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A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

26.10.21

INSÓNIA


João Brito

insónia.jpg

INSÓNIA

 

A manhã mal acordada
O intervalo do cigarro
O oceano escancarado
Vejo o Tejo a beijá-lo

No paraíso replantado
A eternidade embrutece
No lusco-fusco da placa
Quebro à saudade, anoitece
 
 
 
                                                          No quarto, matuto o tempo              
                                                          Esquadrinho o calendário
                                                          Risco o dia no armário
                                                          Penduro o fardamento

                                                         Trezentas páginas de encanto
                                                         Repousam brancas sobre a mesa
                                                         O diluente da tristeza
                                                         Torna mais espesso o meu pranto

                                                         Mortalha queima, mal a sinto
                                                         Derramo o último chuveiro
                                                         Enquanto, alheio, o dia teima
                                                         Perpetua-se noite adentro

                                                        Quiçá Morfeu se compadeça
                                                        Das minhas penas e me ofereça
                                                        O prazer sublime do seu colo
                                                        E extinga enfim meu pensamento

Composição poética criada a partir de uma carta que escrevi a alguém, há mais de quarenta anos, durante a minha comissão na guerra da Guiné. A autoria é do Zé Resende, poeta e músico nas horas vagas.
Lamentavelmente, perdi o rasto dessa carta...
 
A fotografia (Base Aérea de Bissalanca) é do António Esteves. Não sei se é vivo ou se é morto...

26.10.21

AINDA, A PROPÓSITO DE PORNOGRAFIA


João Brito

pornografia1.jpg

Como toda a gente sabe ou, pelo menos, devia saber, nos anos 80 do século passado era difícil estabelecer fronteiras entre erotismo e pornografia (éramos uns atrasadinhos, por assim dizer). Aliás, para ser mais correcto, era difícil estabelecer fosse o que fosse. Foram uns anos que correram tão depressa que confundiram irremediavelmente o espírito das pessoas. De tal modo que não se conseguiu distinguir um conceito do outro. Já para não referir os preconceitos associados aos dois conceitos…
Afinal, a pornografia conduz ao erotismo ou vice-versa? Qual vai ser o meu almoço? A casa de banho está livre? Será que amanhã ainda estou vivo? Este texto tem alguma piada? São algumas questões que tentei avaliar, coligindo uma pequena lista de acontecimentos, factos, objectos e situações que analisei com muito cuidado e dentro dos limites do meu fraco conhecimento da matéria e também graças a algumas consultas que efectuei em livros e revistas da especialidade (acham?).
Penso que, se a ler  com muita atenção, vai ver que nunca mais me engana, isso é limpinho! Segue a lista:
1. Um polícia de giro, barbudo, a afagar o bastão: erótico.
2. Um polícia de giro, barbudo e nu, a fumar um  cigarro: porno.
3. Um médico dentista trajando uma bata, de estetoscópio em punho, a auscultar uma jovem com dentes saudáveis: erótico.
4. Um médico dentista em biquíni a auscultar sem estetoscópio um polícia de giro barbudo (não confundir com um polícia giro) a afagar um bastão: porno.
5. Um empregado de balcão de uma charcutaria, em cuecas, a vender lingerie: erótico.
6. Um empregado de balcão de uma charcutaria, trajando um impermeável sem roupa por baixo, a auscultar um polícia de giro, barbudo e nu, a afagar o bastão perante uma jovem com dentes saudáveis, a qual tira o biquini a um médico dentista sem estetoscópio: porno.
7. Um professor lente, curiosamente sem óculos, calvo, avançando de ponteiro erguido e com ar concupiscente para uma finalista de línguas modernas: erótico.
8. Uma jovem de dentes saudáveis vestindo uma bata, a auscultar um médico dentista nu, o qual vende lingerie a um polícia giro (não confundir com um polícia de giro) e calvo, avançando simultaneamente de ponteiro erguido para um empregado de balcão de uma charcutaria que dá explicações de línguas modernas, em cuecas, a um general reformado de cinco estrelas e uma comenda: porno.
9. Um jogador de futebol trajando um impermeável, a auscultar um médico dentista nu e com dentes saudáveis, a afagar o bastão de uma jovem calva e perneta, casada com uma finalista de línguas modernas com óculos, a qual despe o roupão à frente do empregado de balcão de uma charcutaria que, por sua vez, vende salsichas alemãs a um angariador de seguros enquanto fuma um cigarro com ar lascivo, o qual, de ponteiro erguido, avança para um polícia de giro barbudo e nu, que ausculta um médico dentista sem dentes que, em cuecas, beija loucamente um mediador de seguros: porno.
10. Um general reformado de cinco estrelas e uma comenda, afagando a nuca de um polícia de giro, barbudo e em negligé: erótico.
11. Um general reformado de cinco estrelas e uma comenda, em biquíni, a auscultar sem estetoscópio um jogador de futebol trajando roupão que, simultaneamente, afaga o bastão de um empregado de balcão de uma charcutaria de óculos escuros, agarrado a uma finalista de línguas modernas: porno.
12. Uma fotógrafa profissional despida da cintura para baixo e de cigarro na boca, fotografando um polícia de giro barbudo, em várias poses, enquanto este afaga o estetoscópio de um jogador de futebol, calvo, que despe o biquíni perante uma licenciada em línguas modernas que, de ponteiro erguido e ar sensual avança para um general reformado de cinco estrelas e uma comenda o qual afaga a nuca de um empregado de balcão de uma charcutaria que vende salsichas alemãs a um angariador de seguros nu, o qual ausculta o bastão de um médico dentista vestindo um impermeável, sem roupa por baixo e que…: porno.
E podia continuar a dar exemplos até à exaustão, caros leitores e leitoras. Porém, julgo que esta súmula é suficiente para que fiquem com uma ideia sinóptica da diferença, ainda que subtil, entre pornografia e erotismo. Espero, por isso, ter contribuído para um maior esclarecimento das boas mentes. Eu me demente já aqui, se isto é puro gozo, juro!

 

25.10.21

MANIFESTO DO ESBANJAMENTO


João Brito

manifesto do esbanjamento.jpg

Caros e caras, ontem foi a crise da "bolha imobiliária"; hoje é a crise do "novo coronavírus" e esta é a pergunta sacramental: E amanhã, que crise nos estará reservada? Já pensaram bem? É que, com tantas crises, não vai sobrar um avo para nós, sabeis vós?

Portanto, antes que isto dê de si ou der o berro ou até mesmo para o torto e só nos restar entregar a alma ao Criador sem qualquer proveito, o melhor é dar andamento à coisa ou dar à sola. Mas, antes, é conveniente estarmos bem calçados. Assim, penso que soou a hora de esbanjar. As crises são um sofisma colossal, acreditem! Há muita massa para gastar! 
Diz-se que é das crises que se devem tirar grandes lições e ilações da História e bate-se exaustivamente na tecla gasta de que se devem evitar os erros do passado, et cetera. Uma tanga! Depois há aqueles idealistas românticos a debaterem e a subscreverem ideias estravagantes como, por exemplo, o "redesenho" da arquitectura financeira internacional e outras baboseiras. Mas o que é isso? Estão todos doidos ou quê?! A Banca é que manda nisto, seus morcões! Enganem lá os pobrezinhos! Esses, sim, sempre viveram em crise! Deixá-los! Nasceram pobres e vão morrer pobres; que se danem!
Agora, nós, os ricalhaços, não que diabo! Há dinheiro a rodos, ouro aos montes e riqueza "até vir a mulher da fava rica"!  Urge derreter tudo aqui antes que nos roubem! Ou, então, investir nas Ilhas Falkland, Malvinas, Antígua e Barbuda, Barbado, Seychelles, Trinidad e tantos outros lugares onde as nossas poupanças triplicam em menos de um farelo!
Juntemo-nos, pois, porque a união faz a força e assim poderemos vencer os pindéricos que invejam o que ganhámos com o suor do rosto alheio.
Unidos, venceremos, unidos venceremos!
Abaixo o porco do mealheiro, o colchão, o pé de meia, o porta moedas, a conta a prazo, o aforro, o pequeno crédito e todos os instrumentos próprios dos pobretanas endividados, essas aves raras que nunca passaram da cepa torta!
Apelo para que algumas palavras existentes no nosso léxico deixem de ser pronunciadas por gente da nossa linhagem, pois não têm sentido prático. Palavras como subsídio, tença, abono, estipêndio, pensão, pré, mesada, alcavala, bazuca, entre outras de que não me lembro, são palavras infelizes e redutoras porque todas estabelecem um limite para o que se gasta e, como tal, são um absurdo! E, meus caros e caras, o dinheiro é como o amor e as azeitonas: nunca é suficiente. Muito embora não devamos exagerar nas azeitonas porque são muito reimosas e, por conseguinte, um veneno para quem sofre de hemorroidal.
Em conclusão, o que queremos, afinal de contas, é continuar a poder gastar à vontade, sem limites, sem as travancas próprias dos tesos, dos lisos, dos falidos, dos secos, dos sem cheta; abaixo essa gente reles! Não tem onde cair morta, gentinha desgraçada!
Vivam a fartura à fartazana - passe a redundância, mas fica bem aqui - , a opulência, a ostentação, o favorecimento, a evasão fiscal, o suborno, a fraude, a luxúria, o esbanjamento, os paraísos fiscais e tudo aquilo que tenha a doce fragrância da ilicitude!
Vivam os perdulários, os gastadores e todos os que derretem dinheiro a rodos sem remorsos e com alarde!
Viva a (in)saciedade de consumo! Esbanjar é vital até à falência final (dos outros porque a gente safa-se sempre)!
Viva eu que sou um teso do caralho (belo trocadilho!) e estou para aqui a escrever disparates! Tens é dor de cotovelo, é o que é! Diz lá se não gostavas de ser rico, à custa dos parvos, hum? A inveja é muito feia, sabes?

22.10.21

DÚVIDAS


João Brito

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"Se hesito, logo existo!", é uma frase que, embora muitos julguem que não foi dita por Descartes, pensador compulsivo e com um discurso muito metódico, poderia ter sido dita antes de pensar que existia. Se não a disse é porque hesitou. A única coisa da qual ele não podia duvidar era da própria dúvida e, por consequência, do seu pensamento.

Quanto a mim, é facto que sou uma pessoa muito hesitante e, se hesito, tenho dúvidas. Dúvidas são sempre problemas chatos que surgem à última hora. Presumo que seja isso, não obstante as habituais incertezas persistentes.

Certo, certo, é que já nada me parece certo, ainda que tenha uma vaga noção de já ter lido ou escutado isto em qualquer lugar.
À parte estes considerandos de natureza pessoal, dos quais ninguém quer saber, para além de mim, ou não fossem eles de natureza pessoal, penso que me vou decidir, a não ser o ressurgimento de alguma dúvida imprevista.
A talhe de foice, lembrei-me que, se persisto em duvidar, alguém vai decidir por mim, é sempre assim e sempre assim será através dos tempos. "Per omnia secula seculorum" - para sempre e sempre, segundo o tradutor do Google, que eu de latim pesco zero.
Ora, uma decisão é sempre algo de importância vital porque ou uma coisa ou outra ou por outra; não se pode ficar na meia dúvida mesmo que haja engano. Nesta perspectiva, uma decisão, bem vistas as coisas, são duas e ambas assumem a mesma importância. Assim sendo, é complicado. "Uma maçada (não confundir com uma paulada)"- parafraseando a minha prima Idalina, uma complicadinha que até chateia!
No entanto, se é muito complicado por um lado, por outro também pode facilitar as coisas porque hesitar faz parte de quem tem dúvidas. E se se hesita é porque a dúvida persiste. O mundo seria bestialmente monótono se apenas existisse uma decisão sem hesitação. Valha-me Deus, nem quero pensar nisso!

22.10.21

UMA ESTÓRIA DE ESPIONAGEM COM UM FINAL FELIZ


João Brito

uma estória de espionagem com um final feliz.jpg

Escusado será dizer que qualquer tentativa de pesquisa sobre as personagens e acontecimentos aqui narrados, será em vão porque não vem descrita na Wikipédia.

Reza, então, segundo esta estória, que Francisco Toucinho, um cidadão luso-algarvio, terá sido um grande espião do princípio do século XX. Parece ser um facto inquestionável, mas pode ser revogável e o que mais houver a terminar em "ável"...
Em pequenino até lhe chamavam, carinhosamente, "o cheirinha", pois já tinha aquela tendência inata para meter o nariz onde não era chamado e, como se isso não bastasse, o petiz também gostava de meter o bedelho, vá-se lá saber porquê.
Já crescidinho, passou a ser conhecido por alguns pseudónimos entre os quais destaco: Chico Bacon, Chico Zarolho, Big Foot e Pé-curto porque, efectivamente, tinha dois pés: um comprido e um curto.
Presume-se, embora sem confirmação oficial (por isso é que se presume), que foi o primeiro agente secreto "free-lancer" da família Toucinho a espiar por encomenda e a cachet. Aliás, Toucinho, até tinha uma tabela de preços, contabilidade organizada e tudo o mais!
Francisco Toucinho foi pai de uma filha da mãe incógnita que lhe seguiu as pisadas, aliás, fáceis de identificar por via da particularidade dos pés, como já  tinha sobredito.
Um dia, juntaram-se os dois à esquina (pai e filha), disfarçados, respectivamente, de concertina e solidó, e Josefina - chamemos-lhe assim, dado o carácter ultra-secreto da operação em que ambos estavam, mais uma vez, envolvidos - decidiu revelar ao pai que ia romper a sociedade. Queria estabelecer-se por conta própria devido à provecta idade do progenitor, mais a mais com a agravante dos seus pés já não terem a agilidade de outrora. Para não dizer da preocupante falta de visão, devida à falta de um olho que perdera numa disputa, tipo desforra olho por olho, em que valia tudo menos arrancar olhos e dentes, mas, pronto, foi apenas uma pequena contrariedade.
Assim que o pai se reformou, Jojo (chamemos-lhe assim para poupar letras) abriu uma oficina de espionagem, provisoriamente, num vão de escada e só muito mais tarde e após alguns melhoramentos, passou, definitivamente, para um elevador. Isto porque o seu lema era o de que mais valia definitivo definitivamente do que provisório provisoriamente.
Foi a espiar por conta própria que desabrochou em todo o seu esplendor e sensualidade. De tal forma que não havia mácula que lhe retirasse a graça da plenitude da sua feminilidade. Pode-se mesmo afirmar que, ao pé dela, até o milho era ruim.
Depois de se separar do pai, passou a andar de faca na liga o que lhe deu fama de má pinta porque estava sempre com os humores. Mas Jojo já era assim desde pequenina: uma rapariga com muita pinta e cheia de caprichos.
O mau feitio não a coibia de escancarar a porta de casa a muitos espiões que a vinham espiar, rendidos aos seus encantos e ao relato, na primeira pessoa, das suas peripécias furtivas nos vários cenários onde operou.
Simultaneamente matava dois ou mais coelhos com uma cajadada porque, sob a brancura alva dos lençóis, no meio do envolvimento carnal, confessavam-lhe os segredos de estado mais bem guardados do continente europeu e arredores, inclusive de Portugal que estava longe de pertencer à Europa.
Chegou a matar dez ao mesmo tempo, o que era obra! Ora, espiando conjuntamente muitos países, isso dava-lhe um jeitão do caraças!
Foi então que surgiu, nesta estória, outro agente secreto, um tal Anacleto Périplo Pinto, cujo nome não vou revelar, a pedido do próprio, um papa-léguas do camandro, por força das várias missões (secretas) de que estava incumbido.
Era um tripeiro dos quatro costados, muito feio e  mausinho como as cobras. O sujeito era mesmo do piorio; palavra!
Também não vem na Wikipédia, mas especula-se que tinha maus fígados (1), precisamente por via do veneno da mordida de uma víbora, de que tinha sido vítima em pequeno, não o matando, mas tendo-lhe provocado danos irreparáveis em ambos os fígados, particularmente a incapacidade de os desopilar, pois nunca mais se lhe viu uma gargalhada, tampouco um sorriso. Era o chefe da contra-espionagem do MI5 às segundas, quartas e sextas e do MI6, às terças, quintas e sábados. O domingo era dia de descanso.
Importa referir que Périplo Pinto tivera, há muito tempo, uma paixão assolapada por Jojo sem ela saber (evidentemente, senão não era assolapada!).
Mas antes de prosseguir com a narrativa, merece a pena destacar a morte do espião Francisco Toucinho, aliás Chico Bacon, aliás Chico Zarolho, aliás Big Foot, aliás Pé-curto, como cinco das mais tristes ocorrências da estória da espionagem de cá e além fronteiras de Schengen.
Como se sabe, apesar da omissão na Wikipédia, Toucinho e os seus pseudónimos tinham a cabeça a prémio, não constituindo qualquer surpresa no mundo dos serviços secretos europeus. As suas mortes, portanto, não surpreenderam os observadores mais atentos. Ademais, para além da idade avançada, tinham bicos de papagaio e pés de atleta (como se não bastasse terem quatro pés curtos e outros tantos compridos). A somar a isso, e não era pouco, sofriam de bronquite crónica e estrabismo. Ora, quando veio a "pneumónica" foi um ar que lhes deu. Ainda mudaram de ares, indo tomar ar para o Caramulo, mas já era tarde.
À semelhança do malogrado pai e seus pseudónimos, também Jojo tinha a cabeça a prémio por ser filha de quem era. Contudo, quando ia às compras, lá conseguia disfarçar-se de Lady Godiva montada num camelo branco e passar despercebida por entre as multidões, sabe Deus como.
Porém, Anacleto Périplo Pinto, andava de olho nela, já para não dizer com olhos de carneiro mal morto quando não arregalava o olho. Pudera, ela era de encher o olho e isso saltava aos olhos, caramba!
Um dia, Jojo e Alzira, dirigiram-se a Santa Apolónia, tomaram o vapor da meia noite, meteram-se num vagão cama e, sem pregar olho, pintaram a manta durante toda a noite...
Perguntam vocês, caros leitores e leitoras, com toda a legitimidade: "Quem é a Alzira?!"... Pois, também não sei ao certo quem era a Alzira, mas é irrelevante para esta estória. Certo é que Jojo e essa misteriosa mulher viajaram até Campanhã e aguardava-as uma manhã de intenso nevoeiro. Foi assim que a Alzira saiu da estória tão depressa como entrou, desaparecendo no meio de uma névoa muito densa.
Havia de chegar uma altura em que era inevitável prolongar o jogo do gato e do rato ou melhor: do gato e da rata.
Chegado esse momento tão próximo e crucial para o desfecho desta estória que já vai longa c'mo caraças, o chefe da contra-espionagem, Anacleto Périplo Pinto, abeirou-se da plataforma onde o vapor acabara de estacar, aproximou-se discretamente de Jojo que já estava apeada, apertou o gatilho da sua pistola Luger e disparou, à queima-roupa, vomitando restos de tripas à moda do Porto. Estranhamente, vomitava tripas à moda do Porto, sempre que disparava a sua Luger. Vá-se lá saber a razão de tal anomalia...
Atingida em cheio no regaço, apesar do impacto quente e viscoso da matéria, Jojo não perdeu o sangue frio, tampouco o quente:
«Seu desajeitado - disse ela, limpando o vestido e as meias de liga, conforme pôde, com um lencinho de seda de cor rosácea - , tenho corrido Ceca e Meca sem o achar!»
«Ora essa! - respondeu o chefe da contra, feito espírito do contra - E eu tenho percorrido meio mundo à sua procura, sabe lá!»
«Oh! - exclamou ela - Então foi por isso que nunca nos encontrámos, olhe que engraçado!»... E mirava-o lá de cima com o olhar mais abrasador deste mundo, do outro e se mais houvera.
«Está cá uma brasa!» - disse ele, despindo rápida e descuidadamente a gabardina e beijando-a na mão de supetão. Com efeito, Anacleto Périplo Pinto era baixinho.
Depois deste acontecimento inesperado, mas muito significativo e lindo, pode-se afirmar, em bom rigor, que foi amor correspondido à primeira vista desarmada.
Jojo não perdeu tempo, dirigiu-se a um posto dos correios e mandou um telegrama à mãe do seu novo amado, pedindo-lhe a mão do filho. A respeitável senhora anuiu sem reserva e despachou a mão numa encomenda postal, registada e com aviso de recepção. Mesmo assim, Jojo acabaria por receber a mão de Anacleto Périplo seis meses depois de ter sido despachada pelos CTT, o que já era um grande avanço para a época. É claro que já vinha um bocadinho deteriorada por via do tempo que levou a chegar ao destino, mas, com muita paciência e força de vontade foi possível voltar a colocar os dedos com umas gotas de Super Cola 3 (passe a publicidade).
Para quem não leu nas entrelinhas, volto a aludir que o chefe Pinto nasceu com três mãos, uma das quais ficou religiosamente conservada dentro de um frasquinho com formol que sua mãe tinha guardado até àquela altura, à espera que alguém, um dia, a pedisse.
Claro está que levaram uma porrada de meses a consumar o casamento, pois casaram-se em muitos países e isso, burocraticamente, é muito complicado e moroso como é fácil de depreender por causa das bichas para isto, bichas para aquilo, horas de espera intermináveis nas conservatórias, et cetera.
Após a celebração do último acto de casamento, cerca de dez anos depois, fundaram, então, além de um lar da terceira idade para ex-espiões, a primeira "Sociedade Comercial de Espionagem e Contra-Espionagem, Lda" que aviou todas as encomendas durante alguns anitos.
Porém, houve um dia em que as secretas do mundo inteiro puseram a cabeça de casal a prémio, como não podia deixar de ser, acabando por condená-la à morte por guilhotinamento. Foi melhor assim porque era um processo de execução muito moroso e, ao mesmo tempo, era aborrecido serem guilhotinados aos poucochinhos. Por outro lado, esta estória comovente não merecia um desenlace triste. Além de que faziam um par perfeito.
(1) Como é do conhecimento geral, era normal ter dois fígados naquele tempo o que, actualmente, já não se justifica. Ainda se aplica esta expressão em conversas do dia a dia, com tendência para desaparecer...

22.10.21

O VENDEDOR DE ENCICLOPÉDIAS


João Brito

o vendedor de enciclopédias.jpg

Ele: «Bom; vamos lá saber uma coisa: se você diz que é grátis e eu não posso ficar com isso, em que pé é que ficamos? Ademais, andar a vender enciclopédias de porta a porta é algo que já caiu em desuso, homem!»
O outro sorriu novamente: «Ora, é exactamente aí que residem o interesse e as vantagens desta proposta e eu já estava a estranhar que uma pessoa de tão sólida formação como vossência não levantasse a questão. Primeiro porque, como disse e muito bem, já não se vendem enciclopédias como antigamente e há pessoas que, como vossência, sentem muitas saudades da época das enciclopédias e livros vendidos nas portas das suas casas. Segundo, e não menos importante, é que continuamos a valorizar esses sentimentos nostálgicos. Assim, tenho o enorme prazer de lhe apresentar esta magnífica "Enciclopédia Faça Você Mesmo" com 7398 páginas, profusamente ilustradas a 3 cores. Obra que lhe será entregue, inteiramente grátis, no momento em que vossência comprar este pequeno caderno de 25 folhas destacáveis, em formato A4, que, como pode verificar, se intitula "Terapia de Relaxe: Caderno de Colorir Anti-stresse"
Ela entreabriu um pouco mais a porta, receosamente:
«Não estamos interessados, já disse!» - e voltando-se para ele, fez notar:
«Mais a mais, você é daltónico!»
O outro interrompeu:
«Que isso não seja motivo de embaraço, minha senhora! Também, para esse caso, tenho a solução ideal: basta escolher o tipo exacto de caderno, em função da deficiência do seu esposo. Não deixe que o daltonismo o impeça de ser o feliz possuidor da "Enciclopédia Faça Você Mesmo ". Portanto, é com enorme satisfação que lhe apresento dois blocos distintos. Cada um tem exactamente 25 folhas A4, em papel cavalinho, e qualquer deles se adequa à dificuldade do seu marido em discriminar as cores.
Diga-me, então, o senhor: vossência padece de protanopia (não confundir com proctoscopia) ou é mais deuteranópico?»
Ele ajeitou a máscara:
«Olhe, aqui, meu amigo: eu tenho estado a ouvir a sua ladainha com toda a paciência, mas isso não lhe dá o direito de começar a ofender-me, certo?! Quero que isto fique bem claro!»
«Por amor de Deus! - fez o outro com ar obstrito - Vejo que vossência não está a par da terminologia científica destas coisas. O que eu pretendo saber, é se vossência é cego às cores vermelha ou verde, dado que disponho de alternativas para ambas as incapacidades e, conforme o seu caso, quando estiver a colorir, nem vai conseguir distinguir certas cores umas das outras (lógico).»
«Olhe, não sei que lhe diga...» - hesitou ele.
O outro:
«Não diga nada!... Aqui entre nós: se vossência não sabe, fique a saber que ainda tem direito a mais um brinde surpresa.»
Ela bateu o pé:
«Mas sei eu: vamos fechar imediatamente esta porta que já estou com os tímpanos em franja e não aguento mais o aranzel deste vendedor de banha da cobra!»
Moral da estória: mais vale vender por atacado e de atacado porque isto, apanha-se cada cliente-tipo que só visto!
A propósito, sabem quem foi John Dalton? Exactamente, foi ele que inventou o daltonismo sem saber como nem porquê! Estava a ver que não sabiam...

21.10.21

A BARRIGA


João Brito

o abdómen.jpg

Um dia destes, ao acordar e observar a minha barriga (é a primeira coisa que vejo quando me levanto, sobretudo quando durmo de barriga para o ar), veio-me à ideia escrever qualquer coisa acerca dela, enfim, da barriga de um modo geral.

Também conhecida por abdómen, ventre, pança, mula, saliência ou bandulho, não há gato pingado que não saiba o que é e o que aloja esta parte essencial do corpo humano. Digo essencial porque, se pensarmos bem, uma pessoa sem barriga não é a mesma coisa que uma pessoa com barriga. Também chegaram a esta conclusão, n'é verdade?
Mas, antes de prosseguir com a descrição, penso que é conveniente esclarecer os eventuais leitores e leitoras que cada um de nós tem somente uma barriga. Claro que sem contar com as barrigas das pernas, evidentemente.
Por conseguinte, a frase "tem mais olhos que barriga" faz todo o sentido e reforça a característica única deste extraordinário órgão do corpo humano. Por outro lado é completamente falacioso que alguém, em qualquer circunstância, tenha a "barriga vazia", isto porque contém muitos órgãos, sobre os quais escreverei um pouco mais adiante e de forma clara para que todos compreendam, inclusive eu.
A barriga situa-se imediatamente abaixo do tórax e estende-se até aos membros inferiores, ficando, normalmente, por aí, à excepção dos indivíduos e individuas obesos, cujas barrigas podem distender-se um pouco mais até cobrir as partes pudendas. Se não tem a certeza se se enquadra nesta categoria de pessoas, faça o seguinte teste: coloque-se em pé, com as mãos atrás das costas, e olhe para baixo sem curvar o tronco. Das duas, uma: ou as vê e tem o peso ideal ou não as vê e só consegue observá-las com a ajuda de um espelho ou, eventualmente, de uma lupa.
Claro que isto não é assim tão linear, mas já é uma preciosa ajuda para aquelas pessoas que não as vêem há muito tempo seja por que motivo for.
Na perspectiva do observador de fora (de dentro é muito difícil observar, como certamente já devem ter deduzido), a barriga pode ser chata, redonda, d'água, de abade, de freira, de bicho, de aluguer, et cetera.
Uma coisa é praticamente factual, apesar de nem sempre estar à vista: toda a gente só tem um bigo. Não há conhecimento, até ao presente, de casos de pessoas com mais do que um bigo. Não quer dizer que não possam existir, mas, como acabei de dizer, até ao momento não há nenhum caso digno de registo.
A barriga, de acordo com o género, contém geralmente quase tudo o que é necessário para o seu bom funcionamento, desde o estômago à bexiga, passando pelo fígado, rins, baço, intestinos, bebés, ovários, e outras coisas não menos importantes. Contudo, uma coisa é certa: não contém relógio nem rei, pelo que frases como "ter a barriga a dar horas" e "ter o rei na barriga", não passam de crendices populares, pois nunca se provou a sua existência.
Penso que descrever ao pormenor as funções dos diversos órgãos que a constituem, tornar-se-ia moroso e enfadonho, portanto, deixemos essa descrição para os especialistas na matéria. Assim, vou-me restringir ao básico, se me permitem.
Começo pelo fígado, cuja função é tentar impedir-nos o acesso ao consumo de bebidas alcoólicas, por assim dizer. Porém, é tentativa debalde (há quem beba de balde). Ademais, parece estar cientificamente comprovado que a dificuldade do fígado em controlar a nossa apetência inata para beber álcool é inversamente proporcional ao número de fígados ou seja:...bem, também não sei como é que os cientistas chegaram a esta conclusão, mas poderão pesquisar na Wikipédia se assim o entenderem.
É garantido e, como tal, inquestionável que, infelizmente, ainda há gente com maus fígados e esta classificação simplista nem sempre está relacionada com o hábito de consumir bagaço, mas antes pelo facto de possuírem dois fígados. Faça um pequeno teste de verificação, mirando-se no espelho. Se tiver duas grandes protuberâncias laterais, para além da frontal, é sinal que também tem maus fígados. Se isso se confirmar, olhe, tenho pena!
O duodeno é aquela parte inicial do intestino delgado que sai do estômago e termina no final do jejuno, por altura da Páscoa. Isto, depois dos católicos terem andado na borga até à véspera de quarta-feira de cinzas.
Os muçulmanos também jejunam, no nono mês do calendário islâmico (Ramadão), do nascer ao pôr do sol, para terem direito a setenta e duas virgens quando forem para o Céu. É obra!...
Passemos, então, aos intestinos também chamados de tripas (não confundir com tripas à moda do Porto). É nos intestinos que se processa a papinha que é transformada em sangue e outras merdas, estas últimas expelidas de várias maneiras, normalmente, pelo ânus. Há casos, e não são raros, em que são lançadas pela boca, daí o provérbio "ou entra mosca ou sai merda" fazer muito sentido. Avancemos, senão disperso-me:
Os intestinos dividem-se em delgado e grosso. O comprimento varia, consoante a capacidade volumétrica da barriga. Existem registos, devidamente comprovados, de intestinos com mais de dez quilómetros de comprimento.
Explicar isto, numa perspectiva mais científica seria uma maçada para mim e entediante para quem lê. Além disso é preciso ter estômago para entender tal explicação. Por isso, peço desculpa àquelas pessoas que, ao ler este artigo, já estejam a sentir um buraco no estômago. O meu conselho é que, antes que isto lhes dê a volta ao estômago, o forrem com qualquer coisinha, sei lá, talvez um pratinho de grão de bico com mão de vaca, por exemplo.
Prosseguindo rapidamente com a descrição porque, sinceramente, isto já me está a nausear, segue-se a bexiga, também chamada de bexiga doida (não confundir com bexiga natatória que, como o próprio nome indica, é um auxiliar de natação) porque nos deixa ficar mal quando estamos à rasca para mijar e já não vamos a tempo.
A barriga também contém o útero que é um órgão exclusivamente feminino e serve para guardar bebés, mas também contém a próstata que é um órgão exclusivamente masculino e serve para dar chatices a partir de uma certa idade.
E pronto!
Olhem, peço encarecidamente perdão por ter sido um bocadinho lacónico na exposição da barriga, mas assiste-me alguma razão, dado que o tema é muito complexo, para além de que não é dos meus temas favoritos. Mais a mais, acho que qualquer assunto à volta das entranhas é só para quem sabe, efectivamente, ler nas entranhas.

20.10.21

COM DUAS PEDRAS NA MÃO


João Brito

com duas pedras na mão.jpg

A origem desta frase é muito mais antiga do que parece e, segundo o meu ponto de vista, que até pode ser turva, talvez derivada de algum cansaço, vou tentar explicar porquê:

Segundo o calendário gregoriano(1*), esta expressão data dos tempos afonsinos, sendo, pois, uma frase de origem bíblica. Arriscaria afirmar que é antediluviana, mas vamos por partes porque não gosto de estar com partes senão ainda me mandam àquela parte.
Passarei, então, à descrição dos factos, tal como eles deviam ter figurado nos livros sagrados, se não tivesse havido um pequeno erro tipográfico; uma espécie de página em branco que me obrigou a improvisar. Peço, desde já, desculpa por alguns anacronismos, normais neste género de estórias.
Como é do conhecimento público, Jesus de Nazaré tinha um grande amor por todos os trabalhadores, sobretudo os manuais. O próprio, antes de se dedicar a pregar o Evangelho segundo Ele, exercera o ofício de carpinteiro, que seu pai adoptivo(2*), José, lhe ensinara desde tenra idade, facto donde proveio a velha máxima: "de pequenino é que se torce o pepino".
Por isso, e porque tinha uma grande preocupação social e, por conseguinte, uma consciência política prodigiosa e, obviamente, ímpar para aquela época, gostava de visitar e conversar com o operariado. Pode-se considerar, sem exagero, que foi, talvez, o grande precursor do sindicalismo revolucionário depois Dele, a grosso modo...
Certo dia, em visita à região de Estremoz a convite de um compadre e correligionário, Jesus parou junto a uma pedreira onde esforçados homens trabalhavam o mármore. Estacou bem perto de um deles que logo caiu de borco, aparentemente encantado com a magnífica presença do Filho do Senhor; e Jesus disse: «Que fazes, camarada? Levanta-te e anda! Sou lá pessoa de reverências, homem de Cristo?!», ao que o trabalhador retorquiu: «Mestre, aqui é o meu mester; só que tropecei nestas pedras e caí!», e erguendo-se com as lascas marmóreas na mão(3*), exibiu-as para que o Mestre carpinteiro as contemplasse. Jesus disse: «Não ouses falar para mim com duas pedras na mão porque todo aquele que tiver telhados de vidro, entrará no Reino do Céu pelo buraco de uma agulha (vulgo buraco negro)! Ademais, transformá-lo-ei numa estátua de sal, se se atrever a olhar para trás, mesmo de relance! No entanto, como a vindicta não me compraz, ao contrário do que muita gente pensa, perdoarei ao sacana que negar o meu nome, mas só na condição do galo cantar três vezes! Se o galo não cantar, tenho pena!
Portanto, quem não está comigo está contra mim (uma grande verdade)! E quem estiver comigo jamais em tempo algum estará sozinho (lógico e redundante)!»
Ouvindo isto, o trabalhador, temeroso e simultaneamente maravilhado, arremessou uma das pedras para longe, ficando conhecido, na história da cristandade, como aquele que lançou a primeira pedra.
O Cavaco só lançaria as "Pedras Preciosas na Arte Sacra em Portugal" muitos séculos mais tarde.

(1*) O calendário gregoriano foi promulgado pelo Papa Gregório XIII, se a memória não me falha, em 1582. Daí a frase corrente: "chamar o Gregório", da qual não se consegue extrair qualquer relação com o calendário.
(2*) A fazer fé nas sagradas escrituras, deduz-se que José não foi o pai biológico de Jesus, uma vez que o "Filho de Deus foi concebido por obra e graça do Divino Espírito Santo" na pessoa de Maria de Nazaré que se manteve virgem até ao final dos seus dias. Ademais, os testes de paternidade, nesses tempos recuados, ainda estavam pouco desenvolvidos e não eram comparticipados pelo SNS, por conseguinte, só Deus sabe...
(3*) Não se sabe, ao certo, se teria sido a mão direita ou a esquerda, mas penso que é irrelevante para a estória 

20.10.21

DEUS, O DIABO, O ENGENHEIRO E OS MALANDROS DO COSTUME


João Brito

deus, o diabo, o engenheiro e os malandros do cost

"Um engenheiro morreu e chegou às portas do Céu...
Antes de prosseguir com a narrativa, devo esclarecer que é do conhecimento geral que os engenheiros, devido à sua incorruptibilidade, quando dão o peido mestre (entenda-se derradeiro suspiro), vão direitinhos para o Paraíso sem passarem pelo Purgatório. A isenção do juízo final está contemplada em Jeremias, versículo 37:15-16, mais coisa, menos coisa. Prossigamos, então:
São Pedro, mazelado, cansado de séculos de existência e desconfiado desde que o seguro morreu de velho, antes de franquear as portas ao engenheiro, procurou a sua ficha no arquivo geral da ordem dos engenheiros, mas, como o programa informático do Céu estava um bocadinho desorganizado por via da sua obsolescência, não a conseguiu encontrar. Então, disse ao engenheiro:
«Lamento, mas não podes entrar; a tua ficha deve ter-se extraviado!»
O engenheiro, perante a recusa do guardião do Céu, não teve outro remédio senão descer vários lances de escada até chegar às portas do Inferno. O espertalhão do Mafarrico nem pestanejou; ofereceu-lhe alojamento de bandeja e demais apoio logístico.
Todavia, após ter sido instalado, faltava ali qualquer coisa, algo onde se pudesse sentir mais proactivo e, claro está, mais realizado. Só assim poderia garantir rentabilidade ao seu espírito sagaz e empreendedor. A necessidade aguça o engenho, como dizia alguém, não sei quem.
É preciso não esquecer que o nosso pobre engenheiro foi parar num lugar inóspito, logo sem grandes condições de habitabilidade, daí ser exigível, pelo menos, uma "zona de conforto" decente para poder trabalhar. Isto, não obstante toda a gente saber que o Inferno é um sítio indecente.
O tempo foi passando e já existiam alguns projectos materializados, entre os quais um de segurança contra incêndios, um térmico, um acústico e também sistemas altamente sofisticados de monitorização de cinzas e ar condicionado. Foram também montados os mais diversos aparelhos electrónicos, redes de telecomunicações, programas de manutenção e, evidentemente, um sistema rigorosíssimo de controlo de qualidade, não fosse a ASAE meter lá o bedelho só para chatear. Perante a evidência de melhorias tão concretas, o engenheiro passou da condição de degredado a reputado.
Um dia, Deus lembrou-se de fazer uma vistoria à Secretaria Geral do Céu e, estranhando a falta de reclamações que habitualmente chegavam das bandas do Inferno, ligou para o Demónio e perguntou:
- «Então, como é que vão as coisas por aí?»
- «Agora, estão bem melhores do que estavam! Temos vários programas de melhoria contínua, implementados no contexto da prática infernal, naturalmente, mas tudo a funcionar a cem por cento, graças a mim e aos projectos deste fantástico engenheiro que caiu do Céu! Se quiseres algumas indicações pormenorizadas acerca da implementação destes sistemas, manda-me uma mensagem para ohdiabo@vilmail.com..
Isto, agora, só aqui para nós que ninguém nos ouve: Francamente, não sei porque é que ainda não reformaste o Velho, pá, está, cada vez mais, senil!»
- «Hã?!... Vocês têm aí um engenheiro?! Mas, isso é um autêntico disparate! O lugar dele é aqui no Céu, caraças! Está registado na CRC (Conservatória do Registo Celestial) e tu assinaste por baixo. Manda-o para cima se fazes o favor!»
- «O quê?! Nem pensar! Este engenheiro é uma mais valia, pá! Estás parvo ou fazes-te? Garanto-te que vai ficar comigo, eternamente, e nem se fala mais no assunto; era o que faltava!»
- «Manda-me esse gajo para cima, senão lixo-te com uma pinta do caraças! Abro-te um processo daqueles que se podem arrastar por muitos e longos anos (passe a redundância)!»
O Diabo riu desbragadamente, feito um velhaco como é a sua obrigação, e retorquiu:
- «Ah, sim? Então, só por curiosidade, pá, diz-me uma coisa: Onde é que vais arranjar um advogado, um juiz ou até, mesmo, um procurador, aí no Céu, diz-me? Recambias essa gente toda para aqui e agora queres fazer omeletas sem ovos, n'é?! Mais a mais, ambos sabemos que, recurso após recurso, esses processos que se arrastam, acabam por prescrever, ora!»"

Nota: Este foi-me enviado, há uns tempos, não muito longínquos pelo meu querido e saudoso amigo "Zé do balão", do qual só me restam boas memórias. Estejas onde estiveres: Céu ou Inferno (nunca no purgatório porque não é carne nem peixe), passe a alegoria, espero reencontrar-me contigo, um dia destes ou, quiçá, daqui por uns anos, não obstante ser um céptico militante desde a primeira hora, como é curial dizer-se...

19.10.21

COISAS DO ARCO-DA-VELHA


João Brito

coisas do arco-da-velha.png

É uma expressão popular que, porventura, as gerações mais novas desconhecem. Isto porque caiu, naturalmente, em desuso. E digo "naturalmente" com muita convicção, dado que, como diz o Poeta, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".

"No meu tempo", aquele longínquo tempo em que o feijão era a cinco tostões o litro, era comum dizer-se esta frase quando alguém ficava de boca-aberta (ou cara à banda) com algo insólito ou com um acontecimento imprevisto.
Penso que as "coisas do arco-da-velha", também têm alguma relação com o "tempo em que o feijão era a cinco tostões o litro". Ambas fazem referência a um passado remoto que a época em que vivemos pretende apagar da memória colectiva. Porém, aceitável porque, entretanto, foram substituídas por expressões mais consentâneas com estes tempos.
É claro que algumas coisas, inexplicáveis à luz da razão, passaram a ser invenções ou histórias da carochinha; petas de raiz popular em que muita gente ainda acredita piamente, por via da sua iliteracia e, por consequência, temor ao desconhecido. Contudo, digo-o sempre com alguma reserva porque, por estranho que pareça, também sou muito temeroso. Contudo, isto dava outra estória...
As línguas dos povos também vão assimilando novos modos de comunicar; alguns são importados, mas isso é uma mais valia e também um resultado da globalização.
Afinal, são as comunidades linguísticas que fazem com que as línguas permaneçam vivas, e em constante mudança, e não os acordos ortográficos obscuros.
A nossa, com a passagem de povos oriundos de outros continentes desde tempos imemoriais, até antes da fundação da nacionalidade, está bem viva e recomenda-se. Actualmente, é o produto de uma sociedade multicultural. Por conseguinte, mantém-se sempre aberta a novas introduções de hábitos e costumes, mormente de origem oculta, mas nem por isso menos essenciais para o enriquecimento dos nossos léxico linguístico e modus vivendi.
Mas, voltando ao "meu tempo", ainda se conseguem ouvir da boca de algumas pessoas, particularmente de idade avançada, frases do tipo: "no meu tempo o respeitinho era muito bonito" e outras frases mais ou menos idênticas. Todavia, como disse, têm caído inevitavelmente em desuso. Algumas foram substituídas e outras assumiram uma nova importância.
Concentremo-nos no "arco-da-velha" e nas várias interpretações em torno do seu significado:
Por volta do século XIX, esta expressão - com carga bíblica - servia para simbolizar o arco-íris. Uma de várias explicações teria a ver com a "arca de Noé" e o "dilúvio" ou seja: após a "inundação universal", consta que Deus fez o arco-íris para celebrar um pacto com o Homem: uma espécie de tratado de não agressão celebrado com Noé.
Uma das cláusulas referia que o Criador não voltaria a enviar outra grande enxurrada tão devastadora como aquela que todos conhecem dos textos sagrados. No entanto, parece que Noé não leu aquilo até ao fim, por preguiça ou falta de visão, e assinou o documento às cegas. Não leu, sobretudo, nas entrelinhas. Mais a mais, naquele tempo, ainda não tinham inventado os óculos para ler ao perto e a malta limitava-se a passar os olhos pela papelada, o que era muito chato para o contraente, como é fácil de intuir.
Outra explicação para isto, teria sido a suposição generalizada de que Noé não sabia ler nem escrever, o que, até hoje, tem permanecido um mistério.
Assim, o resultado dessa confiança excessiva em Deus está à vista: dilúvios, furacões, tornados, maremotos, terramotos, erupções vulcânicas, vírus e outras catástrofes tramadas são coisas que não têm faltado por esse mundo fora; e são cada vez mais devastadoras. É claro que se debatesse isto com uma pessoa religiosa, essa pessoa iria certamente contrapor com aquele aforismo que nunca cheguei a compreender: "Deus escreve direito por linhas tortas". Parece que tem várias interpretações, entre as quais destaco uma que pretende dar a entender que as pessoas que mais sofrem na vida, sobretudo as crentes e boas (não confundir com quentes e boas), é que conseguem realizar-se ou ter um lugarzinho no Céu e por isso, a história de Noé também pode simbolizar a esperança na sua salvação.
Continuando:
A palavra "velha" representaria, então, a velha aliança entre Deus e o Homem que, afinal, o Criador tem vindo a violar sistematicamente.
Fora do contexto, até tem alguma similitude, respeitando as devidas distâncias, com a "velha aliança" celebrada entre os reinos de Portugal e Inglaterra, conhecida como "Tratado Anglo-Português de 1373", no qual os "bifes" impingiram a Dom João I, Filipa de Lencastre que, além de ser muito alta e muito feia, sofria de bicos de papagaio. Em troca, a gente enviava para os gajos vinho do Porto e pura lã virgem.
Outra explicação para a frase "arco-da-velha", esta de origem duvidosa, teria a ver com o facto de as pessoas antigas, muito antes de Benjamin Franklin ter inventado a electricidade (ressalvo que, em Portugal, esse hábito prolongou-se durante séculos após a invenção desta forma de energia), terem o hábito de salgar os presuntos dentro de arcas com sal e, por conseguinte, em vez de "arco-da-velha", seria "arca da velha" (vulgo salgadeira da minha sogra). Ainda assim, isto não é incontestável. Penso, até, que se pode contrariar à vontade porque o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira e ele há coisas, mesmo, do arco-da-velha!
Já, agora, uma nota final ou uma curiosidade em jeito de nota final: O arco-íris também é conhecido como Arca da Aliança que era um tabernáculo onde os judeus guardavam o vinho. Tabernáculo, estão a ver? Está de caras! Não? Eu também não disse que sabia muito de História Sagrada, n'é?
Prometo que nunca mais publico histórias do arco-da-velha, eu seja ceguinho!

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