outras que têm tez e quem tem tez também pode ter quato e por aí adiante.
Todavia, se isto tem algo a ver com o KR, vou ali e já venho! E tenho testemunhas! Testemunhas que, na generalidade, são só pele e osso. Porém, também se apanha uma ou outra testemunha com carne. Contudo, ressalvo mais uma vez que há aqui um desenquadramento total com a estória de KR, a não ser, talvez, pelo lado da carne, um lado praticamente tão caro como o lado do peixe; o drama é ir ao supermercado ou à praça. E deixe que lhe diga que, entre super e gasóleo, prefiro o petróleo, branco ou tinto, o que é, tal-qualmente, descabelado e até, no limite, de pôr os cabelos em pé.
Mas, voltando à carga, sobra sempre a velha questão da importância que isto tem para a compreensão desta estória. Absolutamente nenhuma, a não ser o caso de KR ser da zona austral e eu da setentrional, o que, de facto, é factual.
A talhe de foice: quando é que você resolve fazer uma grande ginástica? Sabe que, isto, nos tempos decorrentes, não contando com os já decorridos... Quê, você também faz muita?!...Não me diga que já anda a fazê-la há muito tempo!?
Olhe, resguarde-se e tenha cuidado com o Leão de Nemeia! Andam por aí uns sósias armados em cordeiros; não se fie nas aparências!
Cá, pra mim, gosto mais do Leão de Judá e não é esse em que está a pensar: o Judas da Judeia, o Iscariotes; também temos cá muitos!

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Senhor Provedor da Caixa Geral de Reclamações

Excelência

Venho, por este meio, chamar Vossa Excelência à atenção, tendo em conta toda a atenção que Vossa Excelência me merece, para um caso sério na vida quotidiana nacional (vulgo vida do dia a dia).
Um caso sério, na medida em que parece estar a transformar-se num caso omisso na nossa sociedade, à medida que os anos passam. Ou simplificando: passou da excepção à regra, por assim dizer.
Pois sucede, Excelência, que anda por cá uma desonestidade de proporções alarmantes e, por conseguinte, causadora de grande apreensão. É coisa nunca dantes vista, tampouco imaginada, visto que só visto e à vista desarmada, pois está à vista de toda a gente; mesmo de gente com a vista cansada.
É claro que há quem faça vista grossa e até aplauda, mas é impossível ignorar porque dá muito nas vistas!
No fundo, todos se metem em vigarices, desde o pelintra ao ricalhaço. É um gamanço desenfreado, Excelência, uma enfermidade que não poupa tesos e, muito menos, endinheirados!
Excelentíssimo, está na sua mão ou em ambas, desde que estejam limpas - coisa rara hoje em dia - , desmascarar esse axioma matreiro, também ele um mentiroso que nos ilude com verdades eternas e, sobretudo, com meias verdades, sabendo nós que umas são volúveis e as outras são velhas mentiras. Já para não dizer das mentiras piedosas...
Ora, vai Vossa Excelência desculpar-me a petulância, mas sabe perfeitamente que o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira (passe a Lapalissada).
Note, Excelência, que só nos constam as piores vilanias e as mais capazes burlas no pior pano! Então, e no melhor pano?! É injusto que sejamos nós a arcar com as consequências das trapaças dos malandros de colarinho branco! E, além disso, é uma dupla injustiça porque calham-nos sempre advogados estagiários nomeados pelo Ministério Público! Reivindicamos as mesmas prerrogativas dos patifórios doutos! Queremos o Rogério Alves ou o Proença de Carvalho, por exemplo, para propugnarem os nossos direitos! Sim porque feitas as contas e graças a Deus somos um país de profícuos advogados e, nesse sentido, penso que também merecemos do bom e do melhor e, de preferência, pro bono que a vida está difícil, até para nós; há muita procura, Excelência! Portanto, não vejo razão para que não possamos escolher quem lute empenhadamente pela resolução satisfatória dos nossos pleitos com a Justiça que diabo!...Ai..., perdão, Excelência!
Parcialidade é que não! E escrevo isto com o devido respeito e por respeito a Vossa Excelência. Longe de mim faltar-lhe ao respeito! Até porque o respeito é muito bonito, sabendo de antemão que, com respeito ao respeito já não há ponta de respeito.
Sem outro assunto, de momento, sou a solicitar respeitosamente a Vossa Excelência que se digne, ao menos, deitar o rabo do olho à minha exposição, dado que se lê num abrir e fechar de olhos.
Subscrevo-me, com os meus melhores cumprimentos,
Zé Manel de Linquente, detido, preventivamente, na prisão de Alcoentre. 

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MALEDICÊNCIA

por João Brito, em 13.10.21

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"Os maledicentes e os mentirosos, acabam por não merecer crédito ainda que verberem verdades."

Ora, uma coisa, assim, tão afrontosa para um cronista de mal dizer, só poderia vir da pena de um tal Marquês de Maricá, topam? Reparem, não tenho nada contra um de Maricá. Para mim, tanto se me deu, como se me dá (o adágio é ao contrário, mas a propriedade é comutativa; só para rimar) , mas são coisas sempre chatas; caem mal, prontos!
"O insignificante presume dar-se grande valor maldizendo de tudo e de todos."
Outra pérola do tal Marquês. Foleiro do caraças!
"Calarei os maledicentes continuando a viver à grande e à francesa(*); eis o melhor uso que podemos fazer da maledicência."
Com esta é que o Platão me f... tramou!
(*)Platão tomou a liberdade - que os deuses apenas concedem aos poetas e filósofos - de manter o adjectivo francesa, embora reconhecesse que tal palavra não passava de uma representação geral e abstracta da pátria onde milénios mais tarde emergiram personagens fantásticas como Astérix, Obélix, Ideiafix, Panoramix, Emmanuel Macron e tantos outros heróis gauleses. A propósito de gauleses, eu ainda sou do tempo em que fumar Gauloises sem filtro era muito "in". Isto está um bocadito fora de contexto, mas, pronto, era só para saberem. Há coisas que não resisto a partilhar, q'é que querem?
Carpe diem e não deixem de usar máscara no meio da multidão. O "bicho" ainda anda aí...

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Uma das maiores obsessões que inventámos e de que padecemos nesta estranha sociedade, é a de vivermos num mundo em que a apologia (patológica?) da pulcritude, associada à procura da juventude eterna, dita regras e tendências. Talvez, essas tendências, no momento actual, sejam menos acentuadas, devido a outras inquietudes, surgidas com o aparecimento da "covid-19". Não obstante, não deixam de ter importância à medida que vamos ficando mais velhos; são como um ferrete, sempre em brasa, para nos espicaçar o desassossego.

Paradigma do louvor à beleza e aos novos é a constante procura de elixires e unguentos 'milagrosos' com que somos constantemente assediados, através da divulgação publicitária, e que vendem, obviamente, muito bem.
Numa sociedade que privilegia esta espécie de hedonismo, a sobrevalorização da juventude acaba por criar uma espécie de estigma da velhice.
Não sei qual é o lugar dos velhos em algumas culturas ditas avançadas mas, neste "jardim à beira-mar plantado", há um sentimento generalizado de que os idosos já não têm nada para dar à sociedade; pelo contrário, só dão trabalho e despesas. Daí não serem invulgares para nós, portugueses, notícias que davam conta, até antes da pandemia, da existência de milhares de camas nos hospitais do Estado, ocupadas por idosos abandonados pelas famílias. Penso que, apesar desta nova peste que surgiu na nossa sociedade, é uma disposição nada afectiva que tem percorrido várias gerações e não me parece que vá mudar.
De certo modo, a frase "Lugar aos novos", expressão muito enraizada cá no burgo, reflecte bem o que afirmei.
Passámos, passamos e passaremos por muitas crises existenciais. Fazem parte do decurso do envelhecimento e induzem-nos medos como, por exemplo, não viver o suficiente para ver os nossos filhos e netos terem sucesso na vida ou não termos tempo de materializar este ou aquele projecto importante.
Embora ignore idiotices como "envelhecer é um privilégio e um presente (não sei de quem)" ou "envelhecer com alegria é uma arte", reconheço que há velhices chatas c'mo caraças. Resistir, assim, ao envelhecimento, gera sofrimento, às vezes insuportável, tanto nos sujeitos, como em quem convive com eles. Na verdade, não me cabe, aqui, sugerir um meio termo; nem sei se existe uma solução equilibrada para o modo como devemos encarar o fim dos nossos dias. É algo que só nós podemos dosar, mas nas devidas proporções, por forma a não ficarmos maluquinhos.
O que é facto é que os efeitos, mais ou menos acentuados da passagem do tempo, são o resultado natural do processo degenerativo e não há remédios milagrosos que possam obviar o que é inevitável, é a lei da vida (e da morte). Pelo menos, enquanto não for descoberto o tal "elixir da juventude eterna", uma espécie de Santo Graal da imortalidade.
Na minha modesta opinião, que é a opinião de um ignorante, julgo que as crises existenciais são reflexos dos nossos medos e da nossa constante perseguição da eternidade. São crises que fazem parte da nossa existência e que se agudizam com o aproximar do inverno da vida, como já referi.
Quando alguém morre, quem lhe sobrevive comenta, quase invariavelmente, que houve circunstâncias em que não valeu a pena tanto sobressalto ou sobrevalorização disto ou daquilo. Tudo acaba um dia e ponto. Só que, enquanto seres vivos, isso é irrelevante porque parecemos, consciente ou inconscientemente, não ter a noção da precariedade da nossa condição e de quanto nos poderíamos ter aproveitado desse factor transitório. Não somos humildes ao ponto de reconhecermos a nossa pequenez e efemeridade neste incomensurável macrocosmo. Não consideramos isso importante e assim perdemos a oportunidade de tirar proveito de cada fragmento dessa fugaz passagem por este mundo, adiando coisas que nos poderiam ter feito felizes e aos que amamos, apesar do seu carácter passageiro. Não percebemos como a nossa existência é frágil, sendo sujeita a agentes imponderáveis, e continuamos a protelar até que, num simples estalar de dedos, ela se vai para outro lugar...
Em memória de algumas pessoas queridas já desaparecidas; umas, infelizmente, antetempo...

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DEVE-SE DESFAZER O CARÁCTER MÍSTICO DO SEXO?

por João Brito, em 13.10.21

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Alguém muito famoso, cujo nome não me ocorre no momento, terá dito, algures no tempo, que o "grave problema do sexo vem das origens do segundo homem" e prosseguiu: "Isto porque o primeiro nasceu por obra e graça do Criador e, curiosamente ou talvez não, tampouco gratulou numa página de jornal dedicada exclusivamente a orações de agradecimento." E prosseguiu: "Porém, o segundo já foi concebido segundo critérios mais definidos e mais avançados que ainda hoje se mantêm tão actuais que ninguém ousa meter o bedelho, ou outra coisa qualquer na matéria porque é de matéria que efectivamente se trata.

"Após esta pequena introdução, penso, no entanto, que ainda há muitas arestas cheias de rebarba e é urgente, direi até que urge desmistificar o sexo e sem delongas. Isto, a par da indispensável revisão constitucional.

Pergunto: Para quando um debate nacional sobre um tema tão importante para a vida de todos nós? Quando mais não seja para aquelas pessoas que ainda têm alguma noção de como se pratica o sexo!
Dezenas de milhares de anos após a entrada do Homo sapiens na Península Ibérica e a interacção imediata que houve entre ele e uma neandertal nativa, por sinal muito gira, não chegaram para acabar com este absurdo tabu porquê? Parece que adormecemos! Que disparate!
Acho que isto devia ser objecto de análise em qualquer governo e ponto de discussão programática, independentemente de se fazer uma vez por ano ou até de nem se fazer. Quer se queira quer não, o sexo faz parte da vida. Pois, se até os bichinhos gostam!
Então, que qualidade de vida podemos almejar, se o governo teima em preterir o sexo em favor de outras actividades lúdicas de somenos importância no equilíbrio físico e psíquico dos cidadãos?
Que qualidade de vida podemos também esperar, se este ou qualquer outro governo teima em virar ad aeternum as costas ao sexo em vez de o agarrar afincadamente com uma mão ou ambas, dependendo do gosto?
Não se pode tirar o sexo à carne e à pele! Foi o sexo que perpetuou a Pátria! Quase novecentos anos de sexo é muita seiva derramada! É claro que muita tem sido derramada fora do contexto para a qual estava naturalmente destinada. Quatriliões de metros cúbicos de fluidos e outros desperdícios para quê, Santo Deus?!
Os Descobrimentos, a Batalha de Aljubarrota, as Batalhas das Linhas de Elvas e das Linhas de Torres, o Tratado de Tordesilhas, o 1º de Dezembro, o 5 de Outubro e o 13 de Maio, têm o seu merecido lugar na História, evidentemente, mas a perenidade da Nação só ficou garantida porque os portu⁸gueses de outrora, cheios de fervor e combatividade, não deixaram cair o sexo. Excepto os descuidados do costume que não se precaviam, mas isso é um problema transversal a todos os períodos da nossa História, é quase uma inevitabilidade.
As pátrias perpetuam-se através da manifestação corporal mais legítima e nobre deste mundo. Seja num vão de escada, no banco de trás de um Fiat Cinquecento, em cima do lava-oiça, num polibã, dentro da despensa, enfim, tantas vezes com grande espírito de sacrifício e em condições difíceis, mas é assim que se tem construído o futuro; assim se vai garantindo a sobrevivência de Portugal, malgrado a crises crónicas de que padece.
Mas, torno a perguntar: Prestarão, este e outros governos, as devidas homenagens ao trabalho esforçado e anónimo e tantas vezes à socapa, da gente lusa? Evidentemente que não!
Em face disto, como se pode acreditar neles ou até no Parlamento, se se perpetua o lençol de silêncio sobre uma das mais autênticas aspirações dos portugueses e portuguesas, não implementando políticas de desenvolvimento, não incrementando a prática através de incentivos pecuniários, fiscais, criando as infra-estruturas básicas (não sei o que é isto, mas soa bem) e outras coisas mais? Respeitando sempre as normas impostas pela União Europeia, claro! S'a gente é da União, só tem de respeitar a 'senhora', isso é indiscutível!
É certo e comummente aceite que o país tem atravessado sérias dificuldades há uma porrada de tempo - atrever-me-ia a dizer há séculos - por mil e um motivos, muito embora o senhor Costa garanta, a pés juntos, que não vai haver austeridade. Até porque a "bazuca" vai dar para todos e até sobra para o que der e vier.
O seu antecessor até afirmava, noutro contexto também muito difícil, que tudo não tinha passado de um equívoco; um "mito urbano".
Desculpem-me o devaneio. Perdi-me mais uma vez...
Em resumo, penso que seria pertinente a criação, a breve trecho, de uma Secretaria de Estado da Desmistificação do Sexo. Isto só para começar, depois logo se via. A menos que este Governo se declare impotente para resolver a grave crise de impotência da população em geral, não mostrando sensibilidade para acudir ao seu dia-a-dia, a qualquer hora.
Desmistificar o sexo dos portugueses é preciso! Viva o sexo em todas as suas variantes, vertentes, performances, cambiantes, matizes, gradações et cetera! Viva!

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SONETO

por João Brito, em 12.10.21

soneto.png

Primeiro acto: No bar, o senhor Paulo Portas, tamborilando delicadamente sobre a mesa, a um empregado: «Um chazinho de tília e um brioche!»

Uma voz que se aproxima, ecoando nos corredores da Assembleia: «Salta uma taça de Colares, aqui, para o senhor João Soares! Já!»
O senhor Manuel Alegre, com ar taciturno, apoiando-se como pode, uma perna cruzada na outra, meio flectida e em equilíbrio instável, bebericando um uísque à vista de um cravo murcho pousado no balcão: «É preciso saber por que se é triste / é preciso dizer esta tristeza / que nós calamos tantas vezes mas existe / tão inútil em nós tão portuguesa (in Soneto - primeira estrofe).
O senhor Augusto Santos Silva, entre dentes: «O que é que ele diz?» - vozes de todos os quadrantes: «Ele cisma! Ele cisma!»
A oposição aproveita para atirar pacotinhos de açúcar ao senhor Manuel Alegre. Alguns deputados mais impetuosos grunhem epítetos obscenos que a agitação impede que atravessem as paredes.
 
Segundo acto: No hemiciclo, o senhor orador: «Senhor Presidente, os digníssimos senhores deputados da oposição não me deixam expor, que diabo, eu nunca interrompo!
O senhor Presidente: «Atenção, digníssimos senhores deputados da oposição: deixai o senhor orador expor, por obséquio!»
Vaias - que me eximo de reproduzir - e assobios da bancada da oposição: «O senhor não tem isenção nem alçada para ser Presidente! Fora! Fora!»
Instala-se a desordem: o senhor Presidente arremessa o microfone e a garrafa de água aos queixos da oposição; a maioria parlamentar atira portáteis à cara da oposição; a oposição ameaça arrancar os assentos parlamentares dos seus lugares; alguns senhores deputados uivam de cão; o senhor Passos Coelho, no auge da sua exaltação, arranca cabelos do peito; o senhor Carlos Abreu Amorim espalha uma quantidade prodigiosa de pontapés no ar; o senhor Jerónimo de Sousa, qual desassisado, clama continuamente: "Avante, camarada!"
O senhor Presidente: «Está encerrada a sessão, por hoje!»
Saem todos em tropel, gritando impropérios; correndo, possessos; tropeçando uns nas outras, as outras noutros; rebolando pelas escadarias; um charivari como nunca se tinha visto, nem tampouco imaginado, desde a última assembleia!
 
Terceiro acto: No bar, o senhor Manuel Alegre, com ar taciturno, apoiando-se como pode, uma perna cruzada na outra meio flectida e em equilíbrio instável, bebericando um uísque à vista de um cravo murcho pousado no balcão: «antes em nós semeia esta vileza / e envenena ao nascer qualquer ideia / É preciso matar esta tristeza (in Soneto - última estrofe).
As senhoras da limpeza recolhem o lixo e o poeta.
Adaptação abusivamente livre de um trecho da obra UMA CAMPANHA ALEGRE de Eça de Queiroz.
in João Ratão, Dezembro de 2015.

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